Danielle Steel

Destino

Ttulo Original: Lightning
Romance
Temas e Debates,1995
Traduo: Maria Filomena Duarte
Capa: Joo Aleixo
Impresso: Printer Portuguesa
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Digitalizao e Correco:
Dores Cunha

Contracapa:
Com uma carreira fabulosa, um marido maravilhoso e uma criana adorvel, a vida de Alexandra
Parker  perfeita. At que as notcias devastadoras do mdico viram do avesso o seu mundo.
Conseguiro os laos da paixo e do casamento suportar este inesperado solavanco? Ou ter
Alexandra de procurar uma vida completamente diferente?  a histria de uma mulher desafiada
pela fora do destino.

 minha primeira, segunda e nica oportunidade.
Que a vida te sorria e te abenoe.
Com todo o meu amor, do fundo do corao, para sempre.
Olvia

CAPTULO 1
Um sussurro percorreu a sala de reunies quando Alexandra Parker estendeu as longas pernas
debaixo da enorme mesa de mogno. Alexandra assentou qualquer coisa  pressa no bloco de
apontamentos e deitou um olhar rpido a um dos scios que se encontrava do outro lado da mesa.
Matthew Billings era doze anos mais velho do que Alex, tinha cerca de cinquenta e cinco anos e era
um dos scios mais respeitados da empresa. Era raro pedir ajuda a algum, mas de vez em quando
pedia a Alex que comparecesse a uma reunio. Apreciava as opinies dela, admirava-lhe o estilo e a
argcia perante as debilidades fatais do adversrio. E Alex era impiedosa e brilhante quando as
descobria. Parecia aperceber-se instintivamente do ponto em que o punhal causaria mais estragos.
Ela sorria-lhe naquele momento, e Matthew gostou do que viu no seu olhar. Ela ouvira
precisamente aquilo de que precisavam. Uma resposta diferente das anteriores. Com uma inflexo
quase imperceptvel.  socapa, passou-lhe uma nota no bloco de apontamentos, e Matthew,
franzindo o sobrolho, fez um sinal de assentimento.
O caso era extraordinariamente complicado e o processo j se arrastava h anos. Fora remetido duas
vezes ao Supremo Tribunal de Nova Iorque, com vrias moes, e envolvia a disperso negligente
de poluentes qumicos de alta toxicidade, efectuada por uma das empresas mais importantes do pas.
Alexj assistira a vrios outros depoimentos a pedido de Matt. E sentia-se sempre satisfeita por
aquele caso especfico no lhe pertencer. O processo fora instaurado colectivamente por cerca de
duzentas famlias de Poughkeepsie e representava milhes de dlares. Fora entregue  Bartlett e
Paskin h anos, pouco depois de Alex se ter associado  empresa.
Alex gostava de casos mais dificeis, mais curtos e mais pequenos. Duzentos queixosos no eram
propriamente aquilo que ela preferia, embora estivessem a trabalhar no prcesso
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mais de doze advogados, sob a orientao de Matthew. Alexandra Parker tambm era uma advogada
litigante e ti nha a seu cargo um conjunto interessante de casos difceis. Era a primeira escolha da
empresa, quando a luta prometia ser dura e srdida e era necessrio um advogado que conhecesse as
leis e estivesse disposto a passar horas a fio a fazer uma investigao meticulosa.  claro que Alex
tinha a ajuda de outros colegas e scios mais jovens; porm, queria ser la a fazer o mais que
pudesse, e tinha um relacionamento notvel com a maior parte dos clientes. O direito civil e os
processos laborais eram o seu forte. E desenvolvia uma actividade razovel nos dois domnios,
embora muitos casos tivessem sido resolvidos. No entanto Alex Parker era uma lutadora, uma
jurista por excelncia, algum que sabia do seu ofcio e que no receava o traballho rduo. Alis,
adorava-o.
Fizeram um intervalo, e Matthew contornou a mesa para vir falar com ela, depois de o advogado de
defesa da empresa sa de produtos qumicos ter sado da sala com os seus assistentes.
- Ento, o que acha? - perguntou Matthew, olhando-a, interessado.
Sempre tivera um ligeiro fraco por ela. Alex tinha um mente clara e constitua uma excelente jurista.
Alm disso era uma das mulheres mais atraentes que ele conhecia, e apreciava a sua companhia. Era
uma mulher firme, esperta, conhecedora das leis e muito intuitiva.
- Acho que conseguiu o que queria, Matt. Quando disse que, a princpio, ningum tinha
conhecimento dos possveis efeitos txicos, estava a mentir. Foi a primeira vez que se abriram e o
disseram. Ns temos os relatrios governamentais dos seis meses anteriores.
- Eu sei - retorquiu Matt, radiante. - Ele foi direito ao assunto, no foi?
- Claro que foi. O Matt no precisa de mim aqui. J os apanhou.
Alex guardou o bloco de apontamentos na pasta e deitou um olhar ao relgio. Eram onze e meia.
Da a meia hora, seriam horas de almoo. Porm, se sasse da sala naquele momento, ainda poderia
trabalhar mais um pouco.
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- Obrigado por ter vindo.  sempre muito agradvel t-la aqui. Tem um ar to inocente que os deixa
desprevenidos. Enquanto ele est a olhar para as suas pernas, eu posso lanar a rede e apanh-lo.
Ele gostava de arreli-la, e ela sabia-o. Matthew Billings era alto e atraente, com a cabea cheia de
cabelos brancos, e uma bela mulher francesa, que fora modelo em Paris. Matthew Billings gostava
de mulheres bonitas; tambm respeitava as que possuam talento e inteligncia.
- Obrigada. - Alex olhou-o com um ar pesaroso. Tinha o cabelo apanhado num rabo-de-cavalo
austero, a maquilhagem do rosto era to leve que mal se notava e o fato preto contrastava com os
tons vivos e naturais do cabelo ruivo e dos olhos verdes. Tratava-se de uma mulher que atraa as
atenes. - Foi exactamente para isso que cursei Direito, para ser um chamariz.
- Bem, se isso resultar, no despreze a oportunidade. Matthew riu-se, arreliando-a outra vez, quando
um dos advogados de defesa voltou para a sala. Ambos baixaram a
voz.
- No se importa que eu saia agora? - perguntou ela a Matthew, com delicadeza. Afinal, ele era um
dos scios mais antigos. - Marquei uma reunio para a uma com um novo cliente e tenho umas
dezenas de casos para apreciar.
- Esse  o seu problema - disse ele, fingindo-se carrancudo. - No trabalha o suficiente. Sempre foi
essa a minha opinio.  preguiosa. V, volte para o trabalho. J fez o que tinha a fazer aqui.
Obrigado, Alex - rematou Matthew, piscando-lhe o olho.
- Vou mandar dactilografar os meus apontamentos para lhos enviar - disse ela, a srio, antes de sair.
E Matthew sabia que, como sempre, os apontamentos cuidadosos e inteligentes de Alex estariam no
seu gabinete quando ele voltasse. Alex Parker era uma advogada extraordinria: eficiente,
inteligente, capaz, astuta na devida proporo e alm disso bonita, embora desse a impresso de no
se preocupar especialmente com a aparncia nem de reparar na ateno que lhe davam. Parecia
completamente distrada de si prpria, e a maior parte das pessoas apreciava isso nela.
Alex saiu da sala sem fazer barulho, com um aceno brev a Matthew, quando os arguidos voltaram a
entrar. Um dos advogados deitou-lhe um olhar apreciador. Sem se aperceber disso, Alex percorreu,
apressada, os vrios corredores que a separavam do seu gabinete.
Este era amplo e bem decorado, em tons suaves de cin zento, com dois belos quadros na parede,
algumas fotografias, uma planta enorme, vrias peas de mobilirio forradas a couro cinzento e uma
vista esplndida sobre Park Avenue do vigsimo nono andar, onde a Bartlett e Paskin tinha os seus
escritrios. A empresa ocupava doze pisos e dava emprego a cerca de duzentos advogados. Era mais
pequena do que a firma onde Alex trabalhara antes, em Wall Street, quando conclura a licenciatura
em Direito, mas era a sua preferida. Na primeira, trabalhara com a equipa anti-trust, mas nunca
gostara verdadeiramente do que fazia. Era um domi nio demasiado rido, embora lhe tivesse
ensinado a dar ateno aos pormenores e a fazer uma investigao meticulosa.
Quando se sentou, leu  pressa meia dzia de mensagens, duas de clientes e quatro de outros
advogados. Tinha trs casos prontos a irem a tribunal e mais seis que estava a instruir. Acabara de
resolver dois casos importantes. Era uma carga de trabalho demasiada, mas a situao no era
invulgar para ela. Adorava o ritmo, a presso e o frenesim. Fora isso que a impedira de ter filhos
durante tanto tempo. No conseguia imaginar-se a tratar de crianas nem a gostar mais delas do que
do seu trabalho. Adorava ser advogada e dava tudo por uma boa luta em tribunal. Era exmia na
defesa, gostava de casos difceis, e o facto de proteger pessoas de casos legais e frvolos significava
muito para ela; Adorava tudo o que fazia. E a sua actividade profissional devorava-lhe a maior parte
da vida. Nunca tinha tempo para mais nada, excepto para Sam, o seu excelente marido. Ele, porm,
trabalhava tanto como ela, no em advocacia, mas no campo dos investimentos. Era consultor numa
das jovens empresas de capitais de risco mais agressivas de Nova Iorque. Entrara logo no incio, e
tinham-se-lhe deparado oportunidades extraordinrias. J fizera vrias fortunas e tambm j perdera
dinheiro. Juntos, ganhavam salrios confortveis.
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No entanto, mais do que isso, Sam Parker gozava de uma slida reputao. Sabia o que fazia, corria
riscos espantosos, e h vinte anos que quase tudo aquilo em que tocava se transformava em
dinheiro. Bom dinheiro. Em dada altura, dissera-se que ele era o nico indivduo da cidade que
conseguia fazer fortunas para os seus clientes com mercadorias. Contudo, agora era mais inteligente
do que isso. Sam nunca temera correr riscos, e era raro perder dinheiro dos seus clientes. Nos
ltimos doze anos, embrenhara-se a fundo no universo da informtica, fizera investimentos enormes
no Japo, sara-se bem na Alemanha e investira em fora em Sili con Valley. Em Wall Street, todos
reconheciam que Sam Parker sabia o que estava a fazer.
E Alex sabia o que estava a fazer quando casara com Sam. Conhecera-o pouco depois de ter
acabado o curso. Encontraram-se numa festa dada pela primeira empresa onde ela trabalhava. Fora
no Natal, e ele chegara acompanhado por trs amigos, muito alto e elegante, de fato azul-escuro, o
cabelo negro salpicado de neve e o rosto brilhante da atmosfera gelada do exterior. Era cheio de
vida e, quando parou e olhou para ela, Alex sentira as pernas a fraquejar. Ela tinha vinte e cinco
anos e ele trinta e dois, e era um dos poucos homens que Alex conhecia que no era casado.
Naquela noite, ele tentara conversar com ela, mas Alex estivera entretida com outros advogados da
firma; Sam, entretanto, fora chamado pelos amigos para falar a algum que eles conheciam. Os
caminhos de ambos s se haviam cruzado de novo, passados seis meses. A firma de Sam consultara
a dela sobre um negcio que ambas tentavam montar na Ca lifrnia, e Alex e dois colegas tinham
sido chamados para ajudar um scio mais velho. Ento, deixara-se fascinar por ele, pela sua
rapidez, pela sua inteligncia e pela sua segurana. Era difcil imaginar que Sam tivesse medo de
qualquer coisa ou de algum. Ria-se com facilidade e no receava andar na corda bamba das
decises aterradoras. Parecia no temer qualquer risco, embora estivesse inteiramente consciente
dos perigos. No era o dinheiro dos clientes que ele queria arriscar, era a empresa toda. Gostava de
fazer as coisas  sua maneira, ou ento afastava-se do negcio por completo.
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A princpio, Alex tomara-o por um louco;  medida que as semanas iam passando, comeava a
entender o que ele fazia, e isso agradava-lhe. Ele tinha integridade e estilo, miolos e, o que era mais
raro, coragem. A sua primeira impresso estava certa, ele no tinha medo de nada.
Tambm ele andava intrigado com ela. Deixara-se fascinar pelas suas anlises inteligentes e
ponderadas, pela sua capacidade de se aperceber de uma situao na sua totalidade. Ela via a
questo sob todos os ngulos e referia-se aos riscos  s vantagens com brilhantismo. Juntos, tinham
elaborado um pacote impressionante de solues para os clientes dele. O negcio consumara-se, a
empresa evolura de uma forma excelente e fora vendida por uma quantia astronmica, cinco anos
depois. Quando ambos se conheceram, Sam tinha fama de ser um jovem gnio. Contudo, tambm
ela estava a tornar-se conhecida, embora evolusse solidamente e mais devagar do que Sam.
A actividade de Sam era mais fulgurante, e isso agradava-lhe. Ele navegava nas altas esferas e no
poder enorme dos seus clientes de altos voos. De facto, da primeira vez que sara com Alex, pedira
emprestado o avio a jacto de um dos seus clientes e levara-a a Los Angeles para assistir  final do
campeonato de basebol. Ficaram alojados no Bel-Air, em quartos separados, e ele levara-a a jantar
ao Chasen e ao L'Orangerie.
- O Sam faz isto com toda a gente? - perguntara ela, espantada com todas as suas pequenas
atenes.
Sentia-se um pouco atemorizada na presena de Sam. Tivera uma nica relao a srio com um
rapaz da sua idade, em Yale, e uma srie de namoricos sem significado durante os seus anos de
faculdade, horrivelmente trabalhosos. A relao dissipara-se logo no primeiro ano, e o rapaz j se
casara h muito tempo. Alex, porm, no tinha tempo para estabelecer relaes afectivas com as
pessoas. Queria trabalhar muito e ser algum. Queria ser a melhor advogada da sua empresa. E o
fulgor de Sam no se adaptava exactamente a esse perfil. Imaginava-se com advogados como os da
sua empresa, que tinham ido para a Faculdade de Direito de Yale, tal como ela, ou para Harvard,
indivduos sbrios e calmos,
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que eram scios de empresas de advogados de Wall Street, durante toda a vida.  sua maneira, Sam
era um homem selvagem, um cowboy. Porm, era atraente, simptico para ela e divertido. Tornava-
se difcil convencer-se de que ele no era o que ela pretendia. Quem no quereria Sam? Inteligente,
alegre e dotado de um tremendo sentido de humor. S se ela fosse doida  que no o quereria.
Foram a Malibu antes de partirem de L. A. e andaram a passear pela praia, falando das suas
famlias, das suas vidas e do seu futuro. As experincias de Sam tinham sido interessantes e muito
diferentes das de Alex. Ele contara, quase por acaso mas com uma expresso tensa, que a me
morrera quando ele tinha catorze anos, e que fora internado num co lgio, pois o pai no sabia o que
havia de fazer com ele. Detestara o colgio, detestara os outros midos e sentira falta dos pais. E,
enquanto estivera no colgio, o pai tornara-se alcolico e gastara o dinheiro todo. Morrera quando
Sam frequentava o ltimo ano, embora Sam no lhe tivesse dito qual o motivo da sua morte. Sam
fora ento para a faculdade, com o pouco dinheiro que os avs lhe tinham deixado. Os pais no lhe
haviam deixado nada. Sam fora para Harvard e sara-se bem, e no disse a Alex se se sentira s
quando estava na faculdade. Deixara-lhe a impresso de ter sido um perodo formidvel, embora,
pensando nisso, ela soubesse que devia ter sido duro para ele no ter ningum de famlia aos
dezassete anos. Isso, porm, no parecia mago-lo.
Depois de concluir o bacharelato, transferira-se para a Harvard Business School, e deixara-se
enamorar completamente pelos capitais de risco. Assim que se licenciara, arranjara logo emprego e
h oito anos que fazia fortunas para vrios clientes.
- E a respeito de si? - perguntou ela tranquilamente, olhando-o nos olhos, quando passeavam pela
praia, ao pr do Sol. - A vida no se esgota nos capitais de risco nem em Wall Street.
Queria conhec-lo melhor. Acabara de ter o fim-de-semana mais empolgante da sua vida e nem
sequer dormira com ele. Queria saber mais acerca de Sam Parker antes de sarem da Califrnia e de
regressarem s suas vidas.
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- Mas a vida no se esgota mesmo em wall Street? perguntou ele, soltando uma gargalhada e
abraando- a. Nunca me disseram nada. O que existe mais, Alex?
Sam parara e olhava para ela.
Sentia-se tremendamente atrado por aquela mulher, mesmo nesse momento, mas tinha um certo
receio de demonstr-lo. Os longos cabelos ruivos de Alex esvoaavam com a brisa, e os seus olhos
verdes fitaram-no seriamente, provocando-lhe um estremecimento que ele nunca sentira. De certo
modo, a situao assustou-o.
- E as outras pessoas? As relaes com os outros?
Alex sabia que ele nunca se casara, mas no sabia mais do que isso. S de olhar para ele e de
observar o seu estilo fcil, conclua que ele devia ter tido centenas de namoradas.
- No tenho tempo para isso - insistiu Sam, arreliador, puxando-a um pouco mais para si e
continuando a andar. - Sou uma pessoa demasiado ocupada.
- E demasiado importante? - perguntou Alex, de propsito, receando que ele se sentisse
envaidecido. Talvez ele tivesse todos os motivos para isso, mas at ento Alex desconhecia-os.
- Quem  que disse uma coisa dessas? Eu no sou importante. Estou apenas a viver uma poca boa
da minha vida.
- Toda a gente o conhece, mesmo aqui - retorquiu ela com naturalidade. - Los Angeles, Nova
Iorque. Silicor Valley. De certeza. Tquio. E onde mais? Paris? Londres? Roma?  um grande
cenrio.
- E talvez no seja o cenrio exacto. Eu trabalho muito, ponto final.
Sam encolheu os ombros e sorriu-lhe; ambos sabiam que havia muito mais a dizer do que ele
admitia.
- Eu no vou  Califrnia nos avies dos meus clientes, Sam. Os meus clientes vm ao meu
encontro de txi. Se tiverem sorte. Os outros vm de metropolitano.
Alex sorriu e Sam soltou uma gargalhada.
- Est bem, ento os meus tm mais sorte. Talvez eu tambm tenha. Talvez a minha sorte no dure
sempre. Tal como a do meu pai.
- Tem medo que isso lhe acontea tambm? De perder tudo?
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Era uma faceta dele que a intrigava, e claramente um aspecto motivador.
- Talvez. Mas ele era um louco. Um louco simptico... Mas um louco. Creio que a morte da minha
me o matou. Perdeu o gosto pela vida, e j acontecera o mesmo quando ela estava doente. Ele
amava-a tanto que no conseguiu passar sem ela. Isso matou-o.
H muito que Sam decidira no deixar que lhe acontecesse o mesmo. Nunca amaria ningum ao
ponto de se deixar arrastar para o abismo.
- Deve ter sido horrvel para si. Era to novo - comentou Alex, compreensiva.
- Crescemos depressa quando s nos temos a ns prprios - respondeu ele com sobriedade,
acrescentando, com um sorriso triste: - Ou talvez nunca cresamos. Os meus amigos dizem que eu
ainda sou um mido. Acho que gosto disso. Impede-me de encarar a vida demasiado a srio. No
vale a pena encarar a vida demasiado a srio. Deixa de ter graa quando comeamos a faz-lo.
No entanto, Alex levava a srio o seu trabalho e a sua vida. Tambm j perdera os pais, embora de
uma forma menos dramtica do que Sam. No seu caso, porm, isso tornara-a mais sbria, fizera-a
sentir-se mais responsvel. Ajudara-a a crescer, tornara-a mais atenta  sua carreira, mais enrgica
no seu trabalho. Era como se se sentisse obrigada a corresponder s expectativas deles, mesmo
agora que j tinham morrido. O pai tambm fora advogado e sentira-se muito feliz quando ela
decidira frequentar a faculdade de Direito. E agora ela queria ser a melhor advogada, por ele, apesar
de ele no estar ali para a ver.
Ambos eram filhos nicos, ambos tinham carreiras importantes e ambos tinham muitos amigos que
substituam, de certo modo, a famlia, embora Alex convivesse muito com amigos dos pais e com
familiares dos seus amigos da faculdade. Os amigos de Sam eram essencialmente solteiros, gente
com quem ele trabalhava, clientes ou mulheres com quem ele sara.
Sam beijara Alex pela primeira vez quando passeavam na praia, em Malibu, e passara a maior parte
do tempo a dormir
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no ombro dela, durante a viagem de regresso a Nova Iorque. Ela olhara para ele, pensando que ele
parecia um ra paz alto e esguio, ali a seu lado; pensara tambm no muito que gostava dele.
Demasiado, talvez. Perguntou a si prpria se voltaria a saber dele, se aquilo seria um comeo ou um
in terldio para ele. Com Sam, a resposta era difcil, e ele admitira que andava a sair com uma
jovem actriz.
- Porque no a trouxeste a Los Angeles? - perguntou Alex com candura, tmida, mas sem nunca ter
medo de fazer perguntas importantes. Fazia parte da sua maneira de ser.
- Ela tinha que fazer - respondeu ele com sinceridade. - E eu pensei que seria mais interessante
conhecer-te.
Hesitou e depois voltou-se para Alex com um sorriso que lhe derreteu o corao, apesar dos seus
esforos em contrrio.
- A verdade  que nem lhe perguntei - acrescentou. Eu sabia que ela tinha ensaios durante todo o
fim-de-semana, e ela detesta basebol. E eu queria estar contigo.
- Porqu?
Alex nem imaginava como era bonita e como lhe agradava.
- s a rapariga mais inteligente que eu conheo. Gosto de conversar contigo. s brilhante e
excitante, e no s propriamente desagradvel  vista.
Beijara-a outra vez e fora lev-la a casa; no beijo, no houvera compromisso nem promessa. Fora
rpido e natural; pouco depois, o txi partira, e Alex sentira-se desfalecida quando se dirigia para
casa, de mala na mo. Passara uns dias maravilhosos. Calculava, porm, que ele tivesse ido a correr
ao encontro da sua namorada actriz. Fora maravilhoso, mas ela sabia que aquilo no tinha qualquer
significado. Tratara-se apenas de mais um fim- de-semana divertido na vida de Sam Parker. No
acreditava que houvesse lugar na vida dele para Alex Andrews.
At que, no dia seguinte, ele lhe mandou uma dzia de rosas vermelhas ao emprego, lhe telefonou 
tarde e a convidou para jantar. O romance de ambos comeou a srio depois disto e, apesar dos
casos dificeis que tinha para preparar, Alex mal conseguiu concentrar-se no trabalho durante os
quatro meses de namoro com Sam.
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Ele pediu-a em casamento no Dia dos Namorados, quase quatro meses depois do dia em que a
convidara para jantar pela primeira vez. Nessa altura, Alex tinha vinte e seis anos e Sam trinta e
trs. Casaram-se em Junho, numa pequena igreja de Southampton, na companhia de duas dzias dos
amigos mais ntimos. Nenhum deles tinha famlia, mas os amigos proporcionaram-lhes o afecto e a
alegria suficientes para que o dia fosse extraordinrio. Passaram a lua-de-mel na Europa e ficaram
em hotis que Alex s conhecia de nome. Foram a Paris e ao Mnaco e passaram um fim-de-
semana romntico em Saint-Tropez. Sam tinha a um cliente que andava a cortejar uma jovem
estrela de cinema; portanto, passaram uns dias fabulosos e participaram numa festa num iate, no
qual foram a Itlia e regressaram de manh.
Foram a San Remo, e depois  Toscana, a Veneza, a Florena e a Roma. Em seguida, dirigiram-se
ao encontro de um cliente em Atenas e depois partiram para Londres, onde passaram os ltimos dias
frequentando o Annabel e todos os restaurantes e locais nocturnos preferidos de Sam. Admiraram
antiguidades, as jias do Garrard's, e Sam comprou-lhe todo o gnero de roupa extica, em Chelsea,
embora Alex dissesse que no sabia quando iria us-la, e que muito menos a levaria para o
emprego. Foi uma lua-de-mel perfeita; porm, nunca se sentiram to felizes como no dia em que
regressaram a Nova Iorque e Alex se mudou para o apartamento dele. J l ficara, de qualquer
modo, mas conservara a sua casa at ao casamento.
Aprendeu a cozinhar para ele, e, quando fez trinta anos, Sam comprou- lhe roupas caras e um colar
de diamantes simples mas muito belo. Ele poderia comprar-lhe muitas coisas; era, porm, muito
pouco o que ela desejava. Alex. adorava a sua vida com ele, o amor de ambos, o romantis mo e a
amizade, o respeito mtuo e a paixo pelo trabalho. Uma vez, ele falara-lhe em desistir da carreira
ou, pelo menos, fazer um intervalo para ela ficar em casa e ter filhos, e Alex olhara para o marido
como se ele tivesse enlouquecido.
- E se tivermos filhos e tu no interromperes o trabalho? - perguntou ele, alterando a proposta
anterior.
Nessa altura, estavam casados h seis anos, Sam tinha
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trinta e nove e de vez em quando pensava em ter filhos. Quase sempre conclua que isso restringiria
o estilo de vida de ambos; mesmo assim, pensava que seria mau se no os tivessem. Alex, porm,
dissera que no estava preparada.
- Nem posso pensar em ter algum dependente de mim, permanentemente, quero eu dizer. Sentir-
me-ia culpada por trabalhar tanto como trabalho agora, nunca veria os midos e isso no  maneira
de criar os filhos.
- Imaginas-te a abrandar o ritmo, a trabalhar menos? perguntou ele.
Contudo, nem ele nem Alex imaginavam que isso fosse possvel.
- A srio? No creio que se possa ser advogado a tempo parcial.
Alex j vira outras mulheres a tentarem conciliar as duas coisas e ficarem sempre com os nervos em
franja. Poucco tempo depois, voltavam ao trabalho a tempo inteiro, sentindo-se tremendamente
culpadas perante os filhos, ou retiravam-se por completo. E ela no queria fazer o mesmo.
- Ests a dizer que no queres ter filhos? Nunca?
Fora a primeira vez que Alex pensara no assunto, com tanta seriedade, e tambm no estava
preparada para responder quela pergunta. A concluso de ambos foi: Agora no, talvez mais tarde.
O assunto veio de novo ao de cima quando ela tinha trinta e cinco anos, e nessa altura parecia que
toda a gente que eles conheciam j tivera filhos. Casados h nove anos sentiam-se muito bem com a
vida que levavam. Alex j es tava na Bartlett e Paskin, j era scia, e Sam era uma espcie de lenda.
Sempre que tinham oportunidade, iam passar frias a Frana e um fim-de-semana  Califrnia. Sam
conti nuava a ter muitos negcios em Tquio e bastantes nos estados rabes. Alex considerava que a
vida do marido era fascinante; porm, a sua tambm no era montona. E parecia no haver lugar
para um beb nas suas vidas.
- No sei. s vezes, sinto-me to culpada. Como se fosse uma aberrao minha. No sei como hei-
de explicar isto aos outros, mas no  s por mim, pelo menos neste momento - concluiu Alex
perante o marido, e puseram o
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assunto de parte, durante mais trs anos, at ela ter trinta e oito anos e ele completar quarenta e
cinco. O relgio biolgico de Alex dera um sinal de alarme, ainda que breve, e fora ela que
comeara a conversa, depois de uma colega de trabalho ter tido um beb. Dessa vez, Alex
reconheceu que a criana era adorvel e que a amiga parecia estar a gerir bem a carreira profissional
e o filho. Pela primeira vez, isso fizera-a pensar muito a srio em ter filhos.
No entanto, dessa vez Sam j no conseguia sequer imaginar a situao. A vida de ambos estava
demasiado estabilizada, organizada e fcil, sem filhos. Aps doze anos de casamento, Sam
considerava que era demasiado tarde e que j no iria melhorar nada. Agora, queria a mulher para
si. Gostava das coisas tal como estavam e Alex admirou-se da facilidade com que conseguira
desistir da ideia mais uma vez. Como era bvio, as coisas no correram conforme o previsto. Tivera
umjulgamento muito prolongado logo a seguir, e o assunto dos filhos desvaneceu-se da sua mente
por completo durante quatro meses.
Tinham chegado de uma viagem  ndia, onde ela nunca fora e Alex sentia-se bastante doente.
Receosa de ter contrado alguma doena grave, foi ao mdico. Era a primeira vez que se sentia
enjoada, h anos, e isso assustava-a. Aquilo que o mdico lhe disse acerca da sua doena assustou-a
ainda mais. Nessa noite, olhou para Sam e, desesperada, deu- lhe a notcia. Estava grvida. Afastara
o assunto, dessa vez para sempre, depois da ltima vez que ele fora abordado, e o mesmo sucedera
com o marido. Olharam um para o outro como duas vtimas do crash de 1929, quando ela lhe deu a
notcia.
- Tens a certeza?
- Absoluta - respondeu ela, desolada.
Era a primeira vez que estava grvida e sabia agora que nunca estivera to certa. No queria ter
filhos.
- No  clera, ou malria, ou qualquer coisa desse gnero?
Uma doena quase fatal teria sido talvez mais bem recebida por qualquer deles do que a notcia de
que iam ter um beb.
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- Ele diz que eu estou grvida de seis semanas. Alex tivera um atraso durante a viagem, mas
atribura-o ao excesso de calor, aos comprimidos contra a malria ou aos rigores da viagem, e nunca
se sentira to mal na sua vida como naquele momento, olhando, infeliz, para o marido.
- Estou velha de mais para isto, Sam. No quero passar por tal coisa. No posso.
As palavras dela tambm o surpreenderam; ele, porm, sentiu-se aliviado ao ouvi-las. Tambm no
queria o beb.
- Queres fazer alguma coisa? - perguntou ele, admirado com o desagrado inabalvel que a situao
provocava  mulher. Sempre desconfiara de que ela poderia querer ter fi lhos um dia e, nos ltimos
tempos, comeara a rece-lo.
- No creio que devamos faz-lo. Parece-me uma coisa horrvel. No  a mesma coisa que no
podermos ter um beb. Acho que no  por eu no ter tempo, nem. nem energias. mas porque no
tenho interesse - disse Alex, pensativa. - Da ltima vez que falmos nisso, percebi que era esse o
problema. A conversa acabou. Somos felizes assim. E depois, zs. Fico grvida.
Sam sorriu-lhe, desolado.
-  irnico, no ? Quando finalmente decidimos no ter filhos, tu ficas grvida. No h dvida de
que a vida tem os seus altos e baixos. - Era uma das expresses favoritas do marido, mas era
verdadeira. E de que maneira. - Ento o que fazemos?
- No sei.
Alex chorava quando pensava nisso, no queria fazer um aborto nem ter um beb. Depois de duas
semanas de agonia, resolveram avanar e ter o filho. Alex considerava que no tinham alternativa
moral, e Sam concordou. Tentaram tratar a questo com serenidade, sem estarem nada
entusiasmados: Alex ficava deprimida sempre que pensava nisso, e Sam parecia ter-se esquecido
por completo. Quando falavam no assunto, o que era raro, parecia que estavam a falar de uma
doena terminal. No era decerto uma situao que lhe agradasse. Tratava-se de qualquer coisa que
tinha de ser en carada, mas ambos receavam tudo o que lhe dizia respeito.
Precisamente quatro semanas depois, Alex chegou a casa
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cedo,  tarde, a vomitar de uma forma incontrolvel e com dores to agudas no abdmen que a
obrigavam literalmente a dobrar-se pela cintura. O porteiro ajudou-a a sair do txi e levou-lhe a
pasta. Perguntou-lhe se se sentia bem e Alex insistiu que sim, embora o seu rosto estivesse branco
como a cal. Subiu no elevador e entrou em casa. Felizmente, a empregada estava l, porque meia
hora depois Alex esvaa-se em sangue na casa de banho e quase perdia os sentidos. Foi a prpria
empregada que a levou ao hospital e que telefonou a Sam para o emprego. Quando Sam chegou a
Lenox Hill, Alex j estava na sala de operaes. Tinham perdido o beb.
Ambos esperavam que o alvio fosse enorme. A fonte de toda a angstia desaparecera. Porm, a
partir do momento em que Alex acordou num quarto particular, a chorar desesperadamente,
perceberam que a situao no era assim to fcil. Estavam ambos consumidos pelo remorso e pelo
desgosto, e tudo aquilo que Alex nem se atrevera a experimentar pelo filho esperado sentia-o agora,
todo o amor, medo, vergonha, remorso e saudade que nunca sentira. Fora a pior experincia da sua
vida, e ensinara-lhe algo a respeito de si prpria de que ela nunca soubera ou suspeitara. Talvez
nunca tivesse existido, mas existia naquele momento. Tudo o que Alex queria para preencher o
vazio doloroso deixado pelo aborto traduzia-se em desejar outro beb. E Sam sentia o mesmo.
Ambos choraram o filho que no nascera; quando Alex regressou ao trabalho na semana seguinte,
ainda se sentia a tremer.
Tinham ido passar fora um fim-de-semana prolongado, tinham falado no assunto e estavam ambos
de acordo. No sabiam se se tratava de uma reaco ao sucedido, ou se era uma realidade; ambos
reconheciam que se dera uma alterao substancial. De repente, acima de tudo, desejavam um beb.
Tiveram o bom senso de resolver aguardar alguns meses para verificar se o sentimento se mantinha.
Mas at isso foi impossvel. Dois meses depois do traumtico aborto, Alex deu a notcia a Sam com
uma alegria que mal conseguia ocultar. Estava grvida.
E, dessa vez, ao contrrio da primeira, houve celebrao.
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Uma celebrao cautelosa, visto que havia sempre a hiptese de Alex perder tambm este filho, ou
de no conseguir concluir a gravidez. Afinal, tinha trinta e oito anos e nunca tivera um beb.
Contudo, a sade dela era excelente, e o mdico garantiu-lhe que no havia motivo para se esperar
outro problema.
- Sabes uma coisa? Somos doidos - disse ela uma noite, deitada na cama, a comer biscoitos e a
espalhar as migalhas, mas afirmando que aquilo era a nica coisa que lhe acalmava o estmago. -
Somos completamente doidos. H quatro meses, ter um beb equivalia a um suicdio, e agora
estamos aqui a falar de nomes, e eu estou sempre a ler artigos nas revistas do consultrio acerca dos
mobiles que se devem comprar para pr em cima do bero. Perdi o juzo ou qu?
- Talvez - disse ele, sorrindo-lhe ternamente. - No h dvida de que  mais difcil partilhar a cama
contigo. No sabia que as migalhas de biscoitos faziam parte do acordo. Achas que vais manter essa
fixao at ao fim, ou trata-se apenas de uma dependncia do primeiro trimestre?
Alex riu-se e ambos se aninharam na cama. Faziam amor com mais frequncia do que antigamente.
Falavam do beb como se este existisse e j fizesse parte das suas vidas. Alex fez uma ecografia e,
assim que soube que era uma menina, resolveram chamar-lhe Annabelle, o nome do clube favorito
de ambos em Londres, mas tambm um nome de que Alex sempre gostara e que despertava boas
recordaes em ambos. Aquela gravidez decorria de um modo completamente diferente da primeira.
Era como se tivessem aprendido uma lio importante da primeira vez e sentissem que tinham si do
castigados pela indiferena e pela hostilidade que haviam sentido por aquele beb. Desta vez, s
havia motivos para um entusiasmo desenfreado.
Pouco depois do Ano Novo, as colegas de Alex organizaram uma festa em sua homenagem, deram-
lhe imensas prendas para o beb, e foi com relutncia que ela saiu do escritrio naquela semana,
apenas dois dias antes da data prevista. Quisera trabalhar mesmo at ao momento de ir para o
hospital, mas no fazia sentido continuar a intervir em casos que no poderia concluir; por isso,
deixou- os agendados e
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foi para casa esperar pelo pequeno milagre, como ambos chamavam ao beb. Tinha receio de se
aborrecer; verificou, porm, que gostava de preparar o quarto da filha e admirou-se consigo mesma
ao ver o tempo que passava a dobrar camisinhas e a dispor pilhas de fraldas em cima da mesa onde
mudaria o beb. Para uma mulher que amedrontava a maior parte dos advogados quando entrava
numa sala de audincias, parecia ter mudado muito depressa. Por vezes, receava at que isso lhe
diminusse as capacidades quando regressasse ao trabalho, talvez no conseguindo ser
suficientemente forte; apesar das suas preocupaes, naquele momento s conseguia pensar no
beb. Imaginava-se a pegar-lhe ao colo, a dar-lhe de comer; interrogava-se se ele teria o cabelo
ruivo como ela, ou escuro, como o de Sam, olhos azuis ou verdes. Tal como um amigo h muito
aguardado, mal conseguia esperar para ver a filha.
Decidiram que o beb nasceria numa sala de partos do Hospital Nova- Iorque, pois Alex queria que
tudo decorresse naturalmente. Tencionava saborear todos os momentos da experincia. aos trinta e
nove anos, no se imaginava a passar de novo por outra gravidez; portanto, no queria omitir nada.
Apesar da averso que Sam tinha a hospitais, acompanhou-a s aulas de Lamaze e estaria junto dela
no momento do parto.
Trs dias depois da data prevista, estavam ajantar em casa de Elaine quando as guas rebentaram a
Alex. Foram rapidamente para o hospital e depois voltaram para casa at o trabalho de parto
comear em pleno. Fizeram tudo o que os professores lhes haviam dito para fazer. Alex tentou
dormir um pouco, depois comeou a andar; Sam esfregou-lhe as costas, e tudo parecia muito
agradvel e muito fcil. No havia dificuldade nenhuma, nada que eles no conseguissem resolver
ou que ela no pudesse fazer. Deitaram-se na cama e conversaram, lembrando como era espantoso
que aps treze anos de casamento tivessem chegado quela situao. Sam olhou para o relgio e
tentou adivinhar quantas horas faltariam para o beb nascer. Da a pouco, adormeceram e, quando
as contraces voltaram a acordar Alex, esta tomou um duche quente, como lhe tinham dito para
fazer, para ver
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se o trabalho de parto parava ou se intensificava. Deixou-se ficar no duche durante meia hora,
medindo o intervalo entre as contraces; depois, de repente, sem avisar, o trabalho de parto
comeou a srio. Alex mal conseguia estar de p quando saiu do duche e, quando foi acordar Sam,
este dormia profundamente. Em pnico, Alex desatou a chorar e a aban-lo. Por fim, ele acordou e
deu um pulo ao ver a expresso da mulher.
-  agora? - perguntou ele, saltando da cama, com o corao aos pulos, procurando as calas com
frenesim. Deixara-as em cima de uma cadeira; de repente, s escuras, no conseguia encontr-las, e
Alex contorcia-se com dores, agarrada ao brao dele, a chorar.
-  tarde de mais. Vou t-lo agora. - dizia ela, em pnico, esquecendo-se de tudo o que lhe tinham
dito. Era velha de mais para aquilo e j no queria um parto natural.
- Aqui? Vais t-lo aqui?
Sam olhou para ela, aterrado, sem poder acreditar.
- No sei. Eu. . Oh, meu Deus, Sam.  horrvel. .
Eu no consigo.
- Consegues, sim. Vamos medicar-te no hospital. No te preocupes... Vamos vestir qualquer coisa.
No fim, ele teve de ajud-la a vestir-se e a calar-se; nunca a vira to vulnervel nem com tantas
dores. O porteiro arranjou-lhes rapidamente um txi. Eram quatro horas da manh, e Alex mal
conseguia andar quando a levaram ao hospital. O mdico j estava  espera deles, e as enfermeiras
da sala de partos ficaram satisfeitas com o estado avanado de Alex. Ela, por outro lado, estava
muito menos satisfeita com o processo a que eles chamavam alegremente "transio". Parecia
algum que Sam nem conhecia quando comeou a gritar pelos medicamentos e a ficar histrica com
a contraco. Porm,  medida que o parto ia evoluindo, Alex foi-se acalmando, duas horas depois
de terem chegado ao hospital. Fez um grande esforo para expulsar o beb. Tinham-lhe dado uma
anestesia epidural e ela estava mais calma, enquanto Sam lhe agarrava nos ombros e toda a gente
que estava na sala a encorajava. Aquilo parecia nunca mais acabar; porm, apenas meia hora depois
surgiu o pequeno
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rosto de Annabelle. Tinha cabelos ruivos brilhantes e soltou um grito enorme. Depois, como se
estivesse admirada, olhou para Sam, enquanto as lgrimas corriam pela face dos pais. Annabelle
limitou-se a fitar Sam, como se andasse  sua procura h muito tempo e por fim o tivesse
encontrado. Em seguida, foi apresentada  sua me, e Alex pegou-lhe, dominada por emoes com
que nunca sonhara. Sentia-se completa, tal como j ouvira as pessoas dizer, mas no acreditara, e
nem sequer podia imaginar o que seria a sua vida se tivesse falhado aquela experincia. Uma hora
depois tinha Annabelle ao colo como se j se conhecessem h muito tempo, e cuidava alegremente
do seu beb. Sam tirou-lhes uma profuso de fotografias, enquanto ambos choravam, sem
conseguirem acreditar na bno que lhes fora concedida, no milagre que quase tinham evitado e
que felizmente se realizara. Tinham sido poupados a ele devido  sua prpria estupidez e sentiam
que um poder maior os contemplara com a boa sorte.
Sam passou a primeira noite no hospital com Alex e a filha. Os dois passavam a maior parte do
tempo a olhar para Annabelle, fazendo turnos para lhe pegarem ao colo, tapando-a e destapando-a,
mudando-lhe as fraldas e as camisinhas; Sam observava-a, enlevado, quando Alex cuidava dela.
Pensou que era a coisa mais bonita que ele alguma vez vira e, ao olharem ambos para a filha,
concordaram que desejavam outro beb. Nem podiam acreditar que quase se tinham privado
daquela situao. Sam mal podia acreditar que Alex quisesse sequer pensar no assunto pouco depois
da provao do parto; contudo, ela disse-lho quando beijavam Annabelle, que dormia
profundamente entre os dois.
- Eu quero passar por tudo isto outra vez.
- No ests a falar a srio.
Sam ficou admirado, mas satisfeito. Estivera a pensar exactamente no mesmo. Gostaria muito de ter
um filho, mas outra filha tambm lhe agradaria. A menina era to perfeita e to bonita! Sam estava
constantemente a mexer-lhe nos dedos minsculos das mos e Alex beijava- lhos. Estavam
completamente enamorados da filha.
Quando foram para casa, a paixo manteve-se, e Annabelle
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cresceu no meio da adorao desenfreada dos pais. Sam vinha para casa o mais cedo que podia. E
Alex voltou ao trabalho, com remorsos, quando Annabelle fez trs meses. Tentou continuar a cuidar
dela depois disso, o que era impossvel, devido s presses impostas pelos seus afazeres. No
entanto, ia a casa  hora do almoo sempre que podia e prometeu a si prpria sair s cinco horas em
ponto sempre que no tinha julgamentos, fazendo sero em casa depois de Annabelle adormecer. s
sextas-feiras, saa  uma hora, acontecesse o que acontecesse. Era um sistema que funcionava com
eles, e sempre que possvel Alex era rigorosa quanto ao regresso a casa. Em troca do amor e dos
esforos de ambos e do seu afecto permanente, Annabelle adorava a sua mam e o seu pap. Ela era
a luz das suas vidas e eles eram tudo o que era importante para a menina. Carmen tomava conta dela
durante o dia; Alex e Sam encarregavam- se dela assim que chegavam do emprego e Annabelle
ansiava por esse momento. Soltava gritinhos de entusiasmo e de prazer sempre que os via.
Carmen gostava de trabalhar para eles. Era louca por Annabelle e os pais eram simpticos. Gabava-
se muito de Alex e de Sam, da sua importncia, do muito que trabalhavam e do xito que
alcanavam. Sam era muito citado nas colunas financeiras. O seu aparecimento fizera um grande
alarido, e continuavam a surgir notcias frequentes acerca da concluso de negcios para clientes
importantes. Alex, por seu lado, aparecera na televiso mais de uma vez, a propsito de casos
excepcionalmente dignos de notcia. Carmen adorava a situao.
Na mente de Alex e de Sam no havia dvidas de que Annabelle no s era linda como era
absolutamente brilhante. aos dez meses e meio, j andava, comeando a falar pouco depois;
conseguia at construir frases, muito antes do que se esperava.
- Vai ser advogada - dizia Alex para arreliar Sam, mas nenhum podia negar que a menina se parecia
incrivelmente com a me. Era muito parecida com Alex, e at os seus gestos pareciam verses em
miniatura dos gestos da me.
De facto, a nica desiluso para o casal era o facto de os
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esforos para que Alex voltasse a engravidar terem sido infrutferos. Haviam comeado a tentar
quando Annabelle fizera seis meses e continuaram durante um ano. Nessa altura, Alex tinha
quarenta anos e resolveu consultar um especialista para ver se havia algum impedimento. Tanto ela
como Sam foram submetidos a vrios exames, e no havia qual quer problema. O mdico explicara
que, com a idade dela, muitas vezes a concepo demorava mais tempo. aos quarenta e um anos,
deram-lhe Serophene, um tipo de progesterona, para melhorarem as ovulaes, e h ano e meio que
Alex tomava o medicamento que parecia aumentar a tenso que j existia na sua vida. Faziam amor
em dias certos e serviam-se de um conjunto de instrumentos para apurar com exactido o perodo
mais propcio  concepo. Alex adicionava  urina uma srie de produtos qumicos e, quando estes
ganhavam a cor azul, Sam vinha a correr para casa. Riam-se e chamavam azuis, a esses dias, mas
no havia dvida de que aquela presso no lhes facilitava a vida, j cheia de tenses provocadas
pelos clientes e, no caso de Alex, pelos adversrios.
No foi uma poca fcil para eles; porm, tratava-se de qualquer coisa que ambos sabiam desejar
muito. E parecia-lhes curioso que, depois de tantos anos em que no tinham querido filhos,
desejassem agora fazer fosse o que fosse para os ter. Tinham mesmo encarado a hiptese de Alex
tomar injeces de Pergonal, uma soluo mais extrema do que os comprimidos de Serophene, com
outros efeitos secundrios. E tambm tinham pensado na fertilizao in vitro. No haviam posto de
parte qualquer dos tratamentos mais sofisticados. Contudo, aos quarenta e dois anos, Alex ainda
tinha hiptese de conceber sem recorrer a medidas to drsticas, sobretudo com as hormonas que
estava a tomar. O que, em si, j representava um grande empenho, visto que a sua absoro no era
nada fcil. Alex era uma daquelas pessoas que reagiam fortemente aos medicamentos. Na sua
opinio, contudo, valia a pena, visto que ela e Sam desejavam muito outro beb. Annabelle
ensinara-lhes muitas coisas, sobretudo como a vida podia ser doce com uma criana a uni-los e o
que tinham perdido durante os anos sem filhos. Ambos tinham
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carreiras bem sucedidas para exibir, mas agora Alex sentia que ambos haviam perdido algo mais
importante.
Annabelle tinha trs anos e meio, e o corao dos pais derretia-se sempre que olhavam para ela. O
seu cabelo era uma aurola de caracis ruivos, os olhos eram grandes e verdes como os da me e o
rosto estava salpicado de uma fina camada daquilo a que Alex chamava poeira de fadas, que eram
sardas.
Quando Alex se sentou  secretria, lanou um sorriso rpido a uma fotografia enorme onde se via
Annabelle com uma p na mo, na praia, em Quogue, no Vero anterior. Voltou a olhar para o
relgio. O depoimento a que comparecera ocupara- lhe a melhor parte da manh e restava-lhe
menos de uma hora para ler alguns documentos, antes de ir ao encontro de outro cliente.
Alex levantou a cabea quando Brock Stevens entrou. Era um dos jovens elementos da empresa e
trabalhava exclusivamente com ela e com outro advogado, fazendo investi gao e servio externo e
preparando casos para ela levar a julgamento. Trabalhava na Bartlett e Paskin apenas h dois anos;
porm, Alex estava impressionada com ele e com a sua capacidade para lidar com os processos.
- Ol, Alex. Tem um segundo? Sei que tem tido uma manh ocupada.
- No faz mal. Entre.
Alex sorriu-lhe. aos trinta e dois anos, ele parecia-lhe ainda um rapaz, louro, bem-parecido, como se
fosse um irmo mais novo. Frequentara uma faculdade de Direito estatal no Illinois, e Alex sabia
que ele vinha de uma famlia modesta, com muito poucos recursos. No entanto, conseguira acabar o
curso e tinha uma verdadeira vocao para leis. Fora uma sensao que sempre orientara tambm a
vida de Alex, que o admirava muito.
Brock Stevens aproximou-se e sentou-se em frente dela, do outro lado da secretria, com um ar
srio, as mangas da camisa enroldas e a gravata torta, o que lhe dava um ar ainda mais jovem.
- Como correu o depoimento? - perguntou ele.
- Muito bem. Acho que o Matt teve sorte. O principal
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acusado descaiu-se, e eu acho que o Matt pode ter conseguido o que queria. Ele anda a cans-los,
mas ainda falta uma eternidade. Aquele caso dava comigo em doida.
- Comigo tambm, mas  interessante em termos histricos. Eles esto a criar uma srie de
precedentes. Isso agrada-me.
Ele era to novo e to cheio de vida e de sonhos que, s vezes, Alex julgava-o ingnuo, em termos
pessoais; para alm disso, era um advogado extraordinariamente eficiente.
- Ento, o que conseguiu? H alguma novidade acerca do caso Schultz?
- H. - Brock Stevens sorriu-lhe, satisfeito. - Encontrmos aquilo de que precisvamos. O queixoso
tem andado a fugir aos impostos nos ltimos dois anos. Isto no vai parecer bem aos olhos dos
jurados.  por isso que eles se tm recusado a fornecer-nos os dados.
- Interessante. Muito interessante. Como  que descobriu? - perguntou Alex, sorrindo.
Tinham sido obrigados a fazer outras diligncias para conseguirem os dados financeiros e
finalmente tinham conseguido naquela manh.
-  muito fcil descobrir o que ele fez. Mais tarde, mostro-lhe. Creio que isto poder abrir-nos
caminho para um acordo, se conseguir convencer Mister Schultz a faz-lo.
- Duvido - respondeu Alex, pensativa.
Jack Schultz era dono de uma pequena empresa que fora processada duas vezes, injustamente, por
antigos empregados. Tratava-se do mais recente estratagema para conseguir obter acordos chorudos
com patres que no gostavam de ser incomodados. Contudo, os acordos feitos tinham criado um
precedente e, naquele momento, Mr. Schultz estava a ser processado por outro ex-empregado, que
andara a extorquir dinheiro  empresa e a fazer subornos ilegais, mas que tentava processar Jack
Schultz por discriminao. E, desta vez, Schultz no queria fazer nenhum acordo. Queria criar fama
de lutador e de vencedor.
- De qualquer modo, acho que temos aquilo de que precisvamos. Com esse testemunho acerca dos
subornos do tipo de Nova Jrsia, creio que podemos enterrar o queixoso.
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- Estou a contar com isso. - Alex sorriu, o julgamento estava marcado para a quarta-feira seguinte.
- Tenho a sensao de que o advogado do queixoso vai telefonar-lhe esta semana a propor um
acordo, agora que ns conseguimos os dados financeiros deles. O que vai dizer- lhes?
- Apanh-los de surpresa. O pobre Jack merece ganhar este caso. E ele tem razo; no  possvel
estar sempre a fazer acordos. Quem me dera que mais patres tivessem a coragem de fazer o que o
Jack est a fazer.
- Sai mais barato fazer acordos, e a maior parte deles no se quer incomodar.
No entanto, ambos sabiam que havia uma tendncia no mundo dos negcios para lutar e vencer, em
vez de comprar os adversrios com acordos que recompensavam os queixosos por terem levantado
processos indevidos. Alex ganhara vrios casos desses no ano anterior e tinha fama de ser uma boa
defensora dos rus em casos semelhantes.
- Est pronta para o julgamento? - perguntou-lhe ele, sabendo tambm que se tratava de uma
pergunta absurda no caso de Alex.
Ela estava sempre muito bem preparada, era uma conhecedora exmia das leis e fazia todo o
trabalho de casa. E ele tentava ajud-la em tudo o que podia para que no houvesse surpresas na
sala de audincias. Gostava de trabalhar para ela. Alex era firme, mas justa, e nunca ficava  espera
que algum trabalhasse mais do que ela. Brock no se importava com as centenas de horas que
passava a trabalhar, a preparar casos para ela, porque aprendia sempre muito com a sua estratgia.
Ela nunca se colocava numa posio vulnervel, a menos que tivesse a certeza absoluta de que os
seus clientes no estavam a correr riscos, e avisava-os sempre dos riscos que assumia.
Brock gostaria de vir a ser scio como ela e sabia que no faltava muito tempo. Alm disso, dada a
ptima relao de trabalho que existia entre ambos, sabia que Alex estava desejosa de recomend-
lo, embora se queixasse de vez em quando que, logo que ele fosse scio, o que esperava que
acontecesse da a pouco tempo, no teria ningum  altura
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de lhe fazer o trabalho difcil e enfadonho. Brock tambm soubera por outro scio que ela j o
elogiara perante Matthew Billings, embora nunca o admitisse.
- Quem  o novo cliente que vai ver hoje? - Brock estava sempre interessado no que ela fazia. E,
acima de tudo, gostava dela.
- No sei ao certo. Foi indicado por outra firma. Creio que pretende processar um advogado de uma
outra empresa.
Alex estava sempre alerta com esses clientes, a menos que sentisse que eles tinham razo. Arbitrar
litgios tinha muitas vezes os seus inconvenientes. Ela confrontava-se com uma srie de gente do
outro lado da secretria, gente que procurava despejar o seu dio pelo mundo em cima de pessoas
que no o mereciam. Os infelizes, os amargurados e os gananciosos pensavam muitas vezes que a
sua vida poderia melhorar com um processo judicial, e Alex nunca aceitava casos desses, a menos
que sentisse que os argumentos eram justificados, o que em geral no acontecia.
- De qualquer modo, faa o que puder para concluir o caso do Schultz, e amanh de manh
podemos ver isso - declarou Alex. -  sexta-feira e eu saio  uma hora, mas teremos tempo de juntar
tudo muito bem, e este fim- de-semana voltarei a dar uma vista de olhos pelos dossiers. Quero
voltar a ler todos os depoimentos para ter a certeza de que no falhei nada.
Alex franziu o sobrolho enquanto escrevia na agenda que se reuniria com ele s oito e meia da
manh seguinte. No tinha mais marcaes para esse dia, e geralmente guardava as sextas-feiras
para fazer trabalhos que no a obrigassem a sair do escritrio.
- Tenho passado a semana inteira a ler os depoimentos. Tomei alguns apontamentos que lhe
mostrarei amanh. Tenho material que a Alex vai querer usar, e tambm j recolhi algumas
informaes dos vdeos.
Tinham gravado em vdeo alguns depoimentos. Era um utensilio que por vezes se revelava til e, 
falta de melhor, irritava os adversrios.
- Obrigada, Brock.
Ele fora um enviado de Deus. Atarefada como estava,
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sem um bom colega que trabalhasse com ela, ter-se-ia perdido num mar de processos. Alm disso,
tinha um ptimo estagirio, um funcionrio que passava tanto tempo com Brock como este com
Alex. Formavam uma boa equipa, e todos tinham conscincia disso.
- At amanh, s oito e meia. Obrigada por ter preparado isto com tanta diligncia.
Aquilo, porm, no era nada de novo para ele, fazia parte do seu estilo, tal como do de Alex. Era
rigoroso e inteligente, alm de ser simptico. E o facto de no ser casado tambm ajudava.
Dispunha de muito tempo livre para trabalhar, at altas horas da noite, nos feriados e nos fins-de-
semana. Estava disposto a fazer o que tinha a fazer para construir uma carreira importante. Por
vezes, Brock fazia lembrar, a Alex, ela prpria e Sam, nos primeiros tempos. Trabalhavam tanto
como agora, mas de um modo diferente; no havia aquele impulso cego que os mantinha no
escritrio at  meia- noite, como acontecera h anos. Agora, tinham Annabelle e tinham-se um ao
outro; desejavam algo mais da vida do que apenas a carreira profissional. Felizmente para Alex,
Brock Stevens ainda no chegara a essa fase. Ela sabia que ele andara durante uns tempos com
outra colega da firma, uma rapariga muito atraente, que fora para Stanford, mas tambm sabia que
Brock dava demasiado va lor  sua carreira para correr o risco de se envolver de mais com algum
da empresa. Havia normas que proibiam esse tipo de relacionamento, e o facto de estabelecer uma
relao sria com outra colega, ou com uma scia, poderia impedi-lo de vir a ser scio. E Alex sabia
que tanto ele como os outros elementos eram demasiado ambiciosos e sensatos para permitir que
isso acontecesse.
Pouco depois, Alex foi ao encontro do novo cliente, e o que ouviu deixou-a muito desinteressada.
Era um caso feio e ela no estava totalmente convencida de que o queixoso no estivesse a mentir.
Em geral, preferia ser advogada de defesa. Disse-lhe que iria pensar no caso e trocar impresses
com os scios, mas que sentia que a sua agenda e o nmero de casos que tinha a aguardar
julgamento poderiam impedi-la de lhe dar o tipo de ateno que sentia que o cliente
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merecia e que decerto desejava. Mostrou-se muito diplomtica para com ele, mas muito firme;
prometeu telefonar-lhe uns dias depois de se reunir com os seus scios. Porm, no tencionava
reunir-se com ningum. Precisava apenas de um tempo para pensar, embora duvidasse seriamente
de vir a aceitar o caso.
s cinco horas em ponto, Alex olhou para o relgio e telefonou  secretria, Liz Hascomb, que
estava l fora, para lhe dizer que se ia embora: Todos os dias saa s cinco horas, sempre que podia
e que a agendalho permitia. Assinou umas cartas que a secretria lhe deixara, tomou uns
apontamentos e telefonou-lhe outra vez a dar umas instrues. Pouco depois, Elizabeth Hascomb
veio buscar os apontamentos e ambas trocaram um sorriso. Elizabeth era uma viva, que estava
quase na idade da reforma, e criara quatro filhos sozinha. Admirava o facto de Alex gostar da filha
ao ponto de ir para casa todos os dias o mais cedo que podia para a acompanhar. Isso provava que
Alex no era apenas uma boa advogada, mas tambm uma boa esposa e uma boa me. E isso
agradava-lhe. Tinha seis netos e adorava ouvir histrias acerca de Annabelle, ou de ver fotografias
dela quando Alex as trazia para o escritrio.
- D um beijinho  Annabelle. Como est ela a dar-se na escola?
- Adora. - Alex sorriu, guardando o ltimo documento na pasta. - No se esquea de mandar ao
Matthew Billings os meus apontamentos desta manh, por favor. E amanh, quando vier, vou
precisar dos dossiers do caso Schultz em cima da minha secretria. Tenho uma reunio com o Brock
s oito e meia.
Havia milhares de coisas em que teria de pensar. O julgamento de Schultz estava marcado para a
quarta-feira seguinte, e ela estava sujeita a ter de se ausentar do escritrio durante uma semana ou
mais, o que significava que teria de tratar do mximo que lhe fosse possvel antes disso. Segunda e
tera-feira iam ser dias dificeis.
- At amanh - disse Alex a Liz, com um sorriso afectuoso.
Liz tambm sabia que, se surgisse uma emergncia depois
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de Alex sair, poderia telefonar-lhe para casa ou enviar-lhe documentos pelo mensageiro, se fosse
obrigada a isso. Apesar de ser muito dedicada a Annabelle, Alex nunca perdia totalmente o contacto
com o emprego. E, quando estava no tribunal, levava sempre um receptor de mensagens.
- Boa noite, Alex - respondeu Liz Hascomb, com um sorriso.
Cinco minutos depois, Alex estava em Park Avenue e mergulhava no trfego das cinco horas. A
hora de ponta comeara, e era preciso habilidade para apanhar um txi antes das outras pessoas.
Alex apanhou um que ia para a zona residencial e reparou, admirada, que estava um belo dia. Era
um daqueles esplndidos dias de Outubro, cheios de sol e li geiramente quentes, mas em que uma
brisa agreste nos lembra que estamos no Outono.
Com aquele tempo, o que lhe apetecia era andar a p. Alex, porm, no tinha um minuto a perder, se
queria chegar a casa depressa para estar com a filha. Assim, recostou-se no banco, a pensar em
Annabelle e no seu rostozinho travesso e sardento. Era difcil no pensar em engravidar de novo. H
trs anos que tentavam e era desencorajador que ainda no tivesse acontecido. Contudo, por outro
lado, Alex ainda no estava preparada para tomar medidas mais drsti cas. Com a sua agenda, como
poderia sujeitar-se  fertiliza o in vitro ou ao Pergonal? Tudo parecia to complicado, a somar ao
resto que tinha na sua vida. Seria muito mais fcil se engravidasse naturalmente. O seu nvel de
progesterona estava alto e o da hormona foliculoestimulante estava suficientemente baixo. Mas
ainda no havia beb. E, ao pensar nisso, lembrou-se de que tinha de fazer o teste dos dias azuis
assim que chegasse a casa, para se certificar de que no deixavam passar o momento ideal. Pelos
seus clculos, a ovulao deveria ocorrer no fim-de-semana. Pelo menos no estaria a trabalhar,
nem num julgamento. Graas a Deus, pensou, enquanto o carro fez um movimento brusco e se
embrenhava no trfego.
Apanharam um engarrafamento em Madison e na Rua Setenta e Quatro, e Alex resolveu sair e
percorrer a p os timos trs quarteires. Sabia-lhe bem sentir o ar na cara
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depois de ter estado todo o dia fechada. O seu andar era vigoroso, quando balouava a pasta a seu
lado e pensava em chegar a casa e ver Annabelle. Talvez Sam j tivesse chegado. O seu sorriso
acentuou-se ao pensar nele. Continuava apaixonada pelo marido aps mais de dezassete anos de
casamento. Tinha tudo. Uma carreira fabulosa, uma filha adorvel e um marido que amava
profundamente. Era a mulher mais feliz do mundo, e sabia-o. Essa era a melhor parte. Nunca
considerava nada como um dado adquirido. Estava grata por todas as bnos da sua vida, todos os
dias. E, se no voltasse a engravidar, o mundo no acabaria por isso. Talvez adoptassem uma
criana. Ou talvez ficassem apenas com Annabelle. Ela e Sam eram filhos nicos e isso no lhes
fizera mal nenhum. Pelo contrrio, dizia- se que os filhos nicos eram at mais inteligentes.
Acontecesse o que acontecesse, ela sabia que tinham vencido. Pensar nisso f-la sorrir ao chegar 
porta do prdio onde morava; lanou um sorriso ao porteiro ao entrar, confiante, no trio.

CAPTULO 2
Quando Alex abriu a porta principal, a casa pareceu-lhe invulgarmente silenciosa. No se ouvia
nada; Alex perguntou a si prpria se Carmen e Annabelle se teriam demorado mais no parque do
que era costume. Quase sempre chegavam a casa s cinco horas e depois tomavam banho antes do
jantar. Quando Alex entrou na casa de banho, encontrou Annabelle sentada, como uma princesa,
num monte de espuma de ba nho que quase a tapava por completo. Carmen estava sentada na orla
da banheira, a observ-la, e Annabelle fingia que era uma sereia. No dizia nada, estva apenas a
nadar para cima e para baixo, quase escondida pela imensido da espu ma. O facto de se ter servido
da profunda banheira de mr more da me fora um mimo extraordinrio, e por isso  que Alex no a
ouvira ao entrar em casa. Os aposentos dos donos da casa ficavam ao fim de um longo corredor.
- O que ests aqui a fazer?
Alex fez um sorriso rasgado a ambas, feliz ao ver a filha. Era a menina mais engraada que j vira,
e os seus cabelos ruivos brilhavam como um farol na banheira.
- Chiu. - disse Annabelle, muito sria, levando o dedo os lbios. - As sereias no falam.
- s uma sereia?
- Claro que sou. A Carmen disse que eu podia servir-me da tua banheira e da tua espuma de banho
se eu a dei xasse lavar-me a cabea esta noite.
Carmen sorriu para a patroa e Alex soltou uma gargalhada. Annabelle gostava muito de fazer
contratos, e Carmen era um joguete nas suas mos, tal como os pais. Annabelle no fazia mau uso
dessa vantagem, mas sabia que era o ai jesus de toda a gente.
- E se eu fosse tomar banho contigo e lavssemos as duas a cabea? - sugeriu a me. De qualquer
modo, Alex queria tomar banho antes de Sam chegar a casa.
- Est bem.
Annabelle ficou a pensar. Detestava o cabelo ensaboado,
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mas comeava a desconfiar que no tinha maneira de se escapar desta vez.
Alex despiu o fato preto, descalou os sapatos de salto alto e Carmen foi tratar do jantar, enquanto
Annabelle continuava a fazer de sereia. Pouco depois, estavam as duas na banheira enorme, a falar
sobre o que se passara durante o dia. Annabelle gostava que a me fosse advogada e que o pai fosse
um consultor de vencimentos, como ela lhe chamava. Explicava sempre que se tratava de uma
espcie de banqueiro, e que recebia o dinheiro de outras pessoas, o que no era exactamente o modo
como o pai descrevia o que fazia, mas satisfazia Annabelle. Sabia que a me ia para o tribunal e que
discutia com ojuiz, mas no mandava ningum para a priso, o que era mais simples.
- Ento, como foi o teu dia? - perguntou Alex, deleitando-se com a gua quente e a espuma, como
se fosse ela prpria uma sereia, depois de um dia no escritrio.
- Bastante bom.
Annabelle olhou para a me com visvel prazer. Ela dera-lhe um beijo ao entrar na banheira e
Annabelle estava sentada a seu lado, satisfeita.
- Aconteceu alguma coisa de especial na escola?
- No. Mas comemos rs.
- Comeram rs? - Alex ficou intrigada; estava habituada s simplificaes da filha e sabia que a
histria no acabava ali. - Que tipo de rs? - Decerto no tinham sido rs verdadeiras.
- Rs verdes. Com olhos pretos e cabelos de coco.
Os cabelos de coco eram a cobertura, e Alex perguntou a si mesma como  que conseguira viver
sem a filha at ali.
- Referes-te aos bolinhos?
- Sim, mais ou menos, foi o Bobby Bronstein que os trouxe. Ele fazia anos.
- Mas que boa ideia.
- A me dele trouxe lagartas e aranhas pegajosas. Eram mesmo grandes.
Annabelle estava deliciada com o relato assustador que intrigara a me.
- Mas que agradvel.
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Alex sorriu, e Annabelle encolheu os ombros, indiferente s delcias culinrias que fora encontrar.
- Foi bom. Eu gosto mais dos teus bolinhos. Sobretudo dos de chocolate.
- Talvez faamos alguns este fim-de-semana. - Depois de o pap e eu fazermos amor para te
arranjarmos um irmozinho ou uma irmzinha. Alex lembrou-se outra vez do estojo azul.
- O que vamos fazer este fim-de-semana? - perguntou uma voz conhecida, no momento em que
ambas levantaram a cabea e viram o pap de Annabelle, observando-as da porta, visivelmente
divertido. Era uma cena enternecedora, e o olhar de Sam cruzou-se com o da mulher, com todo o
amor que sentia pelas duas. Em seguida, inclinou-se para beijar a mulher e a filha. Alex agarrou-o
pela gravata e obrigou-o a dar-lhe mais um beijo. Ele no objectou.
- Estvamos a falar de bolinhos, entre outras coisas
disse Alex, com um ar sedutor, quando ele levantou o sobrolho, se afastou da banheira, tirou a
gravata e desabotoou o colarinho.
- Tm outros planos para este fim-de-semana? - perguntou ele com naturalidade, depois de se ter
lembrado do estojo azul.
- Creio que sim.
Alex sorriu e ele olhou para ela, deleitado. Quase com cinquenta anos, era um homem
extraordinariamente atraente, parecendo ter menos dez anos, tal como Alex. Faziam um belo par, e
era bvio que Annabelle em nada contribua para esmorecer a paixo que os unia.
- O que esto vocs as duas a fazer na banheira com
essa espuma toda? - perguntou ele a Annabelle. A criana olhou para ele com naturalidade.
- Somos sereias, pap - respondeu.
- No esto interessadas em ter uma grande baleia ao
p de vocs?
- Tambm vens, pap? - perguntou Annabelle, rindo.
Sam tirou o casaco e comeou adesabotoar a camisa,
enquanto os trs se riam; pouco depois, fechou a porta  chave, para Carmen no entrar, e meteu-se
na banheira com
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as suas duas sereias. Salpicou-as, e todos brincaram; pouco depois, Alex lavou a cabea de
Annabelle. Saiu da banheira, enxugou-a e envolveu-se num toalho cor-de-rosa enquanto Sam
tomava um duche para tirar o sabo do corpo. Saiu da banheira e pegou num toalho branco que
enrolou  cintura, observando, deleitado, as suas duas damas.
- Vocs parecem gmeas - disse ele, sorrindo outra vez e contemplando- lhes os cabelos ruivos.
Nos ltimos tempos, Alex queixara-se de lhe terem aparecido alguns cabelos brancos; porm, mal
se viam, e o seu cabelo era to brilhante como o da filha.
- O que vamos fazer na Noite das Bruxas? - perguntou Annabelle enquanto a me lhe secava o
cabelo.
Sam abriu a porta da casa de banho e foi ao quarto vestir umas calas de ganga e uma camisola e
calar uns chinelos. Adorava vir para casa ter com elas, brincar com Annabelle e passar o tempo na
companhia de Alex. Nem se importava que ela fizesse sero: bastava-lhe estar junto dela, como
estivera durante os ltimos dezassete anos. Muito pouco mudara entre eles; parecia-lhe que a amava
cada vez mais e Annabelle s reforara os laos existentes entre eles. Apenas lamentava que no se
tivessem apercebido mais cedo de como era bom ter filhos.
- O que te apetece fazer na Noite das Bruxas? - perguntou-lhe Alex, soltando-lhe os caracis ruivos
e brilhantes com gestos suaves.
- Quero ser um canrio - respondeu Annabelle com firmeza.
- Um canrio? Porqu um canrio? - perguntou Alex, sorrindo.
- So giros. A Hilary tem um. Ou talvez queira ser a Sininho. Ou a Pequena Sereia.
- Para a semana vou ao F. A. O. Schwartz  hora do almoo para ver o que encontro, est bem?
Depois, lembrou-se do julgamento. Tinha de tratar do assunto antes de quarta-feira ou deix-lo para
depois do julgamento. Ou talvez Liz Hascomb pudesse telefonar-lhes e ver se eles tinham um fato
do tamanho de Annabelle. Alex tinha de ser habilidosa em relao a tirar o melhor partido do seu
tempo.
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- O que fazemos na Noite das Bruxas? - perguntou Sam, entrando na sala com calas de ganga e
uma camisola verde-escura.
- Pensei em irmos bater s portas aqui no prdio, como no ano passado - explicou Alex.
Sam fez um sinal afirmativo. Alex vestia um roupo turco cor-de-rosa e tinha uma toalha da mesma
cor enrolada na cabea. Vestiu a camisa de noite a Annabelle e entregou-a a Sam, para ir  cozinha
verificar o jantar.
Havia um frango no forno, batatas cozidas no microndas, feijo-verde salteado num tacho, e
Carmen estava prestes a ir-se embora. Ficava at mais tarde quando eles iam sair; se ficavam em
casa, era frequente ela comear a fazer o jantar e depois ir-se embora. Ou ento Alex e Sam faziam
o jantar quando chegavam do emprego.
- Obrigada por tudo - disse Alex, lanando-lhe um sorriso, ao qual Carmen correspondeu. - Para a
semana vou precisar de uma grande ajuda, Carmen. Vou para um julgamento na quarta-feira.
- Com certeza. Eu ajudo-a. Posso ficar at tarde. No h problema.
Carmen sabia dos esforos de ambos para terem outro beb e tambm estava desapontada por ainda
no ter acontecido nada. Adorava bebs e crianas. Aos cinquenta e seis anos, tivera seis filhos e
dois maridos, e ia nos dezassete netos. Tinha uma vida cheia em Queens, mas gostava muito de
trabalhar para os Parker em Manhattan.
- At amanh - disse Alex quando Carmen saiu. A mesa estava posta e o jantar cheirava muito bem.
Alex foi vestir umas calas de ganga e uma blusa. Cinco minutos depois, chamou Annabelle e Sam
para jantar. Comeram na velha mesa rstica na cozinha, e  luz de velas. s vezes, comiam na sala
de jantar, mas a maior parte das vezes ficavam na cozinha e quase sempre jantavam com Annabelle,
excepto quando vinham tarde para casa ou quando iam jantar fora. Ambos gostavam de tomar as
refeies na companhia da filha. Ela era boa companheira, e eles consideravam que era importante
estarem juntos.
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A criana tagarelou activamente durante a noite. Sam ajudou Alex a lavar a loua, enquanto
Annabelle brincava. Em seguida, Sam foi ver as notcias e Alex leu uma histria a Annabelle. s
oito horas, a criana estava adormir e a noite era deles. Alex ia a sentar-se no sof de couro, ao lado
do marido, quando se lembrou outra vez do teste para de tectar a ovulao e foi faz-lo. Este
mostrou apenas que ainda no se dera o aumento da hormona que precedia a ovulao e que no era
possvel prever quando isso iria acontecer.  parte isso, Alex sabia que, com as hormonas que
estava a tomar, era provvel que o perodo de ovulao fosse regular e que ocorresse, tal como ela
previra, no sbado ou no do mingo, portanto da a dois ou trs dias. Tinham-nos avisado para no
fazerem abstinncia durante mais de cinco dias antes da ovulao e para no terem relaes
imediatamente antes; caso contrrio, a quantidade de espermatozides de Sam seria reduzida. Esta
situao retirava espontaneidade  vida sexual de ambos; eles, porm, gostavam um do outro, e Sam
demonstrava um grande desportivismo em relao aos seus esforos para terem um beb. Tambm o
tinham avisado para no beber em excesso na noite anterior  ovulao da mulher, nem para tomar
banhos quentes ou fazer sauna. O calor matava os espermatozides, e s vezes Sam brincava com
Alex, dizendo que iria pr cubos de gelo nas cuecas, uma prtica que sabia ser seguida por alguns
casais com problemas de fertilidade. Contudo, eles no tinham um problema, no se passava nada
com eles. Alex tinha quarenta e dois anos e levava tempo a engravidar.
- Ento, os meus servios so necessrios esta noite? perguntou ele, bem-humorado, quando ela se
sentou a seu lado no sof do escritrio.
- Ainda no - respondeu Alex, sentindo-se tola. Era difcil no se sentir assim com todos aqueles
testes, sonhos, discusses e esperanas. Parecia-lhes, no entanto, que valia a pena; por isso, ainda
no tinham desistido. Longe disso. Continuo a pensar que vai ser este fim-de-semana.
- Conheo coisas piores para fazer numa tarde de sbado - disse ele alegremente, abraando-a.
Aos sbados, Carmen s trabalhava metade do dia para
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eles poderem dormir mais, pelo menos uma vez por semana; tambm no se importava de ficar at
mais tarde. Era realmente a pessoa ideal para eles, que apreciavam o facto de ela adorar a filha e de
Annabelle gostar tambm muito dela. Depositavam em Carmen uma confiana total.
Alex falou a Sam do julgamento que tinha na semana seguinte e do depoimento a que assistira
naquele dia, sem lhe dizer nada de confidencial. E ele falou-lhe de um cliente novo e extraordinrio,
do Bahrein, e de um possvel novo scio que os outros dois lhe tinham apresentado. Era ingls e
gozava de uma reputao espantosa no mundo financeiro, por fazer negcios olmpicos; Sam j o
encontrara vrias vezes, no gostava muito dele e no estava muito certo de que eles o deixassem
fazer parte da sociedade. Alm disso, considerava-o demasiado exuberante.
- O que achas dele? - perguntou Alex, a quem a actividade do marido sempre intrigara.
Sam exibiu uma srie de ideias para ver o que a mulher pensava delas. Respeitava as opinies dela e
a sua perspiccia perante alguns riscos que eram inerentes  sua actividade.
- Ele tem montanhas de dinheiro e alguns contactos internacionais formidveis. No sei. Acho que
ele tem todo o potencial para se tornar um idiota.  to cheio de si prprio. Foi casado com uma
lady qualquer coisa. filha de um lorde ingls qualquer, muito importante, mas isso tambm tem
muito de conversa fiada. No sei. O Larry e o Tom acham que ele  uma mina de ouro ambulante.
- Ele  eficiente? J te informaste?
- Claro.  eficiente como um relgio suo. Fez a sua primeira fortuna no Iro, era muito ntimo do
x, antes da queda deste, obviamente. E casou pela segunda vez. E acho que desde ento tem feito
dinheiro. Muito dinheiro. Tem uns negcios estranhos no Bahrein, continua a estar muito ligado ao
Mdio Oriente e insinua que pode aproximar-se mais do sulto do Brunei. Francamente, no
acredito. Mas o Tom e o Larry acreditam.  como se estivesses prestes a entrar na estratosfera, antes
de rebentares e de explodires com tanto poder e dinheiro.
- Talvez devas aceit-lo a ttulo experimental. Tenta
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trabalhar com ele durante seis meses e depois vers o que pensas dele.
- Propus isso ao Tom e ao Larry, mas eles consideram que se trata de um insulto a uma pessoa da
sua estatura. O Simon no  exactamente algum que possamos pr  prova, creio eu. Mas no sei
se estarei pronto a comprometer-me totalmente com ele.
- Ento, segue o teu instinto. Ele nunca te deixou ficar mal. Acredito muito nisso.
- Eu acredito muito em ti - disse ele em voz baixa, inclinando-se para beij-la. H muito tempo que
estava apaixonado por ela, e sentia-se sempre dividido entre a admirao pelo seu esprito e a
paixo total pelo seu corpo. Era uma aliana imbatvel. - O que dizes, se formos para a cama cedo
esta noite e nos prepararmos para o fim-de-semana?
- Isso  muito sedutor - respondeu ela, dando-lhe um beijo no pescoo.
Ambos sabiam que ainda podiam permitir-se fazer amor naquele momento. Faltavam ainda dois ou
trs dias para a ovulao. Fazer amor no dia seguinte seria demasiado prximo e poderia diminuir
as hipteses de ela engravidar. A situao era muito complicada; Alex, porm, estava determinada a
ultrapass-la, e as suas tentativas para ficar grvida no durariam eternamente. Com o tempo, ou ela
ficava grvida ou eles deixavam de tentar e voltariam a fazer amor sempre que lhes apetecia.
Sam apagou as luzes do escritrio e da sala de estar, e Alex foi atrs dele para o quarto. Lentamente,
tirou as calas de ganga, tentando no se lembrar da pasta que pusera no cho, ao canto. Esta como
que a fulminava e, adivinhando-lhe os pensamentos, Sam tambm a viu e perguntou a si mesmo se
a mulher teria de ir trabalhar. Fez-lhe a pergunta docemente, enquanto abria o fecho das calas e
despia a ca misola; ela encolheu os ombros. Naquele momento, o marido era muito mais importante
para ela.
Deitaram-se na cama, no meio dos lenis Pratesi que Alex comprara em Madison Avenue, e
sentiram na pele o seu toque frio e macio; quando Sam a abraou com fora, ela esqueceu-se de
tudo o resto, enquanto faziam amor. De
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sbito, esqueceram-se at de que desejavam muito um beb. Ela s conseguiu pensar em Sam
quando ele a tomou nos seus braos e penetrou lentamente no seu corpo. Ficram suspensos no
espao durante um perodo interminvel, envoltos no prazer; depois, devagar, regressaram  terra, 
realidade, enquanto ele ronronava nos seus braos e adormecia, saciado.
- Amo-te - segredou Alex junto do cabelo do marido, quando este ressonava baixinho a seu lado.
Ficou ali agarrada a ele durante muito tempo; em seguida, com o mximo cuidado, afastou-se dele,
acomodou-o na cama e foi buscar a pasta. Sabia que ainda tinha de trabalhar e no podia ficar ali
deitada sem fazer nada. Sem provocar qualquer barulho, sentou-se na cadeira grande e confortvel
do quarto, a estudar os dossiers e a tomar apontamentos, durante duas horas. Sam nem se mexeu,
Annabelle acordou uma vez e Alex foi ter com ela e deu-lhe gua. Deitou-se a seu lado durante
algum tempo, abraando-a com fora, at ela voltar a adormecer. Depois, voltou para o quarto e
continuou a trabalhar.
Trabalhou at  uma hora da manh; depois, espreguiou-se e bocejou e guardou os dossiers na
pasta. Estava habituada a isto. Conseguia fazer uma grande parte do seu trabalho  noite, quando
no interferia com ningum e se concentrava na atmosfera silenciosa da casa.
Sam s se mexeu quando ela se deitou na cama a seu lado. No se apercebera de que ela se afastara;
quando Alex apagou a luz, deitada ao lado do marido, pensou nele e em Annabelle, no julgamento
da semana seguinte e no novo cliente que conhecera naquele dia e que decidira recusar, no possvel
scio ingls de que Sam lhe falara. Tinha tanta coisa em que pensar, tanto que fazer, que s vezes
considerava que era uma vergonha desperdiar tempo a dormir. Precisava de todas as horas para
fazer tudo o que tinha a fazer. No podia dar-se ao luxo de perder um momento. Por fim, apesar de
tudo o que tinha na mente, deitou-se ao lado de Sam, e estava a dormir profundamente quando o
despertador tocou na manh seguinte.

CAPTULO 3
O seu dia comeou, como sempre, com Sam a acord-la, em geral com uma carcia e um beijo, com
o rdio ligado; e, como quase sempre acontecia, Alex sentia-se exausta. Cada dia parecia sobrar
para o seguinte e geralmente cansavam-na as exigncias interminveis que pendiam sobre ela e as
tenses implacveis no emprego.
Alex levantou-se devagar e foi acordar Annabelle, que s vezes despertava antes deles, mas no
dessa vez. A criana espreguiou-se, sonolenta, quando a me a acordou com um beijo e se deitou a
seu lado. Ficaram a rir-se e a conversar at Annabelle estar disposta a levantar- se. Em seguida,
Alex levou-a para a casa de banho, lavou-lhe a cara e os dentes, penteou-a e depois foram ao quarto
de Annabelle buscar a roupa que ela levaria para o jardim infantil. Naquela manh, tinham
escolhido um pequeno conjunto que Sam lhe trouxera da sua ltima viagem a Paris. Era de sarja,
com enfeites de algodo cor-de-rosa, constitudo por calas, uma pequena blusa de algodo cor-de-
rosa e um bluso a condizer. A criana ficava adorvel com os minsculos sapatos de tnis rosas.
- Uau, ests mesmo gira hoje, princesa! - exclamou o pai, com um olhar admirador, quando Alex a
trouxe para a cozinha para tomar o pequeno- almoo.
Sam j estava sentado  mesa, j fizera a barba, tomara duche e vestira um fato cinzento-escuro,
uma camisa branca e uma gravata Herms azul-escura. Estava a ler o Wall Street Journal, a sua
bblia.
- Obrigada, pap.
Sam passou-lhe os cereais e o leite e preparou-lhe uma torrada, enquanto Alex foi tomar duche e
vestir-se. Tinham a rotina diria relativamente bem organizada e eram ambos flexveis. Quando
Alex tinha uma reunio de manh cedo, era Sam que fazia tudo, e vice-versa. Naquela manh,
ambos tinham tempo, e Alex j se oferecera para levar Annabelle  escola. Ficava apenas a uns
quarteires de distncia e
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ela queria compensar a falta de tempo que teria na semana seguinte, sabendo no entanto que no o
conseguiria fazer.
Quarenta e cinco minutos depois, Alex foi ter com eles  cozinha, mesmo a tempo de beber um caf
e de comer o resto de uma torrada. Nesse momento, Sam explicava a Anna belle os princpios da
electricidade e que era perigoso meter um garfo molhado dentro da torradeira.
- No  assim, mam? - perguntou Sam, olhando para a mulher em busca de apoio. Ela fez um
aceno de cabea, lendo no Neu York Times que o Congresso penalizara o presidente e que um
dosjuzes do Supremo Tribunal de quem ela menos gostava acabara de se reformar.
- Pelo menos no terei de preocupar-me com ele para a semana - disse ela com um ar misterioso, a
torrada na boca. Sam riu-se. De manh, a mulher no primava pela coerncia, embora se esforasse
por causa da filha.
- O que tens de fazer hoje? - perguntou Sam com na turalidade.
Tinha duas reunies importantes com clientes e um al moo no 21 com o ingls, o que poderia
contribuir para esclarecer um pouco mais a situao.
- Pouca coisa. A sexta- feira  o meu dia mais curto
- recordou-lhe Alex, mas ele sabia. - Vou ter uma reunio com um colega para preparar o
julgamento da prxima semana. E depois vou fazer um exame mdico de rotina a Anderson. A
seguir, vou buscar a Annabelle e vou lev-la a Miss Tilly.
O dia preferido de Annabelle era aquele em que ia  aula de dana de Miss Tilly. Era um amor, e
Alex adorava lev-la. Era uma das razes por que saa mais cedo  sexta-feira para estar com a
filha.
- Porqu ao Anderson? Passa-se alguma coisa que
eu deva saber?
Sam ficou preocupado, mas no Alex. Anderson era seu ginecologista, e o marido acompanhava os
seus esforos para ter outro beb.
- Nada de importante. Tenho de fazer um exame citolgico, mais nada. E quero trocar impresses
com ele acerca do Serophene.  um pouco difcil manter a sanidade mental,
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a carreira profissional, e ter ainda de tomar as doses que ele recomenda. Talvez eu deva reduzir a
dose, ou aument-la, ou descansar por uns tempos. No sei. Depois conto-te o que ele disser.
- No te esqueas. - Sam sorriu-lhe, enternecido por ela estar disposta a ir to longe para ter o seu
beb. - E boa sorte para a preparao do julgamento.
- Boa sorte com o Simon. Espero que ele escorregue ou que se mostre merecedor da tua confiana.
- Tambm eu - disse Sam, suspirando. - Isso tornaria decerto a vida mais simples. No sei o que hei-
de fazer em relao a ele: se hei-de confiar na minha intuio, ou na histria da sua vida, ou nos
instintos dos meus scios. Talvez esteja a perder faculdades e a ficar velho e paranico.
Sam ia fazer cinquenta anos e estava muito impressionado com isso; Alex, porm, no o
considerava de modo nenhum paranico, alm de ter sempre um instinto brilhante.
-J te disse. Confia na tua intuio. Ainda no te deixou ficar mal.
- Obrigado pelo voto de confiana.
Pegaram nos casacos, Alex ajudou Annabelle a vestir o seu, apagaram as luzes, fecharam a porta e
esperaram que o elevador os levasse ao encontro dos seus afazeres dirios. Na rua, Sam despediu-se
das duas com um beijo e chamou um txi; Alex levou Annabelle  escola, em Lexington. A menina
conversou com ela, e ambas se riram e contaram anedotas durante o caminho. Annabelle entrou na
escola de boa vontade e Alex chamou um txi e foi para o centro.
Brock j estava  sua espera no gabinete, com os dossiers todos espalhados, e havia cinco
mensagens em cima da secretria de Alex, nenhuma relacionada com o caso Schultz. Duas eram do
potencial cliente da vspera, e Alex tomou nota para lhe telefonar antes de sair da empresa.
Como de costume, Brock era extremamente organizado, e os seus apontamentos acerca daquele
caso revelaram-se muito teis. Alex agradeceu-lhe e elogiou-o pelo seu trabalho; ao acabarem a
reunio por volta das onze e meia. Ainda tinha meia dzia de coisas para fazer antes de sair; a
consulta era na zona residencial da cidade, ao meio-dia, e ela s teve tempo de fazer alguns
telefonemas.
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- Posso fazer mais alguma coisa para ajud-la? - perguntou ele no seu tom habitual, e Alex,
frentica, olhou pa ra os recados que tinha em cima da secretria.  claro que poderia voltar  tarde,
e Carmen levaria Annabelle  aula de dana, mas sabia que a filha ficaria desapontada. Chegava
sempre atrasada ou  pressa, ou tentava fazer demasiadas coisas. A sua vida parecia uma corrida de
estafetas em que no havia ningum a quem passar o testemunho. No ia pass-lo a Sam, que tinha
a sua prpria vida para gerir e as dores de cabea prprias da sua actividade para suportar. Pelo
menos, tinha Brock, que a ajudava na empresa. E, ao pensar nisso, estendeu-lhe dois dos recados e
pediu-lhe que respondesse aos telefonemas por ela.
- Isso seria uma grande ajuda - disse, sorrindo-lhe, agradecida.
- Com todo o prazer. Mais alguma coisa? - perguntou ele, olhando-a com afecto. Sempre gostara de
trabalhar com Alex, e os seus estilos eram muito semelhantes. Era como se danasse com o parceiro
ideal.
- Podia ir ao mdico por mim para fazer um exame.
- Tambm no me importo.
Brock sorriu e Alex soltou uma gargalhada.
- Quem me dera que isso fosse possvel.
O exame parecia-lhe agora quase uma perda de tempo. Estava de boa sade e sabia-o. Nunca se
sentira to bem. E podia falar do Serophene ao mdico pelo telefone. ao pensar nisso, olhou para o
relgio e tomou uma deciso rpida. Ligou para o consultrio, cujo nmero de telefone tinha na
memria, preparando-se para adiar a consulta. A linha estava ocupada e Alex no queria ser mal-
educada e no comparecer. O mdico era bom no seu ofcio e fora muito atencioso para com ela.
Assistira ao nascimento de Annabelle e h trs anos que a acompanhava nos seus esforos para
engravidar. No lhe parecia correcto deix-lo  espera. Voltou a tentar, mas a linha continuava
ocupada. Irritada, levantou-se e pegou no casaco.
- Acho que  melhor ir andando. Talvez ele tenha o
telefone fora do descanso para no perder tempo - gracejou Alex. - Telefone-me se vir que nos
esquecemos de
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qualquer coisa no caso Schultz. Estarei em casa durante todo o fim-de- semana.
- No se preocupe. Eu telefono-lhe, se for preciso. Porque no esquece isto? Est mesmo tudo
pronto. E podemos rever tudo na segunda-feira. Bom fim-de-semana.
- Parece o meu marido. E o Brock, o que vai fazer? perguntou Alex, vestindo o casaco e pegando na
pasta.
- Trabalhar durante todo o fim-de-semana, claro est. O que julga? - respondeu ele, rindo-se.
- ptimo. Ento no me faa discursos. Bom fim-de-semana para si - retorquiu Alex, com um dedo
apontado para ele; estava satisfeita por ele ser to consciencioso, e Brock sabia-o. - Obrigada por
tudo.
- Esquea o assunto. Tudo vai correr bem na quarta-feira.
- Obrigada, Brock.
Alex saiu a correr, disse adeus a Liz, e cinco minutos depois ia de txi a caminho de Park Avenue e
da Rua Setenta e Dois. Sentia-se um pouco estpida por ir ter com o mdico, visto no ter nada para
contar, e as suas queixas a respeito do Serophene tambmj no eram novidade para ele. No
entanto, precisava de fazer um exame citolgico, e tranquilizava-a sempre discutir com ele os
problemas do seu aparelho reprodutor. John Anderson era um velho amigo e escutava as suas
queixas e preocupaes com cuidado e interesse. Alm disso, compreendia perfeitamente o medo
que ela tinha de no voltar a engravidar. Recordara-lhe que no havia impedimentos em qualquer
dos membros do casal, mas era inegvel que ela no conseguira engravidar em trs anos. No havia
nenhuma razo clnica especfica; a actividade profissional dela decerto gerava uma grande tenso,
e ela estava mais velha. Voltaram a falar das injeces de Pergonal, das vantagens e dos riscos e da
hiptese da fertilizao n vitro, embora aos quarenta e dois anos ela no fosse das melhores
candidatas. Falaram do ZIFI e do GIFI, e das tecnologias mais recentes, como a doao de vulos,
que no era do agrado dela. E, por fim, resolveram manter o Serophene, e ele falou-lhe em tentar a
inseminao artificial com o esperma de Sam, no ms seguinte, se ele estivesse de acordo,
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para dar ao vulo e ao espermatozide uma oportunidad melhor de se encontrarem, como ele disse.
Dito por ele tudo parecia muito simples e muito menos preocupante do que poderia ser.
Em seguida, ele fez-lhe um exame de rotina e recolheu a amostra para a anlise citolgica. Depois
de olhar para a sua ficha, perguntou-lhe h quanto tempo no fazia uma mamografia, porque no via
os resultados da do ano anterior e admitia que ela no a tivesse feito.
- H dois anos que no fao nenhuma.
Alex, contudo, nunca tivera quistos nem outros problemas quaisquer, e no havia histria clnica de
tais casos na sua famlia. Era um daqueles assuntos que no a preocupavam, embora fosse rigorosa
quanto ao exame citolgico anual. E havia muitas teorias sobre as mamografias na sua idade,
nomeadamente se haviam de ser feitas todos os anos ou de dois em dois anos.
- Devia fazer uma todos os anos - declarou Anderson em tom de repreenso. - Depois dos quarenta
anos, isso  importante.
Anderson pertencia  escola de pensamento anual. Apalpou-lhe os seios e no encontrou nada. Alex
tinha peito pequeno e amamentara Annabelle; o que em princpio eram boas notcias em relao ao
cancro da mama, e j lhe tinham dito que as hormonas que andava a tomar no aumentavam o risco
do cancro, o que ela considerara reconfortante.
- Quando  a sua prxima ovulao? - perguntou ele de repente, olhando para a ficha dela.
- Amanh ou depois de amanh - respondeu ela, naturalmente.
- Nesse caso, acho que devia fazer uma mamografia hoje. Se ficar grvida amanh, talvez s possa
fazer uma daqui a dois anos. No querer fazer nenhuma durante a gravidez e as mamografias no
so aconselhveis durante o perodo de aleitao. Quero mesmo que faa uma hoje, e depois
acabou-se. No teremos de pensar nisso durante um ano. Que tal?
Alex olhou para o relgio, sentindo-se ligeiramente enervada.
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Queria ir buscar Annabelle  escola, lev-la a casa para lanchar e depois acompanh-la a Miss Tilly.
- No devia. . . Tenho que fazer.
-  importante, Alex. Acho que devia arranjar tempo para isto.
Anderson pareceu-lhe invulgarmente firme, o que a deixou preocupada.
- Sentiu alguma coisa que a justifique? - perguntou-lhe, olhando-o directamente.
Ele apalpara-lhe os seios com muito cuidado, mas fazia-o sempre. Respondeu-lhe, abanando a
cabea.
- Nada. Mas no quero que tenha um problema mais tarde. No deve descuidar-se com as suas
mamografias, Alex. Elas so demasiado importantes. Por favor. Devia pensar nisso.
O mdico mostrava-se to insistente que Alex no teve coragem de ignor-lo, e ele tinha razo. Se
ela engravidasse naquele fim-de-semana, por muito improvvel que isso fosse, s poderia fazer uma
mamografia da a um ano ou dois; portanto, talvez fosse uma boa ideia faz-la naquele momento.
- Onde devo dirigir-me?
Anderson escreveu um endereo que ficava apenas a cinco quarteires dali. Alex poderia ir a p.
- O exame completo no lhe toma mais de cinco minutos.
- Do-me logo o resultado?
- Talvez no. Recolhem as pelculas para o mdico examinar quando chegar, e ele pode no estar.
Ele telefonar-me- para a semana e dar-me-  o resultado. E,  claro, eu telefonar-lhe-ei se houver
algum problema, mas estou certo de que no haver nenhum. Trata-se apenas de fazer boa
medicina, Alex.  sensato faz-lo.
- Eu sei, John.
Alex apreciava o seu cuidado, e era aborrecido ter de arranjar tempo, mas sabia que valia a pena.
Ligou a Carmen pelo telefone da secretria e pediu-lhe que fosse buscar Annabelle  escola. Disse
que iria a casa lanchar e que levaria a filha  aula de dana. Tinha uma coisa
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a fazer a caminho de casa. Carmen respondeu que no havia problema.
Alex saiu do consultrio do Dr. Anderson e desceu Park Avenue at chegar  Rua Sessenta e Oito,
que ficava entre Lexington e Park, e entrou num consultrio que lhe pareceu muito agitado. Na sala
de espera, estavam sentadas doze mulheres e vrios tcnicos apareciam  porta de vez em quando
para cham-las. Alex deu o nome  recepcionista e teve esperana de no estar muito demorada,
quando chegaram mais duas grvidas. Alex reparou que, com excepo de uma nica rapariga
relativamente jovem, a maior parte das mulheres era da sua idade ou mais velha.
Distrada, folheou uma revista, olhou para o relgio vrias vezes e, dez minutos depois de ter
entrado, uma mulher de bata branca apareceu  porta da sala de espera e chamou-a. Havia qualquer
coisa de brusco e de impessoal no modo como o fez; Alex, porm, foi atrs dela sem dizer uma
palavra. Havia algo de estranhamente invasivo no facto de se procurar uma doena noutra pessoa,
como se esta levasse uma arma escondida. Havia uma culpa implcita pelo facto de se estar ali, e
quando Alex desabotoou a blusa sentiu-se furiosa e assustada. Aquilo era aterrador. Quando a sua
mente comeou a pregar-lhe partidas e a convenc-la de que estava condenada, Alex tentou
convencer-se de que se tratava apenas de uma situao de rotina. Aquilo no era mais desagradvel
do que um exame citolgico. A nica diferena  que seria feito por desconhecidos e no por
pessoas suas conhecidas; alm disso, no havia diferena.
A mulher de bata branca ficou a seu lado enquanto ela
se despia, estendeu-lhe uma bata e ordenou-lhe que a deixasse aberta  frente, e no disse mais
nada. Apontou para um lavatrio e para umas toalhas e pediu a Alex que limpasse quaisquer restos
de desodorizante ou de perfume; depois apontou para uma mquina que estava a um canto. Parecia
uma grande mquina de radiografias, tinha um tabuleiro plstico e vrias chapas no meio. Depois de
se lavar na presena da outra mulher, Alex dirigiu-se para a mquina, ansiosa por acabar com
aquilo; a tcnica apoiou-lhe o seio no tabuleiro de plstico. Depois, fez descer lentamente a parte
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superior da mquina sobre o seio e comprimiu-o. A mulher apertou a mquina o mais que pde,
levantou-lhe o brao desajeitadamente, disse- lhe para suster a respirao, depois tirou duas
radiografias, repetiu o processo do outro lado e disse-lhe que era tudo. De facto, o exame fora muito
simples e mais incmodo do que doloroso. Seria conveniente saber logo o resultado; contudo, Alex
confiava que tudo estivesse bem quando telefonasse ao mdico na segunda-feira seguinte.
Saiu do consultrio to depressa como entrara, apanhou um txi para casa e chegou a tempo de ver
Annabelle acabar de lanchar e vestir-se para a aula de dana. Por qualquer motivo estranho, sentiu-
se melhor do que nunca por estar ali. No se podiam ignorar por completo as estatsticas que
obrigavam as mulheres a fazer mamografias todos os anos. Uma em cada oito ou nove mulheres
sofria de cancro da mama, consoante a origem das estatsticas. Mesmo depois de ter estado junto
delas, de ter feito o exame, Alex teve um calafrio e sentiu-se grata pelas bnos que a vida lhe
oferecia, como o facto de ir levar a filha a uma aula de dana. E no pde deixar de pensar na sua
boa sorte ao curvar-se para beijar os caracis ruivos de Annabelle, quando iam a sair de casa.
- Porque no foste buscar-me  escola? - perguntou Annabelle, em tom de queixume. O facto de a
me ir busc-la  escola s sextas-feiras era um ritual a que a criana estava habituada e que
adorava; por isso, ressentia-se se havia alguma alterao.
- Tive de ir ao mdico fazer um exame, e ele levou mais tempo do que eu pensava, querida.
Desculpa.
- Ests doente?
De repente, Annabelle mostrara-se preocupada e protectora para com a me.
- Claro que no - respondeu Alex, sorrindo. - Mas toda a gente tem de ir fazer exames mdicos,
mesmo as mams e os paps.
- Ele deu-te uma injeco?
Annabelle parecia intrigada, e Alex soltou uma gargalhada, abanando a cabea.
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- No, mas espalmaram-me a maminha como se fosse uma panqueca.
- Ainda bem.
A criana mostrou-se aliviada e comeou a saltar ao lado da me.
Em seguida, continuaram a caminho de Miss Tilly, sem novidade. Depois da aula, foram comprar
um gelado e voltaram para casa a p, devagar, a falarem do que iriam fazer no fim-de-semana.
Annabelle no estava muito entusiasmada com a ideia de ir ao jardim zoolgico. Apetecia-lhe ir 
praia nadar e Alex explicou-lhe que estava muito frio naquela poca do ano.
Quando chegaram a casa, Alex ps um filme no vdeo para ela ver e deitaram-se ambas na cama,
descontradas. Fora um longo dia. A preparao para o julgamento e a mamografia tinham-na
deixado esgotada; no entanto, sentia-se contente por estar em casa e repousar na companhia da
filha.
Nas tardes de sexta-feira, Carmen ia para casa cedo; Alex tinha o jantar pronto quando Sam chegou
a casa, mais tarde do que era costume, s sete horas. Alex j dera o jantar a Annabelle e Sam
preferiu esperar que a filha se deitasse, o que pareceu tambm uma boa ideia  mulher. s oito e um
quarto, estavam sentados na cozinha, a comer peixe cozido com batatas e salada e ele falava-lhe do
almoo que tivera com o ingls, que desta vez, o impressionara muito mais:
- Sabes, estou muito optimista em relao a ele. Acho
que estava a preocupar-me sem motivo. O Larry e o Tom tm razo. O tipo  um perito na matria e
pode arranjar-nos alguns negcios fantsticos no Mdio Oriente. No podemos ignorar uma coisa
destas, mesmo que ele seja um pouco fanfarro.
- E se ele no arranjar negcios no Mdio Oriente? perguntou Alex,  cautela.
- Vai arranjar. Havias de ver a lista de clientes que tem, s na Arbia Saudita.
- E eles vm atrs dele at c? - Alex fazia de advogada do diabo, mas Sam no se importava. Agora
sentia-se  vontade com o novo homem, e dera luz verde  deciso de ele vir a ser o quarto scio. -
Tens a certeza, Sam? Ontem
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estavas to preocupado com ele. Talvez devas confiar nessa intuio.
- Creio que estava a ser um pouco histrico. Honestamente, Alex, hoje estive a falar com o tipo
durante trs horas. Ele  mesmo bom. Eu sei. Vamos fazer milhes - declarou Sam, confiante.
- No sejas ganancioso - disse-lhe Alex, com um sorriso. - Isso significa que podemos comprar um
castelo no Sul de Frana?
- No, mas talvez uma vivenda em Nova Iorque e um terreno em Long Island.
- Ns no precisamos disso - respondeu ela, prontamente.
Sam sorriu. Tambm no precisava disso mas gostava de ser o menino- bonito do mundo financeiro.
Significava muito para ele. Gostava do aplauso que recebera por ser brilhante no domnio dos
capitais de risco. A sua reputao e o seu xito tinham um grande significado para ele, assim como
os seus lucros, e era por isso que Alex considerava que ele devia ser muito cauteloso em relao ao
novo scio. Todavia, confiava no julgamento do marido. E, se o ingls o convencera, ela estava
preparada para aceitar esse facto.
- Como correram as tuas reunies esta manh? - perguntou ele. - Est tudo preparado para o
julgamento da prxima semana?
Tambm ele se interessava pelo seu trabalho. At ao nascimento de Annabelle, fora o trabalho que
dera fora  vida de ambos em conjunto.
- Tanto quanto  possvel estar. Acho que vamos sair-nos bem. Espero que sim. O meu cliente
merece ganhar desta vez.
- Ele vai ganhar, se fores tu a defend-lo - retorquiu Sam, confiante.
Alex inclinou-se e beijou-o. Ficava to bonito de calas de ganga e de camisola vermelha! A seus
olhos, o marido estava cada vez melhor.
- A propsito, o que disse o Anderson?
- Pouca coisa. Voltmos a ponderar todas as hipteses. O Pergonal continua a assustar-me, o
Serophene continua a
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dar comigo em doida e ningum quer utilizar a fertilizao
in vitro numa mulher de quarenta e dois anos, embora ele diga que algumas o fazem. Falmos
acerca da doao de vulos, mas isso no me agrada nada e ele disse que poderamos
tentar a inseminao artificial com o teu esperma, para o
ms que vem. Ele afirma que isso, s vezes,  suficiente. Eu
no sabia o que pensavas disto - concluiu Alex, timida       mente.
Sam sorriu.
- Consigo viver com isso, se tiver de o fazer. Sei de
mtodos melhores do que brincar comigo prprio e ler revistas pornogrficas, mas, se isso der
resultado, vamos
tentar.
- s formidvel. Amo-te tanto.
Alex beijou-o e ele retribuiu o beijo com ardor. Ainda no tinham feito o teste naquela tarde;
portanto, no podiam ir longe de mais.
- E o que h acerca deste fim-de-semana?
- Ele diz que  possvel, sempre que o resultado do teste for azul. Ainda no foi, mas tenho a certeza
que ser amanh. Falta pouco. E ele obrigou-me a fazer uma mamografia, caso eu engravide.
Porque ele disse que, se eu engravidar, no poderia faz-la seno daqui a um ou dois anos. Foi
aborrecido, e tive de telefonar  Carmen a pedir que fosse buscar a Annabelle  escola, mas no teve
importncia. Parece-me tudo to estranho, mas de repente as pessoas tm maus resultados e isso
assusta-me imenso.
- Mas o resultado foi bom, no  verdade? De repente, Sam ficou inquieto, e ela sorriu para o
acalmar.
- Tenho a certeza que foi. Eles no o do logo. Telefonam ao mdico para a semana. S podem dar o
resultado se o radiologista estiver l, e ele no estava. Mas o Anderson verificou se eu tinha algum
caroo e eu no tinha. Foi apenas uma questo de rotina. De alta manuteno, como eles lhe
chamam.
- Isso di?
Sam parecia curioso e um pouco assustado.
- No. Espalmam o seio numa mquina, o mais i que
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podem, e tiram radiografias. A situao tem algo de desagradvel, mas no sei bem porqu.
Sentimo-nos vulnerveis e estpidas. No consegui ficar  espera. Nunca me senti to feliz na
minha vida quando vi a Annabelle. Creio que isto  para me lembrar que as coisas podem correr
mal, que as coisas acontecem a toda a gente e que temos muita sorte quando no somos ns os
visados. Estes avisos assustam muito.
- Esquece. No te vai acontecer uma coisa dessas - disse ele, peremptrio, ajudando-a a levantar a
mesa.
Beberam um pouco de vinho, viram um filme na televiso e foram para a cama mais cedo do que
era costume. Ambos tinham tido uma semana difcil, e Alex queria descansar um pouco antes de
iniciar o perodo frtil, no fim-de-semana. E, tal como imaginara, o resultado do teste foi azul no dia
seguinte. F-lo antes do meio-dia e disse-o em voz baixa a Sam, depois de um pequeno-almoo
tardio. Carmen levou Annabelle para o parque; Sam e Alex foram para a cama e fizeram amor. Alex
ficou deitada mais de uma hora, com o abdmen assente em almofadas. Lera algures que isso
poderia ajudar e estava disposta a tentar quase tudo. Ainda estava sonolenta e satisfeita quando Sam
voltou para a amimar, pouco antes da hora de almoo.
- Vais passar o dia na cama? - perguntou ele para a arreliar, passando-lhe os lbios pelo pescoo e
provocando-lhe um arrepio de prazer.
- Com este tipo de incentivo, talvez fique.
- Quando voltamos a brincar?
Sam estava to ansioso como ela.
- Amanh, a qualquer hora.
- Podemos tentar outra vez esta tarde? - perguntou ele com voz rouca. - Creio que precisamos de
praticar mais.
Alex riu-se quando ele a beijou. Ambos sabiam que no deveriam faz- lo seno no dia seguinte.
- De qualquer modo, vamos concentrar-nos em fazer um beb - segredou- lhe Sam, que em seguida
foi tomar duche e vestir-se, enquanto Alex ficava a dormir mais um pouco.
Dez minutos depois, foi ter com ele ao duche, e Sam foi apanhado de surpresa e ficou excitado por
senti-la atrs de
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si. Custava-lhes no poderem fazer amor outra vez. A tentao era grande e sempre tinham gostado
do corpo um do outro. De vez em quando, tinham dificuldade em retrair-se, s para manter o
chamado nmero de espermatozides.
- Talvez devssemos esquecer tudo isto e voltarmos a ser fanticos do sexo. - disse-lhe ele ao
ouvido, encostando-se a ela no duche, sentindo a gua quente a escorrer- lhes pela pele e a cair em
cacho nas bocas de ambos, enquanto ele a beijava. - Amo-te tanto.
- Eu tambm - disse ela, vida, sentindo a pulsao acelerada dele no seu estmago. - Sam. Eu
quero-te.
- No. No. No. - proferiu ele, excitando-a, com a voz rouca, enquanto deixava que a gua fria
casse com fora sobre os dois. Alex deu um grito, apanhada de surpresa, depois soltou uma
gargalhada e ambos saram do duche.
Vestiram calas de ganga e sentaram-se tranquilamente a tomar um caf e a ler o jornal na cozinha.
Entretanto, Carmen e Annabelle chegaram a casa. Carmen fez o almoo para todos, e Sam e Alex
levaram Annabelle para o parque, naquela tarde.  noite foram todos jantar ao J. G. Melon. Era
engraado fazer aquilo de vez em quando, nos fins-de-semana. No domingo, foram andar de
bicicleta no parque, e Sam ps Annabelle no pequeno assento atrs do seu, enquanto davam a volta
ao reservatrio. Estava um dia bonito e quente e, no domingo  tarde, todos concordaram que o fim-
de-semana fora perfeito.
Assim que deitaram Annabelle e se certificaram de que ela estava a dormir, Sam fechou a porta do
quarto  chave e, devagarinho, despiu Alex at esta ficar diante dele como uma flor comprida e
elegante, um lrio perfeito e requintado. Fez amor com ela como antes fizera, com toda a fora da
sua necessidade, do seu desejo e da sua paixo. Alex era uma mulher que despertava muitas coisas
nele, todas as coisas que o faziam am-la e desej-la mais. s vezes, tinha a sensao de que no
era possvel am-la mais, mas havia sempre um impulso, um momento, uma comporta que se abria
algures e que os inundava a ambos com os seus prprios sentimentos.
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- Bem. Se depis disto, eu no ficar grvida, desisto. - segredou ela com voz dbil, deitada, com a
cabea dele no seu peito, enquanto ele lhe acariciava os seios com uns dedos inebriantes.
- Amo-te, Alex - declarou ele com ternura, voltando-se para observ- la. Era to bonita! To
perfeita! Sempre fora.
- Tambm te amo, Sam. Amo-te mais. - insistiu ela. Ele sorriu e abanou a cabea.
- No  possvel.
Beijaram-se mais uma vez e deixaram-se ficar na cama, entrelaados, sem saber se continuava a ser
importante fazer um beb.

CAPTULO 4
Na segunda-feira de manh, Alex levantou-se antes de Annabelle e de Sam; quando foi acord-los,
j estava vestida, e o pequeno-almoo j se encontrava na mesa. Como de costume, ajudou
Annabelle a vestir-se, mas Sam prometera lev-la  escola. Tinha uma montanha de coisas para
fazer e os pormenores finais a preparar para o julgamento de quarta-feira. Alm disso, havia uma
reunio marcada com Matthew Billings para trocarem impresses sobre vrios casos. Brock Stevens
iria trabalhar com ela durante todo o dia, alm de dois estagirios.
-  possvel que eu chegue tarde a casa - explicou ela a Sam, e ele compreendeu, mas Annabelle
ficou triste quando a me lho disse.
- Porqu? - perguntou ela, com os grandes olhos verdes voltados para os da me. Detestava que ela
chegasse a casa tarde, e Alex tambm no gostava.
- Tenho um julgamento para preparar, querida. Tenho de ir ao tribunal, falar com o juiz.
- No podes falar com ele pelo telefone?
Annabelle estava desolada; Alex sorriu-lhe, beijou-a e abraou-a e prometeu-lhe vir para casa o
mais cedo que pudesse.
- Eu telefono-te quando chegares da escola. Passa bem o dia, querida, e diverte-te. Prometes?
Alex pegou-lhe no queixo e voltou a carinha adorvel para si. Annabelle fez um sinal afirmativo,
fitando a me com os seus olhos enormes.
- E o meu fato da Noite das Bruxas?
- Vou tratar disso hoje, prometo.
s vezes, sentia-se to dividida entre a vida familiar e
a carreira profissional! E perguntou a si prpria como seria se tivesse dois filhos em vez de um;
porm, havia muitas outras pessoas que conseguiam conciliar tudo isso.
Vestiu o casaco e saiu de casa sem fazer barulho.
Eram apenas sete e meia da manh. quela hora, a viagem
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de txi foi rpida. Chegou ao emprego s sete e quarenta e cinco e sentiu um pequeno aperto no
corao ao lembrar-se que Annabelle e Sam estavam a tomar o pequeno-almoo sem ela. Por volta
das oito horas, j estava embrenhada no trabalho, e Brock Stevens acabara de lhe trazer o caf. E, s
dez e meia, tinha a certeza de que estariam bastante bem preparados para defender Jack Schultz na
quarta-feira seguinte.
- Como est tudo o resto? - perguntou ela a Brock, distrada, enquanto consultava uma lista de
outros projectos em que precisava de trabalhar.
Ele j se ocupara da maior parte deles, mas ela tivera vrias ideias novas durante o fim-de-semana.
E estava precisamente a transmiti-las a Brock quando Elizabeth Hascomb, hesitante, abriu a porta
do gabinete e espreitou. Assim que a viu, Alex abanou a cabea e fez-lhe sinal para que no
entrasse. No queria interrupes. Tinha o telefone desligado e j avisara Liz que no entrasse nem
a interrompesse.
 porta, Liz hesitou, apesar do olhar firme de Alex; Brock voltou-se para trs.
- H algum problema?
Talvez fosse uma emergncia, mas Alex ficou muito aborrecida com a interrupo.
- Liz, eu pedi-lhe que no nos interrompesse. O seu tom foi mais duro do que era habitual, pois Alex
estava sob uma enorme presso.
- Eu sei. Eu. Peo muita desculpa, mas. - desculpou-se Liz, da soleira da porta.
- Aconteceu alguma coisa  Annabelle ou ao Sam? Por instantes, Alex ficou aterrada, mas Liz
abanou rapidamente a cabea e sossegou-a. - Ento, no quero ouvir. Alex voltou-se outra vez,
totalmente disposta a ignor-la.
- O doutor Anderson telefonou. Duas vezes. Pediu-me para a interromper.
- O Anderson? Pelo amor de Deus. - Naquele momento, Alex ficou mesmo aborrecida. O mdico
dissera que lhe telefonaria acerca da mamografia, em qualquer caso, e devia ter telefonado a
sosseg-la. Mas pedir que a interrompessem era uma verdadeira imposio. - Ele pode esperar.
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Eu telefono-lhe quando fizermos um intervalo para almoar, se o fizermos. Caso contrrio,
telefono-lhe mais tarde.
- Ele disse que queria falar consigo esta manh. Antes do meio-dia.
J eram onze e meia, e Liz estava a ser importuna. Con tudo, o Dr. Anderson insistira que era
importante e que valia a pena aborrecer Alex. Por isso, Liz levara  letra as palavras dele e
mantivera-se firme na transmisso da mensagem. Alex no parecia nada satisfeita. Tinha a certeza
de que o telefonema era apenas uma questo de rotina e no valia a pena incomodar toda a gente.
Por instantes, ao olhar para Liz, perguntou a si prpria se no seria uma m notcia; porm, a ideia
era to inconcebvel que a preocupao voltou a dar lugar  irritao.
- Telefono-lhe quando puder. Obrigada, Liz - respon deu, decidida, e voltou  lista que explicava a
Brock.
- Porque no lhe telefona, Alex? Deve ser importante para ele, caso contrrio no pediria  Liz que a
interrom pesse.
- No seja parvo. Temos trabalho a fazer.
- Eu podia ir tomar mais um caf. E trago-lhe outro tambm, enquanto lhe telefona. Tenho a certeza
de que no se demora mais do que dois minutos.
Alex preparava-se para resistir; era bvio que Liz encheria toda a gente e que ningum conseguiria
trabalhar enquanto ela no telefonasse ao mdico.
- Oh, pelo amor de Deus! Isto  ridculo. Est bem: Traga-me um caf bem tirado, por favor. Daqui
a cinco minutos, voltamos a ver-nos.
Eram onze e trinta e cinco; s onze e quarenta, Brooc e os estagirios saram do gabinete. Estavam a
perder tempo precioso. Tinham de trabalhar. Alex viu-os fechar a porta e apressou-se a telefonar ao
mdico, ansiosa por despachar a conversa.
A recepcionista atendeu e prometeu ligar de imediato ao Dr. Anderson. A espera pareceu-lhe
interminvel, no s porque tinha outras coisas para fazer como tambm porque ficara nervosa de
repente. E sefosse uma m notcia? Sentia-se tola ao pensar nisso, mas era possvel. O destino j
dominara outras pessoas antes dela.
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- Alex?
O Dr. Anderson estava do outro lado da linha e parecia-lhe to atarefado como ela.
- Ol, John. O que h de to importante?
- Gostava que passasse por aqui  hora do almoo, se pudesse.
A voz dele no dava nada a entender.
-  impossvel. Tenho umjulgamento daqui a dois dias e uma srie de coisas para fazer. Estou no
emprego desde as sete e quarenta e cinco da manh e talvez no saia daqui seno s dez da noite.
No podemos falar pelo telefone?
- Prefiro que no. Acho que devia vir c ter comigo.
Bolas! O que significava aquilo? Alex apercebeu-se de repente de que tinha a mo a tremer.
- H algum problema? - Nem conseguia pronunciar a palavra. Contudo, sentia-se obrigada a isso. -
 a mamografia?
No tinha inchaos. Portanto o que poderia ser? O mdico hesitou.
- Gostaria de falar consigo - disse, por fim. Era bvio que ele no queria faz-lo pelo telefone e, de
sbito, Alex teve medo de obrig-lo.
- De quanto tempo precisa? - perguntou ela, olhando para o relgio e tentando avaliar o tempo de
que dispunha.  hora do almoo, at o trnsito estaria contra ela.
- Meia hora? Gostava de falar um pouco consigo. Pode vir j? Acabei de ver a minha ltima doente
da manh. Tenho uma mulher no hospital e uma outra a comear o trabalho de parto. Esta seria a
melhor altura.
- Estarei a daqui a cinco ou dez minutos - disse ela, sucinta, levantando-se e preparando-se para
desligar.
O seu corao comeara de repente a bater com fora. No podia ser coisa boa. Naquele momento,
porm, Alex queria saber, fosse o que fosse. Talvez tivessem confundido o resultado dela com o de
outra pessoa qualquer.
- Obrigado, Alex. Serei o mais breve que puder.
- At j.
Alex passou por Liz a correr, com a carteira e o casaco na mo, e Brock e os outros ainda no
tinham voltado.
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- Diga-lhes que vo comer qualquer coisa. Eu volto daqui a quarenta e cinco minutos.
Ia a meio caminho do elevador quando Liz lhe gritou do corredor:
- Sente-se bem?
- Estou bem. Encomende-me uma sanduche de peru.
Quando Liz a viu desaparecer no vestbulo, perguntou a si prpria se ela no estaria grvida. Sabia
que Alex e o marido queriam ter mais filhos, e John Anderson era o obstetra
de Alex.
Alex, contudo, sabia muito bem que no era essa a razo, quando ia no txi, aflita, sem saber qual o
motivo por que ele lhe telefonara. Tinha de ser a mamografia; de repente, lembrou-se. No era a
mamografia, era o exame citolgico! Merda! Tinha talvez um cancro no colo do tero. Como iria
ficar grvida agora? No entanto, algumas das suas amigas tinham feito tratamentos  base de
tcnicas de congi lao e de raios laser aplicados a situaes pr- cancerosas e haviam conseguido
engravidar. Talvez no fosse to mau como temia. S queria saber se no corria perigo de vida e se
ainda podia engravidar.
O txi chegou ao consultrio num tempo recorde e Alex correu para a sala de espera. Aguardavam-
na; fizeram-lhe si nal para que entrasse de imediato no gabinete do mdico. Este estava de fato, em
vez da bata branca, e fez-se inesperadamente srio quando a viu.
- Ol, John, como est?
Alex estava um pouco sem flego, com a pressa e com a ansiedade, e sentou-se numa cadeira, sem
tirar o casaco.
- Obrigado por ter vindo. Mas eu achei que devia. Queria falar consigo pessoalmente.
-  o exame citolgico? - perguntou ela, sentindo a pulsao acelerar-se outra vez. As palmas das
mos estavam hmidas quando se agarrou  cadeira.
Ele abanou a cabea.
- No, no .  a mamografia.
No podia ser! Ela no tinha caroos, nem inchaos, nem problemas. Ento, o mdico ps uma
pelcula no vdeo.
Apontou para uma, tirada de frente, e depois colocou a
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pelcula com uma perspectiva lateral. Tudo aquilo parecia
muito misterioso a Alex, como se fosse um mapa meteorolgico de Atlanta. Em seguida, Anderson
voltou-se para ela,
com uma expresso dolorosa e importante.
- H aqui uma massa - disse ele, apontando para uma
        mancha que Alex s reconheceu por ele a ter assinalado.  muito grande e bastante
profunda. Pode ser vrias coisas,
mas eu e o radiologista estamos muito preocupados.
- O que quer dizer com isso? Que podem ser vrias coisas?
De repente, Alex ficou totalmente confusa com o que ele
estava a dizer. Era como se, de sbito, no conseguisse ouvir o que ele dizia. Por que razo havia
uma massa profunda no seu peito? O que era e como l fora parar?
- H vrias hipteses. Mas uma massa deste tamanho, a
esta profundidade, nesta zona, nunca  boa coisa, Alex. Estamos convencidos de que tem um tumor.
- Oh, meu Deus! - No era para admirar que ele no
quisesse dizer-lhe nada pelo telefone e tivesse insistido em v-la e que Liz a interrompesse. - O que
significa isto?
Alex empalideceu, a voz fraquejou-lhe e por instantes
julgou que ia desmaiar, mas forou-se a resistir.
- Precisa de fazer uma bipsia, o mais depressa possvel. No decorrer da prxima semana, seria o
ideal.
- Daqui a dois dias, tenho um julgamento. No posso
faz-lo seno depois de o julgamento acabar.
Era como se ela tivesse esperana de que aquilo desaparecesse nessa altura; porm, ambos sabiam
que isso no aconteceria.
- Mas a Alex no pode fazer isso.
- No posso abandonar o meu cliente. Est a dizer-me
que uns dias faro assim tanta diferena?
Alex estava aterrada. O que estava ele a dizer-lhe? Que
 ela estava a morrer? Esse pensamento e o terror que se apoderara dela fizeram-na estremecer.
- Poucos dias no faro necessariamente muita diferena - admitiu ele,  cautela -, mas no pode
permitir que isto se
 arraste. Precisa de escolher um cirurgio e de fazer uma bipsia o mais depressa possvel. Depois,
ter de ver o que ele lhe recomenda, com base nas concluses dos patologistas.
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Oh, Deus! Era tudo to complicado e assustador,
to feio!
- O John no pode fazer a bipsia?
De sbito, Alex parecia em desespero e muito assustada. Sentia-se to vulnervel como receara
sentir-se quando fora ao laboratrio de mamografia e comeou a entrar em pnico. E agora
acontecera o pior, ou quase. Estava a acontecer. Estava a passar diante dela como um filme de
terror.
- Eu no fao bipsias. A Alex precisa de um cirurgio. Ento, ele tirou uma folha de papel da
secretria e Alex apercebeu-se de que j ali estava h meia hora; de repente toda a sua vida se
alterara e ela ainda no estava preparada para sair.
- Escrevi-lhe aqui os nomes de alguns mdicos muito bons, uma mulher e dois homens. Tem de
falar com eles e de ver qual prefere. So todos excelentes cirurgies.
Cirurgies!
- No tenho tempo para isso. - Alex desatou a chorar, contrafeita. Era tudo to aterrador que ela
parecia esmagada e surpreendentemente indefesa. Sentia-se dividida entre a raiva e o terror.
- No tenho tempo para ir  procura de um mdico. Tenho um julgamento e no posso descartar- me
dele assim de repente. Tenho responsabiliddes.
De sbito, parecia histrica, mesmo aos seus prprios ouvidos, mas no conseguia controlar-se. Em
seguida, levantou a cabea e olhou para ele com um verdadeiro terror.
- Acha que  maligno?
-  possvel. - Anderson quis ser honesto com ela. Pela pelcula, aquilo no tinha bom aspecto. -
Pode muito bem ser. Ou pode estar a enganar-nos. S saberemos quando fizer a bipsia, mas 
importante que a faa depressa, para
se poder traar um plano de aco.
- O que significa isso?
- Significa que se a bipsia for positiva, a Alex ter de tomar algumas decises sobre a evoluo do
tratamento.
O seu cirurgio avis-la-, evidentemente, mas algumas decises tero de ser suas.
- Refere-se a eu tirar ou no o peito?
66
Alex estava aterrorizada e fez a pergunta com uma voz
estridente.
- No vamos adiantar-nos neste caso. Ainda no sabemos nada, no  verdade?
Anderson tentava ser meigo para ela; contudo, estava a
piorar a situao. Ela queria enfrent-la naquele momento, queria que ele lhejurasse que aquilo no
seria maligno. Mas ele no podia fazer uma coisa dessas.
- Sabemos que eu tenho uma massa profunda no peito
e o John est preocupado. Isso pode significar que eu vou
 perder um peito, no  verdade?
Ela tinha-o no banco das testemunhas e mostrava-se implacvel.
- Sim, pode - respondeu ele, tranquilamente. Tinha
muita pena de Alex. Sempre gostara dela, e aquilo era um
golpe terrvel para qualquer mulher.
- E depois?  assim? Tira-se o peito e no h mais problemas?
-Talvez, mas no necessariamente. No  assim to
simples. Quem me dera que fosse, mas no . Vai depender
do tipo de tumor que tem, da extenso da malignidade, se
ela existir, e da natureza do envolvimento. Vai depender do facto de os seus gnglios linfticos
estarem afectados, quantos, e se a doena se estendeu a outras partes do seu corpo. Alex, no h
respostas simples. Pode precisar de cirurgia extensiva, pode precisar de uma ablao do tumor, pode
precisar de um tratamento de quimioterapia ou de radiaes. No sei. No posso dizer-lhe nada
antes de fazer a bipsia. E no me interessa que esteja ocupada. Arranje tempo para ir falar com
esses cirurgies. Tem de ir.
- Quando?
 V ao seu julgamento se  obrigada a isso, se for apenas uma questo de uma ou duas semanas,
mas conte fazer a
bipsia dentro de quinze dias, acontea o que acontecer.
E depois falaremos.
- Qual o que prefere nesta lista?
Alex estendeu-lha, Anderson examinou-a e devolveu-lha
 tranquilamente.
- So todos excelentes, mas eu gosto do Peter Herman.
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 muito bom homem e muito eficiente. No se preocupa apenas com a cirurgia e com as bipsias. 
muito humano para um cirurgio.
- ptimo - concordou Alex, ainda atordoada. Amanh telefono-lhe.
- Porque no esta tarde?
Anderson estava a for-la mas queria faz-lo; no desejava que ela se desculpasse com o trabalho
ou se recusasse.
- Eu depois telefono-lhe. - Foi ento que teve um pensamento racional, no momento em que olhou
para ele. Era como se tivesse um peso de cinco mil quilos aos om bros. - E se eu engravidar esta
semana? E se eu engravidar e tiver um tumor maligno?
- Logo veremos se isso acontecer. Saber se est grvida mais ou menos quando souber o resultado
da bipsia.
- E se eu tiver um cancro e ficar grvida? A sua voz estridente revelava nervosismo. E se ela
engravidasse e tivesse de sacrificar o beb?
-Teremos de estabelecer prioridades. A Alex  mais importante.
- Oh, meu Deus! - Alex escondeu o rosto nas mos e pouco depois levantou a cabea e olhou para
ele outra vez. Acha que as hormonas que estou a tomar esto relacionadas com isto?
Aquele pensamento aterrorizou-a ainda mais. E se ela estivesse a matar-se ao tentar engravidar?
- Honestamente, creio que no. Telefone ao Peter Herman. V ao encontro dele o mais depressa
possvel e vamos fazer a bipsia assim que a Alex puder, dentro dos limites do possvel.
Parecia-lhe um plano razovel. E agora tinha de ir
para casa e dizer a Sam que surgira uma massa na sua mamografia. Ainda no podia acreditar. Mas
ela estava l. Vira na pelcula e na expresso do olhar de John Anderson. Este parecia desolado
quando ela se levantou e olhou para ele; h quase uma hora que estava a falar com ele.
- Desculpe, Alex, Se houver alguma coisa que eu possa fazer, no hesite em telefonar-me. Diga-me
qual o cirugio que escolher e tratarei de tudo a partir da.
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- Vou comear pelo Peter Herman.
O mdico entregou-lhe a mamografia para ela poder
mostr-la ao cirurgio que escolhesse. A simples palavra cirurgio parecia-lhe horrvel; quando saiu
e sentiu a atmosfera outonal pareceu-lhe que levara um soco no estmago.
No conseguia acreditar no que ouvira, ou acontecera.
        Levantou o brao e chamou um txi, tentando no se
lembrar de tudo o que ouvira a respeito de mastectomias e
de ablaes de tumores. Algumas mulheres j no podiam
levantar o brao e outras tinham morrido de cancro. Tudo o que o mdico lhe dissera misturou-se de
sbito na sua mente e, a caminho do emprego, nem sequer chorou. Sentou-se e
olhou em frente, sem conseguir acreditar no que ele lhe dissera.
Quando voltou para o gabinete, j toda a equipa l estava
sentada, Liz e Brock, o oficial de justia e os dois estagirios. Estavam  espera dela, e Liz
encomendara-lhe uma sanduche de peru em po de trigo. Alx no conseguiu com-la. Ficou de p,
a olhar para eles, e Brock reparou que ela
 estava lvida; ningum disse nada. Atiraram-se ao trabalho at s seis horas. S mais tarde, quando
estavam a recapitular, depois de todos se terem ido embora,  que Brock se atreveu a fazer a
pergunta.
- Sente-se bem? - perguntou-lhe,  cautela. Alex estivera toda a tarde muito perturbada e o seu rosto
mostrava
uma palidez mortal desde que voltara do consultrio mdico. Alm disso, ele reparara mais de uma
vez que as mos
lhe tremiam ao passar-lhe os documentos.
- Estou bem. Porqu?
Alex tentou mostrar-se descontrada, mas no conseguiu.
Ele era mais esperto do que ela julgava, mas no quis pression-la.
- Est com um ar cansado. Talvez esteja a esticar demasiado a corda, Mistress Parker. O que disse o
mdico?
- Oh, nada. Foi uma perda de tempo. Precisava apenas
de entregar-me os resultados de uns testes, e nunca querem faz-lo pelo telefone. Foi ridculo. Podia
t-los enviado pelo correio e poupava-nos tempo.
Brock no acreditou numa palvra do que ela disse; no
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entanto pareceu-lhe que fora importante para ela dizer aquilo. Esperava apenas que no fosse nada
de grave. Se fosse, o facto de ela ter um julgamento da a dois dias no a ajudaria nada. Faria tudo o
que pudesse por ela, mas Alex  que era
a advogada do processo e sobre ela  que recaa toda a presso. Competia-lhe fazer todas as
alegaes e a maior parte
dos preparativos. No se atreveu a perguntar-lhe se ela estava  altura de acompanhar o processo,
pois sabia que ela consideraria a sua pergunta um insulto.
- Vai para casa?
Brock esperava bem que sim, pois ainda tinha trabalho dela para fazer, para o julgamento; via uma
pilha de dossiers
em cima da sua secretria e no previa que a tarde de trabalho fosse curta.
- Ainda tenho umas coisas a fazer, para outros clientes. Naquela tarde, Alex conseguiu responder a
todos os telefonemas mas no teve tempo de telefonar a Peter Herman; ou ento foi o que disse a si
prpria ao pensar no assunto: Tencionava telefonar-lhe na manh seguinte.
- Posso ajud-la nalguma coisa? Tem de ir para casa descansar - insistiu ele: Ela, porm, estava
decidida a ficar a acabar o trabalho.
Brock voltou para o gabinete, e Alex telefonou para casa para falar com Annabelle, que estava
aborrecida por a me no lhe ter telefonado  hora do almoo.
- Disseste que telefonavas - repreendeu ela, fazendo Alex sentir-se culpada no mesmo instante.
Esquecera completamente, depois da ida inesperada ao mdico.
- Eu sei, querida. Tencionava faz-lo mas fiquei presa numa reunio com muita gente e no pude.
- Est bem, mam.
A criana continuou a contar-lhe o que fizera naquela tarde, com Carmen. E, ao escutar as
historietas entusiasmadas
da filha, Alex quase teve cimes. Detestava ainda mais ter de dizer-lhe que iria trabalhar at tarde.
De repente, o facto de no estar junto dela era o que mais lhe custava.
- Posso ficar  tua espera? - perguntou Annabelle, ansiosa, quando Alex suspirou, rezando para que
as manchas que tinha no peito no fossem cancro.
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- Eu chegarei muito tarde. Mas vou dar-te um beijinho.
Prometo. E amanh de manh acordo-te.  s esta semana e
na prxima, e depois voltaremos a almoar e a jantar juntas.
- Esta semana levas-me  aula de dana?
Annabelle estava mesmo a perturb-la, e Alex perguntou
a si prpria onde estaria Sam.
- No posso, lembras-te? J falmos nisso. Esta semana
e na prxima vou falar com o juiz. No posso ir levar-te  aula de dana.
- No podes pedir ao juiz que te deixe ir?
- No, querida. Quem me dera! Onde est o pap? J
chegou a casa?
- Est a dormir.
- A esta hora?
Eram sete horas. Como podia ele estar a dormir?
- Estava a ver televiso e adormeceu. A Carmen diz
que ele vai ficar  tua espera.
- Deixa-me falar com ela. E, Annabelle... - De repente, os olhos encheram-se-lhe de lgrimas ao
pensar na filha,
 naquele rostozinho de fada, nos grandes olhos verdes, nas sardas e nos cabelos ruivos. E se Alex
morresse? E se Annabelle perdesse a me? O simples facto de pensar nisso estrangulou-lhe a voz,
ao ponto de no conseguir falar seno da a pouco, dizendo em voz baixa: - Adoro-te, Annabelle...
- Eu tambm te adoro, mezinha. At logo.
- Bons sonhos.
Em seguida, Carmen veio ao telefone e Alex disse-lhe
que podia sair assim que Annabelle se deitasse. Bastava-lhe acordar Sam e avis-lo de que se ia
embora.
- Custa-me acord-lo, Mistress Parker. Eu fico c at a
senhora vir para casa.
- Eu irei muito tarde, Carmen. Sinceramente, avise-o
apenas quando quiser sair. Ele acorda.
- Est bem, est bem. Quando vem para casa?
- Talvez s por volta das dez. Tenho muito que fazer
no escritrio.
Quando desligou, Alex ficou sentada a olhar para o telefone, a pensar em todos eles, como se j os
tivesse perdido.
Era como se houvesse uma sombra entre ela e eles, naquele
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dia. Eles estavam vivos e ela podia estar a morrer. No era impossvel. Era inacreditvel.
Continuava a pensar que devia ser engano. Ela no estava doente, no tinha um tumor. Tinha apenas
uma sombra escura numa radiografia. Mas uma sombra escura que Anderson admitira que podia
mat-la, se fosse maligna. Era inacreditvel. Na vspera tentava engra vidar e no dia seguinte a sua
vida estava em perigo. E as hormonas que tomara na semana anterior faziam com que lhe fosse
ainda mais difcil manter a compostura. Faziam com que tudo parecesse mais preocupante e mais
alarmantte. Alex tentou convencer-se de que o terror que sentia no era real, que era apenas uma
consequncia das hormonas.
Brock veio ter com ela s nove horas e reparou que Alex ainda no comera a sanduche que tinha
em cima da secretria desde a hora do almoo. Passara o dia a beber cafs e agora estava a beber
um grande copo de gua.
- Vai adoecer, se no comer -- disse ele, num tom de repreenso, com um ar preocupado.
Alex estava com um aspecto ainda pior. Tinha um tom de pele quase acinzentado.
- No tive fome. A verdade  que me esqueci de comer. Tambm estive muito atarefada.
- Essa  uma m desculpa. No beneficiar o John Schultz se adoecer antes ou durante o
julgamento.
- Sim, isso  verdade - retorquiu ela, distrada, fitando-o em seguida com um ar preocupado. -
Aposto que conseguia substituir-me, Brock, se fosse preciso.
- Nem pensar nisso. A Alex  a advogada que eles querem.  para isso que lhe pagam.
Fora exactamente o que dissera ao mdico naquela tarde quando atalhara que no podia fazer a
bipsia seno depois do julgamento. As pessoas dependiam dela... E depois lembrou-se de
Annabelle e de Sam e foi obrigada a afastar as lgrimas outra vez. O seu mecanismo estava a
fraquejar e, de repente, Alex sentiu-se dominada por tudo o que acontecera. A mamografia estava
num sobrescrito em cima da secretria, mas o que ela vira gravara-se-lhe na mente para sempre.
- Porque no vai para casa? - perguntou ele com
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doura. - Eu acabo isso. Tem tudo muito mais controlado do que pensa. Confie em mim.
Ele foi meigo e simptico e, uma hora depois, Alex resolveu ir para casa. Estava demasiado cansada
para funcionar racionalmente ou para fazer um trabalho inteligente. Era como se tivesse sido
atropelada por um veculo pesado. Pela primeira vez, em anos, no levou a pasta para casa. Brock
reparou, mas no lhe disse nada. E, ao v-la sair, teve pena dela. Era bvio que algo correra mal. Ela
nunca se mostrara to estranha; ele, porm, no a conhecia o suficiente para lhe perguntar ou para se
oferecer para ajud-la.
Alex encostou a cabea ao banco do txi e pareceu-lhe que ela era uma bola de bowling, to pesada
que j no a conseguia levantar. No conseguia. E, quando chegou a casa, pagou o txi e
encaminhou-se para o prdio, sentindo-se muito velha. No elevador, perguntou a si prpria o que
iria dizer a Sam. Seria uma notcia terrvel para ele, para todos. Uma mamografia com um mau
resultado no era coisa que se aceitasse de nimo leve, e as estatsticas do cancro da mama
bailavam-lhe no crebro. Nem sequer conseguia imaginar como diria ao marido.
Sam estava a ver televiso na sala de estar quando ela entrou, e sorriu-lhe assim que a viu. Estava
de calas de ganga e com a camisa branca que levara para o emprego. A gravata ainda se encontrava
em cima da mesa.
- Ol, como foi o teu dia? - perguntou ele, bem-disposto, estendendo os braos para ela.
Alex sentou-se em peso no sof, ao lado dele. De sbito, teve de reprimir as lgrimas mais uma vez.
ao v-lo, o terror regressou. No conseguia suportar aquilo.
- Parece que o dia foi mau. - Sam lembrou-se das hormonas que ela estava a tomar. - Oh, pobre
querida, esses malditos comprimidos esto outra vez a tornar-te hipersensvel? Talvez no devesses
tom-los.
Alex tinha de fazer frente quilo e ao julgamento. Sam puxou-a para si e ela agarrou-se-lhe como se
estivesse a afogar-se.
- Pareces abatida - disse ele, compreensivo, quando Alex olhou para ele e enxugou os olhos. Ele
tinha razo. Os
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comprimidos estavam a agravar a situao. Ou no? - Deves estar a dar em doida antes do
julgamento.
- E estou. Foi um dia diablico - admitiu ela, deitando-se no sof a seu lado, exausta.
- Detesto diz-lo, mas tens aspecto disso. Comeste? Alex abanou a cabea.
- No tive fome.
- Muito bem. Achas que consegues engravidar se morreres de fome? Anda. Vou fazer-te uma
omeleta.
Dizendo isto, Sam tentou obrig-la a levantar-se.
- No consigo comer. A srio. Estou em baixo. Porque no vamos para a cama?
Alex no queria mais nada. Queria ir ver Annabelle e deitar-se ao lado dele, enquanto pudesse. Para
sempre.
- H algum problema?
De repente, Sam interrogou-se a si prprio porque estaria ela assim. Parecia pior do que era
costume, mesmo antes de um julgamento, e no lhe respondera ao entrar no quarto de Annabelle em
bicos de ps. Ficou ali muito tempo, a olhar para a filha, e depois ajoelhou-se e beijou-a. Em
seguida, foi para o quarto. Sam observou-a, preocupado, quando Alex comeou a despir-se e deixou
a roupa em cima da cadeira depois de vestir a camisa de noite. Nem sequer teve foras para tomar
um duche nem para se pentear. Lavou os dentes, meteu-se na cama e fechou os olhos, sabendo que
teria de dizer-lhe.
- Querida, o que se passa? Aconteceu alguma coisa
no emprego? - tentou ele de novo, deitando-se a seu lado. Ela tomava o trabalho muito a peito, e, se
houvesse alguma coisa que tivesse molestado algum cliente, Alex ficaria atormentada como parecia
estar naquele momento. Porm, foi rpida a abanar a cabea e a neg-lo.
- O Anderson voltou a telefonar-me hoje - respondeu em voz baixa.
- E? - perguntou ele, observando-a.
- E eu fui ter com ele  hora do almoo.
- Porqu? No descobriste que ests grvida, pois no? Tinham-se passado apenas dois dias, e Sam
sorriu. Ela estava to ansiosa por ter um beb!
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Alex hesitou muito, torturando ambos; detestava ser obrigada a pronunciar as palavras, ao dizer-lhe,
e a transform-las em realidade. Detestava fazer aquilo a todos. Mas sabia que tinha de ser.
- H uma mancha na minha mamografia. Disse aquilo como se fosse um dobre a finados, mas Sam
mostrou-se muito menos impressionado do que ela.
- E ento?
- Pode significar que eu tenho um tumor.
- Pode. Isso significa que eles no sabem nada. E que os marcianos podem aterrar em Park
Avenue  meia-noite. Mas
iro aterrar? No  provvel. Talvez seja igualmente provvel que a tua sombra seja um tumor.
Agradou-lhe o modo como Sam pusera a questo. Devolveu-lhe a confiana no seu prprio corpo
que, nas ltimas doze horas, parecia t-la trado. Mas talvez no. Talvez Sam tivesse razo. Talvez
ela estivesse apenas a exagerar.
- Eles no sabem nada. Talvez seja apenas o que parece, e nada mais do que isso. Uma sombra.
- O Anderson quer que eu v falar com um cirurgio e que faa uma bipsia. Deu-me trs nomes
para eu telefonar, mas no tenho tempo antes do julgamento. Pensei em telefonar amanh a um
deles a perguntar se pode receber-me  hora do almoo. De outro modo, ter de ficar para depois do
julgamento - disse ela, com um ar preocupado.
- Ele disse que isso faria diferena?
- No, mas disse que eu deveria faz-la rapidamente, admitiu Alex, sentindo-se melhor do que
durante todo o dia.
- Evidentemente, mas no  caso para entrares em pnico. Quase sempre esses indivduos se
protegem a si prprios, no querem ser processados e portanto dizem-te o
pior, no caso de ser verdade, para tu no poderes dizer que eles no te avisaram. E depois, se as
notcias so boas, todos
ficam satisfeitos. Nunca tm em considerao o mal que fazem ao pregar um susto de morte a
algum. Pelo amor de Deus, Alex, tu s advogada e devias saber isto. No deixes que esses tipos te
assustem!
Alex olhou para ele com um sorriso, sentindo-se de sbito aliviada e tonta, e ele sorriu-lhe. Sam no
estava em pnico.
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No estava convencido de que ela fosse morrer. No estava agarrado a ela, nem a ser
melodramtico. Enquadrava devidamente a situao. E, de repente, Alex percebeu que ele tinha
razo. Nem John Anderson queria arriscar-se a ser processado.
- O que achas que devo fazer?
- Vai ao julgamento e faz a bipsia com tempo, mantm-te calma e no permitas que esses palhaos
te assustem. Aposto contigo os lucros do meu prximo negcio que a tua sombra  apenas isso. E
nada mais. Olha para ti, s a mulher mais saudvel que conheo. Ou pelo menos serias se comesses
de vez em quando e dormisses um pouco.
S de falar com ele, naquele momento, Alex j se sentia melhor e mais aliviada. Ele era inteligente,
mantinha a cabea fria e talvez tivesse razo. Talvez fosse apenas um susto e no um tumor.
Alex sentiu-se incomensuravelmente melhor quando apagaram a luz naquela noite, e apenas um
pouco preocupada quando acordou na manh seguinte. Por instantes, lembrou-se de que algo
terrvel acontecera na vspera e teve aquele tipo de pressentimento de quando se est no meio de
uma catstrofe. Contudo, assim que despertou, lembrou-se de tudo o que Sam lhe dissera e sentiu-se
melhor outra vez. Fez questo de ir acordar Annabelle e de ir sent-la na cozinha enquanto
preparava o pequeno-almoo. At tinha uma lista dos fatos com que ela poderia mascarar-se. Liz
fizera uma prospeco na vspera. Tinham uma abbora, uma princesa, uma bailarina e uma
enfermeira, todos do tamanho de Annabelle, que escolheu logo o da princesa. Era exactamente
aquilo que ela sonhara.
- Oh, mam, adoro-te! - exclamou ela, agarrando-se  cintura da me.
- Eu tambm - disse Alex, sorrindo e abraando-a com um brao, enquanto lhe fazia as panquecas.
De sbito, sentiu que estava a comemorar qualquer coisa. Era como se j se tivesse libertado de um
fardo muito pesado. Annabelle sentia- se feliz e Sam convencera-a de que a mancha que os mdicos
tinham visto era um falso alarme: queria acreditar nele de todo o corao. E dessa vez, quando
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saiu para o emprego, jurou que telefonaria a Annabelle  hora do almoo.
Deixou-a outra vez com Sam e beijou-o com fervor, agradecendo-lhe o facto de a ter sossegado na
noite anterior.
- Devias ter-me telefonado para o emprego. Eu ter-te-ia logo dito isso.
- Eu sei. Acho que exagerei. Foi estpido.
No entanto, qualquer pessoa teria feito o mesmo. Alex despediu-se de ambos com um beijo e foi a
correr para o emprego. Brock j estava de novo  sua espera com o resto da equipa. Alex teve uma
reunio com Matthew Billings e s s onze e um quarto  que se lembrou de telefonar ao cirurgio
que o Dr. Anderson lhe recomendara.
Uma enfermeira perguntou-lhe qual o motivo do telefonema e Alex explicou que era sobre uma
bipsia, no momento em que Brock veio ao seu gabinete buscar um dossier. Esperava que ele se
despachasse e assim aconteceu, embora no tivesse fechado a porta. Mas talvez, se Sam tivesse
razo, isso no fosse importante.
Pouco depois, o Dr. Peter Herman surgiu na linha e pareceu-lhe muito srio e pouco simptico. Ela
falou-lhe da sombra na mamografia e disse que o Dr. Anderson ficara preocupado e que a
aconselhara a ir ter com ele.
- Eu j falei com ele - explicou Peter Herman. - Ele telefonou-me esta manh. Vai precisar de fazer
uma bipsia, Mistress Parker. Logo que possa! Creio que o doutor Anderson lho disse.
- Sim, disse. - Alex tentou manter a calma que Sam lhe        transmitira na noite anterior, mas era
mais difcil perante um desconhecido. Sentia-se ameaada por ele e por tudo aquilo que ele
representava. - Mas eu sou advogada e amanh comeo um julgamento. No posso fazer nada
durante os prximos oito ou dez dias. Estava a pensar ir consult-lo depois disso.
- Isso seria uma deciso muito imprudente - retorquiu ele com brusquido, negando tudo o que Sam
lhe dissera, ou talvez confirmando-o. Provavelmente estava apenas a defender-se, disse Alex a si
prpria. Mas o mdico advertiu:Porque no vem hoje ter comigo e depois veremos o que h
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a fazer? E se for preciso, poderemos marcar a bipsia para oito dias depois da prxima segunda-
feira. Isso convm-lhe?
- Sim. Bem. Isso seria. Mas. Hoje tenho muito que fazer. O meu julgamento comea amanh.
Ela j lhe dissera aquilo, mas sentia-se de novo desesperada e muito assustada.
- Hoje s duas horas? - O mdico foi implacvel, e ela sentiu-se incapaz de discutir com ele. A
princpio fez um sinal afirmativo e depois concordou em estar no consultrio dele s duas da tarde.
Felizmente, o consultrio no era longe. - Quer trazer uma amiga?
A pergunta surpreendeu-a.
- Porqu?
Ele tencionaria mago-la ou deix-la incapaz de tomar conta de si prpria? Porque iria ela ao
mdico com uma amiga?
-H mulheres que ficam muito confusas quando se confrontam com situaes dificeis e com muitas
informaes.
- Est a falar a srio? - Se o caso no fosse to chocante, Alex teria dado uma gargalhada. - Eu sou
advogada. Todos os dias lido com situaes dificeis e talvez com mais informhaes do que o
senhor lida durante um ano.
No ficara satisfeita com o seu comentrio.
- As informaes com que lida, em geral, no dizem respeito  sua sade. At os mdicos tm
dificuldade em encarar os seus prprios casos malignos.
- Ainda no sabemos se o meu caso  maligno, pois no?
- Tem toda a razo, no sabemos. Vejo-a s duas horas.
Alex queria dizer que no, mas sabia que no devia faz-lo.
- Ento, at logo - disse ela, desligando, furiosa com
ele.     A sua reaco devia-se em parte s hormonas e em parte
ao facto de o mdico ser o portador potencial de ms notcias, e Alex temia-o profundamente. Assim
que desligou, telefonou a uma das suas estagirias e confiou-lhe uma tarefa invulgar. Deu-lhe os
trs nomes que o Dr. Anderson lhe
indicara e pediu-lhe que se informasse sobre a sua reputao.
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- Quero saber tudo acerca deles, de bom e de mau, e o que os outros mdicos pensam. No sei bem
a quem h-de telefonar, mas fale a toda a gente,  Sloan Kettering,  Columbia Presbyterian, s
faculdades de medicina onde eles do aulas. Telefone a toda a gente. E por favor no diga a
ningum que est a fazer isto para mim. Entendido?
- Sim, Mistress Parker - respondeu a estagiria com brandura. Era a melhor colaboradora de Alex, e
esta sabia que ela conseguiria a informao desejada.
Duas horas depois, a estagiria j tinha as informaes sobre Peter Herman. Alex ia a sair quando a
rapariga entrou depressa e lhe disse que ele tinha fama de ser frio para com os doentes, mas que era
o melhor em termos de cirurgia. Havia ainda outra coisa. De um dos hospitais para onde telefonara,
e um dos mais ilustres, tinham-lhe dito que ele era extremamente conservador, mas que era um dos
maiores especialistas em operaes ao seio que havia no pas. Quanto aos outros, as primeiras
impresses revelavam que eles eram quase to bons como ele, mas no exactamente iguais, e que
eram ainda mais desagradveis para os doentes do que Peter erman. Ambos tinham fama de serem
uma espcie de vedetas do mundo da medicina. Herman gostava de lidar com os outros mdicos e
no com os doentes, e era talvez por isso que John Anderson gostava dele.
- Pelo menos, sabe o que est a fazer, apesar de no ser o cmulo do encanto - comentou Alex, que
agradeceu  estagiria e lhe pediu que continuasse a recolher informaes sobre os outros. Quando
ia no txi a caminho do consultrio, perguntou a si prpria o que lhe diria ele acerca da sombra na
mamografia. Naquele momento, j tinha uma gama de opinies, a de Sam, que era optimista, e a de
John Anderson, que era muito mais assustadora e que Sam afirmara ser absurda. Gostava muito
mais da de Sam.
Infelizmente, Peter Herman no partilhava da avaliao que Sam fizera da situao. Disse-lhe que a
zona de sombra que se via era claramente um tumor profundo, numa zona e com uma configurao
que quase sempre correspondiam a um
caso maligno. Naturalmente, no poderiam ter a certeza antes de fazer a bipsia, mas a sua
experincia indicava-lhe
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que iriam encontrar um tumor e que no seria benigno. Depois, dependeria da fase em que se
encontrava, do grau de infiltrao, se era um receptor positivo ou negativo para hormonas e se havia
metstases. O mdico foi frio e natural e o cenrio que pintou no era bom.
- O que significar tudo isso?
- No sei seno quando l chegarmos. Na melhor das hipteses, teremos de fazer a ablao do
tumor. Se no, talvez queira seguir um percurso mais extremo, o que corresponde a fazer uma
mastectomia radical.  o nico modo seguro que temos de certificar-nos de que a senhora elimina a
doena, consoante o estado do tumor, evidentemente, e a extenso do envolvimento.
Mostrou-lhe um mapa que no significava nada para si e que tinha nmeros e letras abrangendo
uma srie de possibilidades, todas elas totalmente confusas.
- A mastectomia  o nico processo capaz de eliminar a doena? - perguntou ela com a voz
estrangulada, apercebendo-se de que ele tinha razo. Estava totalmente confusa e sentia-se estpida.
J no era a advogda que estava ali, apenas a mulher.
- No necessariamente - respondeu ele. - Pode querer fazer radiaes ou quimioterapia. Mais uma
vez, isso depender de outros factores do momento e da extenso do envolvimento.
Radiaes ou quimioterapia? E uma mastectomia radical? Porque no se limitavam a mat-la? No
era que estisse muito enamorada dos seus seios, mas a ideia de ficar completamente desfigurada e
gravemente doente com a quimioterapia ou com as radiaes dava-lhe vontade de vomitar. Onde
estava Sam naquele momento, com os seus prognsticos optimistas e avisos acerca dos cirurgies
que temiam serem malvistos. Alex j nem se lembrava. O que Herman dizia era muito mais real e
to aterrador que nem conseguia pensar.
- Qual ser a sequncia exacta?
- Vamos marcar-lhe uma bipsia. Preferia que a fizesse com uma anestesia geral, porque a massa 
profunda. Depois, a senhora ter de tomar uma deciso.
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- Eu?
- Claro. Ter de fazer certas opes depois de bem informada. H vrias opes neste domnio da
medicina. Ter de tomar algumas decises, pois nem todas me competem.
- Porqu? O senhor  que  o mdico.
- Porque h opes a fazer, que envolvem mais ou menos riscos, e mais ou menos desconforto.
Trata-se do seu corpo e da sua vida, em ltima anlise, e a senhora tambm tem de tomar decises.
Mas, com deteces precoces como esta, eu sugiro quase sempre uma mastectomia.  uma opo
muito mais sensata e segura. Poder sempre recorrer  cirurgia reconstrutiva uns meses depois, para
lhe devolver aaparncia do seu seio, se assim o desejar.
Era como se ele estivesse a falar de voltar a montar um
guarda-lamas num automvel e no um seio no seu corpo. E Alex no sabia, mas fora a sua
preferncia por mastctomias que valera a Herman a fama de conservador.
- O senhor faria a bipsia e a mastectomia no mesmo dia?
- Em geral, no. Mas, se preferir essa modalidade, 
possvel. A senhora parece ser uma mulher muito ocupada e isso poupar-lhe-ia tempo, se estiver
preparada para confiar-me essa deciso. Podemos combinar isso previamente, na eventualidade de
encontrarmos determinadas coisas. Teramos de preparar tudo com cuidado.
Claro, para evitar um processo, pensou Alex lembrando-se de Sam. Depois lembrou-se de outra
coisa.
- E se eu ficar grvida nas prximas semanas?
- Isso  possvel?
O mdico mostrou-se surpreendido, e Alex sentiu-se ligeiramente ofendida. Julgaria ele que ela era
velha de mais para ter filhos? Que s tinha idade para ter tumores?
- Tenho andado a tomar medicamentos para tentar engravidar.
- Nesse caso, eu aconselh-la-ia a abortar, se estivesse
grvida, e a prosseguir o tratamento. No pode permitir que uma coisa como esta se prolongue por
oito ou nove meses. O seu marido e a sua famlia precisam de si, Mistress Parker, mais do que de
outro beb. - Era tudo to frio e to simples, como a lmina de um bisturi. Alex ainda no acreditava
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no que estava a ouvir. - Gostaria de sugerir que marcssemos a sua bipsia para oito dias depois da
prxima
segunda-feira e antes viria ter comigo para falarmos das opes.
- No me parece haver muitas. Ou terei entendido mal?
- Receio que no, pelo menos nesta fase. Primeiro, temos de ver o que tem a. Depois, podemos
decidir o que fazer. Mas deve ter conhecimento de que a minha preferncia vai quase sempre para a
mastectomia em caso de cancros precoces. Eu quero salvar-lhe a vida, Mistress Parker, mais
do que o seu seio. E, se tiver um tumor maligno profundo no peito, talvez seja muito mais seguro, e
melhor, tir-lo agora. Depois, ser demasiado tarde.  uma postura conservadora, mas  a que se
tem mostrado mais fivel h vrios anos. Algumas das opes mais recentes e mais arriscadas
podem ser desastrosas. Fazer uma mastectomia numa fase precoce pode ser muito mais seguro.
Gostaria de iniciar uma sequncia agressiva de quimioterapia quatro semanas depois da operao.
Isto pode parecer-lhe assustador, mas daqui a seis ou sete meses estar livre da doena, espero que
para sempre.  claro que no lha posso recomendar neste momento. Teremos de ver o que nos diz a
bipsia.
- Eu ainda poderia. - Alex mal conseguia pronunciar a frase, mas sabia que tinha de faz-lo.
Sobretudo, visto ter sido to pronto a sugerir um aborto se ela estivesse grvida. - Eu poderia
engravidar depois disso?
O mdico hesitou, mas no por muito tempo. J lhe tinham feito aquela pergunta, embora em geral
fossem mulheres mais novas. Aos quarenta e dois anos, a maior parte das mulheres estava mais
interessada em salvar a vida do qem ter filhos.
-  possvel. H uma taxa de esterilidade de cinquenta
por cento depois da quimioterapia. Mas  um risco que teramos de correr, evidentemente. No a
fazer seria muito arriscado.
Muito arriscado? O que significava aquilo? Morreria se no fizesse quimioterapia? Parecia um
pesadelo.
- Ter tempo para pensar em tudo isto durante o julgamento.
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E gostaria que fizesse a marcao logo que possvel. Vou tentar encaix-la o melhor que puder. Sei
pelo John Anderson que a senhora  uma advogada muito ocupada.
O mdico quase esboou um sorriso, mas recuou; Alex perguntou a si prpria se aquele seria o lado
humano a que John Anderson se referira. Se assim era, parecia-lhe muito pequeno em comparao
com o tcnico e o cientista de sangue-frio que ele demonstrava ser quase sempre, quando no estava
a ser humano.
Herman assustou-a mortalmente com as suas glidas explicaes factuais, mas Alex sabia da sua
excelente reputao. Precisava de um bom cirurgio se tivesse um tumor maligno. E poderia contar
com Sam para a animar.
- H mais alguma coisa que eu deva explicar-lhe? perguntou ele, surpreendendo-a com a pergunta.
Alex s conseguiu abanar a cabea. Aquilo fora pior do que o que ouvira na vspera, e ele
dominara-a por completo. J se imaginava sem o seio e a fazer quimioterapia. Isso queria dizer que
iria perder o cabelo? No conseguiu perguntar-lhe. Conhecia mulheres que tinham passado por isso
e que usavam cabeleiras postias ou o cabelo muito curto. Sabia o que toda a gente sabia: que se
fizesse quimioterapia perderia o cabelo. Era apenas mais uma afronta a juntar a uma lista de terrores
que crescia rapidamente.
Saiu do consultrio atordoada e, quando regressou ao seu gabinete, nem sequer sabia ao certo qual
era o aspecto fsico do mdico. Lembrava-se de que passara uma hora com ele, mas de repente o
rosto dele desvanecera-se, assim como quase tudo o que ele dissera, excepto as palavras tumor e
malignidade, mastectomia e quimioterapia. O resto era uma mancha indistinta de sons e de rudos.
- Sente-se bem? - Brock entrou no seu gabinete logo a seguir e ficou chocado ao ver de novo o
aspecto dela. No est doente, pois no?
Talvez ela j estivesse doente, na opinio dos mdicos. Parecia incrvel. Sentia-se bem, no lhe doa
nada, no estava doente, e eles afirmavam que ela talvez tivesse um cancro. Um cancro. Ainda no
conseguia acreditar. Nem Sam.
Naquela noite, quando chegou a casa, contou-lhe tudo o
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que o Dr. Herman dissera; Sam afastou tudo outra vez, com a mesma insistncia tranquila e fcil.
- Garanto-te, Alex, que esses indivduos esto a proteger-se de algum problema eventual.
- E se no estiverem? E se for verdade? Este tipo  o maior cirurgio neste domnio. Porque havia
ele de mentir-me s para se proteger?
- Talvez tenha uma hipoteca grande sobre a casa, talvez precise de tirar muitos caroos todos os dias
para lhe fazer face. Sei l! Tu foste consultar um cirurgio, e ele no te vai mandar para casa nem
dizer para tomares uma aspirina. Bolas, no! Vai dizer-te que precisa de tirar o teu tumor. E, se no
houver mais nada, vai assustar-te o mximo, para se proteger, no caso de teres a qualquer coisa, o
que eu no acredito nem por um momento.
- Ests a dizer que ele est a mentir-me? Que faria uma mastectomia mesmo que eu no tivesse um
cancro?
Cancro. Naquele momento pronunciavam aquela palavra como pronunciavam Kleenex, ou
microndas. Era uma palavra horrvel que se tornara parte do seu vocabulrio quotidiano, e Alex
detestava ouvi-la, sobretudo quando a pronunciava.
- Achas que este tipo  um charlato?
Naquele momento, Alex no sabia o que pensar, e a atitude de Sam estava a dar com ela em doida.
- Talvez no. Talvez seja basicamente responsvel, de contrrio o Anderson no to teria
recomendado. Mas no podes confiar em qualquer pessoa, e muito menos nos mdicos.
-  o mesmo que dizem dos advogados - concluiu de mau humor.
- Querida, no te preocupes. Talvez no seja nada. Ele vai fazer um cortezinho no teu peito e
descobre que h l
natas batidas, cose e diz que esqueas o assunto. Entretanto no te descontroles.
Sam estava to satisfeito que, de certo modo, isso ainda a deixava mais nervosa.
- E se ele tiver razo? Ele diz que massas como esta, assim to profundas, so quase sempre
malignas. E se forem
mesmo?
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Alex continuava a tentar que ele percebesse o que estava
a acontecer, mas ele no via.
- No  um tumor maligno - insistiu Sam, obstinado. - Confia em mim.
E recusou-se absolutamente a ouvir o que ela dizia. Parecia estar a proteger-se das realidades com
optimismo e bom humor. O facto de manter que nada iria acontecer-lhe f-la sentir-se s, de
repente, e embora quisesse desesperadamente acreditar nele no conseguiu. A nica coisa que ele
fizera fora abalar a sua confiana tanto no Dr. Anderson como no Dr. Herman. Por isso, no segundo
dia do julgamento, Alex aproveitou um breve intervalo para telefonar a um dos outros mdicos que
Anderson lhe recomendara.
Era uma mdica, mais nova, que publicara alguns artigos, mas que era igualmente respeitada e tinha
fama de conservadora tal como o Dr. Herman. Chamava-se Frederica Wallerstrom, e aceitou receber
Alex no dia seguinte, antes do julgamento, s sete e meia da manh. Quando Alex foi ao seu
encontro, desejou que a Dra. Wallerstrom fosse a soluo de todos os seus problemas. Desejava que
ela fosse cuidadosa e meiga, que lhe dissesse que os seus medos eram imfundados e que seria mais
do que provvel que o tumor fosse benigno, e que nenhum dos horrores que ouvira se aplicaria a
ela. Porm, a Dra. Wallerstrom mostrou-se extremamente firme, no disse nada enquanto
examinava Alex e depois as pelculas e, quando falou, o seu olhar era frio e o rosto desprovido de
emoo.
- Eu diria que o doutor Herman foi muito rigoroso
com a sua avaliao. Nunca podemos fazer afirmaes categricas, nesta fase. Mas inclino-me para
que seja um tumor maligno. - A mdica no mediu as palavras nem se preocupou com a reaco de
Alex. Ao escutar aquela mulher de cabelo grisalho e curto e de mos fortes como as de um homem,
Alex sentiu as mos hmidas e as pernas comearem a tremer-lhe. - Podemos estar enganados,
evidentemente, mas vamos ganhando uma certa intuio para estas coisas - concluiu ela friamente.
- E, se for maligno, o que recomenda, doutora Wallerstrone? - perguntou Alex, tentando lembrar-se
de que, naquele
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caso, era a consumidora que estava a ouvir aquela mulher, e que ainda tinha opes a fazer. Sentiu-
se indefesa, ignorante e descontrolada como uma criana quando a outra
a fitou com indiferena.
- H quem advogue a ablao dos quistos,  claro, em quase todas as circunstncias, mas
pessoalmente creio que esses riscos so muitas vezes inadequados e que essa deciso pode vir a ser
desastrosa. Uma mastectomia  a forma mais segura de garantir que a doena foi eliminada, aliada 
quimioterapia, na maioria dos casos, evidentemente. Eu sou conservadora - afirmou a mdica, com
firmeza, afastando a outras escolas sem hesitaes, por muito respeitadas ou vlidas que fossem as
suas teorias. - Sou adepta das mastectomias. A senhora pode fazer outras coisas. Pode optar pela
ablao e pelas radiaes. Mas, se  uma mulher ocupada, qual  o realismo dessa opo? No ter
tempo e poder vir a arrepender-se mais tarde. Poupar o seio agora pode vir a revelar-se um erro
enorme mais tarde. Pode arriscar,  claro. A escolha  sua. Mas, por mim, concordo inteiramente
com o doutor Herman.
No s concordava com ele, como parecia no ter nada a acrescentar, nem afecto, nem simpatia,
nem compaixo por Alex como mulher. Quando muito, era ainda mais fria que o Dr. Herman. E
embora Alex quisesse simpatizar com ela, por se tratar de uma mulher,  falta de outros motivos,
gostava ainda menos dela e estava desejosa de sair do consultrio e de apanhar ar fresco. Era como
se estivesse a sufocar com tudo o que a Dra. wallerstrom lhe dissera.
Alex chegou ao tribunal s oito e um quarto e ficou escandalizada ao ver como a mdica passara to
pouco tempo com ela quando estava em causa um assunto grave, talvez ele fosse grave apenas para
si prpria. Para todos os
outros, era uma situao muito vulgar. Uma opo fcil, livrar-se do seio e do problema. Era tudo
to simples, aos olhos dos mdicos, mas no do doente. Para eles, era
questo de teorias e de estatsticas. Para Alex, era a supresso do seu seio e do seu futuro. E
nenhuma das opes era satisfatria.
Ficou desapontada ao aperceber-se de que, pelo facto
de ter recolhido uma segunda opinio, no ficara mais certa
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do que iria acontecer-lhe, nem mais segura sobre o resultado ou sobre as opes a fazer. De certo
modo, tivera esperana de que a Dra. wallerstrom atenuasse todos os seus receios e lhe dissesse que
toda a gente exagerava e se comportava de uma forma irracional. Em vez disso, s aumentara os
medos de Alex e fizera-a sentir-se ainda mais s e assustada. A bipsia teria de ser feita, a situao e
o tumor teriam de ser analisados e a ltima deciso teria de ser dela e do cirurgio. Ainda havia a
possibilidade, claro est, de o tumr ser benigno; mas, depois de tudo o que lhe haviam dito nos
ltimos dias, essa hiptese parecia cada vez mais improvvel. At a recusa jovial de Sam em
acreditar no pior lhe parecia ostensivamente absurda, naquele momento. E com a sua recusa
inflexvel em discutir com ela as hipteses que se apresentavam, com as presses impostas pelo
julgamento e pelo tratamento para a fertilidade ao qual sabia estar ainda a reagir, Alex sentira-se 
beira da loucura durante toda a semana. Era como se caminhasse debaixo de gua. A nica coisa
que a impedira de perder o juzo por completo fora o apoio incrivelmente forte de Brock durante o
julgamento. Pareceu-lhe um milagre quando os jurados absolveram Jack Schultz de tudo o que o
queixoso pretendia. Negaram tudo ao queixoso, e Jack devia ter-lhe agradecido mil vezes.
Ojulgamento durou apenas seis dias e terminou s quatro horas de uma quarta-feira. O facto de ter
ganho fora a nica coisa boa que lhe acontecera.
Alex deixou-se ficar sentada na sala de audincias, esgotada, mas com um ar satisfeito, e agradeceu
a Brock toda a sua ajuda. Tinham sido os dez dias mais difceis da sua vida, mais difceis do que os
outros imaginavam, e o trabalho de equipa fora extraordinrio.
- Eu no teria conseguido isto sem a sua ajuda - disse ela, delicadamente, e estava a ser sincera. Os
ltimos dias tinham sido mais devastadores para ela do que ele imaginava.
- O mrito  seu - contraps ele, olhando-a com adrao. -  um prazer observ-la na sala de
audincias. tal como um bailado de grande qualidade ou uma cirurgia de preciso. No falha nada,
uma malha, um passo, uma inciso ou uma sutura.
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- Obrigada.
Alex estva a embalar os dossiers com a ajuda dele,
e as suas palavras lembraram-lhe que tinha de telefonar ao
Dr. Herman. V-lo outra vez era aterrador e faltavam j
cinco dias para a bipsia. Sabia tanto como dantes, excepto
que a sua consulta com a Dra. Wallerstrom confirmara
o diagnstico de Peter Herman. Sam recusara-se literalmente a
voltar a trocar impresses com ela acerca do assunto.
Sabia do que se tratava, de um grande burburinho a respeito de qualquer coisa que nunca iria
acontecer. Alex esperava que ele
tivesse razo, mas de momento ele parecia ser o nico a
pensar assim.
Tentou sentir-se vitoriosa com o julgamento e
Schultz enviara-lhe uma garrafa de champanhe que ela levou
para casa, mas no tinha vontade de comemorar nada. Estava nervosa, deprimida e muito assustada
com a segunda-feira seguinte.
Um dia depois do julgamento, voltou ao consultrio
de Peter Herman, e dessa vez ele no teve contemplaes. Disse-lhe inequivocamente que, se um
tumor to grande e
profundo fosse maligno, ela teria de submeter-se a
uma mastectomia radical e a quimioterapia extensiva, e que
era prefervel encarar a situao. Explicou-lhe que tiniha
opes. Podia fazer a bipsia, como era habitual, e depois
voltaria a discutir com ele as opes. Ou podia assinar
um documento de autorizao antes da bipsia, que permitiria
ao mdico fazer o que fosse necessrio depois da bipsia.
Isso equivalia a submeter-se a uma anestesia geral, e no
a duas, e a confiar totalmente nele. Herman explicou-lhe
que era mais vulgar o processo decorrer em duas fases, mas
apercebera-se de que Alex queria fazer uma nica operao.
A nica complicao seria uma eventual gravidez. E
acentou que, quer ela estivesse grvida quer no, compreenderia perfeitamente se ela preferisse
seguir o processo em duas fases.
No entanto, tal como acontecia com a ablao do tumor
ou a mastectomia, tinha de ser ela a tomar a deciso. Tinha de escolher se queria fazer a bipsia
sozinha ou em articulao com a operao. Para Alex, enquanto falava com
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ele, parecia-lhe mais simples fazer tudo de uma vez, em vez de
prolongar a agonia e voltar de novo ao hospital para fazer a
mastectomia, se o tumor fosse maligno. Confiava no
Dr. Herman para tomar a deciso acertada, depois de feita a bipsia ao tumor. E j fizera a opo
mais dificil aps ter
consultado a Dra. wallerstrom. Embora a perspectiva de fazer apenas a ablao do tumor fosse
muito tentadora, visto
que lhe salvaria o seio, vencera a hiptese mais segura, que era a de elimin-lo totalmente. As duas
hipteses foram acaloradamente debatidas por dois respeitados cirurgies; contudo, era evidente
qual a que Peter Herman preferia e, por
muito que lhe custasse, Alex resolveu seguir a sugesto do mdico. J dera o seu acordo 
mastectomia radical que ele
lhe descrevera, se o tumor fosse maligno. E tambm  quimioterapia, se ele a considerasse
necessria. Porm, tomariam a deciso mais tarde.
No entanto, a verdadeira agonia para ela era o que faria
se estivesse grvida. Sabia que tinha de falar a Sam e a Annabelle mas tambm sabia como seria
difcil, se no impossvel, desistir de um beb. O Dr. Herman explicara-lhe muito claramente,
enquanto ela o observava, que durante os
primeiros trs meses de gravidez as mastectomias tinham
preferncia sobre as ablaes dos tumores, devido  inevitabilidade das radiaes. Fazer uma
ablao do tumor implicava automaticamente a necessidade de submeter-se a radiaes. No caso de
uma mastectomia, se fosse aconselhvel a
quimioterapia, isso provocaria quase de certeza um aborto
espontneo. Teria o mesmo efeito no segundo trimestre e,
portanto, se a quimioterapia fosse necessria, seria mais do
que provvel que mataria o beb. S no terceiro trimestre  que poderiam permitir-se esperar e tratar
do cancro depois
de o beb nascer.
O mdico afirmou honestamente que, na sua opinio
quase no havia hiptese de que a massa fosse benigna. J vira muitos tumores como aquele.
Esperava, para bem dela,
que ele no estivesse infiltrado, ou que no existissem metstases, e que no tivesse atingido os
gnglios linfticos.
E tambm esperava, evidentemente, que no fosse mais do
que um tumor no estdio I. Alex sentiu outra vez que o
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mdico se desvanecia  sua frente e fez um esforo para escut-lo e compreender o que ele dizia.
Gostava que Sam estivesse a seu lado, mas o marido obstinava-se em negar que houvesse um
problema e ela nem se lembrara de lho pedir.
- E quanto  gravidez? - perguntou o Dr. Herman antes de ela sair. - Qual  o grau de probabilidade?

A situao poderia afectar algumas decises tomadas por ambos.
- De momento, no sei - respondeu ela, tristemente, No saberia ao certo seno no fim-de-semana
seguinte.
- Gostaria de ser aconselhada antes da bipsia? - perguntou ele, revelando mais uma vez o seu lado
humano, que era diminuto e que raramente se via, mas pelo menos era uma tentativa. - Sobretudo
no caso de querer fazer tudo de uma s vez e de o tumor ser maligno, talvez queira fa lar com uma
terapeuta, ou com outras mulheres que j passaram pelo mesmo. Em geral, recomendamos grupos
de duas pessoas, mas s mais tarde. Do uma ajuda extraordinria.
Alex olhou para ele com um ar desolado e abanou a cabea.
- No tenho tempo. Especialmente se for obrigada a ausentar-me do emprego durante vrias
semanas.
Alex tinha de encarar todas as hipteses e j pedira a Matt Billings que a substitusse, alm de ter
passado muito do seu trabalho a Brock. Sabia que ele se sairia bem. Porm no dissera a nenhum
deles para onde ia. Referira apenas que tinha um problema de sade que precisava de ser
solucionado, e que isso poderia levar dois dias ou duas semanas; eles mostraram-se preparados para
aceitar a situao e para ajud-la tanto quanto possvel. Brock disse que esperava que no fosse
nada de grave, e Matthew nem sequer pensou nisso; perguntou-lhe se ela ia fazer uma operao
plstica ao nariz ou tratar dos olhos. A sua mulher fizera uma no ano anterior, mas ele considerava
que Alex no precisava de fazer nada disso, embora estivesse convencido de que todas as mulheres
eram um pouco manacas com a aparncia. Ela tinha um aspecto to saudvel que nunca lhe passara
pela cabea que ela pudesse ter um problema grave.
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        - Quando pensa que poderei regressar ao trabalho? -          perguntou Alex ao mdico, com
frontalidade.
- Talvez dentro de duas ou trs semanas, consoante o
 modo como reagir. E depois,  claro, depende do modo como reagir  quimioterapia. Comearemos
aproximadamente
quatro semanas depois da operao. Algumas mulheres reagem bem, outras tm problemas.
Para ele, tratava-se j de um dado adquirido. Ela tinha
um cancro, o seio ia ser extirpado e ela ia fazer quimioterapia. Talvez Sam tivesse razo, e o mdico
fosse apenas uma fbrica que tirava quistos para pagar a renda da casa, mas era difcil imaginar
qualquer coisa dessas. A avaliar pelas palavras de Peter Herman, era muito mais fcil acreditar que
ela tinha um problema grave.
O mdico queria que ela fosse ao hospital naquele fim-de-semana para fazer anlises ao sangue e
uma radiografia
ao peito, e tinham falado da hiptese de ela dar o seu prprio sangue, visto haver pouco tempo. O
mdico, porm,
informou-a tambm de que era raro as mastectomias radicais exigirem transfuses e que, se fosse
necessrio, depois da operao, ele telefonaria para o seu consultrio para se arranjarem dadores do
seu tipo de sangue. Para alm disso, no havia mais nada a dizer at segunda-feira. Pediu-lhe que o
avisasse durante o fim-de-semana, no caso de estar grvida, e ela prometeu telefonar-lhe. Pouco
depois, Alex saiu do consultrio, sentindo-se sem vida.
Voltou ao emprego, onde passou o resto da tarde. Naquela noite, jantou com Annabelle e com Sam,
e s Carmen
reparou como ela estava calada e distante. Alex no falou a Sam da sua ida ao Dr. Herman seno
muito mais tarde;
todavia quando o fez, ele j estava quase a dormir e nem
sequer lhe respondeu enquanto ela lhe explicava o que o mdico lhe dissera. Quando voltou a olhar
para Sam, ele ressonava baixinho.
Na sexta-feira, antes do meio-dia, Alex arrumou a secretria e Brock foi buscar uns dossiers e
desejou-lhe sorte para a semana seguinte.
- Espero que isso corra bem,  medida dos seus desejos.
Brock desconfiava do que se tratava, pois ouvira a
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palavra bipsia numa das conversas dela. Era uma palavra que lhe metia medo, mas esperava que a
dela no fosse grav e que voltasse ao emprego em breve. Alex despediu-se dele depressa e depois
deu as instrues finais a Liz. Disse que telefonaria para receber as mensagens e que dentro de dias
poderia mandar-lhe trabalho para casa, se ela no voltasse entretanto.
- Tenha cuidado consigo - recomendou Liz, tranquilamente, e depois abraou-a.
Alex desatou a chorar e afastou-se para Liz no ver.
- Tenha tambm cuidado consigo, Liz. At breve - retribuiu Alex, ostentando uma confiana que
no sentia.
No txi, a caminho da escola de Annabelle, foi a chorar. Era sexta-feira e tinham de ir  aula de
dana.
Levou Annabelle a almoar em Serendipity e depois seguiram logo para casa de Miss Tilly.
Annabelle nunca se sentira to feliz. A criana estava satisfeita por ter a me junto de si outra vez e
por ela j no estar ocupada com o juiz. Disse, com os seus modos titubeantes, no tom meio doce,
que no gostara nada daquilo.
- Tentarei no fazer o mesmo mais vezes. Alex no lhe dissera que iria para o hospital na segunda-
feira, e no sbado tentou falar com Sam acerca do que diriam  filha. Alex considerava que uma
viagem de negcios era a melhor ideia, visto que seria demasiado assustador explicar-lhe o que ia
fazer ao hospital.
- Nem penses nisso - contraps Sam, aborrecido com ela. - Pelo amor de Deus, voltars nessa
mesma tarde. E ao dizer isto mostrara-se impaciente e irritado.
- Posso no voltar - respondeu Alex tranquilamente e aborrecida por ele manter a recusa em encarar
o problema.
Estava disposto a negar a situao. - Posso ficar l uma semana se eles fizerem a mastectomia -
declarou ela, tentando forar-se, a si prpria e ao marido, a aceit-la, mas ele recusou-se a ouvir.
- Acabas com isso? Ests a dar comigo em doido! O que  isto? Queres compaixo, ou qu? Alex
nunca o vira to frentico. Era como se lhe tivesse tocado num nervo, e de repente perguntou a si
prpria se o
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nervosismo do marido estaria relacionado com as recordaes que ele tinha da me. No entanto,
fossem quais fossem as razes que ele tinha para a evitar, estava a aumentar o nervosismo da
mulher.
Por fim, voltou-se para ele, furiosa pela primeira vez desde que tudo acontecera.
- A verdade  que quero um certo apoio teu. Este hbito tresloucado de te recusares a acreditar que
qualquer coisa est a acontecer comigo no me facilita a vida. J alguma vez pensaste que eu
preciso da tua ajuda neste caso? Isto no  fcil para mim. Posso perder um seio daqui a dois dias e
tu       insistes que isso  impossvel.
Alex tinha os olhos cheios de lgrimas.
- No vai acontecer nada - ripostou ele, voltando-se em seguida para esconder as lgrimas.
No voltou a falar-lhe do assunto e, no domingo, Alex percebeu que ele no o faria. No conseguia.
Estava demasiado assustado, tudo aquilo lhe fazia lembrar o caso da me. Contudo, fosse qual fosse
o motivo, Alex no tinha qualquer apoio. Conhecia muita gente e tinha alguns amigos chegados,
mas era raro v-los, excepto aqueles com quem trabalhava. Nunca tinha tempo para se encontrar
com os amigos, estava sempre a trabalhar. Sam era o seu melhor amigo e, precisamente naquele
momento, no conseguia enfrentar a ameaa do que poderia acontecer-lhe, nem ajud-la. E Alex
tinha vergonha de falar a algum. Ol. Daqui fala a Alex Parker e amanh vou fazer uma bipsia ao
peito. Queres aparecer?  mesmo possvel que eu tenha de fazer uma mastectomia, se o tumor for
maligno, mas o Sam diz que estamos a fazer isto s para que o mdico possa comprar um Mercedes.
Tudo por uma boa causa. Era muito duro para ela telefonar a algum, e ainda era mais difcil
admitir que Sam estava a deix-la desamparada. Mas estava. Terrivelmente. E nessa noite explicou
a Annabelle que no dia seguinte tinha de partir em servio. Annabelle ficou desapontada mas disse
que entendia; Alex prometeu telefonar-lhe, disse-lhe que o pap tomaria bem conta dela e teve de
esconder as lgrimas enquanto falava. Annabelle abraou-a com fora e garantiu-lhe que ia ter
saudades dela, o que tornou a situao ainda mais dificil para Alex.
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- Voltas a tempo de ir levar-me a Miss Tilly, na sexta
-feira? - perguntou ela, com uns grandes olhos verdes. Alex tentou manter a compostura.
- Vou tentar, querida - prometeu ela, com a voz embargada, agarrando-se  filha e rezando para que
no sucedesse nada de terrvel. Talvez o Dr. Herman estivesse enga nado e ela tivesse sorte. A
companhia de Annabelle tornava-a muito vulnervel e assustada. - Vais portar- te bem e passar uns
dias bons com o pap e com a Carmen? Vou sentir a tua falta.
Mais do que julgava, pensou Alex, lavada em lgrimas; porm, fazia aquilo para salvar a vida, tanto
a bipsia como o que se seguiria. Queria ficar junto de Annabelle durante muito tempo. Para
sempre.
- Porque te vais embora, mam? - perguntou Anna belle, tristemente.
Era como se pressentisse que Alex no lhe dissera tudo.
- Porque tenho de ir. Para trabalhar.
Contudo, nem aos ouvidos de Alex aquelas palavras pareciam convincentes.
- Trabalhas de mais - disse Annabelle, baixinho. Eu tomo conta de ti quando for grande, mam.
Prometo!
Era to meiga que Alex no queria separar-se dela. No conseguia pensar que ia deix-la na manh
seguinte; ficou muito tempo agarrada a ela antes de apagar a luz e de ir fazer o jantar para si e para
Sam.
Sentia-se to nervosa que tinha nuseas. S conseguia pensar no que iria sofrer. E Sam manteve-se
bem afastado do assunto durante todo o jantar. Depois, foi ler uns relatrios e Alex foi espreitar
Annabelle. Deitou-se um pouco, ao lado da criana adormecida. Queria sentir-lhe os caracis, seu
rosto e sentir-lhe o bafo, antes de se ir embora. Depois ficou a observ-la do limiar da porta. Parecia
um anjinho, a dormir, e Alex voltou para o quarto, rezando para que houvesse um milagre no
hospital, na manh seguinte. S queria viver, mesmo que isso lhe custasse a perda de um seio. i Sam
estava a dormir em frente da televiso quando Alex se deitou na cama. Tambm ele tivera uma
semana difcil com a vinda de um grande grupo de investidores da Arbia
94
Saudita. Porm, durante a manh, mal trocara uma palavra
 com Alex, e nenhuma fora de encorajamento. Era impossvel no estar zangada com ele. Deitou-se
a seu lado durante uma hora, desejosa de falar com ele; quando finalmente ele se mexeu, despiu as
calas de ganga e a T-shirt e deitou-se na cama, sem acordar verdadeiramente.
- Sam?... - disse ela, baixinho, desejosa de acord-lo
para falar com ele, para estar junto dele, mesmo para fazer amor com ele; sentia que, naquele
momento ele estava a
muitos quilmetros de distncia, esquecido do problema dela.
- Hum...
- Ests a dormir?
Era bvio que estava, mas ela no queria. Contudo, ele
no ia despertar.
- Amo-te - disse ela, deitada, a olhar para ele.
Sam no a ouviu. No ouviu nada. Estava longe, no seu
 mundo prprio. Demasiado distante para ajudar a mulher
ou para aceitar o que estava a acontecer-lhe. Demasiado assustado para encarar a situao, e ela
sabia-o. Nunca se sentira to s na sua vida.  maneira dele, abandonara-a por
completo.
Quando Alex foi  casa de banho antes de se deitar, descobriu que as suas preces no tinham surtido
efeito. Chegara-lhe o perodo, apesar das tentativas feitas duas semanas
antes e das hormonas que tomara. Haveria apenas uma bipsia e talvez uma operao. No haveria
beb.

CAPTULO 5
No dia seguinte, Alex acordou s seis horas e vagueou
pela casa durante algum tempo, desejando que fosse uma
manh diferente. Comeou a fazer o caf para Sam e a preparar o pequeno-almoo, e olhou para
Annabelle, que
dormia profundamente. Sam tambm ainda dormia, e era
muito esquisito olhar para eles, sabendo que iria afastar-se
durante umas horas, ou uns dias, para perder ou ganhar uma
batalha que podia afast-la deles para sempre. Era imperdovel. Como poderia ela deixar a sua
menina? O que lhe
aconteceria? No conseguiu imaginar o que iria suceder naquela manh.
Teve o cuidado de no comer nem beber nada, embora
lhe apetecesse um caf e, enquanto lavava os dentes, percebeu de repente que tinha de reprimir as
lgrimas. Sentiu o
impulso imperioso de fugir, de esconder-se daquilo tudo;
porm, naquele momento no era possvel esconder-se
da traio do seu prprio corpo. Ento, levantou-se e viu-se
ao espelho, com as lgrimas a correrem-lhe pela face, com a
escova de dentes na mo. Pousou a escova de dentes e deixou
escorregar as alas da camisa de noite. A camisa de seda caiu
no cho sem fazer barulho e Alex ficou ali a olhar para
si prpria, para os seios pequenos e firmes com que sempre contara. O esquerdo era lgeiramente
maior do que o direito, e Alex lembrou-se de repente que Annabelle sempro
o preferira ao outro quando ela a amamentava. No pde
deixar de apreciar a simetria dos seios e as linhas alongadas
e graciosas do seu corpo. Tinha as pernas compridas, a cintura estreita; sempre tivera uma boa
figura e nunca pensara nisso. E o que aconteceria agora? Quem passaria a ser
se perdesse o seio naquele dia? Seria outra pessoa? Ficaria de tal modo deformada que Sam deixaria
de desej-la? Queria falar com ele acerca disso, ouvi-lo dizer que no se importava que ela tivesse
um seio ou dois. Precisava de ouvir essas palavras; contudo, ele nem conseguira enfrentar a ideia, e
passara a semana inteira a dizer-lhe que ela no tinha nada e estava a ser mrbida e depressiva.
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Agora, Alex olhava para si prpria e chorava ao pensar
no que poderia acontecer-lhe. Nem sequer podia imaginar.
Um seio era um baixo preo a pagar por uma vida, se a situao surgisse, mas Alex no queria
perd-lo. No queria
ficar deformada, nem parecer um homem, nem fazer cirurgia reconstrutiva. No queria nada disso.
E, acima de tudo,
no queria perder o seio nem ter um cancro.
- Ol - disse Sam, sonolento, passando por ela a caminho do chuveiro.
Alex no o vira entrar e ele pareceu no ter reparado que
ela estava a chorar. Quase inconscientemente, deu meia volta, como se houvesse j qualquer coisa
feia nela, e tapou-se com uma toalha.
- Acordaste cedo.
Que admirao! Imaginem! O tom dele f-la ter vontade
de lhe bater. Toda a compreenso que ele sempre demonstrara por ela parecia ter-se desvanecido em
menos de duas semanas de negao total.
- Vou ser operada hoje - lembrou ela, constrangida,
quando ele ia a entrar para o duche.
- Vais fazer uma bipsia. No sejamos demasiado dramticos.
- Quando tencionas acordar? - disparou Alex.           Quando tencionas encarar esta situao? Depois
de eu perder
o seio ou nem sequer depois disso? Isto  assim to ameaador que nem consegues aproximar-te de
mim por um momento?
Ele precisava de ouvir aquilo da sua boca, precisava de ver que estava a abandon-la, mas tambm
no conseguiu enfrentar a situao. Entrou para o duche sem olhar para ela, disse qualquer coisa
que ela no percebeu enquanto olhava para ele, com um espanto renovado. Deu dois passos na
direco dele e afastou a cortina do duche, at ficarem os dois frente a frente, e olhou para ele,
furiosa.
- O que disseste?
- Disse que ests a ser melodramtica.
Sam pareceu-lhe embaraado e aborrecido quando ela estava ali, molhada e muito bela, e o seu
corpo reconheceu-a com uma ereco. No faziam amor desde que ela soubera
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o resultado da mamografia. No tinham feito nada desde o dia azul. Primeiro, ela tivera o
julgamento e agora
debatia-se com o trauma de poder ter um cancro. E ele tambm no se mostrara disposto a isso.
Tentava evit-la.
- Acho que ests a ser um filho da me, Sam Parker!
No me interessa se isto te parece difcil de aceitar... O que  certo  que em nada consegues ajudar-
me. E isto est
a acontecer-me, a mim, e no a ti. Podias ao menos tentar.
 pedir de mais? Isto  assim to difcil para ti, uSenhor Importante, Senhor consultor de capitais de
risco, Senhor
to acagaado que nem enfrenta o que est a acontecer?
Alex estava to furiosa que lhe apetecia bater-lhe; ele puxou a cortina e continuou a tomar duche.
- Porque no tornas as coisas mais fceis para ambos?
Esta tarde estar tudo acabado e sentir-te-s muito melhor.
Ambos sabiam que o Serophene que ela tomara durante
quatro semanas no a ajudava a dominar-se, nem a ficar
mais bem-disposta, mas aquilo no era das hormonas. Pertencia  vida real e constitua uma ameaa
 prpria sobrevivncia e  existncia de Alex. Era uma ameaa a tudo o que
ela era,  sua sade,  sua vida, ao seu aspecto,  sua femenilidade, at  sua capacidade para ter
filhos. E que mais? Muitas mais coisas, talvez, mas das quais ela ainda no se apercebera. Nem
Sam. Enfiara a cabea na areia e no via nada.
Carmen chegou precisamente quando Annabelle acordou. Alex foi falar com ela enquanto a filha se
vestia, e Carmen reparou que a patroa estava extremamente nervosa.
Alex disse-lhe o mesmo que dissera a Annabelle, que tinha
de ausentar-se por uns dias por motivos profissionais e
precisava que ela dormisse l em casa.
- Est tudo bem, Mistress Parker? - perguntou Carmen, desconfiada, pois nunca vira Alex assim.
Por instantes, Alex sentiu-se tentada a dizer-lhe. Contudo, a confisso tornaria a situao demasiado
real. Era
mais fcil fingir que ia em viagem de negcios.
- Est tudo bem, Carmen, obrigada.
Carmen desconfiou outra vez quando Alex desceu
com calas de ganga e com uma camisola branca. A senhora nunca se vestia assim quando ia em
viagem, e nem calara meias
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nem se maquilhara. Carmen franziu o sobrolho ao olhar para ela e depois espreitou Sam, que estava
a beber o caf, a comer os ovos e a ler o jornal. Estava vestido normalmente, de fato completo;
quando pousou o jornal, pareceu-lhe invulgarmente alegre. No disse nada  mulher, mas estava
particularmente bem-disposto com Annabelle e Carmen. Esta no sabia o que estava a acontecer; no
seu ntimo, sentiu que no era do seu agrado. No entanto, Annabelle no sabia de nada.
s sete e um quarto, Alex lembrou ao marido que tinham de sair de casa; ele pegou na pasta e na
carteira de Alex e prometeu a Annabelle que estaria em casa  hora do jantar. Beijou a filha, desfez-
lhe os caracis e carregou no boto do elevador enquanto Alex pegava nela ao colo.
- Vou ter muitas saudades tuas - disse Alex, com a voz rouca, sentindo os braos a tremer. No
queria ceder demasiado s suas emoes, mas desejava acima de tudo pegar na filha enquanto
pudesse. O elevador j chegara e Sam estava a cham-la. - Gosto muito de ti, querida, at breve...
Adoro-te gritou ela por cima do ombro, enquanto as lgrimas lhe deslizavam pela face e ela corria
para o elevador, na presena de Carmen.
Nesse momento, Annabelle j estava a ver os desenhos animados na televiso; Carmen, porm,
ficara impressionada com a expresso do rosto da patroa. Lavou a loua de Sam e depois lembrou-
se que Alex no comera nada, nem sequer bebera um sumo ou um caf. Alguma coisa estava mal.
Ela sabia.
Nessa altura, Alex e Sam iam de txi, a caminho do hospital, e ele dizia banalidades enquanto ela
desejava que ele no o fizesse. Era quase pior do que falar do que estava a acontecer; Alex lembrou-
se do rostozinho de Annabelle ao despedir-se dela e do modo como a sentira nos seus braos
quando lhe dera um beijo de despedida. Era quase insuportvel.
- Hoje chega outro grupo de rabes e umas pessoas da Holanda. Devo dizer que o Simon conhece
gente extraordinria. Eu estava enganado a seu respeito.
Sam continuou a falar enquanto se dirigiam para a parte
99
leste do Hospital Nova Iorque, onde iam encontrar-se com o Dr. Peter Herman.
- Ainda bem - disparou Alex, indiferente s virtudes de Simon ou aos potenciais clientes de ambos. -
Vais ficar por aqui ou vais para o emprego?
Nada a teria surpreendido, mas ele tambm sabia que o queria ali.
-J te disse que fico, e ficarei. Pedi  Janet que telefonasse ao mdico e ele disse que, com a
anestesia, a biopsia durar meia hora, quarenta e cinco minutos, se houver algum atraso. Depois,
ficars abatida e poders dormir at tarde. Pensei em ficar por aqui at s dez e meia ou onze horas.
Nessa altura, tu estars acordada, ou j acordaste e foste
dormir para o teu quarto. E depois volto  tarde para te vir buscar.
Fez-se um longo silncio e Alex fez um sinal de assentimento e olhou l para fora.
- Quem me dera partilhar do teu optimismo. Alex j lhe dissera que optara por um processo de uma
s fase. Ia assinar um documento de autorizao que permitiria ao mdico fazer o que tivesse a
fazer nessa altura. Portanto, se o resultado da bipsia fosse mau ele faria a operao que era
necessria naquele mesmo dia. Alex no queria voltar a passar por aquela espera agonizante,
sabendo que tinha de perder o seio em qualquer caso. Fosse o que fosse, aconteceria naquele dia,
bipsia, mastectomia ou ablao do tumor. se o problema fosse to simples que se justificasse
extirpar apenas o tumor. Contudo, ela j sabia qual a opinio do Dr. Herman a respeito daquele
assunto. No saberia o que ele lhe fizera seno quando acordasse. Pelo menos, seria obrigada a
encarar o terror s uma vez. Sam continuava a pensar que ela estava doida.
- Acreditas assim tanto nesse tipo? - perguntou ele outra vez, no momento em que atravessavam
York Avenue e o hospital surgia  sua frente, qual dinossurio pronto a devor-los.
- A fama dele  excelente. Tive o cuidado de me informar a seu respeito. E recolhi uma segunda
opinio. Ela nunca lho dissera. - O segundo mdico concordou completamente com o que ele
dissera, Sam.  uma evidncia, embora no seja agradvel.
100
- Continuo a no lhe dar muito crdito. Uma coisa de cada vez.
Alex no concordava com o marido; quando telefonara a John Anderson para falar com ele, o
mdico dissera-lhe que ela estava a agir bem. Dissera- lhe para confiar inteiramente em Peter
Herman.
O txi parou em frente do hospital, Sam pegou na pequena mala de Alex. Ela trouxera poucas
coisas, na esperana de que Sam tivesse razo e a estada no fosse prolongada. Ele poderia trazer-
lhe o resto se ela ficasse mais tempo. Porm, ao fazer a mala, lembrara-se de quando fora para o
hospital para ter Annabelle. Fora um perodo mais feliz e parecia ter passado pouco tempo, embora
a filha j tivesse quase quatro anos.
Seguiram as setas que indicavam a secretaria; Alex j preenchera uma pr-inscrio, quando fora
fazer as anlises ao sangue e a radiografia ao peito, no dia em que vira o Dr. Herman. Entregaram-
lhe uma tira de papel para levar para cima e indicaram-lhe o nmero de um quarto no sexto andar;
deram-lhe uma pequena caixa de forma tubular que continha uma escova de dentes e um copo, um
sabonete e pasta de dentes. e o simples facto de pegar nela deprimiu Alex. De repente, sentiu-se
numa priso.
Subiram em silncio, no meio do burburinho do hospital, e Sam estava plido e pouco  vontade.
Alex ficou aterrda quando saram do elevador e passaram por duas pessoas entubadas, que
dormiam nas macas. Na sala das enfermeiras, disseram-lhe onde deveria dirigir-se, e eles
encaminharam-se para um pequeno quarto, feio, pintado de azul-claro, com um cartaz na parede e
uma cama de hospital que parecia devorar todo o aposento. Nada ali era bonito, mas pelo menos
Alex estava sozinha e no tinha de falar com ningum, excepto com Sam, que tagarelava acerca da
vista e comentava que os hospitais estavam a ficar incrivelmente caros e que a medicina social no
estava a funcionar, nem no Canad nem nos Estados Unidos. Alex teve vontade de lhe gritar; no
entanto, sabia que ele estava a fazer um esforo enorme para se controlar, apesar de no estar a
ajud-la.
Uma enfermeira chegou a correr para se certificar de que
101
ela no comera nada desde a meia-noite, e uma criada trouxe
para o quarto um suporte para o soro e atirou uma bata para cima da cama, dizendo que voltaria da
a pouco. De repente, Alex desatou a chorar convulsivamente. Foi terrvel. Sam abraou-a e ficou
com ela nos braos, desejoso de lhe pedir desculpa.
- Isto no demora muito. Tenta abstrair-te. Pensa em
Annabelle, em irmos para a praia no ano que vem... ou na
Noite das Bruxas... E, antes que te apercebas, estar tudo
acabado.
Alex riu-se das suas palavras, mas nem mesmo a ideia de
passar a Noite das Bruxas com Annabelle foi suficiente para
afastar o terror que ela sentia.
- Estou to assustada - disse ela em voz baixa quando
ele a abraou.
- Eu sei... Mas isto vai correr bem... Prometo.
Ele no podia prometer... ningum podia. S Deus:
E Alex no sabia o que Ele planeara para si. Naquele momento estava aterrada e isso era visvel.
-  to estranho... Ambos somos to fortes  nossa maneira. Somos fortes, temos bons empregos,
movimentamos
tanta gente  nossa volta, tomamos uma srie de decises
que dizem respeito a dinheiro, pessoas e empresas... E quando somos atingidos por uma coisa destas
no temos poder
nenhum. De repente, ficamos  merc de toda a gente,
de pessoas que nem sequer conhecemos, do destino e do nosso
prprio corpo.
Sentia-se como se fosse uma criana, totalmente indefesa
e incapaz de suspender o pesadelo que estava a viver.
A enfermeira apareceu de novo  porta, disse-lhe que
se despisse e que vestisse a bata, e que algum viria ligar-lhe o soro da a pouco. No havia tempo,
nem compreenso, nem interesse.
        - Isto ser uma boa notcia? - insistiu Sam. - Como
se regressassem com um pequeno-almoo de quatro pratos!
- Nada disto tem a ver com boas notcias - respondeu
Alex, enxugando os olhos outra vez, desejando no estar
ali ou resolver-se a ignorar a sombra na sua mamografia;
porm, sabia que isso era impossvel. Talvez Sam tivesse razo.
102
Talvez fosse absurdo fazer da profisso de mdico um negcio. Esperava que sim.
Nessa altura, a enfermeira regressou ao quarto, enquanto Alex mudava de roupa, e mandou-a deitar-
se para lig-la ao soro. Tratava-se apenas de uma soluo salinizada para evitar a desidratao.
- E temos uma linha disponvel, caso seja preciso darmos-lhe mais alguma coisa. Hoje ter tudo ao
seu dispor - disse ela, como se fosse uma hospedeira a anunciar que iam sobrevoar St. Louis.
- Eu sei - afirmou Alex, tentando mostrar que recuperara o autodomnio, como se fizesse parte
daquilo e tivesse tomado uma deciso; a enfermeira, contudo no reagiu. Ocaso no lhe dizia
respeito, no era ela que decidia. O hospital era uma fbrica de corpos, um armazm de corpos
avariados, e competia-lhe mant-los em movimento to rapidamente quanto possvel, para arranjar
lugar para os seguintes. O lquido a entrar por via intravenosa provocou um arrepio no brao de
Alex; a enfermeira disse que passaria da a pouco. Mediu-lhe a tenso arterial, ouviu-lhe o corao,
tomou apontamentos num grfico, e ligou um interruptor que acenderia uma luz no corredor.
-Assim sabero que, neste momento, a senhora est pronta para avanar. Vou telefonar l para cima.
Daqui a uns minutos, vo lev-la para a sala de operaes.
Eram oito e meia e a bipsia estava marcda para as nove horas. Alex estava ali desde as sete e
meia.
- Queres que te faa algum telefonema enquanto estou aqui  espera? - perguntou Sam com
naturalidade, enquanto Alex, desolada, via o lquido a correr e a enfermeira entrava, com uma pasta
de documentos.
- No, obrigada. Acho que tratei de tudo no escritrio - respondeu Alex, olhando para o documento
que a enfermeira lhe estendera para ela ler e assinar.
Alex passara toda a semana anterior a preparar a sua ausncia de duas semanas, no caso de surgir
qualquer problema, e no tinha mais nada a fazer. O documento que a enfermeira lhe entregara era a
autorizao de que o Dr. Herman
103
j lhe falara. Leu apenas algumas linhas, que explicavam que se podia fazer tudo, incluindo uma
mastectomia radical, enbora o mdico a tivesse avisado que era raro ir alm de intervenes radieais
modificadas, que implicavam igualmente
a remoo dos tecidos da parte superior do brao e os msculos peitorais mais pequenos, e no os
maiores. A remoo
dos maiores impediria a cirurgia reconstrutiva. Se se removessem apenas os msculos peitorais
menores, seria possvel
fazer um trabalho de reconstituio e utilizar implantaes.
Alm disso, deixar intactos os msculos peitorais maiores
no representava um grande perigo para o doente. Alex no
conseguiu ler mais nada. Assinou e olhou para Sam com
as lgrimas nos olhos, tentando no pensar no que iria acontecer-lhe. Devolveu a pasta  enfermeira.
- Ento, no te esqueas de telefonar  Annabelle  hora
do almoo, no caso de eu estar ainda a dormir... Ou ainda
a ser operada. Por favor, meu Deus, no... - soluou ela, enxugando as lgrimas, com as mos a
tremer.
Sam tomou-lhe uma das mos.
- Eu telefono-lhe - prometeu. - Vou almoar a
Grenouille com os rabes do Simon e com a assistente del,
que  de Londres. Ele conseguiu que viesse tambm um
economista de Oxford. Diz que os tipos de Harvard no suportam os de l.
Sam riu-se daquela atitude snobe, tentando distrair a mulher, no preciso momento em que dois
serventes apareceram
 porta, como dois anjos negros, com uma maca entre eles.
Vinham de calas verdes, batas azuis, e traziam umas toucas
na cabea e uma espcie de sacos de plstico nos ps.
Era evidente que vinham buscar Alex.
- Alexandra Parker?
Alex teve vontade de dizer que no; no entanto, sabia
que isso no a ajudaria e fez um sinal afirmativo. Estava
demasiado sufocada para falar e desatou a chorar outra vez,
assim que se deitou na maca e olhou para Sam. Porque
acontecera uma coisa daquelas?
- Coragem, menina. Eu vou ficar por aqui. E esta noite
faremos qualquer coisa para comemorar. Tem calma.
Sam inclinou-se para beij-la. Alex, atravs das lgrimas,
segredou-lhe, com a voz estrangulada:
104
- Eu s quero ir para casa ver televiso contigo e com a
Annabelle.
- Est combinado. Agora, acaba com isto para podermos esquecer tudo.
Sam deu-lhe um belisco no seio e Alex riu-se. Queria
desesperadamente que aquilo acabasse. E talvez ele tivesse
razo em no se exaltar, mas para ela isso era impossvel.
E tentou no se lembrar que ele nunca lhe dissera que continuaria a am-la, mesmo depois de perder
um dos seios.
A maca percorreu inexoravelmente o corredor e entrou
num grande elevador onde as pessoas se afastaram e olharam
para Alex, perguntando a si prprias o que se passaria com
ela e por que motivo estava ali; porm, fingiam que no
olhavam para ela. Os seus cabelos ruivos e brilhantes espalhavam-se na almofada, e dois homens
olharam para ela e
acharam-na muito bonita.
Chegaram ao piso do Servio de Cirurgia, onde a atmosfera era dominada pelos anti-spticos e as
portas elctricas se
abriam e fechavam sozinhas. De sbito, Alex deu consigo
numa pequena sala cheia de cromados, de aparelhos e de luzes vivas; reconheceu Peter Herman.
- Bom dia, Mistress Parker.
O mdico no lhe perguntou como estava. Tocou-lhe na
mo e tentou acalm-la.
- Vamos p-la a dormir daqui a pouco, Mistress parker,
disse ele com doura, o que surpreendeu Alex.
Ali, o mdico parecia estar exactamente no seu elemento
e mostrou-se mais afectuoso para com ela do que antes. Ou
era apenas porque ganhara e estava a fazer o que queria?
Alex estaria enganada? Estariam todos doidos? Estariam a
mentir-lhe? Ela iria morrer? Onde estava Sam?... E Annabelle... A mente de Alex continuava em
ebulio quando lhe
espetaram outra agulha no brao. Sentiu um gosto a alho e
depois a amendoins e algum lhe disse que comeasse a contar de cem para baixo. Chegou apenas a
noventa e nove e
depois tudo escureceu  sua volta.

CAPTULO 6
Durante quase uma hora, at s nove e meia, Sam andou
de um lado para o outro no claustrofbico quartinho azul.
Telefonou  secretria, respondeu a alguns telefonemas recebidos anteriormente e confirmou o
almoo com Simon. Naquela tarde, tambm tinham reunies com os advogados. Simon iria fazer
parte da sociedade e levava consigo todos os
seus conhecimentos importantes e muito pouco dinheiro.
Seria uma participao limitada e ele teria na empresa uma quota menor do que Sam, Tom ou Larry.
Contudo, parecia
satisfeito com isso naquele momento. Afirmara que poderia
adquirir uma participao maior, mais tarde, assim que tivesse dado provas e que a empresa tivesse
crescido graas
aos seus conhecimentos.
Sam desceu o corredor e serviu-se de um abominvel caf de mquina, do qual s bebeu dois goles.
O simples facto
de estar ali deixava-o doente, os cheiros, as pessoas a circular
pelos corredores, as cadeiras de rodas, as macas. Ainda conservava um terror a hospitais, apesar de
se ter deslocado
a um, pela ltima vez, quando Annabelle nascera; porm
Alex precisara dele nessa altura. Desta vez, sentia-se intil
e desamparado. Alex estava algures, a dormir, sem saber
quem estava a seu lado e quem no estava. Ele podia estar
em qualquer lado. E, por volta das dez e meia, desejou ver-se dali para fora. Alex j devia ter
regressado ao quarto
ou algum lhe devia ter telefonado a avis-lo que ela viera para
baixo. No queria ir-se embora sem a ver ou, pelo menos,
sem falar com o mdico; no entanto, queria estar na empresa
por volta das onze horas. Era intil ficar ali sentado e sabia-o. Sentia-se esquecido, naquele
minsculo quarto azul.
Telefonou outra vez para o emprego e depois dirigiu-se
 sala das enfermeiras.
- Queria saber notcias de Alexandra Parker - disse
bruscamente. - Ela tinha uma bipsia ao peito marcada
para as nove horas. Disseram que estaria despachada antes
das dez horas. So quase onze. Podem saber se houve algum
atraso? No posso ficar aqui  espera eternamente.
106
A enfermeira levantou o sobrolho, mas no disse nada.
Ele pareceu-lhe ser uma pessoa importante e bem vestida.
Alm disso era um homem muito atraente. E tinha uma aura de poder,  qual at ela reagiu, embora
no soubesse
quem ele era nem a razo por que no havia de esperar como qualquer outra pessoa. Mesmo assim,
telefonou para
cima e disseram-lhe que tudo se atrasara. Afinal, era segunda-feira. Tinham as operaes que
haviam ficado do fim-de-semana, braos, pernas e ancas para consertar desde a vspera e
apendicectomias no urgentes.
Sam lembrou-se outra vez da confirmao dos voos e das
esperas interminveis no aeroporto. Acontecera-lhes uma
vez, quando Alex lhe prometera ir ter com ele a Washington, para irem a uma festa, na altura em
que namoravam.
Houvera uma tempestade em Nova Iorque e ele tivera de esperar por ela no aeroporto durante seis
horas. Comeava a
sentir-se assim. Cerca das onze e meia, Sam estava verdadeiramente exasperado.
- Isto  ridculo. Ela est l em cima h tempo suficiente para lhe fazerem uma operao de corao
aberto. Levaram-na para cima h trs horas. Pelo menos, podiam ter-nos
avisado de que estavam atrasados.
- Desculpe. Pode ter havido uma emergncia e terem
sido obrigados a pr algum  frente da sua mulher. No
podemos evitar situaes dessas.
- Pode, pelo menos, saber onde ela est e o que est a
acontecer?
- Talvez esteja na sala de recuperao neste momento, a
menos que tenha surgido um imprevisto. Eu vou telefonar.
Porque no toma um caf e no espera no quarto dela, enquanto eu vou informar-me?
- Muito obrigado.
Sam sorriu-lhe, e a enfermeira concluiu que ele era difcil,
mas que valera a pena. Telefonou para o piso do Servio de
Cirurgia e apurou apenas que Alexandra Parker ainda se encontrava na sala de operaes. Tinham
comeado tarde, e a
enfermeira que atendera o telefone no sabia quando acabaria. A enfermeira foi ter ao quarto de
Alex, onde se encontrava
107
Sam, e transmitiu-lhe a mensagem. Ele telefonou outra vez para o emprego e pediu desculpa por
no comparecer
 reunio de scios das onze horas. Disse que ia ter com eles
logo que pudesse, na pior das hipteses  uma hora, em La
Grenouille. No se sentia bem indo-se embora sem saber o
que acontecera  mulher.
Por fim, ao meio-dia e meia hora, avisaram-no de que
Alex estava na sala de recuperao, quatro horas depois de
ter subido. Os atrasos eram ridculos, queixou-se Sam. E a
enfermeira disse-lhe que o Dr. Herman viria falar com ele
da a pouco.
Faltavam dez para a uma quando o mdico chegou; Sam
parecia um leo enjaulado a andar de um lado para o outro
no quarto. J estava farto daquele ambiente lgubre, dos
cheiros a desinfectante e das esperas interminveis destinadas
a pessoas que no tinham mais nada que fazer na vida. Ele
tinha uma empresa para gerir e no podia ficar ali sentado o
dia inteiro,  espera de falar com um mdico qualquer.
- Mister Parker?
O Dr. Herman entrou no quarto, de bata de cirurgio
ainda com a mscara ao pescoo e com uma espcie de meias
por cima dos sapatos. Estendeu a mo a Sam e este no detectou nada no seu olhar.
- Como est a minha mulher?
Sam no queria perder tempo; deduzia que ela estava
bem e comeava a ficar atrasado para o almoo com Simom,
com a assistente e com os novos clientes, depois de esperar
uma manh inteira.
- Est a reagir to bem quanto podemos esperar neste
momento. Perdeu pouco sangue e no tivemos de fazer-lhe
nenhuma transfuso.
Na verdade, tratava-se de um pormenor importante para
qualquer pessoa, e o mdico imaginou que tambm o seria
para Sam; este, porm, mostrou-se indiferente e um pouco
confuso ao ouvir as suas palavras.
- Transfuses para uma bipsia? - Fez-se um longo
silncio. - Isso no  pouco vulgar?
- Mister Parker, tal como eu desconfiava, a sua mulher
tinha uma massa grande e profunda no peito, que abrangia
108
sobretudo os ductos, mas que estava a infiltrar-se nos tecidos envolventes, embora os limites do
tumor fossem definidos. Teremos de esperar mais dois ou trs dias para sabermos se houve
envolvimento dos gnglios linfticos. Mas no
h dvida de que se tratava de um tumor maligno, e creio
que era um cancro no estdio dois.
De sbito, a mente de Sam comeou a funcionar como
se fosse um filme. No era muito diferente do que Alex sentira quando soubera que tinha uma
sombra na sua mamografia. Depois dessa informao, tudo o resto lhe parecera
uma confuso de sons.
- Esperamos ter tirado tudo, mas j falei com a sua mulher sobre o perigo de uma recorrncia -
continuou Herman. - As recorrncias de cancro da mama quase sempre so fatais. E, em casos de
cancro como este, o que importa 
tirar tudo, se a doena se confina a uma determinada zona,
antes de se espalhar a outras partes do corpo. Para isso, tentamos recorrer a mtodos extremamente
agressivos. Com
sorte, se os gnglios linfticos da sua mulher no tiverem sido muito afectados, acho que
conseguimos.
- O que significa isso exactamente? - perguntou Sam,
sentindo-se nauseado s de fazer a pergunta. - Tirou-lhe o
tumor do peito?
- Evidentemente. E tambm lhe tirmos o peito,  clro.  a nica maneira de termos a certeza
absoluta de no
aver uma recorrncia local. No  possvel dar-se uma recorrncia num seio que no est l. Poder
dar-se na parede
do peito, ou deslocar-se para outro lado qualquer,  claro, ou criar metstases, mas isso depende do
estado de evoluo
do tumor e do nmero de gnglios linfticos que esto envolvidos. A eliminao do seio evita uma
srie de problemas. Alex compreendera a situao.
- Porque no a mata, pura e simplesmente? Isso tambm no resolvia o problema? Mas que tipo de
barbaridade
foi essa de lhe cortarem o seio s para a doena no alastrar?
Que tipo de medicina  a vossa?
- Medicina preventiva, Mister Parker. Desencadeamos
ataques agressivos contra o cancro. No queremos perder os
nossos clientes. E, s para o senhor entender, fizemos-lhe
109
tambm uma disseco axilar, o que significa que lhe removemos os gnglios linfticos das axilas,
mas esperamos que
 no estejam afectados. Isso ser confirmado pela patologia
nos prximos dias, e dentro de duas semanas teremos os resultados dos exames aos receptores para
hormonas. Nessa
altura, saberemos melhor como havemos de trat-la.
- Como trat-la? O que vo fazer-lhe mais?
Sam continuava a gritar com o mdico. Com uma aco
idiota, haviam esquartejado a pobre Alex.
- Consoante o envolvimento dos gnglios linfticos, 
provvel que optemos por uma quimioterapia relativamente
agressiva, s para garantirmos que no haver recorrncia.
Tambm poder ser necessria uma terapia  base de hormonas, mas ainda no sabemos. Como
tirmos o seio, no
sero precisas radiaes. No comearemos a quimioterapia
seno daqui a algumas semanas. Ela ter tempo de andar pelo seu p e precisamos de tempo para
avaliar a situao.
O nosso grupo de trabalho vai reunir-se para discutir o caso
dela,  claro, assim que tivermos os relatrios da patologia.
Posso garantir-lhe que trataremos a sua mulher com todo
o cuidado.
- Tal como lhe trataram o seio? Como puderam fazer-lhe uma coisa dessas?
Sam ainda no podia acreditar.
- Garanto-lhe, Mister Parker, que no havia alternativa
- respondeu Peter Herman tranquilamente. J lidara com
maridos violentos, assustados e que no conseguiam enfrentar a
realidade, como este. Os maridos no eram mais diferentes
uns dos outros do que os doentes. No entanto, Peter Herman tinha a sensao de que Alex Parker se
apercebera
de todos os perigos melhor do que ele. - Fizemos-lhe uma
mastectomia radical modificada, o que significa que lhe
retiramos o seio e o tecido do peito at ao esterno,  clavcula e s costelas, e removemos o msculo
peitoral menor. Isto significa que ela poder fazer cirurgia reconstrutiva daqui a alguns meses, se
assim o desejar, e se reagir bem  quimioterapia. Se no, poder esperar e usar uma prtese.
O Dr. Herman tornara o caso muito simples; Sam,
porm, sabia que no era assim. O Dr. Peter Herman alterara-o
110
com um simples movimento do bisturi. E, naquele momento, ao ouvir as suas palavras, era como se
Alex fosse outra pessoa.
- No consigo entender como puderam fazer uma coisa dessas.
Sam olhava para ele, horrorizado, sem compreender, e Peter Herman apercebeu-se de que era
demasiado cedo para ele dominar a situao.
- A sua mulher tem um cancro, Mister Parker. Ns queremos cur-la.
Aquilo dizia tudo, e Sam tinha lgrimas nos olhos quando fez um sinal afirmativo.
- Quais so as hipteses de sobrevivncia?
Era uma pergunta  qual o Dr. Herman detestva responder. Ele no era Deus. No sabia. Quem
dera poder dar-lhe todas as garantias de uma vida longa, mas no podia.
- Neste preciso momento,  difcil saber. O tumor era profundo e grande, mas o objectivo das
cirurgias radicais e dos tratamentos agressivos posteriores  eliminar o cancro por completo. Mesmo
que deixemos uma percentagem de zero por cento, podemos estar a fazer-lhe muito mal.  por isso
que no podemos permitir-nos poupar o seio, quando este est doente ao ponto a que estava o da
sua mulher. E, s vezes, o facto de o descobrirmos cedo e de o atacarmos radicalmente pode
corresponder  diferena que separa o sucesso do insucesso. Esperamos ter-lhe tirado tudo o que
estava contaminado, que a doena no se tenha infiltrado e que os gnglios linfticos no tenham
sido excessivamente afectados. Esperamos que, para bem dela, a cirurgia radical tenha sido a
resposta, e que a quimioterapia seja a garantia adicional de que ela necessita. Mas s o tempo
poder dizer-nos se fomos verdadeiramente bem sucedidos. Os senhores tm de ser os dois muito
fortes e muito pacientes.
Nesse caso, ela vai morrer, concluiu Sam ao ouvir aquilo. Eles iam mutil-la a pouco e pouco,
tiravam-lhe um seio, depois o outro, tiravam- lhe as entranhas e ferviam-nas no veneno da
quimioterapia, e depois ela acabava por morrer. Ia perd-la. No podia suport-lo. E no ia ficar ali
a v-la morrer, como sucedera com a me.
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- Creio que devo perguntar-lhe qual  a vossa percentagem de xito neste tipo de cancros.
- Por vezes,  ptima. A nossa agressividade ir at ao
ponto que a sua mulher puder suportar. Mas ela  saudvel,
o que age em seu favor, e  uma mulher forte.
Porm, com pouca sorte. aos quarenta e dois anos, seria

obrigda a lutar pela vida. E havia uma boa hiptese de no
conseguir vencer. Sam no podia acreditar. Era como um
daqueles filmes desagradveis em que a herona morria e o
marido ficava sozinho com os filhos. Tal como acontecera
ao seu pai, e isso matara-o. Sam j sabia que no ia permitir que isso o matasse. No podia deixar
que ela lhe fizesse uma coisa dessas. Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas quando se forou a no
pensar no corpo dela tal como fora e tal como era naquele momento. As palavras eram todas to
feias... Cirurgia reconstrutiva... Prtese... Ele nem sequer queria ver.
- A sua mulher passar o resto da tarde na sala de
recuperao. Creio que ela voltar para aqui cerca das seis
ou sete horas. Parece-me que seria prefervel ela ser acompanhada por enfermeiras particulares nos
primeiros dias. Quer que eu me encarregue disso?
- Seria ptimo - respondeu Sam, olhando-o friamente. O homem destrura-lhe a vida num instante.
Era impossvel Sam compreender que o mdico no lhe tinha dado
o cancro mas sim tentado cur-lo. - Quanto tempo ficar
aqui?
- At sexta-feira, diria eu. Talvez mais cedo, se recuperar
bem. Muita coisa vai depender da atitude dela e da recuperao: Trata-se de uma operao
relativamente simples, e
menos dolorosa do que se poderia esperar, sobretudo num
caso como o dela, em que o envolvimento era essencialmte
ductal. So mais as chamadas canalizaes do seio, e
naquela zona no h muitos nervos.
Sam sentiu nuseas ao ouvir aquilo. J ouvira muito
mais do que queria.
- Arranje-lhe enfermeiras permanentes, por favor!
Quando posso v-la?
- S quando ela voltar da sala de recuperao, ao princpio da noite.
112
- Voltarei nessa altura. - Durante muito tempo, Sam
 ficou a olhar para o mdico, sem conseguir agradecer-lhe o que ele fizera.
         - Vai voltar a ver a Alex hoje?
- Esta noite, quando ela estiver um pouco mais acordada. Se houver algum problema antes,
telefono-lhe. Mas no
prevejo complicaes. A operao correu bastante bem.
Sam sentiu o estmago revolver-se ao ouvir aquelas palavras. Para ele, a nica coisa importante 
que eles tinham esquartejado Alex.
Em seguida, o mdico saiu do quarto, bem consciente da
hostilidde de Sam; este deixou os nmeros do telefone do
emprego e de La Grenouille em cima da secretria da enfermeira e saiu do hospital a correr,
desesperado. Precisava de ar, de espao, de ver gente que no tivesse perdido nada, que no
estivesse doente nem a morrer de cancro. No suportava ficar ali nem mais um momento. Era como
se estivesse
prestes a afogar-se no momento em que respirou a atmosfera fria do Outono e, quando descobriu
um txi, sentiu-se ligeiramente mais humano.
Deu ao motorista o endereo de La Grenouille e tentou
no pensar no que Peter Herman lhe dissera sobre Alex, sobre o pouco que sabiam, sobre as
esperanas que tinham,
sobre os gnglios, e os tumores, os exames e as bipsias, as metstases e a quimioterapia. No
queria ouvir nem mais
uma palavra sobre o assunto. Nunca mais.
Em La Grenouille, o grupo estava animado, e eram quase duas horas quando Sam l chegou. Era
como se tivesse
regressado de outro planeta.
- Sam, meu rapaz, onde tens estado? J nos embebedmos  tua espera e, por fim, para no cairmos
da cadeira, fomos obrigados a encomendar o almoo.
Em geral, os rabes no bebiam, mas havia muulmanos menos fanticos e mais requintados que
bebiam quando
no estavam em pases rabes. Os homens que Simon trouxera naquele dia eram todos impecveis e
esbeltos. Viviam
 em Paris e em Londres h vrios anos e tinham fortunas colossais, feitas  custa do petrleo, com
aquilo que haviam investido nos mercados mundiais. Simon era mais ou menos
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da idade de Sam, embora mais robusto, de cabelos louros
encaracolados, olhos azuis, e quem fosse muito alto perceberia que ele era ligeiramente calvo.
Porm, tinha um ar muito
britnico e aristocrtico e era dado a tweeds, sapatos feitos  mo e camisas impecavelmente
engomadas, e clientes muito
importantes. Sam conclura finalmente que gostava dele. Era
dotado de um grande sentido de humor e estava ansioso por
fazer amizades. Tinha uma mulher que deixara em casa,
da qual estava separado, mas com a qual era frequente passar
frias e parecia ter estabelecido um pacto interessante e aberto. Tinham trs filhos, todos rapazes,
que estudavam em
Eton.
A seu lado estava a jovem de que ele falara a Sam.
A economista licenciada em Oxford. Chamava-se Daphne.
Era uma jovem de vinte e muitos anos, extraordinariamente
atraente. Os cabelos escuros e lisos, quase da cor dos
de Sam, chegavam-lhe  cintura. Era alta, de corpo flexvel
com uma pele suave e uns olhos escuros que danaram
quando olhou para Sam. Parecia estar sempre prestes a contar uma anedota ou a dizer qualquer
coisa tremendamente
divertida. E, quando ela foi  casa de banho, Sam reparou
que Daphne no s era muito alta como tinha uma excelente
figura... e a saia mal lhe tapava o rabo. Trazia uma carteira
Herms pendurada no brao, um vestido de l preta, com
meias de seda preta e um colar de prolas. Respirava sensualidade, classe e juventude, e era
evidente que todos os
homens que se encontravam em La Grenouille a acharam fabulosa.
- Linda rapariga, hein?
Simon riu-se para Sam, depois de ter reparado que este
a vira atravessar a sala com um olhar de admirao.
-  verdade. Sabes escolher bem as tuas assistentes -
contraps Sam, perguntando a si prprio se ele j dormira
com ela.
- E  inteligente - acrescentou Simon em voz
alta, quando ela voltou. - Havias de v-la em fato de banho!
Sam reparou que Daphne e Simon tinham trocado
um olhar, mas no teve a certeza do que se tratara, se fora um olhar de camaradagem
114
ou de cumplicidade, ou talvez apenas de desejo da parte de Simon. Daphne mostrava-se muito fria
na companhia de seis homens, e Sam ouviu-a manter uma conversa muito interessante com um dos
rabes acerca dos preos do petrleo.
Para Sam, fora uma tarde abenoada, um grande alvio estar no meio de gente atarefada, saudvel,
viva, depois da manh diablica que passara no Hospital Nova Iorque. Sabia que ainda tinha de l
voltar e de encarar a mulher. Por isso, bebeu um pouco de vinho a mais e mostrou-se demasiado
expansivo com os rabes; estes, porm, no se importaram. Estavam muito entusiasmados com a
empresa de Sam, tinham ouvido boas referncias a amigos e colegas e pareciam satisfeitos pelo
facto de Simon se ter tornado scio. S depois de Sam regressar ao escritrio e de se ter reunido
com os advogados  que comeou a ficar desanimado e a pensar no que tinha  sua frente, ao pensar
em Alex. Estava de olhos em alvo, a pensar nisso e no choque de saber que ela tinha um cancro.
- Maus pensamentos?
Sam no vira ningum entrar na sala e assustou-se ao ouvir uma voz quase a seu lado. Era Daphne.
- De modo nenhum. Desculpe. Estava a divagar. Em que posso ser-lhe til?
- O senhor pareceu-me um pouco abatido quando chegou ao restaurante - disse ela, olhando
francamente para ele, enquanto as suas pernas longas e bem torneadas chamavam a ateno de Sam.
Daphne conseguia viver com aquele aspecto e, ajudada pela inteligncia, formava uma combinao
interessante. Era difcil no ser arrebatado por ela, mas Sam tinha igualmente conscincia de que ela
poderia ter um namorado. Nunca enganara Alex, mas sem dvida que Daphne era jovem e bonita.
- Correu-lhe mal o dia? - perguntou ela, sentando-se numa cadeira e observando-o.
Podia dizer que sim.
- Nem por isso. Apenas complicado. Um negcio que andava a preparar e que me saiu um pouco
torto. Mas as
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coisas esto controladas - explicou ele, sem lhe querer dizer, nem a ningum, o que se passava com
Alex. No sabia
porqu, mas parecia haver qualquer coisa de errado naquilo,
como se eles tivessem feito algo terrvel, como se ela tivesse
agora qualquer coisa a esconder. Um segredo medonho chamado cancro.
- Alguns negcios so assim - retorquiu ela com frieza, avaliando-o.
Cruzou as pernas e depois descruzou-as, e Sam tentou
no olhar para ela.
- Queria agradecer-lhe por ter permitido que eu entrasse na empresa. Eu sei que o Simon  novo
aqui, e s vezes
ele  um pouco apressado a promover os seus conhecimentos. No queria que se sentisse obrigado a
suportar-me por causa do Simon.
- Conhece-o h muito tempo?
Ela parecia ser demasiado jovem para andar envolvida
com algum h muito tempo; porm, Simon dissera-lhe que
ela tinha vinte e nove anos. Daphne soltou uma gargalhada.
- H muito tempo. H vinte e nove anos. Ele  meu
primo.
- O Simon? - Sam mostrou-se divertido. Julgara que
se tratava de uma relao muito mais fugaz do que aquela,
embora tudo fosse ainda possvel, mas parecia um pouco
mais improvvel. - Mas que sorte que ele tem.
- No tenho a certeza disso. Ele  muito chegado
ao meu irmo. Sempre disse que eu sou uma mida terrvel.
S deu pela minha presena quando eu fui para Oxford. O meu
irmo  quinze anos mais velho do que eu, e ele e o Simon
gostam muito de ir  caa. No  o meu caso.
Daphne sorriu-lhe, e Sam tentou fingir que no reparava
como ela era bela quando voltou a estender as pernas. Havia          nela qualquer coisa de muito
perturbante, e Sam interrogou-se se seria boa ideia t-la na empresa. Simon esperava
que ela trabalhasse com ele durante um ano; depois, ela queria regressar a Inglaterra para estudar
Direito. De certo modo
fazia-lhe lembrar um pouco Alex. Tinha o mesmo
r vivo que a mulher tinha quando a conhecera.
- Gosta disto aqui? De Nova Iorque? Suponho que
 muito diferente de Londres.
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As grandes cidades eram divertidas, agitadas e vivas. Como Daphne.
- Eu gosto muito disto, embora no conhea ningum, alm do Simon. Ele levou-me a alguns clubes
e quer sempre que eu o acompanhe. Acho que  muito aborrecido para ele, mas o meu primo tem
muita pacincia.
- Tenho a certeza de que no  aborrecido, e ele deve gostar muito.
-Bem, ele  muito simptico. E o senhor tambm. Muito obrigada por me deixar vir para c.
- Estou certo de que ser um bem para a empresa - respondeu ele formalmente.
Trocaram um sorriso, e ele fitou-a com um ar apreciador quando ela saiu do gabinete.
As cinco horas chegaram depressa de mais, e depois as seis; Sam no conseguia decidir se iria a
casa ver Annabelle ou se iria ao hospital ver Alex. No queria telefonar para no a acordar, e o
mdico dissera que ela talvez no regressasse ao quarto antes das sete horas. Por isso, foi primeiro a
casa ver Annabelle, jantou a seu lado, a ver televiso, e depois foi deit-la e contou-lhe uma
histria. Carmen perguntou se ele tivera notcias de Mrs. Parker, e Annabelle queixou-se de que a
mam no lhe telefonara. Sam explicou-lhe que talvez a me tivesse passado o dia todo em reunies
e no pudesse ter telefonado, mas parecia invulgarmente sombrio ao diz-lo. Carmen observava-o,
desconfiada. Sabia que qualquer coisa corria mal. Tambm reparara na maleta e na falta de uma
verdadeira mala de viagem.
s oito horas, Sam vestiu umas calas de ganga e pareceu hesitar antes de sair para o hospital. Sabia
que tinha de ir, mas de repente no lhe apetecia ver Alex. Ela estaria atordoada e doente, e talvez
com muitas dores, apesar de o mdico ter dito que os tumores ductais, eram menos dolorosos.
Tinham-lhe tirado o seio, afinal. Como  que ela podia sentir-se? A nusea atacou-o outra vez ao
pensar que ia v-la. Quem iria dar-lhe a notcia? Ou ela j saberia? Sentiria alguma coisa?
Entrou no hospital com um ar carrancudo e subiu ao horrvel quartinho azul. Infelizmente, ela
estava bem acordada.
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Encontrava-se deitada na cama, ligada a um frasco de lquido por via intravenosa, e uma enfermeira
idosa lia uma
revista  luz da nica lmpada que estava acesa no quarto.
Alex chorava baixinho e olhava fixamente para o tecto. Sam no sabia se ela tinha dores ou se j
sabia o que lhe acontecera, e no conseguiu perguntar-lhe.
A enfermeira levantou a cabea quando ele entrou, e
Alex explicou-lhe que era o marido. Ento, a enfermeira fez
um sinal afirmativo e saiu do quarto o mais discretamente
possvel, levando a revista. Disse que estaria l fora, no corredor.
Sam aproximou-se lentamente da cama e ficou a olhar
para ela. Estava bela como sempre, mas muito cansada e plida, mais ou menos como quando
nascera Annabelle; porm, desta vez tudo parecia menos feliz. Pegou-lhe na mo
direita e reparou que toda a parte superior do corpo, do lado esquerdo, estava ligada.
- Ol, pequena, como ests?
Sentiu-se pouco  vontade, e ela no fez nada para esconder as lgrimas. Havia reprovao no seu
olhar.
- Porque no estavas aqui quando eu voltei para
o quarto?
Ela no podia estar ali h muitotempo. O mdico tinha-lhe
dito que ela voltaria por volta das sete horas.
- Disseram-me que s vinhas para aqui  noite. E
queria estar com a Annabelle, julguei que era isso que querias.
Em parte era verdade, e em parte ele no quisera voltar.
E ela sabia.
- Voltei para o quarto s quatro horas. Onde estiveste?
No meio da sua angstia, Alex era implacvel.
- Estive no escritrio e depois fui a casa ver a Annabelle. Meti-a na cama e em seguida vim para
aqui.
Sam imprimiu um tom inocente e fcil s suas palavras,
como se no tivesse podido voltar mais cedo.
- Porque no me telefonaste?
-Julguei que estavas a dormir - retorquiu ele,
nervoso.
Ela olhou para ele, e as comportas abriram-se como
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se nunca mais parasse. Peter Herman viera visit-la
 quando ela sara da sala de recuperao e contara-lhe tudo,
sobre o tumor, a mastectomia, os riscos, os perigos, os gngleos que haviam retirado tambm, o
facto de estar convencido,      e de ter esperana, que o tumor tinha limites bem definidos e no se
espalhara mais, o que ele considerava um bom indcio, e o facto muito provvel de a quimioterapia
comear dentro de quatro semanas. Ali onde se encontrava,
Alex estava convencida de que a sua vida terminara. Perdera o seio e podia perder a vida. Estava
desfigurada e, durante os seis meses seguintes, iria estar muito doente devido  quimioterapia. Era
muito provvel que perdesse o cabelo e que ficasse estril depois do tratamento. Naquele preciso
momento, era como se no houvesse mais nada, nem sequer o casamento. Sam no tinha estado l
quando ela acordara. Nem estivera presente quando o mdico lhe dera a notcia devastadora.
Herman no quisera esperar para lhe dizer, no quisera preocup-la nem deix-la adivinhar ou
descobrir que o seu seio j no existia, nem ouvi-lo da boca das enfermeiras.
Ele acreditava firmemente que devia contar tudo aos seus doentes, e contara. Para Alex, era como se
ele a tivesse matado.
Sam no fizera nada para o impedir nem para a ajudar.
- Perdi o meu peito - repetia ela, chorando. - Tenho
um cancro.
Sam ouviu-a sem dizer uma palavra, pegou-lhe na mo e chorou com ela. Aquilo era superior s
suas foras.
- Tenho tanta pena... Mas vai correr bem. Ele disse que estava convencido de que conseguiram fazer
o melhor...
- Mas ele no sabe - soluou Alex, descontrolada. -
provavelmente eu tenho de fazer quimioterapia. Eu no
quero. Eu quero morrer.
        - No, no queres - reagiu ele, bruscamente. - Nem
sequer digas isso.
- Porque no? Como vais sentir-te quando olhares para
o meu corpo?
-Triste - respondeu ele, honestamente, o que a fez
chorar ainda mais. - Estou muito triste por ti.
Proferiu aquelas palavras como se fosse um problema dela e no dele prprio. Tinha muita pena
dela mas no queria
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que o problema se tornasse dele. No queria que ele o
matasse, como matara o pai, quando a me tivera um cancro.
Na sua mente, as duas mortes estavam ligadas e ele lutava
naquele momento, pela sua prpria sobrevivncia.
- Nunca mais querers fazer amor comigo - soluou
ela, preocupada com problemas menores.
- No sejas estpida. E o dia azul?
Tentou faz-la sorrir, mas ela sentiu-se ainda pior e ollhou
para ele, angustiada.
- No haver mais dias azuis. Tenho cinquenta por cento de probabilidades de ficar estril depois da
quimioterapia.
Durante cinco anos, no devo engravidar. Caso contrrio,
pode haver uma recorrncia. E, daqui a cinco anos, serei
demasiado velha para ter um beb.
- Deixa de pensar o pior em relao a tudo. Porque no
te descontrais e tentas ver as coisas pelo lado positivo?
- props ele tentando mostrar um optimismo que no sentia.
Contudo, Alex no estava a ajudar.
- Que lado positivo? Ests doido?
- Ele diz que a perda do seio pode salvar-te a vida. Isso
 muito importante - retorquiu Sam com firmeza.
- Como te sentirias se perdesses um dos testculos? Como
seria?
- Seria pssimo, como isto. Eu no quis que isso acontecesse, nem tu. Mas temos de tirar o melhor
partido dessa situao.
Sam tentava mas ela no queria ouvi-lo.
- No h melhor partido. Eu  que estou demasiado
doente para me mexer durante os prximos seis ou sete
meses, fiquei desfigurada para o resto da vida e no posso
ter mais filhos. E depois pode haver uma recorrncia.
- No h mais nada em que possas pensar para te diminuir? E que tal as hemorridas e a prstata?
Pelo amor de
 Deus, Alex, eu sei que isto  terrvel, mas no piores
a situao.
- No podia ser muito pior. E no me digas como
encar-la. Esta noite sais daqui e vais para casa. Vais
ter com a Annabelle e eu no. Vais tentar sentir-te bem
durante o ano inteiro, e amanh, quando olhares para o espelho
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ser diferente. Na minha vida tudo mudou. Portanto, no me digas para ver as coisas assim ou
assado. Tu no compreendes.
Alex gritava com ele e Sam nunca a vira to infeliz ou      nervosa.
- Eu sei. Mas ainda me tens a mim, e  Annabelle, e ainda s bonita. E ainda tens a tua carreira e
tudo o que  importante. Est bem, perdeste um seio. Tambm podias
ter sofrido um acidente. Podiias estar aleijada. No podes permitir que isto te destrua. No podes
fazer isso.
-Posso fazer tudo o que bem me apetecer. No me pregues sermes.
- Ento o que queres de mim? - perguntou ele, finalmente exasperado.
No sabia o que havia de dizer-lhe. Isso no era o seu forte, nem o stio onde queria estar, nem a
situao que desejava para si.
-Quero algum realismo, alguma compreenso. Tu nem sequer me ouviste durante as duas ltimas
semanas, quando eu te disse que isto podia acontecer. Nem quiseste saber como eu me sentia, nem
quiseste saber como eu estava assustada com tudo o que ia acontecer comigo. S quiseste deitar
pela boca fora uma srie de banalidades e injectar-me com uma srie de disparates. Valha-me Deus,
nem sequer estavas aqui quando eles me disseram o que me acontecera. Estavas no teu emprego, a
fazer negcios, e em casa, a ver a maldita televiso com a nossa filha. Portanto, no me digas como
hei-de sentir-me. No sabes nada daquilo que eu sinto.
- Tambm acho que no - concordou ele, tranquilamente, atordoado pelo rancor dela. Estava
furiosa, com toda a gente, com tudo, e com ele, porque nada podia alterar a situao. - No sei o que
hei-de dizer-te, Alex. Quem me dera alterar isto, mas no posso. E lamento no ter estado aqui.
- Eu tambm - disse Alex, desatando a chorar. Sentia-se to s e assustada, to vulnervel e
desamparada. - Como vou eu trabalhar, ou ser uma esposa para ti, ou cuidar da Annabelle?
- Tens de fazer o que podes e deixar que o resto corra
121
durante uns tempos. Queres que eu telefone para o teu emprego?
- No - respondeu Alex, olhando-o, desolada. - Eu
prpria telefonarei, daqui a uns dias. O doutor Herman diz que eu posso trabalhar durante a
quimioterapia. Depender
do modo como me sentir. Algumas pessoas trabalham, mas
no creio que sejam advogados. Talvez eu possa trabalhar
um pouco em casa.
Alex no sabia como iria conseguir aguentar-se. Seis meses de quimioterapia pareciam-lhe uma
eternidade.
-  demasiado cedo para pensar nisto tudo. Acabaste de
ser operada. Porque no te acalmas?
- E fao o qu? Vou para um grupo de apoio?
O mdico tambm lhe falara no assunto, e Alex recusara-se sequer a pensar nisso. No ia sentar-se
em crculo com
uma srie de inadaptados.
- Porque no te descontrais? - disse Sam, quando Alex
se irritou.
De repente, a enfermeira entrou e deu-lhe uma injeco
para as dores e um medicamento para dormir. Eram as or dens do mdico, e Sam aconselhou-a a
tom-los.
- Porqu? Para eu deixar de gritar contigo?
Alex parecia uma criana. Sam inclinou-se e beijou-a na
testa.
- Sim. Para te calares um pouco e dormires, antes que
ds em doida.
Tudo o que ela receara lhe acontecera, numa nica manh. E agora tinha de aprender a viver com
isso.
Esperava-a uma estrada dura para percorrer e ela sabia-o.
Entendia perfeitamente o que tinha pela frente. ao contrrio
de Sam, que ainda queria neg-lo.
- Amo-te, Alex - disse ele em voz baixa, depois
de a enfermeira lhe dar a injeco, mas Alex no respondeu.
Ainda no tinha sono- sentia-se demasiado infeliz por no lhe dizer que o amava. Depois, passados
alguns minutos,
adormeceu. No voltou a falar com ele, adormeceu, com
a sua mo na dele, e Sam ficou ali, a chorar e a olhar para ela.
Parecia to cansada e to triste, to destroada, toda cheia de ligaduras, com os seus belos cabelos
flamejantes e o seu corpo to mutilado.
122
Assim que ela adormeceu, Sam saiu do quarto em bicos de ps, sem fazer barulho e fez sinal 
enfermeira de que se ia embora. No elevador, lembrou-se do que Alex lhe dissera. Que ele podia
afastar-se daquilo e ir para casa. No era a ele que aquilo estava a acontecer, mas a ela. Quando ia a
sair, devagar, no pde neg-lo. Ainda estava inteiro, no corria perigo. No tinha nada a temer,
excepto o facto de perd-la, o que era to assustador que nem conseguia encarar. A caminho de casa,
mirou-se no vidro de uma montra, e viu o mesmo homem que sempre fora. Nada mudara; porm,
ele perdera uma parte de si mesmo naquela tarde, a parte que estava irremediavelmente ligada a
Alex. Parecia-lhe que ela o abandonava, a pouco e pouco, tal como os pais o tinham abandonado, e
ele no permitiria que ela o levasse consigo. No tinha o direito de lhe fazer isso, de esperar que ele
morresse com ela. E, com estes pensamentos, foi para casa o mais depressa possvel, como se
perseguido por bandidos ou demnios.

CAPTULO 7
No dia seguinte, quando Alex acordou, estava uma mulher sentada na cadeira  sua espera,
enquanto a enfermeira
lhe mudava o frasco do soro. Tinha relativamente poucas
dores, tal como o Dr. Herman previra; de repente, sentiu
um peso enorme no corao quando se lembrou do que
acontecera.
A mulher sorriu-lhe. Trazia um vestido s flores e tinha
o cabelo grisalho; Alex no sabia quem ela era.
- Ol, sou a Alice Ayres. Pensei em vir ver como est a
sentir-se.
Tinha um sorriso afectuoso e uns vivos olhos azuis e idade suficiente para ser me de Alex. Esta
tentou sentar-se,
mas era difcil, e a enfermeira elevou-lhe a cabeceira da cama para ela poder ver a mulher que viera
visit-la.
-  enfermeira?
- No, apenas uma amiga. Sei bem aquilo por que est a
passar, Mistress Parker. Ou posso trat-la por Alexandra?
- Alex.
Alex olhava para ela, sem conseguir entender o que fazia
ali aquela mulher. Nesse momento, chegou o pequeno-almoo, mas ela disse que no o queria. Era
uma dieta leve,
prpria para o perodo ps-operatrio; no entanto, Alex
s quis um caf.
- Eu no faria isso se estivesse no seu lugar - disse
Mrs. Ayres quando Alex afastou o tabuleiro. - Precisa
de foras e de se alimentar bem. - A mulher parecia-se
um pouco com a Fada Madrinha da Cinderela. - E que tal
uns flocos de aveia?
- Detesto cereais quentes - respondeu Alex, irritada,
olhando para a mulher. - Quem  a senhora e porque
veio aqui?
 Tudo aquilo lhe parecia surrealista.
- Estou aqui porque fiz a mesma operao que a senhora fez. Sei como , e como se sente, talvez
melhor do que a
maior parte das pessoas, e mesmo do que o seu marido.
124
Sei como est furiosa, assustada e chocada, e o que sente em relao  aparncia futura. Eu fiz
cirurgia reconstrutiva - explicou ela, estendendo um caf a Alex. - Gostaria de lhe mostrar, se quiser.
De facto, tem muito bom aspecto, ficou muito bem. E no me parece que a maioria das pessoas se
aperceba de que eu tirei um seio. Quer ver?
A situao parecia repelente a Alex.
- Prefiro no ver, obrigada.
O Dr. Herman j lhe explicara que ela poderia pr um implante e que poderia partilhar o mamilo
com o outro seio, ou mandar pintar um mamilo artificial no implante. Tudo aquilo lhe parecia
horrvel e intil. Alex estava destroada. Porque no deix-lo como estava?
- Porque veio visitar-me? Quem lhe pediu?
- O seu cirurgio incluiu-a na lista de visitas do nosso grupo de apoio. Talvez daqui a uns tempos
queira juntar-se ao nosso grupo ou falar com alguma das mulheres sobre as suas experincias. Isso
pode ajud-la muito.
- No creio - declarou Alex, olhando para ela, e desejosa de que ela sasse, mas sem querer dizer-
lho. - Preferia no falar deste assunto com estranhos.
- Compreendo. - Alice Ayres levantou-se e sorriu com doura. - No  um perodo fcil. E tenho a
certeza de que est preocupada com a quimioterapia. Tambm podemos responder a algumas dessas
perguntas, mas o seu mdico tambm pode. Temos igualmente um grupo masculino, se o seu
marido estiver interessado.
Alice Ayres pousou um livrinho junto da cama de Alex, e esta ignorou-o.
- No creio que o meu marido esteja interessado. De qualquer modo, muito obrigada.
Iria Sam a um grupo de maridos cujas mulheres tinham perdido um seio devido ao cancro? No era
provvel.
- Tenha cuidado consigo, Alex. Pensarei em si - afirmou Alice com doura, tocando-lhe num p por
cima da roupa, antes de sair do quarto.
Comunicou s enfermeiras que fora uma primeira visita que decorrera nos moldes clssicos.
Alexandra Parker estava irritada e deprimida, o que era de esperar. Tencionavam passar
125
a ir visit-la com regularidade, e Alice Ayres fez uma comunicao dirigida ao grupo central para
enviarem algum
mais novo. Na sua opinio, uma mulher da idade de Alex
poderia ajud-la melhor. O membro mais jovem do grupo
tinha vinte e cinco anos e j visitara a maior parte das mulheres mais novas. Contudo, havia muitas
mulheres da idade
de Alex nas mesmas condies.
- O que quer isto dizer? - vociferou Alex, dirigindo-se
 enfermeira que acabara de entrar de servio.
- Creio que  uma questo de rotina. So boas pessoas e
ajudam muitas mulheres - explicou a enfermeira, enquanto
Alex, como era previsvel, deitava o livrinho no cesto dos
papis. - Apetece-lhe tomar um banho?
Alex ficou furiosa com a pergunta; no tinha alternativa
seno seguir a rotina do hospital. Eles  que lhe davam banho e lhe lavavam os dentes. Da cama,
Alex olhou l para
fora, pela janela, e depois chegou o almoo. Mais comida
macia e suave. No lhe tocou e, logo a seguir, entrou o
cirurgio para verificar o penso e o dreno. Alex ainda tinha
medo de olhar para o seu prprio corpo e pregou os olhos
no tecto, desejosa de gritar enquanto ele a mudava. Assim
que ele saiu, Sam telefonou. Estava no emprego e tencionava ir l de tarde, pensando que lhe faria
bem descansar e dormir um pouco. Annabelle estava ptima e Sam afirmava que estava ansioso por
v-la, mas Alex no acreditou. Se estava ansioso por v-la, porque no fora visit-la de manh ou 
hora do almoo? Ele explicou que
ia ao Four Seasons com um dos seus clientes mais antigos. Alm disso, queria apresentar Simon e a
assistente a alguns clientes. Contudo, prometeu passar por l quando fosse para casa.
Alex teve vontade de desligar-lhe o telefone na cara,
mas no o fez. Telefonou a Annabelle, tiveram uma conversa agradvel sobre a escola e a sua
viagem, e Alex prometeu-lhe que estaria em casa no fim-de-semana. Depois, deram-lhe uma
injeco para as dores, mas teve de admitir que no tinha muitas. Era mais fcil pairar entre o sono
e a viglia; sentir o efeito dos medicamentos do que enfrentar o futuro e a ausncia do marido.
Quando acordou, telefonou para o escritrio. Matt Billings estava fora, assim como Brock;
126
Elizabeth Hascomb disse-lhe que estava tudo sob controlo. No houvera emergncias desde que ela
partira e todos sentiam a sua falta.
- Est mesmo bem? - perguntou Liz, mostrando-se preocupada; no entanto, a voz de Alex era forte;
muito melhor do que naquela manh.
- Estou, estou bem. Voltarei assim que puder.
- Ficaremos  espera.
Naquela tarde, o Dr. Herman disse-lhe que ela poderia ter refeies regulares e sair no dia seguinte,
ou esperar at se sentir um pouco mais forte. A inciso estava a cicatrizar muito bem.
- Prefiro ficar - respondeu ela, tranquilamente, o que o surpreendeu.
Imaginava que ela era daquelas pessoas que desejaria ir a correr para casa dois dias depois. Isso
teria sido possvel, mas ele recomendava sempre aos seus doentes que ficassem um pouco mais.
-Julguei que estava ansiosa por nos deixar - declarou ele sorrindo, consciente do trauma que ela
sofrera.
- Tenho uma filha de trs anos em casa. Prefiro estar em melhor forma quando voltar para junto
dela, para no ter muitas explicaes a dar.
- Eu diria que estar em boa forma no fim-de-semana. Nessa altura, poderemos tirar o dreno.
Portanto, ficar apenas com um penso. Foi submetida a uma interveno cirrgica importante e vai
sentir-se cansada, mas no creio que tenha dores. Podemos resolver isso com medicao, se houver
algum problema. Depois disto, a nica coisa que tem a fazer  recuperar as foras. E, depois, daqui
a trs ou quatro semanas, consoante o resultado dos outros exames, comearemos
o tratamento.
Tratamento! Que palavra to benvola para designar  quimioterapia. S de pensar nisso, Alex
ficava com dores no peito.
- E quanto a ir trabalhar?
- Eu apontaria para daqui a uma semana. Quando tirar o penso e j tiver mais foras. E depois, 
claro, assim que comear a quimioterapia, ter de ver se consegue aguentar o
127
emprego. Se ajustarmos devidamente as doses, talvez possa trabalhar com moderao.
Quando  que Alex trabalhara com moderao pela ltima vez? Talvez no dia em que tivera
Annabelle, e nunca antes nem depois disso. Pelo menos, o mdico no afirmara que ela no poderia
trabalhar. Dissera que ela tinha de tentar. J era alguma coisa.
Depois, o mdico saiu e Alex sentou-se tranquilamente numa cadeira, a olhar pela janela. Dera um
passeio pelo corredor e reconhecera que se sentira fraca, atordoada e com falta de equilbrio. Os
pensos estorvavam-na, e ela no conseguia mexer o brao esquerdo; pelo menos, no era canhota.
Estava sozinha no quarto quando Sam chegou, s cinco horas, com um grande ramo de rosas
vermelhas. Hesitou  porta, quando a viu. Alex tinha uma expresso to desesperada que ele nem
sabia o que havia de dizer. Estivera ali sentada, a pensar no destino e no futuro. E, por instantes,
Sam recordara a imagem terrvel da me moribunda, e teve vontade de sair do quarto, a correr e a
gritar.
- Ol, como te sentes? - perguntou ele, tentando mostrar-se natural e pousando as flores.
Alex encolheu os ombros e no respondeu. Como se sentiria ele? Nem reparou que o marido estava
a tremer.
- Sinto-me bem - respondeu ela, sem se mostrar convincente. Tinha o peito a latejar um pouco e o
penso incomodava-a, mas isso era de esperar. - Obrigada pelas flores. - Tentou mostrar-se
entusiasmada mas no conseguiu. - O doutor Herman diz que eu posso voltar ao trabalho daqui a
uma semana.
J era qualquer coisa. Sam sorriu ao ouvir aquelas palavras e sentiu-se melhor.
- Bem, isso devia animar- te. Quando voltas para casa?
- Talvez na sexta-feira.
Alex no lhe parecia nada animada e estava preocupada com os cuidados a dispensar a Annabelle e
com o que lhe
diria acerca do penso.
- Pedes  Carmen que fique l durante o fim-de-semana? Acho que ela precisa de um dia de folga,
mas no creio que possamos passar sem ela por enquanto.
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- Claro. E eu posso tomar conta da Annabelle. Ela no  problema.
Alex fez um sinal afirmativo, cheia de saudades da filha; depois, olhou para Sam, perguntando a si
prpria como iria ser a vida de ambos a partir de ento. Tinham gasto tanto tempo e energia a tentar
ter outro filho e a fazer amor em dias marcados! Como seria agora a vida sem isso? Como seria a
vida com Alex sem um seio? Como seria ela aos olhos dele? Como seria? O Dr. Herman mostrara-
lhe as fotografias para ela se preparar, mas Alex ficara horrorizada. Era apenas uma superficie plana
de carne, sem mamilo, e umacicatriz em diagonal, no stio onde outrora se encontrava o seio. Nem
poderia imaginar como Sam reagiria quando lhe tirassem o penso. O Dr. Herman dissera-lhe que
podia tomar duche logo que lhe tirassem o dreno. As suturas levariam mais tempo a serem
absorvidas e, depois disso, Alex ficaria com o mesmo peito achatado e com a cicatriz que vira nas
fotografias.
-Porque no fazemos qualquer coisa este fim-de-semana? - sugeriu Sam com naturalidade.
Alex fitou-o. Sam estava a agir como se nada tivesse acontecido.
- Porque no telefonamos a algum e no vamos jantar com uns amigos, ou ao cinema, j que temos
a Carmen?
Alex olhou para ele, incrdula. Como podia ele dizer uma coisa daquelas?
- Eu no quero ver ningum. O que lhes diria eu? Bolas, acabei de perder o meu seio e ns
resolvemos ir jantar fora para comemorar, antes de eu comear a quimioterapia? Pelo amor de Deus,
Sam, tem um pouco de sensibilidade. Isto no  fcil.
- Tenho a certeza que no, mas no precisas de andar por a a ter pena de ti prpria depois disto. A
vida continua, como tu sabes. O teu seio no era assim to grande, valha-nos Deus. Portanto, qual 
o problema?
Sam tentara gracejar, mas para Alex era um grande problema. Perdera ma parte da imagem que
tinha de si prpria e da sua autoconfiana; alm disso, naquele momento a sua vda estava em risco.
129
- Como irs sentir-te agora em relao a mim? - perguntou ela honestamente, encarando-o do outro
lado do quartinho.
Queria ouvi-lo, visto que ele nunca lhe reafirmara o que sentia por ela antes da operao. Para Sam,
o simples facto
de estar ali era suficiente. Para Alex, no era assim. Ele passava por ali uma hora por dia, entre o
emprego e a ida para casa, e continuava ocupado com o resto da sua vida. Era muito fcil.
- O que queres dizer com isso? - respondeu ele, aborrecido com a pergunta.
- Estou a perguntar-te se vais sentir repugnncia quando vires como eu estou.
Alex ainda no vira o seu corpo, portanto no sabia bem do que estava a falar, mas precisava
desesperadamente de recuperar a confiana.
- Como posso eu saber o que vou sentir? No me parece que a diferena seja muito grande. Porque
no enfrentamos a situao quando l chegarmos?
- Quando? Na prxima semana? Amanh? Agora? Os olhos de Alex estavam de novo cheios de
lgrimas. Ele no dizia o que ela precisava de ouvir nem o que ela queria. E a pergunta parecia t-lo
deixado em pnico.
- Queres que eu te mostre ou preferes ver uma fotografia antes, para estares preparado? O doutor
Herman tem umas, muito grandes, muito ntidas, muito esquemticas. Parece um bocado de carne
achatada, sem mamilo.
Alex viu-o empalidecer e enfurecer-se de repente.
- Porque ests a fazer uma coisa destas? Queres assustar-me ou afastar-me ainda antes de
comearmos? O que se passa, Alex? Ests furiosa comigo, ou apenas zangda com a vida? Talvez
seja prefervel reveres a tua atitude, antes de comeares a pensar em reaver o teu seio.
- Quem te disse que eu estava a tentar reaver o seio? - Alex ficara admirada com o que ele dissera.
- O doutor Herman disse que poderias fazer cirurgia reconstrutiva daqui a uns meses, se quiseres.
Isso pareceu-ma boa ideia.
- Preferias que eu ficasse escondida at l? - pergun tou Alex, contundente.
130
- Ests a comportar-te como uma verdadeira idiota acerca disto. Lamento que estejas desfigurada...
No sei como irei sentir-me quando vir. Est bem? Depois digo-te. Combinado?
- No te esqueas.
Ele no dissera nada do que devia. Alex no estava certa
de que a situao no fosse importante para ele, nem de que
continuasse a ser bela aos olhos do marido. Sam queria apenas continuar a viver e fingir que nada
acontecera. Um jantar e uma ida ao cinema com os amigos parecia-lhe a soluo. Recusava-se a
perceber como ela estava perturbada com
o sucedido. E, se ela ainda no fizera qualquer esforo para sair da depresso, ele no estva decerto
a ajud-la.
- Porque no te concentras em reaver as foras e voltar
para casa? Sentir-te-s muito melhor quando estiveres em
casa com a Annabelle, quando puderes voltar para o emprego e a tua vida regressar ao normal.
- Qual o grau de normalidade que julgas que haver enquanto eu estiver a fazer quimioterapia,
Sam? - perguntou
la com rudeza.
- A vida ser to normal quanto tu quiseres que ela seja -
respondeu ele brutalmente, mas sem perceber ao certo o que
estava reservado  mulher. - No tens de fazer disto um bicho-de-sete-cabeas, nem tens de nos
castigar. A situao vai ser difcil para a Annabelle, se continuares furiosa como ests. Ters de fazer
as pazes com o que aconteceu. - Mas...
passara-se apenas um dia. -J no tenho a certeza de saber...
- Aparentemente no - concordou ela, desolada. Pareces estar demasiado atarefado com a tua
prpria vida para te deixares importunar por tudo isto, tanto quanto eu percebo. Neste momento,
pareces estar totalmente ocupado com o Simon e os seus novos clientes.
- Tenho uma vida profissional agitada, e tu tambm. Se isto estivesse a acontecer comigo, tu
tambm no ficarias em casa nem cancelarias os julgamentos ou as reunies com os teus clientes.
Tenta ser realista. O mundo no parou ontem por causa do que te aconteceu.
- Isso  reconfortante.
131
- Desculpa - disse ele, acabrunhado. -  como se o
que quer que seja que eu diga te deixe ainda mais irritada.
- Podias tentar dizer que isto no  importante para ti,
que me amas de qualquer maneira, com um ou com dois
seios, se for esse o caso. E, se no, creio que dizes o que 
verdade para ti. Talvez seja tudo o que interessa.
- Como sei o que irei sentir? Como sabes tu? Talvez
nunca mais te apetea ter relaes sexuais comigo depois disto. Como diabo hei-de saber?
Sam estava a ser dolorosamente franco para com Alex;
ela, porm, no estava preparada para isso. O mdico podia t-lo avisado, ou um terapeuta qualquer,
ou a prpria Alex, mas ele no lhes teria dado ouvidos. Estava a dizer-lhe a verdade, tal como ele a
conhecia. E ela no queria ouvir.
- Eu sei que te amaria, fosse o que fosse que te acontecesse, por muito desfigurado que ficasses,
mesmo que tivesses perdido a cara, ou os testculos, ou o cabelo, ou que tivesses de passar o resto
da vida numa cadeira de rodas.
- Isso  muito nobre da tua parte, mas  tambm um
grande disparate - respondeu ele, friamente. - Como sabes o que sentirias se me acontecesse uma
coisa dessas? No
podes saber seno na prpria altura.  muito fcil para ti fingires que isso no te afectaria, mas
talvez afectasse. Talvez
isso te afastasse, mesmo que no fosse o sentimento correcto.
- Ests a dizer que isto ir afastar-te?
- Estou a dizer que no sei, e a ser honesto. No posso
dizer que no me assusta ou que no me enerva um pouco,
ao princpio. Com os diabos,  uma grande mudana! Mas,
pelo menos, podemos fazer um esforo para no deixar que
nos consuma. Este problema no precisa de ter a dimenso
que tu lhe ds. Alm disso, a vida  algo mais do que
sexo e corpos. Tambm somos amigos, no somos apenas amantes.
- Mas eu no quero que sejamos apenas amigos - disse ela, queixosa, recomeando a chorar,
enquanto ele tentava
esconder a sua irritao.
- Nem eu! Por isso, tem calma, Alex. Deixa passar
mais tempo. Vamos habituar-nos a isto e ver o que acontece.
132
Porque no conseguia ele mentir-lhe? Porque no conseguia dizer-lhe que a amava de qualquer
maneira? Porque no era essa a sua maneira de ser. Ela sempre adorara a sua honestidade e
integridade, mesmo quando a feriam. E naquele momento estavam a feri-la, terrivelmente. - O que
eu no percebo  como toda a tua identidade pode confinar-se a um seio; que nem sequer era assim
to grande. Pelo amor de Deus, tu no eras uma rainha do topless nem uma corista. Qual  o
problema? s advogada. No precisas dos seios para nada. s uma mulher inteligente. Perdeste o
teu seio, no o teu crebro! Portanto, qual a razo de ser desta loucura? Tratava-se de perder a vida,
uma parte da sua identidade e talvez a sua vida sexual. Alex j no se sentia a mesma pessoa.
- Eu perdi um seio, e ainda que ele fosse pequeno, sou suficientemente ftil para n querer ficar
com uma cicatriz para o resto da vida. Posso perder o cabelo. A capacidade de ter filhos. Tudo se
alterou, e tu ests a dizer-me que no tens a certeza do que irs sentir por mim fisicamente. Como 
que no hei-de sentir-me traumatizada por isto, Sam? Preferia morrer a sentir uma coisa destas.
- Talvez eu no compreenda. Se eu descobrisse que ficaria estril para a semana, teria pena, mas
sentir-me-ia feliz por termos a Annabelle, e mais nada. Deixa de transformar tudo num grande
problema. A tua identidade e o teu crebro, a tua vida e a tua carreira, e tudo o que s e representas,
no um seio ou dois. Quem se importa com isso?
- Talvez tu te importes - respondeu ela, desesperada.
- Sim. Talvez. E depois? Manda-me  fava. Aprende a viver com isso e depois talvez eu me sinta
melhor. Mas no vou ficar aqui sentado a torcer as mos! Damos os dois em doidos!
Ento o que tens para me dizer?
- Digo-te que deixes de ter pena de ti prpria e que esqueas isso.
Havia algo de positivo no que ele dissera; contudo, havia outra parte dele que era totalmente
insensvel ao que ela estava a sentir.
- No quero estar sempre a pensar que tu tens um cancro. No posso.
133
Sam estava a ser muito mais honesto do que ela o julgava
capaz de ser.
- A que te referes quando dizes sempre? - Alex
olhou para ele, escandalizada. - Isto aconteceu ontem, e eu vi-te duas vezes em dois dias, menos de
uma hora de cada
vez. No diria que temos gasto assim tanto tempo com isto.
- No creio que tenhamos de ser ns.  qualquer coisa
que tens de ser tu a gerir e a resolver.
- Obrigada pela tua ajuda.
- No posso ajudar-te, Alex. Tens de ajudar-te a ti prpria.
- No me esquecerei.
- Lamento que estejas to zangada - retorquiu ele
tranquilamente, o que a irritou ainda mais.
- Tambm eu.
Ficaram calados durante algum tempo; depois, Sam levantou-se e olhou para ela, constrangido.
- Acho que tenho de ir para casa, por causa da Annabelle - declarou ele. - Est a fazer-se tarde e
prometique jantaria com ela.
Alex sentiu-o fugir-lhe e ficou em pnico. No lhe dissera nada do que devia dizer para encorajar a
sua compreenso, e ele tambm no. Estava furiosa por ele no lhe fazer companhia. No estivera
ali quando ela acordara da operao, ou quando lhe tinham comunicado que ela perdera um seio e
tinha um cancro, e no passara ali o dia todo. Estivera com Simon e os seus clientes, fora a
restaurantes chiques,
fizera negcios e mostrara-se importante. E parecia no
entender nada do que ela estava a sentir. Nem percebia que
ela ficara, de repente, abalada, assustada e insegura de si prpria e do seu amor por ela. Era
demasiado fcil para ele dizer que um ou dois seios no eram importantes. Eram importantes
para ela. Preocupava-se com o seu aspecto fsico perante ele;
preocupava-se desesperadamente se ele a amava ou no,  ele
no dizia nada que a convencesse de que a amaria, acontecesse
o que acontecesse. De facto, Sam estava a reservar-se
para saber como se sentiria afectado quando visse como ficaria o corpo dela. Alex estava furiosa
quando ele saiu; reparou que ele voltara a beij-la na testa, e no na boca, como se, de repente,
tivesse medo de lhe tocar.
134
Naquela noite, sentou-se no quarto e chorou mais uma
vez. Nem se deu ao trabalho de passear no corredor, ou de
telefonar a Annabelle, e tambm no telefonou a Sam. Queria apenas ficar s; voltou-se de costas
para a porta, quando
esta se abriu e ela sentiu algum entrar. Calculou que fosse a enfermeira e no se voltou para ver.
Deixou-se ficar sentada e continuou a chorar.
Sentiu uma mo no ombro e, por instantes, pensou que
poderia ser Sam; quando levantou a cabea, ficou admirada
ao ver Elizabeth Hascomb.
- Veio visitar-me? - perguntou Alex, surpreendida.
- Vim, sim, mas no soube que era a Alex seno esta
noite - explicou ela, sentindo-se de repente uma intrusa; no
entanto, era precisamente disso que Alex precisava, e Liz
sabia. - Trabalho no grupo de apoio  cirurgia torcica e
venho c duas vezes por semana. Ontem  noite, quando
cheguei, vi o seu nome na lista das visitas. O carto dizia
Parker... No pude acreditar. Pedi que me escolhessem para eu comprovar se era a Alex. Espero que
no se importe -
disse ela com doura; depois, deu-lhe um abrao maternal e
fez vir as lgrimas aos olhos da patroa. - Oh, Alex... Lamento tanto...
Alex nem conseguia falar. Deixou-se ficar nos braos de
Liz, a soluar. Como havia de suportar todos aqueles medos,
terrores e desiluses?
- Eu sei... Eu sei... Chore... Sentir-se- melhor.
- Nunca mais ficarei boa - declarou Alex, desolada,
olhando para ela por entre as lgrimas.
Liz sorriu.
- Sim, vai ficar. Custa a crer, neste momento, mas vai
ficar. Todas ns passmos por isso.
- A Liz tambm?
Alex estava admirada. No sabia do seu caso.
- Tiraram-me os dois seios h anos - explicou Liz. Tenho uma prtese. Mas eles agora so
formidveis na cirurgia
reconstrutiva. Com a sua idade, acho que devia pensar nisso. Mas no por enquanto - acrescentou,
cautelosa.
Parecia to meiga e sensata, e Alex sentia-se to aliviada
por Liz ter vindo visit-la.
135
- Tenho de fazer quimioterapia.
Alex desatou a chorar ainda com mais fora e Liz sentou-se e pegou-lhe na mo, grata por a ter
encontrado. Nunca
suspeitara da situao de Alex, embora naquele momento
conclusse que isso no devia ter acontecido.
- Eu fiz quimioterapia. E terapia hormonal, tambm.
Fiz isso tudo, mas foi h dezassete anos, e estou bem.
A Alex tambm vai ficar boa, se fizer tudo o que eles lhe
mandarem. Tem um mdico excepcional.
Em seguida, Liz lanou-lhe um olhar penetrante. Alex
estava deprimida, e ela apercebera-se disso.
- Como est o Sam a aceitar toda esta situao?
- Primeiro, no queria reconhecer que isto estava
a acontecer e dizia-me sempre que eles no encontrariam nada. E agora est aborrecido por eu estar
preocupada. Acha
que eu estou a exagerar, mas ao mesmo tempo admite que
isto pode incomod-lo e no sabe como se sente. Diz quando souber.
- Ele est assustado, Alex. Tambm  uma situao
assustadora para ele, mas h homens que no conseguem encarar o facto de as mulheres terem um
cancro.
- A me dele morreu de cancro quando ele era pequeno, e creio que este caso lhe recorda o outro.
Ou  isso...
est a comportar-se como um... um estupor.
- Talvez seja um pouco de cada coisa. Agora, precisa
de concentrar-se em si. No se preocupe com ele. O Sam
sabe tomar conta de si prprio, sobretudo se tenciona no
se preocupar consigo. Precisa de recuperar as foras, Alex.
Tem de combater a doena. Mais tarde, poder preocupar-se
com tudo o resto.
- Mas... e se ele me achar repelente? Se o meu corpo
o assustar?
A situao era aterradora para Alex; Liz fitou-a tranquilamente. Toda a sua simpatia ia para Alex e
no para Sam. Ela sabia. Passara por isso e tambm no lhe fora fcil. O marido vivera um perodo
difcil. A princpio, no conseguira, depois tornara-se um grande apoio para Liz. Mas ela sabia
melhor do que ningum, que, com ou sem Sam, Alex
teria de sobreviver.
136
- Ele tem de crescer, no acha?  um homenzinho e pode compreender. Ele sabe do que a Alex
precisa neste momento. Mas, se no puder dar-lho, ter de recorrer aos amigos,  famlia ou a um
grupo de apoio. Estamos aqui por
sua causa. Eu estarei c sempre que precisar de mim.
Alex desatou a chorar outra vez e Liz, com os seus modos maternais, abraou-a.
Deu a Alex alguns exerccios para fazer, indicou-lhe algumas coisas em que deveria pensar e no
lhe deixou nem          um livrinho. Conhecia Alex demasiado bem para isso.
Alex no tinha pacincia para livros que fornecessem informaes superficiais. Ia direita ao mago
das coisas. E, para ela, o mago das coisas era agora a sobrevivncia.
- Quando vai para casa?
- Talvez na sexta-feira.
- ptimo. Ganhe foras, durma muito, tome os medicamentos, se tiver dores. Coma regularmente,
cure-se depressa antes de comear a quimioterapia. Vai precisar de todas as suas energias - avisou
ela, com sensatez.
- Regresso ao emprego daqui a uma semana - disse
Alex, a medo, como se pedisse a opinio de Liz.
De repente, era muito cmodo ter algum com quem
conversar, algum que tambm estivera naquelas circunstncias. E Liz sobrevivera.
         - H muitas mulheres que vo trabalhar, mesmo durante a quimioterapia. Ter de escolher o
que for melhor para
si: quando deve descansar, quando deve ficar em casa, quando deve tirar o maior partido das suas
energias. Isto  um
pouco como travar uma guerra. O que ns queremos  vencer. Nunca se esquea disso. E, por muito
mau que isto seja, a quimioterapia vai ajud-la a vencer.
- Quem me dera acreditar nisso.
- No d ouvidos a histrias de terror e no perca de
vista o objectivo. Vencer, vencer, vencer. No permita sequer que o Sam a distraia. Se ele no puder
ajud-la, esquea-o para j.
Alex riu-se da veemncia com que ela falara.
- A Liz faz-me sentir melhor.
Depois, sonolenta, olhou para a sua secretria, surpreendida
137
com aquela outra vida de que no sabia nada. Era incrvel como havia coisas sobre as pessoas que
ningum sabia, e que eram to importantes. Tal como ningum soubera que ela viera fazer uma
bipsia, e talvez uma operao, enquanto estava ausente do emprego.
- Acho que esta manh fui muito indelicada para uma senhora do seu grupo de apoio. Alice qualquer
coisa - disse Alex, desculpando-se.
Liz sorriu.
- Ayres. Ela j est habituada. Talvez um dia a Alex faa a mesma coisa. H muita gente para quem
isto  muito importante.
- Obrigada, Liz - agradeceu Alex, e estava a ser sincera.
- Posso voltar amanh? Talvez  hora do almoo?
- Eu gostaria muito. Mas no diga a ningum l no emprego. No quero que eles saibam. Embora
daqui a pouco tempo eu tenha de dizer ao Matthew. Talvez quando comear a quimioterapia.
- Isso  consigo. Eu no direi nada.
Abraaram-se mais uma vez, e Liz saiu. Naquela noite, quando Alex se deitou, sentiu-se melhor do
que h vrrios dias e, curiosamente, menos irritada. Ficou deitada a pensar naquilo tudo, e resolveu
telefonar a Sam e dizer-lhe que o amava.
No entanto, o telefone tocou durante muito tempo e pouco depois Carmen atendeu. Eram dez horas
e pareceu-lhe que estava a dormir.
- Desculpe, Carmen. Mister Parker est? Carmen teve um momento de hesitao e depois respondeu
com um bocejo. Do stio onde estava, via a porta do quarto dele aberta, ao fundo do corredor, e a
luz apagada.
- No, Mistress Parker. Ele no est. Como se encontra a senhora?
- Estou bem - respondeu Alex, num tom um pouco mais convincente do que o daquela tarde. - Ele
foi ao cinema?
- No sei. Saiu depois do jantar da Annabelle. No comeu com ela. Portanto, deve ter ido sair com
amigos.
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No disse nada, e acho que ele se esqueceu de me deixar um
nmero de telefone.
Era sempre Alex que se lembrava de deixar o nmero do telefone onde poderiam ser contactados
quando saam  noite. Perguntou a si prpria onde fora Sam. Talvez tivesse ficado aborrecido com a
conversa travada no hospital e decidisse ir comer qualquer coisa fora e andar a p. s vezes fazia-o,
quando estava preocupado. Sam precisava de estar s
para resolver os seus problemas.
- Bem, diga-lhe s que eu telefonei. - Alex hesitou outra vez e depois acrescentou: - E diga-lhe que
eu o amo.
E de manh, d um beijo meu  Annabelle.
- Assim farei, Mistress Parker. Boa noite. E Deus a abenoe.
- Deus a abenoe tambm, Carmen. Obrigada. No sabia ao certo se Ele a abenoara ultimamente;
pelo menos, estava viva e da a trs dias iria para casa, para junto da filha. E trs semanas depois
comearia a lutar a srio. Desde daquela conversa com Liz, estava decidida a vencer essa batalha.
Naquela noite, ficou sentada na cama durante muito tempo, a pensar em Liz, em Sam e em
Annabelle, e em todas as coisas boas da vida em que teria de concentrar-se se queria vencer a luta.
Annabelle, lembrou-se Alex, prestes a adormecer. Annabelle:. Sam. Annabelle. E, ao pensar neles,
lembrou-se do tempo em que a filha era beb e lhe pegava ao colo.

CAPTULO 8
Depois de sair do hospital, o telefone tocara assim que
Sam se sentara  mesa para jantar com Annabelle. Era Simon. Marcara um jantar de ltima hora
com uns clientes de
Londres. Sam no queria ir com eles? Sam explicou que
ia comear a jantar com a filha.
- Bem, no comas, homem. Eles so bons companheiros, Sam. Vais gostar deles. E acho que so
importantes.
Representam as maiores empresas txteis de Inglaterra e
esto desejosos de investir aqui. So boas pessoas, devias conhec-los. E levo a Daphne comigo.
Aquilo seria um incentivo? Sam no tinha a certeza
e apresentou os seus argumentos. Depois de mais de uma vez
a desconversar com Alex, estava exausto. Contudo, tambm
estava deprimido, e a perspectiva de ficar sozinho em casa
depois de Annabelle ir deitar-se, ainda o deprimia mais.
- Eu no devia ir.
- Isso  absurdo. - Simon no desistia. - A tua
mulher est fora, no est? Porque no ds um beijo  tua
criancinha e no vens connosco? Encontramo-nos s oito, e a Daphne descobriu um stio qualquer
ridculo no
centro para os levar a danar. Sabes como so os Ingleses:
tm de divertir-se quando esto fora de casa, se no, acham
que foram enganados. So piores do que os Italianos,
que consideram que trabalhar em Inglaterra  uma chatice. Anda da, deixa-te de lamrias.
Esperamos-te s oito. Combinado?
- Combinado. L estarei. Talvez chegue cinco minutos
atrasado, mas vou.
Queria meter Annabelle na cama e ler-lhe uma histria.
Voltou para a cozinha e sentou-se a seu lado, at chegar
a hora de ela ir para a cama. E, depois de lhe ter lido
nght Moon mais uma vez, apagou as luzes deixando acesa
a lmpada da noite; foi para o seu quarto, mudou de
roupa, fez a barba e pensou em Alex. Tinham sido dois dias
difceis para ambos, e ele comeava a pensar como iria ser
quando ela voltasse para casa na sexta-feira seguinte. Estava envolvida com
140
um grande problema da operao e do seio que perdera. E a
 verdade  que isso tambm o assustava. Quem no ficaria
perturbado ao ver aquilo? Devia ser muito feio. Mas ele no queria dizer-lhe uma coisa dessas. S
desejava que ela no o obrigasse a isso. Lembrou-se da me a perguntar, vezes sem
conta, se ele gostava dela, antes de morrer, e teve de fechar os olhos e obrigar aquela voz a sair-lhe
da cabea, enquanto pensava em Alex.
Penteou-se, lavou a cara, ps um pouco de after-shave e,
quando saiu, dir-se-ia que acabara de sair da capa de uma revista, de fato cinzento-escuro e camisa
branca. Parecia exactamente o que era, um dos homens de negcios mais fascinantes de Nova
Iorque, e as cabeas voltaram-se, como
 sempre, quando ele entrou em Le Cirque. Metade das pessoas sabia quem ele era e tinha lido
artigos a seu respeito; outras pessoas perguntavam quem era aquele homem to
atraente, sobretudo as mulheres. Samj estava to habituado
        a isso que no ligava qualquer importncia, e em geral era Alex que o arreliava com essa
situao. Acusava-o de deixar a braguilha aberta, na esperana de que as mulheres reparassem nele.
E, naquele momento em que atravessava o restaurante, pensou nisso, lembrou-se da mulher e sorriu.
Contudo, pensou nela como era antes e no como estava agora,
deformada e furiosa no Hospital Nova Iorque.
         - Ainda bem que pudeste vir, Sam!
Simon levantou-se e cumprimentou-o assim que ele chegou; depois, apresentou-o a toda a gente.
Eram quatro ingleses e trs raparigas americanas que algum lhes arranjara
como companhia. Eram todas bonitas, duas eram modelos e
uma era actriz. Alm de Daphne, o que deixava apenas Sam
 e Simon sem par. Eram um grupo grande num restaurante
pequeno, e o barulho era ensurdecedor. No entanto, Sam
conseguiu manter uma conversa inteligente com um dos ingleses e do seu outro lado estava Daphne,
que passou a
maior parte do tempo a falar com uma das modelos. Por
         fim, durante a sobremesa, conseguiram falar um com o outro, enquanto os outros bebiam e
tagarelavam.
- Ouvi dizer que a sua mulher  uma advogada muito
importante - disse ela, para meter conversa.
141
Sam fez um sinal afirmativo. De certo modo, naquele momento, falar de Alex parecia-lhe doloroso
e tambm no era fcil.
- Ela  litigante numa empresa chamada Bartlett e Paskin.
- Deve ser muito inteligente e muito forte.
- E  - admitiu Sam.
Algo no seu tom deu a entender a Daphne que o assunto no era o mais adequado.
- Tem filhos?
- Tenho uma filha chamada Annabelle. Tem trs anos e meio e  um amor - respondeu ele, sorrindo.
- Eu tenho um filho de quatro anos em Inglaterra - disse ela, com naturalidade.
- Tem?
Sam ficara admirado. Parecia-lhe demasiado jovem para ter marido ou filhos, embora soubesse, que
j ia nos vinte e nove anos; mesmo assim ficara surpreendido. Tudo nela sugeria que era solteira.
- No fique to escandalizado - disse ela, rindo-se. Eu sou divorciada. O Simon no lhe disse?
- No.
- Casei-me com um patife dos piores aos vinte e anos. Por fim, ele fugiu com outra pessoa e ns
divorcimo-nos. Foi por isso que toda a famlia achou bem que eu me afastasse por um ano. Uma
terapia, creio que  assim que lhe chamam aqui. Ns chamamos-lhe umas frias - declarou ela,
sorrindo.
- E o seu filho?
- Sente-se muito feliz com a minha me - respondeu ela.
- Deve ter saudades dele.
- Tenho. Mas em Inglaterra no somos to sentimentais em relao aos filhos como vocs so aqui.
Mandamo-los
para o colgio interno aos sete anos, percebe? Daqui a pouco, ele ir para o colgio e depois para
Eton. E creio que lhe far bem afastar-se um pouco da mam, entretanto.
No era o tipo de coisa que Sam se imaginasse a fazer. Ficaria destroado sem Annabelle; Daphne,
porm, era muito fria e sabia muito bem o que queria.
- Isto escandaliza-o?
142
Daphne percebera que o deixara surpreendido.
- Um pouco - respondeu ele com franqueza, sorrindo-lhe. - No  exactamente esse o conceito de
maternidade
que temos aqui.
Por outro lado, ela no lhe parecia maternal, e talvez quisesse gozar um pouco da sua liberdade
antes de envelhecer.
-Acho que, como nao, temos mais sangue-frio do
que vocs. Os Americanos agarram-se muito ao que acham
que devem fazer, ao que se espera deles e ao que devem sentir.
Os Ingleses limitam-se a faz-lo.  bastante simples.
- E um pouco egocentrista.
Deu-se conta de que gostava de falar com ela. Daphne era inteligente e franca e totalmente aberta
em relao ao que sentia e ao que queria.
-  muito simples; uma pessoa vai atrs do que quer,
quando quer, sem se desculpar ou fingir que est a fazer outra coisa diferente. Eu prefiro isso. Aqui,
as coisas parecem
um pouco mais exageradas. Toda a gente se desculpa pelo
que faz, ou no faz, ou no sente.
Riu-se, e Sam gostou do seu riso. Era um som divertido
e sensual, e ele conseguia imagin-la despida e totalmente
descontrada.
-J alguma vez se divorciou? - perguntou ela, bruscamente.
Sam riu-se da pergunta.
- No.
- A maioria dos americanos divorcia-se, ou pelo menos
 essa a impresso que me do.
- O seu divrcio foi muito traumatizante?
Tratava-se de uma pergunta demasiado pessoal numa
conversa entre dois desconhecidos, mas Sam estava a gostar.
avia nela uma abertura e um abandono total.
- De modo nenhum. Foi um grande alvio. Ele era um
autntico patife. No consigo imaginar como estivemos casados durante tanto tempo. Sete anos. Foi
um horror, posso
garantir-lhe.
- Com quem fugiu ele?
Talvez Sam estivesse a adiantar-se um pouco com ela.
No entanto, parecia-lhe engraado descobrir coisas a seu respeito.
143
- Com uma empregada de bar, evidentemente. Bem bonita. Ele j a deixou. Est a viver em Paris
com uma rapariga que ele diz ser artista.  louco, mas felizmente preocupa- se bastante com o
Andrew, o nosso filho. Portanto, no preciso de assustar-me.
Ela parecia tudo menos assustada e dir-se-ia dominar por completo qualquer situao. Mais do que
um dos ingleses olhavam- na com interesse. Era como se ela pudesse escolher quem lhe apetecesse.
- Estava apaixonada por ele? - perguntou Sam, sentindo-se corar.
- Talvez. Durante um tempo. Mas aos vinte e um anos  muito difcil estabelecer a diferena entre
amor e bom sexo. No sei se alguma vez descobri de qual das coisas se tratava.
Daphne sorriu-lhe, descarada, e ele olhou para ela. De repente, desejou ser novo para a possuir. Ela
era formidvel. Depois, lembrou-se de Alex. E Daphne percebeu.
- E o Sam? Est apaixonado pela sua mulher? Ouvi dizer que  muito bonita.
E era, para quarenta e dois anos, para qualquer idade. Porm, no era to atrevida nem to vistosa
como Dapne e ele sabia-o.
- Sim, amo-a - respondeu ele firmemente, e Dapne no tirou os olhos dele.
- No foi isso que eu lhe perguntei, pois no? Perguntei-lhe se estava apaixonado por ela. H uma
diferena - disse ela, erguendo uma sobrancelha.
-H? Estamos casados h mais de dezassete anos.  muito tempo, ficamos muito ligados  outra
pessoa. Amo-a muito - disse ele, como se tentasse convencer-se a si prprio, mas ainda no
respondera  pergunta de Dapne.
- Est a dizer-me que no sabe se ainda est apaixonado por ela? Alguma vez esteve? - insistiu ela,
jogando ao gato e ao rato; porm, Sam no se importou.
- Claro que estive.
Sam parecia escandalizado com a pergunta e Simon divertiu-se ao reparar na expresso intensa de
ambos, do outro lado da mesa. Estavam muito embrenhados na conversa, como se discutissem os
grandes problemas da vida.
144
 -Quando  que isso se alterou? Quando deixou de
am-la? - perguntou Daphne, em jeito de acusao, como
se fosse um advogado.
Sam fez-lhe sinal com o dedo.
- Eu nunca disse isso. Isso  horrvel.
Em especial, naquele momento. No entanto, ao olhar
para Daphne, no conseguia seno pensar nela.
-Eu tambm no disse. Foi o Sam. Disse que esteve
apaixonado por ela, mas parece que no consegue dizer-me
se est neste momento - insistiu ela, com um ar tremendamente sensual.
 -s vezes, o casamento  assim. H pontos mortos,
quando tudo parece correr ao contrrio.
- E este  um deles? - perguntou ela, com uma voz
aveludada que revolveu as entranhas de Sam.
- Tlvez.  difcil dizer.
- Por alguma razo em especial? Aconteceu alguma coisa?
- Isso  uma longa histria - respondeu ele quase tristemente.
- Tem tido casos amorosos? - perguntou ela, de sbito; dessa vez, Sam deu uma gargalhada.
-J algum lhe disse que  descarada?
E bela... E sensual... E com uma pele que parece veludo...
- Evidentemente - retorquiu Daphne, com um sorriso
deslumbrante. - Alis, orgulho-me disso.
 - Bem, talvez no devesse faz-lo - disse Sam, tentando, em vo, repreend-la.
 -Na minha idade, posso fazer quase tudo o que me
apetecer. No sou suficientemente velha para ser considerada muito responsvel e j tenho idade
para saber o que estou a
fazer. Detesto rapariguinhas. E o Sam?
Saltava de um assunto para outro, enquanto sacudia os
longos cabelos negros sobre os ombros nus, ficando extraordinariamente sedutora. Numas coisas
era muito parecida
com Alex e noutras era muito diferente. Muito mais atrevida,
mais descarada, mas tinha aquela mente arguta e o mesmo corpo alongado e esbelto. Contudo, a sua
sensualidade
era muito mais ostensiva do que a de Alex fora alguma vez;
Sam sentiu-se embaraado ao admitir que isso lhe agradava,
145
embora esperasse que ningum percebesse. Ela estava constantemente a desafi-lo para brincar com
ela, para jogar um jogo que nenhum deles podia perder. Sam tambm sabia muito bem que no era
livre para jog-lo. Ela tambm o sabia.       Mas no deixava de brincar.
- E a Daphne? - insistiu ele, em resposta  pergunta dela acerca de rapariguinhas. - Gosta de rapazes
ou de homens maduros?
 - Gosto de todos os homens, mas prefiro homens da sua idade - respondeu ela, serenamente.
- V passear - retorquiu ele num tom de repreenso.
Isso foi demasiado bvio.
- Eu sou sempre bvia, Sam. Detesto perder tempo.
- Eu tambm. Sou casado.
 - Isso constitui problema?
Os olhos dela fitaram os dele, e Sam percebeu que tinha
de ser razovel.
- Creio que sim.
- Mas que pena. Podia ser divertido.
- Quero algo mais da vida do que a diverso.  desporto perigoso. H anos que no o pratico. 
umjogo
prprio para homens solteiros. Os felizardos. Sam olhou para ela e riu-se, desejando por um instante
ser mais novo e livre. Ela fazia-o sentir-se bem, mesmo durante pouco tempo. Era como se estivesse
a comer um bolo com creme.
- Eu gosto de si - afirmou ela, honestamente. Gostava do modo como ele fazia jogo limpo, e pensou
que a mulher dele devia ser feliz.
 - Tambm gosto de si, Daphne.  uma rapariga formidvel. Quase me faz desejar ser solteiro.
- Vem connosco  discoteca depois do jantar?
- Talvez no devesse ir. Mas podia ir.
Sam sorriu, pensando que gostaria muito de danar com ela; seria perigoso, em especial naquele
momento, naquele estado e com a tenso que havia entre eles. Depois de sarem do restaurante,
com a limusina mesmo ali, Daphne pegou-lhe na mo e puxou-o para dentro com os outros, e ele
no teve coragem de resistir. Foram para o
146
centro, para um stio no Soho, de que ele nunca ouvira falar.
Havia uma excelente banda de blues a tocar, e parecia inevitvel rodopiarem nos braos um do
outro, danando na escurido, quando ele sentiu o corpo dela colado ao seu e teve
de forar-se a no deixar de pensar em Alex.
- Tenho de ir - disse ele, por fim.
Era muito tarde e havia uma sensao de duplicidade
crescente no que ambos estavam a fazer. No valia a pena
enganar-se. Era casado e ela no era. Por muito atraente que ela fosse, ele no podia fazer uma coisa
daquelas.
 - Est zangado comigo? - perguntou ela em voz baixa,
enquanto ele pagava as bebidas e se preparava para a deixar na companhia de Simon.
- Claro que no. Porque havia de estar? - Sam ficara
admirado com a pergunta dela.
- O meu comportamento desta noite escandalizou-o.
No queria que o Sam se sentisse mal.
Era ela a desculpar-se.
-No. Lisonjeou-me. Sou vinte anos mais velho do
que a Daphne e, acredite, se eu pudesse, iria atrs de si num
instante. Mas no posso.
- O Sam  que me lisonjeia - disse ela, com falsa modstia, deitando-lhe um olhar que o inebriou.

- No, mas gostaria muito. - E depois adiantou uma
coisa que no tencionava fazer. - A minha mulher est
mito doente. - Desviou o olhar ao diz-lo tentando no
pensar em tudo o que acontecera nos ltimos dois dias, nem
nas palavras que ambos haviam trocado. - Isso dificulta um pouco as coisas. No sei ao certo o que
vai acontecer.
- Muito doente?
Daphne no quis pronunciar a palavra cancro, mas ele
percebeu o sentido da pergunta dela.
- Muito doente - confirmou ele, com um olhar desolado.
- Lamento.
- Eu tambm. Isto no  fcil para ela, nem para mim,
torna as coisas um pouco confusas.
- Eu no quis aumentar a confuso - asseverou ela, sentando-se to perto dele que Sam viu-lhe o
corpo atravs
do vestido, e gostou muito do que viu.
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- A Daphne no aumentou a confuso. No pea desculpa. H muitos anos que no me divertia
tanto. E preciso disso, muito.
Olhou para ela outra vez e gerou-se qualquer coisa entre eles que o surpreendeu: houve uma troca
de sentimentos verdadeiros. Aquilo j no era um jogo. Era uma pessoa com quem ele podia falar e,
de sbito, no lhe apeteceu deix-la.
- Vamos danar uma ltima vez?
No era nada disso que ele tencionava fazer e, por instantes, ficou aborrecido consigo prprio.
Depois, sentiu-se dominado pela ternura e pelo desejo, enquanto ambos danavam, de rostos
colados, ao som da msica. O corpo dela moldava-se ao seu. Danaram mais duas vezes e por fim
ele viu-se obrigado a deix-la. Foi lev-la a Simon, contrariado, como se fosse obrigado a devolver
uma jia emprestada; porm, tinha de o fazer.
- Parece que vocs dois esto a divertir-se - comentou Simon, intencionalmente.
Simon percebia o que estava a acontecer e ficara intrigado. Sam no lhe parecia o tipo de homem
que fosse dado a aventuras extraconjugais; contudo, no havia dvida de que estava a entender-se
bem com a sua prima. Talvez aquilo fosse s conversa. Afinal ele ia para casa, no  verdade?
- Ela  um pouco temperamental, no ? - insistiu Simon.
- Tome bem conta dela - respondeu Sam, muito srio, saindo em seguida.
No txi, a caminho de casa, perdeu-se nos seus pensamentos, recordando como gostara de danar
com ela. Era uma recordao que no esqueceria to cedo e, ao entrar em casa, sentiu-se culpado
perante Alex. E mais ainda quando entrou no quarto e viu o recado que Carmen lhe deixara em cima
da almofada. Naquela noite, porm, no foi o rosto de Alex que viu quando estava quase a
adormecer. Foi o de Daphne.

 CAPTULO 9
Na manh seguinte, quando se levantou, Sam telefonou a Alex. A enfermeira disse-lhe que ela fora
ao tratamento e que no voltaria seno da a meia hora. E, nessa altura, ele iria a caminho do
emprego. Tinha um cliente  sua espera e milhares de telefonemas para fazer, e no teria
oportunidade de voltar a telefonar-lhe. Depois de os clientes sarem, cruzou-se com Daphne no
corredor. O rosto dela iluminou-se quando o viu, mas a rapariga mostrou-se muito delicada e
profissional durante as breves palavras que trocaram. Depois, acompanhou-o ao gabinete dele e
disse-lhe que esperava no ter sido importuna na noite anterior. Deixara-se levar pelas
circunstncias. Mas, da em diante, prometia manter com ele um relacionamento estritamente
profissional.
- Que pena! - comentou ele, rindo-se. - Julguei que
eu  que fora importuno.
- De modo nenhum. - A voz dela era uma carcia, mas o seu comportamento era impecvel e muito
britnico. No tenho o hbito de andar atrs de homens casados. Mas o Sam  to atraente que devia
pintar-se com tinta preta ou enfiar um saco na cabea antes de sair com desconhecidos.
 mesmo perigoso.
Ela adulava-o e brincava com ele, e Sam adorava.
- Acho que devia ter ficado em casa - retorquiu ele,
sem convico -, mas senti-me terrivelmente bem, em especial no clube.
- Tambm eu - disse ela prontamente; de repente, ambos descobriram que estavam a namoriscar.
- O que havemos de fazer? - perguntou Sam com um
sorriso. Fora o primeiro a reconhec-lo.
-Ainda no sei. Duches frios, talvez. Nunca experimentei.
- Talvez pudssemos experimentar juntos - disse ele, arrependendo-se logo a seguir.
No conseguia imaginar nada que no fosse com ela, s queria estar com ela, encant-la e seduzi-la.
Nunca lhe
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acontecera uma coisa assim e no fazia ideia de como havia de acabar com aquilo. Pareciam
fsforos junto de uma chama e a deflagrao era instantnea.
- Temos de portar-nos bem - afirmou ele por fim, com firmeza.
- Sim, senhor - concordou ela, cumprimentando-o com um sorriso. Em seguida, enfiou- se no
gabinete, ao lado do de Simon.
Sam, porm, ficou a olhar para ela, sem conseguir desviar o olhar da sua figura.
- Cuidado! - disse Larry, o seu velho scio, passando por ele no corredor. - Ela  perigosa. As
inglesas so perigosas - acrescentou em voz baixa.
- Porque no me avisaram? - perguntou Sam, fingindo         lamentar-se e voltando para o seu
gabinete. Para aclarar as ideias, telefonou a Alex.
- Onde foste ontem  noite? - perguntou ela, queixosa. - Eu telefonei-te.
- Eu sei. Desculpa. Sa com o Simon e com uns clientes novos de Londres. Ele telefonou-me depois
de eu chegar a casa e falou-me nisso. Fomos jantar ao Le Cirque. - De repente, sentiu que falara de
mais, como se lhe devesse uma explicao. - Como te sentes hoje?
- Bem - respondeu ela, com uma voz deprimida. Ontem  noite, vi a Liz Hascomb. Ela pertence a
um grupo de apoio e  voluntria aqui.
- Isso  bom - comentou ele, sentindo-se longe de Alex, que s falava da sua doena e das coisas
que estavam relacionadas com ela. - No achas que ela vai contar s pessoas
do teu emprego? - Sam sabia que ela queria manter segredo em relao quele assunto, mas Alex
pareceu confiante
ao responder-lhe.
- No creio. A Liz  muito discreta. Mas ficou muito admirada quando me viu. E foi muito til.
- Ainda bem.
- Como est a Annabelle?
- ptima. Est a ficar entusiasmada com a Noite das Bruxas. Est sempre a provar o fato.
- Vens c hoje? - perguntou Alex, hesitante, como se no tivesse a certeza de que poderia voltar a
contar com ele.
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- Claro que vou. Passo por a quando for para casa. Alex tinha esperana de que ele fosse  hora do
almoo, mas no quis pression-lo. Sam disse-lhe que ficava no escritrio, a trabalhar.
Quando Sam tentou concentrar-se, descobriu que s conseguia pensar em Daphne. Aquilo era um
pesadelo. Tinha uma mulher doente, uma filha pequena, uma carga de responsabilidades e s
conseguia pensar na priminha inglesa de Simon. Ficou maldisposto quando viu Alex. Sentia-se
culpado e  beira de lhe pedir desculpa por ter conhecido Daphne. No queria mais complicaes na
sua vida; mas, de repente, deixara-se obcecar por ela, como uma droga que fosse obrigado a tomar e
que nunca provara.
- O que se passa? Ests muito abatido - detectou Alex imediatamente, o que o aborreceu ainda mais.
Era como se algum lhe tivesse pendurado ao pescoo um letreiro de non onde a palavra Daphne
faiscasse.
- No sejas parva - disparou ele, sem querer. - Estou  preocupado contigo. Estamos desejosos de
que voltes para casa na sexta-feira.
-J disseste alguma coisa  Annabelle?
- Claro que no.
- Acho que temos de dizer-lhe que eu tive um pequeno acidente durante a minha viagem.
- Porque havemos de dizer-lhe alguma coisa?
L estava! Uma nova recusa. Que no deixava de surpreender Alex.
- Eu tenho uma ligadura. Vou ficar com uma cicatriz, o meu seio desapareceu. No me sinto bem.
Ela no pode saltar para o meu colo. Julgas que vamos conseguir no lhe dizer nada, Sam? Ela no
 estpida.
- No s obrigada a pavonear-te nua diante dela.
- Para o resto da minha vida? Ela toma banho comigo e v-me vestir. Nunca lhe escondi o meu
corpo. Alm disso, daqui a umas semanas, estarei doente e, ao que parece, muito cansada, por causa
da quimioterapia. Ela precisa de saber.
- Porque tens de dar tanta importncia a isso? Porque tem isso de ser um problema meu e da
Annabelle? Porque no consegues conviver tranquilamente com isso? No percebo.
151
- Nem eu. No percebo como podes continuar a fingir que no se passa nada. No  s a mim, est a
acontecer a todos ns, pelo menos ao ponto de vocs os dois serem obrigados a entender.
- Ela tem trs anos e meio, pelo amor de Deus. O que pretendes dela? Compaixo?  isso? Alex,
parece-me doentio.
- Acho que ests doido.
- Pra de te queixares de tudo, pra de transformar isto num pesadelo para toda a gente. Fala com
um terapeuta, faz qualquer coisa, vai para um grupo, mas no sobrecarregues, a mim e  Annabelle,
desta maneira. No nos castigues pela
tua pouca sorte.
 Alex virou-lhe as costas e olhou para a janela.
- Gostava que sasses agora mesmo.
O tom dela era glacial.
- Com todo o prazer.
Furioso, Sam saiu do quarto e no lhe telefonou naquela noite. Nem ela: Telefonou a Annabelle a
dar-lhe as boas- noites, mas no pediu para falar com Sam, e s Carmen reparou nisso.
Naquela noite, Sam ficou em casa, sozinho, a pensar no que os esperava, e a situao no lhe
agradou. Alex faria um grande problema de tudo, da cicatriz, do seio que no tinha, da sua sade e,
da a pouco tempo, do tratamento e da quimioterapia; depois, seriam obrigados a ouvir falar do
cabelo dela, da falta dele, da doena dela. Seguir- se-iam meses e anos  espera de saber se os
exames mdicos estavam bons; se houvera uma recorrncia, se ela viveria mais um ano: Sam no
podia suportar aquilo. Fora o que acontecera com a me. E no era assim que ele queria passar o
resto dos seus dias, a ouvi-la diariamente falar no seu cancro. De repente, via-a como uma figura de
tragdia que tentava engoli-lo vivo e arruinar-lhe a vida. A Alex que ele conhecera e amara
desaparecera e, no seu lugar, encontrava-se aquela mulher irritada, assustada e deprimente.
Na quinta-feira, falaram duas vezes de Annabelle; concordaram que era prefervel que a criana no
fosse visitar a me. Porm, Liz Hascomb foi. Aparecia todos os dias desde que soubera que Alex
estava ali e o que lhe acontecera.
152
Na sexta-feira, Sam chegou ao meio-dia para a levar para casa. H dois dias que no a via, e ela
pareceu-lhe de repente muito frgil. Levava um vestido que lhe pedira para ele trazer. Era um
vestido de malha, solto, que lhe assentava bem por cima da ligadura e que quase a disfarava. E
Sam trouxera-lhe um casaco azul-forte para vestir por cima. Alex no se dera ao trabalho de se
maquilhar; no entanto, era alta e esguia, e os cabelos lavados caam-lhe generosamente sobre os
ombros. Estava melhor do que ele esperava, mas parecia muito assustada. Os olhos brilhavam,
enormes, e o rosto estava descorado. Sam reparou que as mos dela tremiam ao guardar a camisa de
noite na maleta.
- Sentes-te bem, Alex? Tens dores?
Ficou admirado ao v-la to debilitada. De facto, Alex parecera-lhe melhor na tera e na quarta-
feira anteriores; Sam perguntou a si prprio se ela no teria sofrido uma recada ps-operatria.
Sentiu-se de novo culpado por no a ter visto na vspera, mas no pudera suportar a presso.
Naquele momento, Alex parecia to perturbada e nervosa.
- Estou bem - respondeu ela, ligeiramente rouca.  um pouco assustador voltar para casa. No h
enfermeiras, nem ningum que me ajude a fazer o penso, nem voluntrias do grupo de apoio. De
repente, tenho de regressar ao mundo e tudo  diferente, ou, pelo menos, eu estou diferente. E o que
direi  Annabelle quando a vir?
Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas ao pensar nisso. Tambm na noite anterior chorara junto de
Liz Hascomb; esta garantira-lhe que o que ela estava a sentir era perfeitamente normal.
- Ento, porque  que o Sam continua a agir como se eu fosse doida? - perguntara-lhe.
- Porque tambm est assustado. E isso tambm  normal. O nico problema com o Sam  que ele
no quer admitir isso.
Naquele momento, porm, Sam no parecia assustado, quando passou um brao  volta de Alex e
lhe pegou na maleta. Aparentava estar totalmente controlado e muito calmo. Desceram no elevador
e entraram numa limusina que ele alugara para a ocasio.
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O carro levou-os a casa, e o apartamento estava silencioso quando entraram. Carmen fora buscar
Annabelle  escola e, em seguida, fora lev-la  aula de dana. Alex quis instalar-se antes de a filha
chegar a casa, e vestir um roupo, mas ficou admirada ao ver como se sentia cansada. Estava
depauperada pelas emoes. Sam ficou deprimido ao v-la vestir a camisa de noite. Voltou-se de
costas para ele e vestiu a camisa antes de se virar; por isso, Sam viu apenas cetim cor-de-rosa
quando ela se voltou para ele.
- Porque no ficas vestida? A Annabelle pode ficar
preocupada ao ver-te de camisa de noite.
- Estou muito cansada. Acho que devia deitar-me.
- Podes deitar-te com o vestido - disse ele, em tom de
reprovao.
Na sua opinio, ela estava de novo a fazer-se de invlida, e sabia-o. Porm, ele no se dava conta de
como ela estava cansada, ou abatida, ou como receava ver a sua filha e o que ela diria. Era tudo
muito preocupante e desesperadament
assustador. Quando Alex se deitou na cama e ligou o televisor, viu Sam a vestir o casaco. Trouxera-
lhe o almoo que
Carmen lhe preparara e, de repente, ia-se embora.
- Onde vis?
Tinha medo de ficar sozinha. Subitamente, tinha medo
de tudo. Estava arrependida de ter voltado para casa; todavia, mais tarde ou mais cedo teria de o
fazer.
- Volto para o escritrio - explicou ele. - Tentarei
voltar cedo esta tarde. Tenho uma reunio com o Tom e
o Larry, que no consegui cancelar. Telefona-me, se precisares.
Alex fez um sinal de assentimento e ele atirou-lhe
um beijo; ela reparou que ele no se aproximara. No a beijara
como anteriormente desde a operao, e Alex perguntou a
si prpria quanto tempo se passaria at ele voltar a aproximar-se dela.
A ltima coisa que desejava era pression-lo; porm,
sentia-se to s com ele  distncia...
Deixou-se ficar deitada durante muito tempo,  espera
que Annabelle voltasse e a pensar no que havia de dizer-lhe. Pensou em muitas coisas; quando a
viu, esqueceu-se de
tudo aquilo que planeara. S pensou como ela era adorvel, como gostava dela e como sentira a sua
falta.
154
Annabelle soltou um guincho enorme ao ver Alex ali,  sua espera,  porta do quarto. Alex ouvira o
elevador e, depois, Carmen a abrir a porta principal; toda la tremia enquanto esperava.
- Mam! - gritou a criana precipitando-se para o colo da me.
Alex tentou proteger-se da pancada, mas no foi capaz. Fez um esgar de dor e Carmen apercebeu-se
disso. Annabelle, contudo, s via que a me estava em casa e no perdeu tempo. Recuou e olhou
para ela com um ar travesso.
- O que  que me trouxeste da tua viagem? De repente, Alex apercebeu- se de que se esquecera
completamente, e o entusiasmo de Annabelle esmoreceu.
- Sabes? Eles no tinham nada de jeito, nem mesmo no aeroporto. Para a semana, talvez possamos
ir as duas ao F. A. O. Schwarz e veremos o que l h. O que achas?
- Uau! - exclamou Annabelle, batendo as palmas e esquecendo no mesmo instante a sua desiluso.
Adorava ir com a me ao F. A. O. Schwarz. Depois, ficou admirada ao reparar que Alex estava de
camisa de noite.
- Porque ests de camisa de noite? - perguntou ela, desconfiada, tal como Sam admitira.
Em muitos aspectos, era muito parecida com Alex. Reparava em tudo e queria saber porque tudo
acontecia.
- Estive a dormir antes de chegares a casa e tive um pequeno acidente em Chicago.
- Tiveste! - Annabelle ficou impressionada e muito preocupada. - Ficaste mal?
A criana ia desatar a chorar; Alex apressou-se a dar-lhe um beijo para a sossegar.
- Assim-assim.
Alex ainda estava a congeminar a sua histria.
- Fizeram-te um penso?
Alex fez um sinal afirmativo.
- Posso ver?
Alex abriu o roupo, com as mos a tremer, e Carmen ficou sem flego ao ver o penso enorme.
Percebeu instantaneamente que se passara algo de terrvel e olhou a patroa nos olhos.
155
- Di-te? - perguntou Annabelle, ainda fascinada pelo
tamanho e pela localizao da ligadura.
- Um pouco - respondeu Alex, honestamente. - Temos de ter cuidado para no lhe darmos nenhuma
pancada.
- Choraste?
Alex fez um sinal afirmativo e instintivamente olhou para Carmen, cujos olhos se encheram de
lgrimas. Aproximou-se e tocou ao de leve no brao de Alex, e o seu gesto
comoveu-a profundamente. Annabelle foi a correr ao seu
quarto, buscar a boneca.
- Porque no me disse, Mistress Parker? - repreendeu
Carmen. - Est bem?
- Hei-de estar - respondeu Alex, lacnica.
Fora claramente o seio, mas Carmen ainda desconhecia a
extenso do mal, embora j tivesse adivinhado ao ver Alex
de perfil.
Annabelle voltou do quarto, aos saltos, com trs bonecas
e um livro. Estava cheia de histrias para contar sobre as aulas de dana e a escola, fizera-lhe um
desenho e estava ansiosa pela Noite das Bruxas. Haveria um desfile na escola e Katie Lowenstein
dava uma festa. Tinha mil e uma coisas para
partilhar, e, de sbito, Alex no percebeu como  que conseguira passar cinco dias sem ela. O facto
de a ver devolvia-lhe a vida e dava-lhe motivos para lutar.
- Sente-se bem, Mistress Parker? - perguntava-lhe
Carmen constantemente, enquanto as duas brincavam em
cima da cma de Alex.
Trouxe-lhe uma chvena de ch e uma sanduche
de frango e obrigara-a a comer. Embora no tivesse fome, Alex
recordou as palavras de Liz sobre a recuperao das suas foras e obrigou-se a comer. Liz telefonou,
de tarde, para saber como  que ela se sentia em casa, e ficou satisfeita ao perceber que Alex estava
muito melhor. Annabelle contribura muito para a animar; mais tarde, quando tirou o roupo porque
tinha calor, reparou que a filha se afastara um pouco dela.
A ligadura assustava-a. Sem dizer nada, Alex vestiu outra
vez o roupo e prometeu a si prpria que no deixaria
que Annabelle voltasse a ver a ligadura. Em certos aspectos,
Sam tinha razo. Alex no tinha o direito de impor-lhes o
156
seu problema e no tencionava faz-lo. Precisava do amor e do apoio de ambos, mas no pretendia
a sua comiserao, nem queria assust-los. Em certos aspectos, Sam era to medroso como a filha.
Ao fim da tarde, Carmen veio buscar Annabelle para o banho, e a criana pediu para tomar banho
com a me, na banheira de mrmore, com a espuma de banho da mam.
- Podes tomar banho na minha banheira, querida, se quiseres. Mas eu no posso molhar o meu
penso seno na semana que vem. No hospital, tinham-lhe posto um grande saco de plstico por
cima enquanto ela tomava duche.
- Vai andando e toma banho sem mim. Est bem?
Annabelle concordou, e Alex olhou para o relgio. Eram cinco horas e lembrava-se de que Sam lhe
dissera que viria para casa cedo. Sabia, porm, que as tardes de sexta-feira eram sempre longas para
ele, a tratar dos assuntos pendentes antes do fim-de-semana.
Na verdade, Sam estava no escritrio, ocupado com pormenores do seu ltimo negcio; no entanto,
estava tambm a protelar o seu regresso a casa.
- Ainda est a trabalhar? - perguntou Daphne, por acaso, ao espreitar para o seu gabinete, s cinco e
um quarto.
Ia a sair. Ela e Simon iam a Vermont com uns amigos ingleses. Toda a gente lhes falara da cor
extraordinria das folhas, e Daphne fizera questo de ir.
-  lindo - confirmou Sam, desejoso de poder acompanh-la.
Passou a mo pelo cabelo e sentiu-se triste. Sabia que eram horas de ir para casa, mas tinha receio.
A tenso com Alex era palpvel e nem mesmo Annabelle podia apazigu-la.
- E o Sam? Vai divertir-se? - perguntou ela, sem querer separar-se dele.
Parecia-lhe to triste e to s, como se no tivesse para onde ir e no lhe apetecesse sair do
escritrio.
- No. A minha mulher acaba de sair do hospital. Acho que vamos conseguir aceitar isto bem.
157
- Lamento, Sam - disse ela, com doura. O olhar de ambos cruzou-se perigosamente e Sam sorriu-
lhe, com afecto.
-Obrigado, Daphne. Divirta-se. At segunda- feira. Ela fez um aceno de cabea, ansiando por
atravessar o aposento e abra-lo, mas ele estava to srio que ela nem se atreveu. Em vez disso,
ficou a observ-lo; depois, atirou-lhe um beijo e saiu do gabinete, desejando passar o fim-de-
semana com ele e no com Simon e com os seus amigos de Inglaterra.
s cinco e meia, Sam libertou-se das desculpas. Vestiu o
casaco, desceu a escada e percorreu uns quarteires a p, antes de apanhar um txi para casa.
Chegou antes das seis horas, e Alex olhou para ele, admirada. Estivera a brincar com        Annabelle
e a ler-lhe uma histria. Carmen estava a fazer
o jantar e insistira em ficar no fim-de-semana.
- Ol. Como te correu o dia?
Alex tentou mostrar-se natural; no entanto, Sam parecia no estar  vontade com ela e, quando
respondeu, a voz dele soou-lhe como a de um estranho.
- Bem. Desculpa ter vindo atrasado, mas tive uma tarde de loucura.
- No h problema. Estive entretida com a Annabelle. Divertimo-nos muito.
Jantaram todos na cozinha e Annabelle falou mais do que qualquer deles. E, para espanto de Alex,
pareceu no se aperceber da tenso que havia entre os pais. Sentia-se muito feliz por ter a me em
casa, estava cheia de planos, de histrias engraadas, de anedotas e de canes novas e fazia retratos
ininteligveis dos amigos. Foi um jantar animado. Em seguida, foram deit-la, e Carmen arrumou a
cozinha.
Quando Alex e Sam se dirigiram para o quarto, de repente a conversa esgotou-se. Alex no sabia
que dizer e com Sam parecia acontecer o mesmo. Estava cansado e distrado.
- Est tudo a correr bem no emprego? - perguntou ela, sem saber porque estaria ele to nervoso.
- ptimo.
Sam no conseguiu fazer- lhe a mesma pergunta. Ela no fora ao escritrio durante toda a semana.
S sabia falar da sua doena.
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Sam ligou a televiso, procurando refugiar-se a, e pouco depois adormeceu. Alex estava exausta
com a emoo provocada pelo regresso a casa, mas gostava de estar ali. No sabia o que havia de
fazer com Sam. Liz sossegara-a mais uma vez. Quando lhe telefonara naquela tarde e lhe dissera
que tivesse pacincia, afirmara que havia passado pelos mesmos problemas com o marido, a
princpio, a falta de -vontade, os receios da doena, o ressentimento, mas que ele se adaptara pouco
tempo depois.
Sam acordou depois do ltimo telejornal, mexeu-se e olhou para ela, como se estivesse admirado de
a ver a seu ladoo. Depois, sem dizer palavra, foi vestir o pijama. Alex j se lavara o melhor que
pudera, mudara de camisa de noite e vestira um leve casaco, por cima, para que a ligadura no
incomodasse Sam. Quando voltou para junto dela, depois do duche, que pareceu uma eternidade a
Alex, hesitou antes de entrar para a cama.
De repente, tinha medo dela, como se ela pudesse contagi-lo. Alex precisava tanto dele, e Sam no
sabia o que tinha para dar-lhe. A sua prpria inpcia era o que mais o assustava. Era mais fcil no
se aproximar dela.
- Passa-se alguma coisa? - perguntou Alex, confusa. Era como se ele no soubesse se havia de
dormir com ela... Porm, com Carmen no quarto de hspedes, no havia outras opes.
 - Eu. Seria. Eu magoo-te se dormir aqui? De sbito, Alex no conseguiu deixar de sorrir-lhe. Sam
parecia sentir-se to mal na sua prpria pele e to pouco  vontade com ela. De certo modo, a
situao era trgica-e fazia-a sentir-se triste e irritada. Ele parecia-lhe to desajeitado!
- No me magoas, a menos que me ds com um sapato na cabea. Porqu?
Alex tentou fingir que tudo estava normal, mas ambos sabiam que no estava.
- julguei que. Se eu resvalasse. Ou te tocasse. Ele tratava-a como um objecto de vidro e no como
uma mulher, e parecia ir de um extremo ao outro. Ora queria fazer de conta que no havia problema
nenhum, ora queria ir at o fim do mundo para evit-la. Era triste.
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- Tu no me magoas, Sam - respondeu ela, serenamente.
Ele meteu-se na cama como se houvesse uma mina do
lado dela e ele tivesse medo de faz-la explodir. Ficou ali,
quieto,  beira da cama, afastando-se dela o mais que podia,
e fazendo-a sentir-se uma estranha.
- Ests bem? - perguntou ele, com nervosismo, antes
de apagar a luz. - Queres alguma coisa?
- Estou bem.
Ou, pelo menos, desejava estar, e estava suficientement
bem para dormir a seu lado. No entanto, era bvio que a ele
no lhe apetecia. Da a pouco, Sam adormeceu, mesmo
 beira da cama, enquanto Alex o observava. Era como se,
de um dia para o outro, se tivessem tornado estranhos, devido
 falta de um seio. Assim que ele adormeceu, Alex desatou
a chorar, lamentando o marido.
Na manh seguinte, ele acordou muito antes de ela se
ter mexido; quando ela se levantou, trocou o casaco de dormir
pelo roupo. Ele e Annabelle estavam prontos para sair e
falavam em ir ao Central Park experimentar um papagaio
novo que ele comprara.
- Queres vir? - perguntou ele, hesitante, mas ela abanou a cabea.
Ainda estava muito cansada, e seria mais fcil esperar
por eles em casa.
- Eu espero aqui. Talvez a Annabelle e eu faamos
biscoitos quando vocs voltarem - respondeu, tentando
mostrar-se bem-disposta.
- Que bom! - exclamou Annabelle.
Ambos os planos lhe agradavam. Os biscoitos e o papagaio. Meia hora depois, saiu com o pai... e o
papagaio.
Sam mal dirigira a palavra a Alex desde que esta se
levantara. Era como se, depois do regresso a casa, ela constitusse uma verdadeira ameaa para ele.
Sam estava ainda
menos comunicativo do que se mostrara quando ela se encontrava no hospital. A situao era
desgastante.
Chegaram a casa  hora do almoo, e Alex preparou
sopa e umas sanduches. Carmen fora a casa; Alex insistiu
que no precisava dela, mas ela dissera que voltaria.
Queria estar ali, para ajudar Alex.
160
Entusiasmada, Annabelle explicou que o papagaio subira
muito alto, junto do lago dos barquinhos, e que depois voara para cima de uma rvore e o pap
tivera de subir muito
 alto para o tirar de l.
- Bem, no foi assim to alto como isso - confessou
Sam, divertido.
Tinham passado um bom bocado. E tinham comprado
castanhas e bolinhos salgados.
Alex arranjara o cabelo durante a ausncia de ambos e
vestira-se. Estava de calas de ganga e camisola, e quase no se notava o que lhe acontecera. Com a
camisola larga, mal
se via o volume dos seios. Annabelle, porm, reparou nisso
mais tarde, quando estava sentada ao colo de Alex, encostada a ela.
- A tua maminha doente est mais pequena, mam - comentou ela, olhando para o peito da me,
como se tivesse
ficado admirada. - Caiu quando levou a pancada?
- Mais ou menos.
Alex sorriu, tentando manter a compostura. Da a pouco
tempo, teriam de falar no assunto, e aquele momento era
to bom como outro qualquer. Era prefervel ser mais cedo.
Sam estava na outra sala e ficou um pouco assustado quando entrou e ouviu o que elas estavam a
dizer.
- Ficar diferente quando tirares a ligadura? Desapareceu toda?
 Annabelle estava espantada por uma parte da sua me ter
desaparecido. Estava muito confusa.
- Talvez. Ainda no vi.
- Podia cair?
Alex no queria assust-la nem engan-la.
- No, no podia. Mas ficou muito magoada. Por isso
 que eles me puseram o penso grande.
- Como foi?
Annabelle estava admirada com o que acontecera  me
durante a viagem, e Sam estava aborrecido com ela.
Felizmente, Annabelle saiu da sala para ir buscar um jogo e esquecera-se de ouvir a resposta. Alex
ficara-lhe muito
grata, pois no tinha nenhuma para lhe dar. Como foi?
era uma pergunta  qual no queria responder.
161
Sam, contudo, estivera a ouvir a conversa e o assunto
no lhe agradava.
- Porque havias de lhe explicar? Por que razo  que isto tem de ser motivo de conversa com ela?
Ela tem trs anos
e meio, valha-te Deus. No precisa disto.
Nem ele, e tinha quase cinquenta.
- Nem eu, Sam, mas somos obrigados a isso. E ela perrguntou-me. Estava sentada no meu colo e
sentiu a diferena.
- Nesse caso, no a sentes ao teu colo. H muitas outras
maneiras de contornar a situao...
-J percebi. E tu pareces encontr-las todas.
Sam estava constantemente a evit-la e, de tarde, disse
que ia ao escritrio, o que surpreendeu Alex. Era raro l
ir aos fins-de-semana. Porm, ela percebia por que razo ele
o fazia agora. No suportava estar junto dela.
Alex e Annabelle ficaram em casa, a fazer biscoitos e
a ver o Peter Pan e A Pequena Sereia. Eram trs horas quando
ele saiu, e o ambiente era to tenso que Alex concluiu que
fora prefervel ele ter sado. De facto, no conseguia suportar aquela tenso. A atmosfera entre eles
era elctrica.
- Porque  que o pap est zangado contigo? - perguntou Annabelle, enquanto cortavam a massa dos
biscoitos.
Alex ficou admirada com a pergunta.
- O que te leva a pensar que o pap est zangado comigo? - perguntou, intrigada com a percepo
da criana.
- Ele no fala contigo. S quando  obrigado a isso.
- Talvez ele esteja cansado - explicou Alex, dando forma aos biscoitos, enquanto Annabelle pegava
em grandes
nacos e os comia.
- Ele teve saudades tuas enquanto estiveste fora. E
eu tambm - disse ela, muito sria. - Talvez esteja zangado
por te teres ido embora.
- Talvez - concordou Alex, sem querer envolver a
filha nos problemas de ambos. - Aposto que ele j estar
bom quando voltar para casa.
Alex beijou-lhe a ponta do nariz sardento e deu-lhe
um bocado de massa.
Sentado no seu gabinete Sam estava de mau humor.
No tinha quase nada para fazer. O seu trabalho implicava
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gente, clientes e negcios a fechar. No tinha aquela avalanche de papis a que Alex estava
habituada. E viera para o escritrio apenas para fugir; agora que estava ali, sentia-se Pessimamente.
Estava a fugir da mulher e sabia- o. Tinha medo de tocar o corpo dela naquele momento, tinha medo
do sofrimento dela e receava no estar  altura dos seus desejos. Era muito mais fcil estar zangado
com ela, ser duro para com ela evit-la.
- O que est aqui a fazer?
Sam ouviu uma voz do outro lado do aposento e deu um salto. Tinha a certeza absoluta de que no
havia mais ningum no escritrio. O alarme estava ligado, e o segurana l em baixo no o avisara
de que estava ali algum. Ela devia ter entrado depois. Era Daphne. Trazia uma blusa preta de linho,
justa, e umas calas pretas que lhe acentuavam o conprimento das pernas. Tinha o cabelo preso
numa longa trana e calava umas pequenas botas de camura preta, tipicamente inglesas.
-Julguei que estava em Vermont - disse ele, ainda muito assustado.
- E era para estar. Mas o Simon est com gripe e os amigos no quiseram ir sem ele. Portanto,
ficmos c. E eu pensei que podia aproveitar a oportunidade para trabalhar um pouco. Espero que
no se importe, Sam. No quis intrometer-me. Parecia to distante quando o vi.
Daphne dissera aquilo num tom compreensivo. Tinha um ar muito jovem e muito sensual, ali, no
meio do seu gabinete.
- Como vo as coisas?
-No vo muito bem, suponho. Caso contrrio, eu no estaria aqui - respondeu ele, honestamente,
estendendo as pernas debaixo da secretria e brincando com um lpis. Era estranho que conseguisse
falar com ela e no com Alex. Levantou-se e aproximou-se dela.
- Talvez o meu sexto sentido me tivesse indicado que a Daphne viria c - prosseguiu ele.
- Isso no  digno de si, mas aceito, de qualquer modo - disse ela, arreliadora. - Posso fazer-lhe um
caf?
- Claro, gostava muito.
163
Sam foi atrs dela para a copa, apercebendo-se do seu perfume.
Daphne tinha um cheiro almiscarado e sensual.
- Desculpe - disse ele de repente, quando ela se voltou para ele. - Tenho agido como um louco, esta
semana. No sei para que lado hei-de voltar-me. Isto tem sido um inferno e eu no tenho o direito
de a molestar com este assunto.
- Se o facto de ter jantado comigo no Le Cirque e de me ter levado a danar  molestar-me, ento,
moleste-me sempre que quiser, Sam.
Daphne lanou-lhe um sorriso sedutor; havia nela algo mais do que sensualidade, havia muito
afecto e compreenso. Ela era descarada e brincalhona, mas parecia ser tamb muito carinhosa, e
isso agradava a Sam. Havia nela tantas coisas que lhe faziam lembrar o melhor de Alex. E depois:
ela deu-lhe a volta ao estmago com a rudeza da sua pergunta. Falou baixinho e olhou para ele;
Sam, porm, no estava preparado para o que ela lhe perguntou.
- A sua mulher est a morrer, Sam?
Durante muito tempo, ele no soube o que havia de responder.
- Talvez. No sei. Ela est muito doente, suponho, embora eu no perceba bem.
-  um cancro?
Sam fez um sinal afirmativo.
- Tirou um seio esta semana e vai comear a fazer quimioterapia.
- Mas que problema para si e para a sua filha... Toda a sua compreenso ia para eles, e no para
Alex.
- Creio que . Ou que ser. A quimioterapia parece um pesadelo. No sei se me submeteria a ela.
- Isso  o que todos dizemos, antes de sermos confrontados com essa situao. Depois lutamos
como ces e tentamos tudo para nos curarmos. O meu pai morreu o ano passado, e tentou tudo,
incluindo uma espcie de plulas mgicas que conseguiu na Jamaica e que nada faziam. No posso
culpar a sua mulher por tentar. Mas isso  terrvel para si. Pobre Sam!
Estavam de p numa pequena sala sem armrios,, enquanto
o caf fervia, e a voz dela era pouco mais do que um sussuro.
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 - No devia ter pena de mim - murmurou ele, sem
perceber porque falavam to baixo. S l estavam eles, mas
tudo o que Sam queria era aproximar-se dela e falar ainda
mais baixo. - Eu estou bem...
- No se trata de si... - respondeu ela.
        Sam no estava preparado para o que se passou a seguir.
ps-lhe os braos  volta do pescoo, acariciou-lhe a nuca, at ele sentir calafrios e beijou-o. E ele
sentiu que todo o corpo reagia com um impulso que quase o assustou, por
incontrolvel. Apetecia-lhe rasgar-lhe a roupa e deit-la
no cho a seu lado; contudo, apenas se atreveu a beij-la e a
deixar que as suas mos percorressem avidamente o corpo
dela. Daphne era musculosa, tinha um estmago firme e
as ndegas pequenas e esplndidas. O corpo era o de uma
bailarina, e os seios cabiam nas suas mos. A boca e a lngua
de ambos eram implacveis. Foi Daphne que cedeu em primeiro lugar, sem flego. Deixara-se levar
numa avalanche
que j no podia controlar. Era tudo to intenso, to incontrolvel!
Oh, meu Deus, Sam. No posso. Oh, meu Deus. Como eu te desejo.
- Tambm eu te desejo - respondeu ele, em voz baixa, aflorando-lhe o pescoo e os seios com os
lbios. Depois, ajoelhou-se junto dela e acariciou-lhe o sexo. Ela soltou um longo gemido. Sam
puxou-a mais para si; de repente, recuperou a lucidez. No podia fazer uma coisa daquelas.
- Daphne. No podemos.
Levantou-se outra vez, sentindo-se mais culpado do que nunca perante Alex. No entanto, estava
consumido de desejo por Daphne.
- No posso. No tenho o direito de complicar a tua vida desta maneira. Nem de fazer isto  minha
mulher.
- No me importo - respondeu Daphne, com a voz rouca. - Eu sou uma mulher, tenho o direito de
tomar as minhas prprias decises.
- Isso no conduz a nada. Tu mereces mais do que isso. Estou louco de desejo por ti. Desde que te
conheci. Mas a que leva isto?
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- A umas horas bem passadas, espero eu. De repente, Daphne comeou a rir-se dele, chamando-lhe
pateta.
- Gostaria de te dar algo melhor do que isso, mas no tenho nada para dar. Agora, no. E talvez
nunca.
- Para comear, chega - retorquiu ela, divertida. No peo muito.
- Mas devias pedir. Tu mereces.
Depois, sem dizerem mais nada, os lbios de ambos voltaram a encontrar-se, ele agarrou-a e
manteve-a junto de si durante o que lhe pareceu serem horas, at nenhum deles conseguir suportar a
situao por mais tempo.
- Temos de fazer qualquer coisa, se esta situao
se mantiver.
E, com estas palavras, riram-se da ereco bvia de Sam. Ela acariciava-o atravs das calas de
ganga, e a mo dela estava a deix-lo louco.
- Eu ia sugerir isso.
Daphne sorriu e beijou-o outra vez; depois, inclinou-se e mordiscou-lhe as calas no stio em que
estas apresentavam uma protuberncia.
-Est quieta - disse ele, sem convico. - No, no. Oh, meu Deus. Daphne. Daqui a pouco, declaro-
te amor eterno se no parares.
Ela estava a p-lo num frenesim, e ele adorava aquela sensao.
- Era disso que eu estava  espera.
 Daphne sorriu-lhe, atrevida, depois levantou-se e serviu-lhe uma chvena de caf.
- Como posso eu fazer uma coisa destas? - perguntou Sam, pensando na mulher e na filha.
 - Acontece. Estas so as realidades da vida. Ela nunca funciona de acordo com os nossos planos.
Na verdade, acho que nunca funciona assim. A minha, no.
- A minha  um desastre neste momento.
- Sentes-te prximo dela? - perguntou, enquanto beberricavam o caf e tentavam por momentos
esquecer o corpo um do outro.
- Eu julgava que sim. Agora, parece que no conseguimos
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falar de nada. A nica coisa que existe  a doena dela.
No sabe pensar em mais nada, s se interessa por isso e s
fala disso. No posso suportar esta situao.
- No sei se a censuro. Mas  esperar muito de ti, no ?
- Acho que lhe devo isso. - Depois, Sam confessou-lhe o seu maior segredo. - A minha me morreu
de cancro
quando eu tinha catorze anos. Detestei-a por isso.  tudo o que recordo dela, a doena, o facto de
passar o tempo a
falar nisso, e as infindveis operaes. Eles foram-na cortando aos bocadinhos, at que acabaram
por mat-la. E a morte dela matou o meu pai. Foi como se ela tivesse tentado matar-nos a todos.
Tambm me teria morto, mas eu no lho
permiti. No permiti que me envenenasse como fez ao meu
pai. Recusei-me a fazer parte da sua tragdia.  isso que eu sinto agora pela Alex.  como se eu
fosse obrigado a afastar-me para conseguir salvar-me.
Fora uma confisso terrvel, e Sam sentia-se muito melhor. Ela parecia ter compreendido
exactamente o que ele queria dizer, de um modo que Alex ainda no conseguira.
Estava demasiado envolvida em si mesma para se aperceber
com clareza do terror dele.
- Mas no podes suportar isso sozinho, pois no? -
perguntou Daphne, com uma voz rouca, que o distraiu.
- No tenho a certeza. Talvez devesse tentar. Mas tu
no ests a facilitar as coisas.
-  verdade - concordou ela, tocando-lhe no volume
das calas at ele aumentar na sua mo. Sam fechou os
olhos, de prazer. - Pensava at que estava a dificult-las.
- No h dvida que ests.
Sam beijou-a, desejando-a desesperadamente, mas firme
na sua resoluo de no a possuir. Devia isso a Alex. No
deixaria que ela se apoderasse da sua alma. Pelo menos, devia-lhe fidelidade. Era uma pena que
Daphne se atravessasse no seu caminho naquele momento. Ou talvez tivesse de ser
mesmo assim. Talvez fosse essa a recompensa por aquilo
que ele estava a perder.
Durante muito tempo ficaram juntos na copa, e j escurecera quando olharam para fora. Para Sam,
era como se
se tivessem passado dias desde que ele ali chegara. A sua voz
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estava dilacerada de desejo por ela quando a abraou pela ltima vez. Em seguida, puseram as
chvenas no lava- loua, ela lavou-as, deixou- as a enxugar e foi atrs dele para o gabinete.
- Vais ficar aqui? - perguntou ele.
Detestava ir-se embora, mas sabia que tinha de sair. Devia ir para casa. E no fizera absolutamente
nada seno acariciar Daphne.
- Vou levar o trabalho para casa - disse ela, com naturalidade.
Sam acompanhou-a ao gabinete; depois, beijou-a mais uma vez. Ela caiu para trs, nos braos dele,
contra a secretria, e a tentao de possu-la ali mesmo era quase irresistvel; Sam, porm, forou-se
a recordar que existia Alex. As calas que ela trazia no lhe facilitavam as coisas. Era como se ela
estivesse despida. Ele sentia todo o corpo dela nas suas mos e ela no se lhe furtava. Pouco depois,
tirou-lhe os seios para fora da blusa, e eles eram to belos que ele quase chorou. Perfeitos e
redondos, com mamilos rosados que ficaram erectos nas suas mos, suplicantes, e ela pediu-lhe que
a possusse enquanto ele, inflexvel, a acariciava e a beijava.
S da a meia hora ela vestiu outra vez a blusa. Por fim saram do escritrio. Eram quase sete horas,
e Sam sentiu-se como uma criana quando entraram num txi e ele lhe disse que ia deix-la e depois
comeou a beij-la e a acarici-la enquanto ela se ria.
-  melhor comeares a fechar  chave a porta do gabinete - avisou ele. - No estou certo de
conseguir controlar-me quando te vir.
No era isso que parecia, mas, aparentemente, Dapne no se ralou.
Deixou-a na Cinquenta e Trs da zona leste, onde alugara um apartamento numa vivenda antiga.
Pertencia a uma estrela de cinema e ainda tinha muita moblia; Dapne afirmava que era muito
decadente.
- Queres subir? - perguntou ela, j depois de sair do txi, com as suas calas sedutoras e atrevidas;
ele abanou a cabea.
- No confio no meu comportamento.
168
- Nem eu - concordou ela, rindo-se. De repente, ficou
muito sria e pegou-lhe na mo. - Volta sempre que te
apetecer. Mesmo que queiras apenas conversar. Estou aqui 
tua espera, Sam. E, por muito estpido que isto parea neste
momento... Acho que te amo.
 Por favor. No... No posso... Mas agradeo-te.
Sam beijou-a ternamente mais uma vez, ela acenou-lhe e
recuou, enquanto tentava fixar o endereo dela, sabendo que
no devia faz-lo.
Chegou a casa s sete e um quarto; Alex no parecia nada bem-disposta quando o viu. Mas no
disse nada. Percebera que ele andava a evit-la; no entanto, teria ficado ainda
mais aborrecida se soubesse o que ele estivera a fazer. Por
imstantes, Sam convenceu-se de que cheirava ao perfume de
Daphne e foi lavar as mos e mudar de camisola.
- Deves ter tido muito trabalho - declarou Alex, cautelosa, depois de Annabelle ir para a cama.
Carmen acabara de lavar a loua e fora logo para o quarto de hspedes.
- Tive.
- O negcio deve ser muito bom. Nunca fizeste isto.
- O Simon est a trazer uma srie de novos clientes. Ele
 de facto formidvel.
- Tens observado o modo como ele conduz as coisas?
O estilo dele pode no ser o teu ou o do Tom e do Larry.
No queres com certeza que um charlato qualquer ande a
estragar-te o negcio.
- Ele no o far.  muito conhecido em Londres por
atrair negcios e muito dinheiro.
- Dinheiro limpo?
- Evidentemente.
Sam ficou aborrecido. Ela estava sempre a questionar tudo. Era uma verdadeira advogada, no
sentido em que estava
sempre desconfiada. A princpio, tambm ele ficara alerta
em relao a Simon, mas agora estava convencido de que Simon iria fazer muito pela empresa. E
trouxera Daphne com
ele... Que mais queria? Sam deu consigo a pensar nela outra vez quando se sentou a jantar com
Alex.
- Ento, em que ests a trabalhar? - perguntou ela, parecendo
169
interessada no que o retivera no escritrio naquela tarde.
Sam quase se engasgou com a salada, ao ouvir a pergunta.
- Nada de muitoimportante. Apenas umas coisas. Umas burocracias.
- Desde quando  que fazes coisas dessas? - perguntou Alex.
Parecia cptica mas no desconfiada. Era bvio para ela que ele sara s para no ser obrigado a v-
la, o que era verdade. O que ela no poderia saber, felizmente, era o que ele estivera a fazer com
Daphne.
O jantar a dois no foi caloroso, nem mesmo interessante. Ambos pareciam procurar assuntos que
interessassem aos dois, o que era raro neles, mas pelo menos estavam juntos e ela estava em casa. O
pior j passara, ou quase, e agora tudo
o que ela tinha a fazer era aguentar e sobreviver ao tratamento. O casamento iria ao stio depois
disso. Alex tinha a certeza. Aquele momento estava a ser duro, enquanto os dois no se adaptavam
a uma nova situao.
Sam mostrou-se to cauteloso como na noite anterior quando se deitou a seu lado. Foi solcito e
delicado, mas no fez qualquer tentativa de aproximao. E, mais uma vez, quando ele adormeceu,
Alex deitou-se do seu lado da cama e chorou. Um simples beijo ou um abrao teriam significado
tanto para ela, mesmo que ele receasse o que estava debaixo da camisa de noite!
A tenso existente entre eles era to grande que foi um alvio para ambos quando o fim-de-semana
terminou. Na segunda-feira de manh, Sam saiu para o emprego s sete horas. E, pela primeira vez
desde a operao, Alex levou Annabelle  escola. s nove horas, tinha uma consulta com o Dr.
Peter Herman. Ele iria observar-lhe as suturas e o penso. Alex tinha muito medo do que iria ver
quando mudasse. Porm o susto ainda teria sido maior se visse o que Sam tinha  sua espera quando
entrou no escritrio. Daphne trazia um fato Chanel azul-marinho, com uma
saia que deixava  mostra as suas pernas longas e sensuais. s queria confirmar-lhe que aquele
sbado no fora um equvoco, e que no se arrependia. Desejava-o mais do que
desejara qualquer outro homem nos ltimos anos, e disse-lhe:
170
- S quero que saibas que estou apaixonada por ti - segredou-lhe ela, ao fechar a porta do luxuoso
gabinete de Sam. - No tens de fazer nada. Nem sequer tens de desejar-me. Mas estarei aqui,
sempre, quando te der jeito. Aceito quem s e as tuas responsabilidades. Mas amo-te, Sam. E serei
tua, sempre que me quiseres.
Daphne Belrose era a derradeira tentao.
Ento, ele beijou-a, cheio de desejo, com toda a angstia e a avidez que sentia; ela correspondeu;
depois, recuou, sorrindo, e saiu do seu gabinete sem fazer barulho.

CAPTULO 10
Alex s teve de aguardar meia hora na sala de espera. Depois, o Dr. Herman mandou-a entrar e
perguntou-lhe como se sentia. Ela respondeu-lhe que ainda estava cansada da operao, mas que
tinha muito poucas dores, e ele ficou satisfeito com o que viu quando lhe tirou o penso. Declarou
que estava tudo muito limpo e que as suturas estavam a cicatrizar bem. Na verdade, ela estava a
evoluir ainda melhor do que ele imaginara. E recebera os resultados finais dos exmes. Indicavam o
que ele calculava: estavam afectados quatro gnglios linfticos, o tumor era receptor negativo para
hormonas e ela era uma candidata perfeita quimioterapia. Em pouco mais de duas semanas, ele
comearia a fazer-lhe quimioterapia, logo que ela estivesse mais forte.
Para Alex, as notcias no eram boas, mas tambm no eram inesperadas. E ele j explicara o
processo. O envolvimento dos gnglios era mnimo, o que significava um bom indcio, apesar de o
tumor ser do estdio II.
- A cicatriz est muito limpa - explicou. - Se a
senhora decidir recorrer  cirurgia reconstrutiva mais tarde, o seu cirurgio plstico ficar muito
satisfeito.
O Dr. Herman parecia bastante contente com tudo
e Alex tambm queria sentir-se assim; no entanto, o facto  que perdera um seio na semana anterior
e sabia que tinha um cancro. No eram motivos para comemorar. E agora tinha a certeza que teria
de enfrentar a quimioterapia.
Em seguida, o mdico voltou-se para ela, curioso, para saber como ela se encontrava. Parecia-lhe
um pouco mais taciturna do que habitualmente, mas isso tambm era de esperar.
- J viu a cicatriz? Alex abanou a cabea, com um ar assustado.
- Era aconselhvel faz-lo. Tem de se preparar. E o seu marido?
- Ele tambm no a viu.
Alex desconfiava que ele estava aterrado, e no se enganava. No podia censur-lo, porque ela
tambm no a queria ver.
172
- Peo-lhe que a veja. Daqui a pouco tempo, poder tomar banhos de imerso e v-la- nessa altura,
mas no lhe faria mal ver-se ao espelho.  tempo de encarar a situao.
Todavia, nada do que ele dissera a preparara para o que viu, quando chegou a casa e retirou,
devagar, a ligadura para tomar duche. Despira o vestido e o soutien, e depois puxou lentamente o
penso e, com determinao, olhou para o espelho. Tentou no desviar o olhar do rosto mas, a pouco
e pouco, deixou-o deslizar, deu um grito e recuou. No era possvel. Era inacreditvel que fosse to
feio. No stio onde anttes estava o seio, havia uma superficie plana. Tinha um tom rosado, naquele
momento, mas um dia estaria branca e, de um lado ao outro, via-se uma cicatriz avermelhada, no
stio em que tinham feito a inciso e retirado o seio, a pele e o mamilo, e que depois tinham voltado
a coser. Era a coisa mais horrvel que ela jamais vira, e mesmo o facto de saber que aquilo lhe
poderia ter salvo a vida no a consolava. Sentiu-se nauseada ao olhar para aquilo, sentou-se no
tapete, agarrou-se aos joelhos e desatou a soluar. Cerca de uma hora depois, Carmen ouviu-a. Alex
continuava ali sentada, a chorar como uma criana e a soluar.
- Oh, Mistress Parker. Mistress Parker. O que aconteceu? Est ferida? Quer que chame o mdico?
Mistress
Alex no conseguia parar de chorar. S conseguia abanar a cabea e encostar os joelhos ao seu
nico seio.
- V-se embora. V-se embora. - chorava ela, como se fosse Annabelle.
Carmen ajoelhou-se a seu lado, acariciando-a como faria a uma criana que se tivesse aleijado.
- No chore. No chore. Todos ns gostamos muito de si. - disse ela, abraando-a.
Alex s conseguiu abanar a cabea e chorar ainda mais.
- Ele detesta-me. Estou to feia. Ele detesta-me.
- Eu vou telefonar-lhe - disse Carmen, para a confortar. Alex deu um grito e escondeu a cabea nos
joelhos, suplicando a Carmen que no lhe telefonasse.
- Deixe-me em paz.
Carmen tentou agarr-la, mas Alex no deixou; como
173
no sabia que fazer, voltou para a cozinha. Sentou-se ali, a ouvi-la chorar, a mortificar-se, at que
Alex se calou.
- No se importa de ir buscar a Annabelle? - pediu Alex, com uma voz exausta mas completamente
desprovida de emoo.
- Porque no vai a senhora, Mistress Parker? Ela ia gostar tanto de a ver!
- No posso - respondeu ela mais morta do que viva. Eles tinham-na matado.
- Pode, sim. Se quiser, eu vou consigo. Venha. Va mos as duas.
Carmen conduziu Alex para o pequeno quarto de vestir, tirou um vestido largo de malha e estendeu-
lho.
- A Annabelle gosta deste.
- No posso, Carmen. No posso.
E desatou de novo a soluar; desta vez, Carmen agarrou-a pelos ombros.
- Pode, sim! Eu ajudo-a.
Naquele momento, choravam as duas.
- Porqu?
Alex queria desistir e morrer, mas Carmen segurava-a e no a largava.
- Porque ns gostamos muito de si. Vamos ajud- la
at a senhora recuperar as foras. Daqui a pouco tempo, j estar boa - insistiu ela, confiante,
tentando incutir-lhe coragem.
Alex, porm, limitou-se a abanar a cabea enquanto vestia o vestido que Carmen lhe dera.
- No vai ser fcil. Eles vo fazer-me quimioterapia.
- Ah, no. - Carmen ficou horrorizada. Est bem. Havemos de conseguir.
Carmen estava decidida a ajudar Alex. Ela era boa pessoa e uma boa patroa, e no merecia aquilo.
Tinha um marido que a adorava e uma filha pequena. Tinha de viver por ela. Carmen ia ajud-la.
- Vamos buscar a Annabelle e depois vamos almoar. E, em seguida, a senhora dorme a sesta
enquanto eu levo Annabelle ao parque.
Falava-lhe como se ela fosse uma criana, e Alex ficou com uma angstia profunda. Nunca vira
nada to feio como aquilo que o cirurgio lhe fizera.
174
No entanto, foi com Carmen buscar Annabelle  escola e depois voltaram para casa tranquilamente.
Alex no falou, Annabelle parecia no reparar nisso. Assim que chegaram a casa, Carmen serviu-
lhes uma sopa de tomate caseira e uma sanduche de peru para cada uma. Em seguida, meteu Alex
na cama e disse a Annabelle que a me precisava de dormir, mas a criana julgou que ela estava a
brincar. Ajudou Carmen a deitar a me, e depois foram brincar para o parque. No fim da tarde,
Annabelle contou ao pai o que se passara; Sam perguntou a si prprio se Alex estaria de novo a
fazer-se de invlida, como ela costumava dizer.
- O que se passa? - perguntou ele com naturalidade, depois de Annabelle ir para a cama. - Passaste a
tarde a dormir? Na sua voz havia um ligeiro tom de censura. No queria que ela se mostrasse doente
na presena de Annabelle. Ele passara por essa experincia em criana e, ao lembrar-se disso, ainda
ficava transtornado. Mesmo depois de adulto, sentiha um dio quase fbico s doenas.
- Dormi uma sesta. Estava muito cansada. Fui  consulta do doutor Herman.
A sua voz no tinha vida quando olhou para ele, e o seu olhar no deixava transparecer nada.
- Os resultados j vieram da patologia?
-J. Quatro dos meus gnglios foram afectados. Preciso de fazer quimioterapia. Ele tirou-me o
penso - disse ela com uma voz mortia.
- ptimo. J  um passo em frente. Deviam ter-te felicitado.
Sam falara com entusiasmo, como que para a estimular, pensando que ela precisava de fazer
quimioterapia; Alex ficou como se ele viesse de outro planeta.
- No exactamente.
- Porqu? H algum problema?
- No. S um. O meu seio parece ter cado com o tempo.
- E depois? Porque ests to cansada?
- O que  que tu queres? - ripostou ela. - Pelo amor de Deus, no percebes? Eu perdi um seio. Para
mim,  um grande problema, j que no  para ti. E eu no acredito
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que isto no seja um grande problema tambm para ti. Comportas-te como se eu tivesse lepra desde
que vim para casa, afastas-te de mim. J percebi. Tu tambm no achas graa a isto.
- Eu nunca disse que achava. Mas tambm no  uma tragdia como tu fazes crer.
- Talvez no seja, meu caro. Mas deixa-me dizer-te que no  agradvel.
Alex olhou para ele com dio, aterrada com o que vira ao espelho.
- No exageres. Ele j te disse que podes reconstitu-lo daqui a pouco tempo.
- Claro, se eu quiser submeter-me a mais uma operao dolorosa e a um punhado de enxertos e de
implantes de sili cone, que so perigosos. Isto no  exactamente o po com manteiga que tu queres
dar a entender que .
- Est bem, mas no sejas lamurienta, pelo amor de Deus. Perder um seio no  a pior coisa que te
podia acontecer.
- Ento qual ?
- Morrer - respondeu ele, bruscamente.
- D-me tempo, talvez eu consiga isso tambm. No entretanto, parece que perdi umas coisas de que
gostava. Uma delas  o meu seio, e a outra  o meu marido. Parece que saste pela janela com o meu
peito, ou no reparaste que eu reparei. Estou doente e cansada das tuas fugas, de fingires que eu no
existo, porque no consegues enfrentar o que est a acontecer.
- Isso no  verdade - respondeu ele, irritado, sobretudo porque o que ela dissera era verdade e ele
sabia-o.
- Uma ova  que no ! Tens-te afastado desde que soubeste a notcia. E, mesmo depois da
operao, tens-me tratado como se fosse uma tia solteirona e no a tua mulher. Quanto tempo  que
isto vai durar, Sam? Quanto tempo  que eu vou ter de pagar pelo pecado de ter perdido um seio?
At fazer outra operao para no te assustar quando me despir? Ou acabmos para sempre? Seria
til saber, para no andar a aborrecer-te ou a enjoar-te quando tomar duche.
- Enjoas-me com a tua anlise e as tuas acusaes. No me enjoavas tanto se te tivessem tirado os
dois seios.
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- A srio? Queres apostar? No imaginas como isto  feio.  muito pior do que tu julgas.
-  to mau como tu o pintas. Tu  que transformas isto numa tragdia. Tu  que no consegues
aceitar o que aconteceu.
- Tens a certeza?
De repente, Alex no conseguiu dominar-se mais e comeou a desabotoar a camisa de noite diante
dele. Sam sentiu o corao aos pulos ao olhar para ela; era demasiado tarde para a deter e sabia que
a forara quela reaco. Ela deixou cair bruscamente uma das mangas e depois a outra; em
seguida, fez escorregar a camisa para o cho, sem um rudo, excepto um suspiro dele. No se dera
ao trabalho de voltar a pr o penso e Sam viu tudo o que ela vira naquela manh. A cicatriz acirrada,
o seio que l no estava, a carne rosada. Tal como ela sentira, aquilo era chocante, e o seu rosto
denunciou o que ele sentia. No conseguiria tocar-lhe.
-  bonito, no , Sam?
Alex chorava outra vez, quase sufocada pelos soluos, mas ele no se aproximou.
- Desculpa, Alex. - Ento, Sam aproximou-se dela e estendeu-lhe a camisa de noite. - Desculpa -
disse ele, em voz baixa.
Puxou-a para si, e ambos choraram. Era demasiado horrvel.
- No posso viver com isto, Sam - chorava ela, desejando recuperar o seio, desejando que a vida
voltasse ao que era umas semanas atrs. Era impossvel perceber por que razo aquilo acontecera. -
Vai correr bem... Hs-de habituar-te. Havemos de habituar-nos - disse ele baixinho, rezando para
que isso fosse verdade.
-Achas que sim? - perguntou ela tristemente. - Queres que eu faa a outra operao?
-  demasiado cedo. Porque no vs como te sentes daqui a uns tempos?
- Detesto isto e detesto-me - admitiu Alex, vestindo a camisa de noite enquanto ele a ajudava.
Queria que ela tirasse aquilo o mais depressa possvel, para que nenhum deles
177
visse. - Desculpa estar sempre zangada contigo.  que
no sei como hei-de lidar com isto.
- Nem eu - admitiu ele. - Acho que vamos ter
de deixar passar o tempo.
- Sim. Talvez - concordou ela tristemente, olhando
para ele, sem conseguir acreditar que ele viria a retomar
a sua vida sexual com ela.
- Vais sentir-te melhor quando voltares para o emprego, na prxima semana - afirmou ele,
encorajando-a e
ligando a televiso, para no terem de falar um com o outro.
- Talvez - disse ela, sem convico.
No entanto, teria preferido recuperar o marido do que
voltar para o emprego. E, enquanto ambos viam televiso
Sam no conseguia pensar seno no que vira. No tinha
a certeza se conseguiria voltar a tocar em Alex. E o facto de
desejar Daphne tornava aquela agonia ainda mais dolorosa.
Sentia-se mais culpado do que nunca ao recordar-se da perfeio dos seios da rapariga, quando lhes
tocara. Lembrava-se exactamente do seu aspecto quando tirara a blusa
de Daphne e os soltara. Ela era to jovem, to atraente e
cheia de vida, e o seu corpo era to perfeito.
-J no me sinto mulher - comentou Alex tristemente, quando ele apagou a luz  meia-noite.
- No sejas pateta, Alex. No  a falta de um seio
que te retira a personalidade. O facto de o teres perdido no
piora nada. s uma mulher como sempre foste.
Porm, nada do que ele fez confirmou as suas prprias
palavras. E, durante toda a noite, bem afastado dela,
no conseguiu fazer mais nada seno pensar em Dapne.
CAPTULO 11
No fim-de-semana seguinte, a nica coisa que uniu Alex e Sam foi o facto de Annabelle se ter
mascarado. Foi vestida de princesa, tal como fora planeado, e estava adorvel no seu fato de veludo
cor-de-rosa, com lantejoulas e vidrilhos. Levava uma pequena coroa na cabea e uma varinha na
mo e divertiu-se muito a brincar no prdio. Em geral, Alex mascarava-se tambm, mas desta vez
no arranjara nenhum fato.  ltima hora, mascarou-se de Cruella de Vil, com uma cabeleira preta e
branca e um velho casaco de peles; Annabelle ficou radiante. E Sam foi buscar o fato de Drcula
que vestia todos os anos e Alex maquilhou-o.
- Ficas bem de cabelo grisalho - disse ele, pensativo, olhando para ela.
Alex levava um vestido vermelho de malha leve. Usava uma prtese dentro do soutien, um pouco
pesada mas que parecia mesmo verdadeira. E Sam no pde deixar de admirar-lhe a figura.  parte
a falta do seio, tinha ainda umas pernas sensacionais e um corpo de modelo. Sam reparava cada vez
mais nessas coisas, em especial em Daphne.
Ele e Daphne estavam a comportar-se admiravelmente, embora  custa de um esforo enorme. S
uma vez ele cedera ao impulso de a beijar quando estavam sozinhos no gabi nete. Alm disso, no
tinham feito nada que no devessem fazer, apesar de terem estado juntos em vrias reunies e
almoos com clientes. Ela revelara-se muito til nalguns dos novos negcios e extraordinariamente
conhecedora de finanas internacionais. Curiosamente, Sam nunca falara nela a Alex.
Instintivamente, sabia que no podia. Alex teria pressentido qualquer coisa. Os seus scios tambm
tinham desconfiado, mas nenhum se atrevera a fazer perguntas; apenas Simon continuava a
comentar de vez em quando que as raparigas inglesas eram muito atraentes, em especial a prima.
Sam concordava sempre com ele, mas s Daphne sabia como ele se mostrava enamorado dela, ou
como ela o torturava.
- Ests muito bonito - disse Alex quando acabou de maquilh-lo.
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Desde a operao que no se tinham aproximado tanto um do outro como naquele momento, em
que ela estava diante dele, na casa de banho. Teria sido o momento ideal para ele lhe dizer qualquer
coisa ou abra-la, ou mesmo beij-la; Sam, porm, no conseguiu. Assustava-o demasiado o que
poderia acontecer depois disso, o que ela poderia esperar dele e ele no conseguiria dar-lhe. Nada
do que dizia respeito a Alex o afectava naquele momento. Ela estava demasiado doente, o seu corpo
modificara-se muito, e Sam tinha muito medo e muitas ms recordaes para sequer lhe apetecer
fazer qualquer tentativa.
Alex entregou-lhe os dentes de Drcula, e Annabelle soltou um grito de terror e de alegria quando o
viu.
- Oh, pap, gosto tanto de ti! - exclamou, rindo-se em seguida.
Sam deu uma gargalhada, e o resto da noite passou-se agradavelmente. Foram visitar uns amigos,
beberam vinho com eles, comeram guloseimas com os midos e, quando chegaram a casa,
Annabelle estava quase a dormir e os pais vinham muito bem-humorados.
- Foi divertido - disse Alex, satisfeita.
Era sempre assim. A Noite das Bruxas tornara-se mgica desde que Annabelle nascera. Antes disso,
no tinha qualquer significado. ao pensar nesse facto, Alex ficou desolada sabendo que talvez nunca
mais tivesse filhos. Era muito improvvel, se atentasse nas estatsticas de fertilidade aps a
quimioterapia e na importncia de no engravidar durante os cinco anos seguintes. E, nessa altura,
teria quarenta e sete anos. A perspectiva de ter outro beb desvanecera-se.
Alex tambm sabia que, aos quarenta e dois anos, a quimioterapia poderia desencadear a
menopausa. Continuava a ter dificuldade em entender as palavras, absorv-las, apropriar-se delas:
mastectomia, malignidade, quimioterapia, desenvolvimento dos gnglios, metstase. Era
inacreditvel. At o seu vocabulrio se alterara num ms e, com ele, a sua vida e o seu casamento.
No era possvel esconder o que ele lhe fizera, e  sua relao com Sam. O marido estava agora
completamente afastado dela, em todos os aspectos que eram importantes. Claro que no o
admitiria. Estava
180
totalmente empenhado em fingir que nada acontecera, o que tornava a situao ainda mais dificil.
Como era possvel reconstruir uma coisa se ningum admitia que ela se quebrara?
- Vais para a cama?
Alex ficou admirada quando ele se despiu e se deitou, depois de terem brincado aos mascarados.
Ainda eram dez horas da noite e nenhum deles parecia cansado quando chegaram a casa, s nove e
meia.
- No h mais nada para fazer - respondeu ele. - Resolvi deitar-me cedo.
Noutros tempos, a situao ter-se-ia prestado a um certo romantismo, agora ela sabia que ele
adormeceria, ou fingiria que estava a dormir, antes de ela sair da casa de banho, como veio a
acontecer vinte minutos depois. Ele no conseguia encar-la e era-lhe insuportvel lidar com as suas
obrigaes. E, de qualquer modo, isso era a ltima coisa que queria. Se ele no a desejava, ela
passaria sem isso, para sempre, se fosse preciso.
Alex ficou a ler at tarde e depois sentiu-se melhor. Na segunda-feira seguinte, regressaria ao
emprego, depois do fim-de-semana da Noite das Bruxas. Tinha muito trabalho a retomar e muita
coisa para organizar. Da a duas semanas comearia a quimioterapia, duas semanas para se recomp
e trabalhar o mais que pudesse, duas semanas para pr o expediente em ordem antes de a sue vida
dar outra cambalhota. Era de mais.
E, na segunda-feira, quando foi para o emprego e deixou Annabelle na escola, quase se sentiu como
antigamente, excepto o facto de Sam mal lhe ter dirigido a palavra ao pequeno-almoo. Nem tirou o
nariz do Wall StreetJournal para lhe dar um beijo; ela, porm, j estava a habituar-se. Pelo menos,
teria agora o emprego para a manter ocupada e os colegas para conversar. Nas duas ltimas
semanas, sentira-se mais s do que nunca e no podia imaginar nada pior do que aquilo que lhe
acontecera.
-O pap ainda est zangado contigo? - perguntu Annabelle, quando iam para a escola.
Alex olhou para a filha, interessada. Ficou admirada por ela ter reparado.
181
- No sei. Creio que no. Porqu?
- Ele parece diferente. No fala muito contigo, nunca te d beijinhos e parece que est zangado
quando chega a casa.
- Talvez esteja cansado.
- Os adultos dizem sempre que esto cansados quando esto zangados. Como o pap. Eu acho que
ele est zangado.  melhor perguntares- lhe.
- Est bem, princesa, eu pergunto-lhe. Estavas formi dvel na Noite das Bruxas. Eras a princesa
mais bonita da cidade.
- Obrigada, mam.
Annabelle atirou-se ao pescoo da me, e Alex quase derreteu de comoo ao v-la correr para a
escola com outras crianas. Depois, chamou um txi com o brao direito, entrou, e foi para o centro
da cidade. O seu lado esquerdo ainda estava um pouco sensvel. No entanto, Alex sentiu-se viva
outra vez, pela primeira vez no espao de duas semanas. Tinham-se passado exactamente quinze
dias desde que fizera a mastectomia, e j se sentia melhor. Comparativamente, sentia-se ptima. O
nico problema  que ainda no comeara a quimioterapia.
- Olhem quem est aqui.
Liz Hascomb ficou radiante ao v-la e contornou a secretria para lhe dar um abrao afectuoso.
Quando Alex entrou no gabinete, tinha flores em cima da secretria, oferecidas por Liz, e montes de
dossiers alinhados que Brock conclura.
- Uau! Parece que vocs passaram bem sem mim.
- No acredite nisso - garantiu-lhe Liz. Havia uma lista imensa de recados, a maioria dos quais a
indicar como  que os assuntos tinham sido resolvidos. Alguns tinham passado para Matt, outros
para outros scios. Brock tomara a seu cargo todos os pormenores e a investigao. Havia muitas
pessoas que tinham preferido esperar duas semanas por Alex.
Alex sentou-se a ler os nomes e as informaes quando Liz entrou com um caf.
Levantou a cabea e sorriu. Era bom estar de novo sentada na sua cadeira, entre amigos, e sentir-se
til. Sentia-se
182
em forma outra vez, embora ainda estivesse um pouco cansada. Era como se recuperasse uma parte
importante de si prpria.
Era s metade, mas j fazia diferena.
- Como se sente? - perguntou Liz serenamente, pousando a chvena.
-Bem. ptima. Estou mesmo surpreendida. Apenas um pouco cansada.
- D tempo ao tempo. No se precipite.
 Liz voltou para o seu lugar e Alex ficou ali sentada, a olhar  sua volta e a saborear o facto de estar
de novo no escritrio. Era formidvel estar ali. Recostou-se na cadeira, com um sorriso, e bebeu
um gole de caf quente. Nesse
momento, Brock Stevens espreitou l para dentro.
- Seja bem-vinda - saudou ele, radiante.
- Obrigada - respondeu Alex, com um sorriso afectuoso. Brock parecia cada vez mais uma criana
grande e loura. Usava culos e escorregara-lhe uma madeixa de cabelo para os olhos. Tinha sempre
um ar travesso.
- Parece que o Brock fez o trabalho todo durante a minha ausncia. Talvez eu devesse ir de frias
para sempre.
- Nem pense nisso. Tenho andado a guardar o pior para si. A propsito, o Jack Schultz telefonou
umas duzentas vezes, s para lhe agradecer.
- Ainda bem que ganhmos. Ele merece - disse ela.
- E a Alex tambm.
Nunca vira ningum trabalhar tanto como ela para ganhar aquela causa, e a tarefa no fora fcil. Ele
sabia agora
que ela estivera doente naquela altura. Doente ou com um
problema qualquer. Sabia que ela fora operada, mas ignorava exactamente o que acontecera. Porm,
algo no olhar dela
lhe dissera que o caso no era para brincadeiras.
- O que vai fazer hoje?
Brock achava-a magra e um pouco cansada, mas bonita.
- Rever os meus dossiers, ler o que fez e tentar descobrir
o que me resta para fazer neste momento.
- Oh, apenas umas coisas aqui e ali. Temos dois novos
clientes, que esto a ser processados por antigos empregados.
183
H quatro novos casos, h um processo por difamao grave levantado por uma estrela de cinema
qualquer. O Matt sabe melhor do que se trata.
- Que sorte. Talvez eu o deixe ficar com ele. Alex parecia mais descontrada do que era costume;
ainda no adquirira o seu ritmo e estava essencialmente a saborear o momento.
- Sente-se bem agora, Alex? - perguntou ele, docemente. - Sei que tem estado doente. Espero que
no seja nada de grave.
No havia dvida de que a doena no lhe afectara a aparncia. E por instantes esteve quase a
responder-lhe que se sentia bem; depois, resolveu no o fazer. Ia precisar da ajuda dele nos meses
que se avizinhavam e no havia motivo para no lhe dizer. Tinha de comear por algum.
- Agora sinto-me bem. E irei sentir-me melhor dentro de pouco tempo, espero. Mas ainda tenho de
passar uns maus bocados. - Alex hesitou, de olhos fixos na chvena de caf,  procura das palavras
adequadas. Aquela situao era nova para ela, humilhar- se, pedir a algum que a ajudasse. Depois,
levantou a cabea, os olhares de ambos cruzaram-se e Alex ficou admirada com a ternura que viu
nos olhos de Brock. Tinha um ar to carinhoso, to preocupado. Alex sabia que podia confiar nele.
- Dentro de duas semanas comeo a fazer quimioterapia - declarou ela, suspirando e julgando ouvir
Brock a suster a respirao. Os olhos dele dirigiam-lhe perguntas silenciosas.
- Lamento sab-lo.
- Tambm eu. Continuarei a trabalhar, se puder, mas ainda no tenho a certeza do que isso significa.
Eles dizem que, se tudo correr bem, conseguirei aguentar-me, apesar de uma fadiga extrema. Verei
at onde posso ir, quando o momento comear.
Brock fez sinal de que estava a entender as suas palavras.
- Farei tudo o que puder para ajud-la.
- Eu sei, Brock - disse Alex, sentindo a voz a tremer. Era comovente saber que tinha amigos e que
certas pessoas que ela mal conhecia, com quem apenas trabalhava, estavam ali para ajud-la.
184
- Aprecio tudo o que o Brock j fez. No teria conseguido nada sem a sua ajuda. Ojulgamento foi
muito duro,
com o fantasma da operao diante de mim. Pelo menos, isso j passou.
Brock olhou para ela, mas no lhe perguntou onde  que eles tinham descoberto o cancro. E Alex
trazia um fato
grosso de tweed preto e branco, que no deixava transparecer nada.
- Lamento que tenha de passar por tudo isso. Mas vai
recompor-se - afirmou ele, confiante, como se tentasse
convenc-la.
- Espero bem consegui-lo.  um mundo inteiramente
 novo para mim. - Alex pousou a chvena e olhou para ele,
 pensativa. Era agradvel falar com ele. -  to estranho...
Sinto que controlo quase sempre as coisas.  muito esquisito estar envolvida numa situao que
domino to mal. No
posso fazer nada, excepto seguir o tracejado, e espero acabar bem. Mas no h garantias disso. As
hipteses no so assim muito impressionantes. Creio que eles o descobriram a tempo, pelo menos
assim o espero. Mas quem sabe...
A voz fraquejou-lhe, e Brock pegou-lhe na mo e apertou-a. ao tocar nele, Alex voltou  realidade, e
os olhos de
ambos encontraram-se.
- Ter de desejar muito curar-se. Tem de decidir, agora
mesmo, que vai conseguir, acontea o que acontecer. No
importa que seja mau, que se sinta deprimida, que doa muito, ou que seja assustador.  como se
fosse um concurso,
um exame. No importam as agresses vindas do outro lado. A Alex tem de obrig-lo a recuar. No
fraqueje por um
s momento!
Brock falou com uma veemncia que a surpreendeu e
a fez perguntr a si prpria se ele j passara por aquilo. Talvez algum da sua famlia, ou talvez ele
fosse mais profundo do que parecia.
- Nunca se esquea disto. - Brock retirou a mo da de
Alex e fez-lhe sinal. - Se eu puder fazer alguma coisa para ajudar hoje, apite. - Depois, levantou-se
e olhou para ela com um sorriso. -  bom t-la de volta. Virei v-la mais vezes.
185
-Obrigada, Brock. Por tudo.
Alex viu-o sair e regressou ao trabalho que tinha em cima da secretria; as palavras dele e a ternura
que lhes estava
subjacente impressionaram-na.
Matt Billings levou-a a almoar e falou-lhe dos novos casos que tinham entrado, em especial o da
estrela de cinema.
Passara-o para outro scio, que era o mesmo que Alex teria feito. Embora gostasse de processos por
difamao de vez
em quando, este era demasiado agressivo. A mulher argumentava que uma das revistas mais
respeitveis do pas a difamara. No seria fcil prov-lo, dados os direitos limitados de que as
celebridades gozavam na imprensa e a forte reputao da revista. Iriam degladiar-se acerca dos
direitos consignados na Primeira Emenda. Alex estava satisfeita por no
        ter de se ocupar dessa batata quente. E Matt j admitira perante ela que a queixosa naquele
caso no era para brincadeiras.
- O Harvey  um felizardo - disse Alex, referindo-se
ao scio que tomara conta do processo.
-  verdade. Pareceu-me que a Alex ficaria satisfeita
por no se ocupar deste caso.
Matt tambm lhe comunicou que lhes tinha sido entregue o caso de um grande industrial e outros
casos menores
que envolviam acordos. P-la a par de tudo e depois olhou
para ela, perguntando-lhe frontalmente como estava ela de
sade.
- Melhor, creio eu - respondeu ela, cautelosa. - No
 que eu estivesse doente. Tinha aquilo a que eles chamam
uma zona cinzenta, uma massa que apareceu numa mamografia h um ms, pouco antes do
julgamento do caso
Schultz. Eu tratei dele e depois ocupei-me disto. Mas ainda
no acabou.
Matt ergueu o sobrolho e ouviu-a com ateno. Sempre
gostara dela e no lhe agradava saber que ela estava doente.
Quando ela sara, h duas semanas, dissera-lhe que iria fazer uma operao sem importncia e que
no era nada. No
lhe parecia que aquilo fosse nada.
- E qual  a situao neste momento?
De repente, Matt ficara preocupado.
Alex respirou fundo. Sabia que um dia teria de pronunciar
186
aquelas palavras e talvez fosse aquele o momento de o fazer. Matt era um velho amigo e um colega
respeitado.
- Fiz uma mastectomia. - A palavra fora mais difcil de pronunciar do que ela julgava; Alex
pronunciou-a, e ele mostrou-se chocado. - E tenho de comear a fazer quimioterapia daqui a duas
semanas. Quero continuar a trabalhar, mas no sei em que moldes. Depois disso, eles garantem que
fico boa. Acham que tiraram tudo e que a quimioterapia  uma questo de segurana. Prolongar-se-
por seis meses, mas eu quero continuar a trabalhar.
A quimioterapia era uma questo de segurana sem a qual Alex preferiria ter passado, mas com o
envolvimento dos gnglios linfticos e um tumor em estdio II, sabia que no tinha alternativa.
Aquilo que Matt ouvira deixara-o estupefacto. No podia acreditar. Ela era to bonita e to jovem, e
tinha um ar to saudvel. Nunca desconfiara da gravidade do problema. Esperava que no fosse
nada. Mas uma mastectomia? E quimioterapia? Era de mais.
- No prefere tirar seis meses de licena? - perguntou amavelmente, enquanto, ao mesmo tempo,
perguntava a si prprio como iriam passar sem ela.
- No - respondeu ela bruscamente, um pouco receosa de que ele pudesse obrig-la a isso.
No queria ficar em casa a lamentar-se. Sam tinha razo nesse ponto. Alex queria trabalhar e
distrair-se, sobretudo trabalhar o melhor que podia naquele momento.
- Prefiro estar a trabalhar. Farei o melhor que puder. Se me sentir muito em baixo, aviso-o. Tenho
um sof no meu gabinete. Se for obrigada a isso, posso fechar a porta  chave e deitar-me durante
meia hora. Posso descansar  hora do almoo, se for preciso. Mas no quero ficar em casa, Matt.
Isso matar-me-ia.
Matt no gostava de a ouvir dizer aquelas palavras e impressionava-o o facto de ela querer
continuar a trabalhar.
- Tem a certeza?
- Sim, tenho. Se mudar de ideias quando comear, avis-lo-ei. Mas, para j, quero ficar aqui. So s
seis meses. Algumas mulheres enjoam como peruas quando engravidam.
187
Eu tive sorte, no enjoei. Mas outras enjoam e continuam a trabalhar. Ningumespera que elas
fiquem em casa. Eu tambm no quero ficar em casa.
- Isto no  a mesma coisa, e a Alex sabe bem. O que diz o seu mdico?
- Ele acha que eu consigo - afirmou Alex, embora o Dr. Herman lhe tivesse dito para reduzir ao
mnimo a presso e o cansao. Ele dissera que, em sua opinio, ela no deveria ir a julgamentos,
mas talvez pudesse ocupar-se de tudo o resto, e isso era o que ela estava a transmitir a Matt naquele
momento. - Devo apenas limitar os julgamentos durante esse perodo. O meu assistente  muito
bom e talvez alguns dos outros scios possam encarregar-se dos julgamentos. Posso fazer tudo o
resto, todo o trabalho de preparao, de instruo e de pesquisa. Posso ir a tribunal e fazer todas as
moes. S preciso que me apoiem durante o julgamento propriamente dito para que a
responsabilidade no recaia toda sobre mim no momento final. Isso no seria justo para o cliente.
- E isso no me parece justo para si. - Matt estava muito perturbado com o que ela lhe contara.
Contudo, tambm percebia que ela estava decidida a continuar a trabalhar. - Tem a certeza?
- Toda.
Alex era espantosa. Matt respeitava-a imenso; quando saram do restaurante, ps-lhe a mo no
ombro.
Todos estavam a ser to carinhosos com ela que as lgrimas vinham-lhe aos olhos com frequncia.
Todos a queriam ajudar, excepto Sam, que no conseguia. s vezes, a vida tinha coisas estranhas. A
nica pessoa de quem ela precisava no estava a seu lado. Mas, pelo menos, Alex tinha outras
pessoas.
- O que posso fazer para lhe tornar este perodo mais fcil? - perguntou Matt quando voltavam a p
para o escritrio.
O dia estava frio e o vento gelava-a at aos ossos, apesar do fato de tweed e do casaco.
- O Matt j est a fazer tudo o que pode. Eu digo como me vou sentindo. E, por favor, no diga isto
seno s
188
pessoas a quem tem de dizer. No quero ser objecto de curiosidade nem de compaixo - declarou
Alex, olhando para ele
com um ar de splica. - Se algum precisar de saber pormenores
e pedirem para me ajudar no meu trabalho ou para se encarregarem de um processo meu, est bem,
mas no  preciso afixar nenhum cartaz.
- Compreendo.
Alex considerava-se uma pessoa discreta. Porm, da a
uma semana, parecia-lhe que toda a gente da empresa j estaria ao corrente do problema dela. As
notcias corriam depressa entre secretrias, scios, assistentes, estagirios, e at mesmo at um ou
outro cliente. No entanto, o que surpreendeu Alex, embora isso a embaraasse, foi o facto de todos a
apoiarem.
Enviavam-lhe bilhetinhos, passavam pelo seu gabinete
para a cumprimentar, ofereciam-se para ajud-la. A princpio, Alex considerava a situao
extremamente irritante; depois apercebeu-se de que as pessoas se preocupavam com
ela, queriam ajud-la, queriam fazer tudo o que podiam para
ajud-la a conseguir vencer. A considerao que tinham por ela em termos profissionais traduziu-se
de imediato numa
preocupao com a sua pessoa.
Na semana seguinte, Alex tinha o gabinete cheio de flores, cartes, cartas e bolos caseiros. Recebera
biscoitos, bolachas, e umas tartes de ma fabulosas.
- Oh, pelo amor de Deus! - gemeu Alex, que assistia a
um depoimento na companhia de Brock, quando Liz entrou
com um bolo de chocolate. - Quando isto acabar, pesarei
cem quilos. - Mas as pessoas tinham sido to afectuosas
para ela! Ainda no deixara de enviar agradecimentos desde que regressara ao emprego. E, em
segredo, dera as suas
prendas a Liz e a Brock para levarem para casa. J levara o que podia para si, para Sam, para
Annabelle e para Carmen.
- Quer comer alguma coisa? - perguntou Alex a Brrock, com um sorriso, quando fizeram um
intervalo para
tomar caf. - Isto parece um restaurante.
-  bom para si. Faz com que se lembre de que toda a gente gosta muito de si. - Brockj ouvira a
novidade vezes
189
sem conta. Tinham-lhe tirado um seio. Mastectomia. Quimioterapia. Alex Parker. Naquele
momento, j sabia mais do que ela lhe contara. Matt Billings ficara to preocupado que contara 
secretria e a mais quatro scios, de pois de ter ido almoar com Alex. E eles tinham contado s
secretrias, que por sua vez contaram aos assistentes, e estes contaram a outros scios. Seguiram-se
os estagirios. E es tes. Era uma lista interminvel, tal como a amizade que dedicavam a Alex.
- Parece disparatado fazer uma afirmao destas neste momento, mas sou muito feliz.
-  verdade. E vai ser sempre assim - retorquiu ele, com firmeza.
Brock era agora sempre muito peremptrio com ela em relao ao futuro, e Alex perguntava a si
prpria se ele seria religioso.
Em casa, a situao no se alterara. Sam estivera trs dias em Hong Kong, onde fora conhecer um
contacto de Simon e fizera um negcio extraordinrio, que lhe valera uma notcia de primeira
pgina no Wall Street Journal. De qualquer modo, a vida profissional de Sam sempre tivera o seu
qu de hollywoodesco, cheia de estrelas do mundo financeiro e xitos estrondosos; com a chegada
de Simon, tornara-se de repente ainda mais intensa. Era como se nenhum negcio pudesse falhar, e
ele andava mais atarefado do que nunca. Porm, aqueles trs dias de ausncia parecia terem-nos
afastado ainda mais. Alex no soubera nada do negcio dele seno quando lera no jornal. E, na noite
em que ele regressou a casa, no pde deixar de lhe dizer o que sentia.
- Porque no dizes nada? - perguntou ela, magoada por ele no lhe ter falado num negcio to
importante.
- Esqueci-me. Tu tambm tens andado muito ocupada. Mal te vi durante toda a semana.
Alex sabia to bem como ele que um negcio daqueles no se fizera em meia dzia de dias. Ele
devia andar a trabalhar naquilo h um ms, ou mais. Sam fechara todas as portas de comunicao
entre eles. E, depois da viagem a Hong Kong, passaram-se dias e dias em que Sam fora logo para
cama depois do jantar, dizendo-se afectado pela diferena
horria.
190
- De que tens medo, Sam? - perguntou Alex, finalmente, quando ele foi despir-se logo a seguir ao
jantar. O truque dele consistia agora em estar a dormir profundamente quando ela ia para a cama.
Ela ficava em p, a trabalhar, a estudar processos que tinham dado entrada durante a sua ausncia de
duas semanas, e a tentar adiantar trabalho antes de comear a fazer a quimioterapia.
- Fica descansado que no te saltarei para cima se ficares levantado depois das oito horas. De vez
em quando, talvez te apetea ver algo mais do que a Rua Ssamo e o noticirio das seis na televiso,
j para no falar de uma pequena conversa de adultos.
-J te disse que tem sido uma semana dura. Estou a sofrer os efeitos da diferena horria.
- Vai contar essa ao juiz - disse ela, ironicamente.
- O que quer isso dizer? - disparou ele no mesmo instante.
- Nada, valha-me Deus, eu estava a brincar. Sou advogada, j te esqueceste disso? Pelo amor de
Deus, o que se passa contigo?
Sam perdera por completo o sentido de humor com ela. Nunca conversavam, nunca se riam, nunca
se descontraam e nunca trocavam carcias. De um dia para o outro, tinham-se tornado estranhos e
irritados um com o outro. Tudo s porque ela fizera uma mastectomia. Sam agia como se aquilo
fosse a pior das traies.
- No creio que tenha sido divertido. Foi inspido. Sam conseguira de facto mostrar-se ofendido.
- Oh, pelo amor de Deus! O que consideras tu divertido? No sou eu, com certeza. No trocaste
mais de quatro ou cinco palavras comigo desde que fui para o hospital, ou talvez desde que te falei
na mamografia. -J se tinham passado seis semanas depois de o pesadelo ter comeado, o que
parecia uma eternidade. - Como ser quando eu comear a fazer quimioterapia, Sam?
- Como hei-de saber?
- Bem, vamos ver. - Alex fingiu que estava a imaginar tudo. - Se ficaste aborrecido comigo por
causa da mamografia e da bipsia, e depois irritado quando eu fiz a operao,
191
e mal me falaste depois de eu voltar do hospital, como ficars quando eu comear a fazer
quimioterapia? Pes-me fora de casa? Ou ignoras-me por completo? O que tenho eu a esperar
exactamente e quando  que isto vai acabar? Quando acabar tudo ou quando eu desistir e reconhecer
que o nosso casamento chegou ao fim? Esclarece-me.
- Est bem, est bem.
Sam encaminhou-se lentamente para o stio onde ela es tava a arrumar a cozinha. Annabelle fora
para a cama h uma hora e ambos sabiam que ela estava a dormir e que no poderia ouvi- los.
- Tm sido seis semanas duras. Isso no significa que tudo esteja acabado. Continuo a amar-te.
Sam sentiu-se embaraado, desajeitado e infeliz quando olhou para ela. Sabia que a situao era m,
mas no sabia como resolv-la. Amava Alex; porm, a presso do desejo que sentia por Daphne
dificultava tudo. Reaproximar-se de Alex equivaleria a desistir de qualquer coisa com Dapne. Mas
aproximar-se dela seria trair a mulher. E, naquele momento, estava no meio de ambas, em pnico,
sem se aproximar de nenhuma. Tambm sabia que, enquanto durasse aquela agonia, ele estava a
destruir a sua relao com Alex. Sabia que tinha de dizer ou de fazer qualquer coisa para a situao
melhorar, mas no conseguia. Nem sequer era capaz de olhar para o corpo dela. O nico corpo que
ele desejava naquele momento era o de Daphne. Era uma situao assustadora.
- S preciso de tempo. Desculpa.
Sam estava ali a olhar para ela, desejoso de compor as coisas, mas sem querer fazer um esforo.
Queria que o tempo passasse, e isso no era possvel sem a magoar. No queria faz-lo, mas
tambm no queria desistir de sonhar com Daphne e ainda no estava preparado para apoiar Alex
durante a sua doena.
- Acho que  m altura para mudares de vida. Vou precisar da tua ajuda durante a quimioterapia. E,
para ser franca, no me tens ajudado nada. Isso no me d esperanas para o futuro.
Curiosamente, Alex estava a ficar muito mais corajosa
e um pouco menos zangada.
192
- Farei o possvel. No lido muito bem com a doena.
- J reparei... - Alex sorriu com um ar magoado.     De qualquer modo, achei que devia dizer-te isto.
Estou assustada - acrescentou, num tom mais amvel. - No sei
como vai ser.
- Tenho a certeza que no ser to mau como parece.
Tal como as histrias de terror que se ouvem sobre o parto.
Muitas delas so tretas.
- Espero bem que sim - disse ela. Ouvira algumas
 muito desagradveis quando, por vezes, se juntara a Liz no
grupo de apoio. Fora para ser agradvel a Liz, mas sentira
tambm uma certa ajuda. E algumas mulheres tinham-se dado bem com a quimioterapia. Porm, a
maior parte admitia
que o tratamento era difcil. As pessoas sentiam-se pior do
que poderiam imaginar. - De qualquer modo, fico satisfeita
por saber que os negcios esto a correr-te to bem actualmente. Parece que o Simon foi um
achado. Acho que estvamos os dois enganados.
 - No h dvida que sim. No imaginas as pessoas que
me apresentou em Hong Kong. So fabulosamente ricas. Chineses ricos, na indstria naval. ao lado
deles, os rabes
parecem pedintes.
- Quanto esto eles a investir contigo? - perguntou
Alex, metendo os pratos na mquina de lavar loua.
Sempre se interessara muito pelos negcios dele, e aquele
continuava a ser um bom tema de conversa.
Ele sorriu, orgulhoso, como era natural.
- Sessenta milhes.
Alex sentiu-se magoada por ele no lhe ter dito nada
mais cedo, e s depois da insistncia dela.
- Isso  muita massa para um tipo de Nova Iorque - disse ela, em tom de elogio.
- Giro, hem? - retorquiu ele, sorrindo, como nos temmpos em que ambos se tinham apaixonado um
pelo outro.
- Muito. Estou muito orgulhosa de ti.
Era curioso dizer aquilo a um homem que no se aproximava dela e que a magoara tanto. Alex,
porm, queria dar-lhe aquilo que ele merecia. Um negcio de sessenta milhes
de dlares em Hong Kong era um verdadeiro xito.
193
- Deve saber muito bem.
E sabia. E Sam levara Daphne consigo. Mas, para seu prprio espanto, tinham mantido a
abstinncia mesmo em Hong Kong. Estavam quase doidos, mas ele no queria enganar Alex, por
muito grande que fosse a tentao. Naquele momento, tambm no queria dormir com Alex, no
conseguia. A nica pessoa que ele desejava fisicamente era Daphne, e recusava-se a possu-la.
Em seguida, Sam foi para o quarto e esteve a ver televiso. Como de costume, quando Alex foi ter
com ele, da a meia hora, j Sam estava a dormir e ela abanou a cabea a v-lo. Era um caso
desesperado. Ele tinha tanto medo de voltar a aproximar-se dela que fazia tudo para a evitar.
- Talvez ele esteja narcolptico - disse Alex em voz baixa, pegando na mala e voltando para o
escritrio.
Sam no conseguia retomar o interesse por ela e Alex teria de ser paciente. Uma das mulheres do
grupo tivera um problema semelhante com o marido e separara-se dele durante um ano. Ele no
conseguia encar-la, nem ao medo que tinha de que ela morresse, e portanto ignorara-a. Ela deixara-
o. Agora, estavam de novo juntos. E ela libertara-se da doena h seis anos. H quatro que estavam
juntos. Ouvir aquelas histrias dava esperana a Alex. Porm, continuava a no facilitar o seu
relacionamento com Sam. E, no dia seguinte, tiveram uma grande discusso depois de Annabelle ter
ido para a cama.
Pouco antes do jantar, Alex explicara a Annabelle que no dia seguinte iria ao mdico e que este lhe
daria um remdio. E o remdio iria faz-la sentir-se muito mal. Da a pouco tempo, talvez o cabelo
comeasse a cair-lhe. Era desagradvel, mas tratava-se de uma espcie de vacina. Ficaria cortado
por uns tempos; depois, ficaria forte outra vez e isso impedi-la-ia de apanhar doenas ms. Contudo,
Annabelle teria de ser paciente com ela, porque umas vezes ela sentir-se-ia bem, mas outras vezes
sentir-se-ia doente e muito cansada. Era o melhor que tinha a fazer e, quando acabou de falar,
Annabelle ficou muito preocupada.
- Levas-me s aulas de dana?
- De vez em quando. Se eu puder. Se eu estiver muito cansada, irs com a Carmen.
194
- Mas eu quero que sejas tu a levar-me - choramingou ela.
A criana reagia bem ao facto de Alex estar quase sempre cansada, mas por vezes isso assustava-a.
- Eu tambm quero levar-te s aulas de dana, mas temos de ver como  que eu me sinto. Ainda no
sei.
- Vais usar uma cabeleira postia se o cabelo te cair? Annabelle estava intrigada, e Alex sorriu.
- Talvez. Vamos ver.
- Ficarias muito feia. E o cabelo vai nascer outra vez?
- Vai.
- Mas no ficar comprido, pois no?
- No. Ficar curto como o teu.  como se fssemos irms.
De repente, Annabelle ficou aterrada.
- O meu cabelo tambm vai cair?
Alex correu a abra-la e a sosseg-la.
- Claro que no.
Depois de Annabelle ir para a cama, Sam fico furioso e procurou vingar-se de Alex.
- Foi a coisa mais deplorvel que ouvi na minha vida.
Assustaste-a imenso.
Deitou-lhe um olhar furibundo, e como sempre, ela sentiu-se magoada pela sua falta de compaixo.
- Isso no  verdade. Ela estava bem quando foi para a cama. At lhe li um livro acerca disso.
Chama-se A Mam a Melhorar.
- Isso  horrvel. Reparaste na cara dela quando lhe falaste no teu cabelo?
- Valha-me Deus, ela tem de estar preparada. Se eu no         conseguir cuidar dela durante a
quimioterapia, ela tem de saber porqu.
- Porque no consegues sofrer em silncio? Ests sempre a transformar isso num problema dela e
meu. Pelo amor de Deus, tem um pouco de dignidade.
- Meu filho da me!
Alex agarrou-lhe na camisa e rasgou-a, o que surpreendeu ambos. Ela nunca fizera nada daquilo;
ele, porm, levara-a ao descontrolo. Alex perdera o marido, o seio, a vida
195
sexual, o sentido da feminilidade, a sensao de bem-estar e de imortalidade e a capacidade de ter
mais filhos. Perdera uma srie de coisas que eram importantes para ela, nas ltimas seis semanas, e
ele no fizera mais do que critic-la.
- Raios te partam! Eu luto contra o que est a acontecer-me e tento gerir a situao para que ela no
te incomode, no fira a Annabelle, no sobrecarregue os meus scios na empresa, e tu s sabes
irritar-te comigo e tratar-me como se eu fosse uma estranha. Vai-te lixar, Sam Parker. Vai-te lixar se
no consegues enfrentar isto.
Toda a sua angstia das ltimas seis semanas transbordava como um vulco. Ele sofria tanto que
continuava a recusar-se a ouvir aquilo.
- Deixa de te felicitares a ti prpria pela tua nobreza e pelo teu sofrimento. S sabes  choramingar
pelo teu maldito seio, que no era assim to importante. Ningum percebe que ele j no existe e a
nica coisa que tu fazes  preparar-nos para a quimioterapia. Acaba com isso, pelo amor de Deus,
no nos mates com isso. Ela tem trs anos e meio. Porque h-de passar por isso contigo?
- Porque eu so me dela e ela preocupa-se comigo, e o facto de eu estar doente vai afect-la.
- Tu ests a pr-me doente a mim, e isso est a afectar-me. No posso viver assim, com boletins
dirios sobre cancro. Porque no mandas afixar um cartaz?
- Vai pr diabo! Nem sequer me perguntaste pelos resultados da patologia quando eu os recebi.
Fora no dia em que ele vira a cicatriz pela primeira vez e o seu horror sobrepusera-se ao seu
interesse.
- E o que interessa isso? Eles cortaram-te o seio, de qualquer modo.
- A diferena pode estar no facto de eu viver ou morrer, se  que isso continua a interessar-te, ou
talvez seja o seio, com o qual te preocupas to pouco. Se eu desaparecer, talvez tu nem ds por isso.
No me parece que o faas. Nem sequer te incomodas a falar comigo nem a tocar-me.
- De que havemos de falar, Alex? De quimioterapia e gnglios linfticos? De patologia? J no
posso mais.
- Ento, porque no te vais embora e no me deixas em paz? No ests a ajudar-me.
196
- No deixo a minha filha. No vou para lado nenhum            - ripostou ele, e depois saiu de casa.
Ficou na rua, desejoso de apanhar um txi que o levasse
 Rua Cinquenta e Trs, a casa de Daphne, mas no o fez.
No podia faz-lo. Telefonou-lhe de uma cabina e desatou
a chorar. Disse que estava a comear a detestar a mulher e a detestar-se a si prprio. Explicou-lhe
que ela ia comear a fazer quimioterapia no dia seguinte, e que ele no suportava
isso. E Daphne compreendeu perfeitamente. Perguntou-lhe
se ele queria ir l a casa, e Sam respondeu que no devia ir.
Sabia que estava demasiado vulnervel naquele momento
e que precisava demasiado dela. No podia permitir que ela
servisse de desculpa para o fim do seu casamento. Tinha de
ver. Tinha de se libertar daquilo. Tinha de fazer qualquer coisa, mas no sabia o qu. No percebia
porqu... mas, de repente, comeara a odiar Alex. A pobre estava doente, e ele detestava-a por
aquilo que ela estava a fazer  sua vida. Ela trouxera a doena e o medo. Ela ia abandon-lo. Ela
estava a destruir tudo. Sem saber, ela estava a separ-lo de Daphne.
Foi a p at East River e voltou para trs. Alex continuava deitada, a olhar para o tecto. Tambm ela
estava demasiado irritada para chorar, demasiado ferida para lhe perdoar.
Ele abandonara-a. Ele abandonara-a completamente. Em
semanas, anulara tudo o que ambos tinham partilhado,
renegara tudo o que tinham sentido e destrura todas as esperanas e todo o respeito que ambos
tinham construdo ao
longo de dezassete anos de vida em comum. E a promessa
de se acompanharem nos bons e nos maus momentos, na
sade e na doena, fora totalmente esquecida.
Sam voltou duas horas depois; Alex ainda estava deitada.
Mas ele no foi v-la. No lhe dirigiu a palavra. Alex ficou acordada, durante toda a noite, e Sam
dormiu no sof do escritrio.

CAPTULO 12
O oncologista que o Dr. Herman lhe indicara tinha consultrio na Rua Cinquenta e Sete e era uma
mulher. Alex fora avisada de que a primeira consulta deveria prolongar-se por uma hora e meia e
que a segunda duraria entre quarenta e cinco minutos e uma hora e meia. Haveria duas consultas por
ms, a menos que surgisse qualquer problema, e nesse caso as visitas seriam mais frequentes.
Alex marcara a consulta para o meio-dia e esperava regressar ao emprego por volta da uma e meia.
Tanto Brock como Liz sabiam que ela comeava a quimioterapia naquele dia e Sam tambm. Fora
para o emprego, depois da discusso acesa da noite anterior, sem sequer tomar o pequeno-almoo. E
no lhe telefonara de manh a pedir desculpa nem a desejar-lhe sorte para o tratamento, muito
menos a oferecer-se para ir com ela. Alex j percebera que teria de passar por aquele transe sem ele.
O prdio era moderno,  direita da Terceira Avenida, a sala de espera estava bem decorada e tinha
um aspecto arranjado. A luz era acolhedora e a cor dominante era o amarelo-claro; tudo ali era
enganadoramente alegre. Se tivessem levado Alex para um tmulo escuro, ter-lhe-ia parecido
apropriado. E por alguma razo ela ficou aliviada ao ver a mulher a quem se dirigia, que era da
mesma idade. Pareceu calma e eficiente, e chamava-se Jeanne lebber. Alex ficou satisfeita ao saber,
pelo diploma que estava pendurado na parede, que ela frequentara a Faculdade de Medicina de
Harvard.
A princpio, falaram um pouco no gabinete, e a mdica trocou impresses com Alex acerca dos
relatrios da patologia e do seu significado. Era um alvio ser tratada como um ser humano
inteligente. A mdica explicou que os medicamentos citotxicos que utilizariam no eram
venenosos, ao contrrio do que se julgava vulgarmente, mas que o seu objectivo era destruir as
clulas malignas e poupar as benignas. Explicou tambm que o tumor de Alex era do estdio II, o
que no era uma boa notcia, mas que, para alm dos
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gnglios linfticos que tinham sido afectados, no havia outras infiltraes. A doena no fora mais
alm. O prognsti       co, no que lhe dizia respeito, era bom. E, tal como os outros mdicos
envolvidos naquele caso, tinha a certeza
absoluta de que a quimioterapia era necessria para se obter uma cura total. No podiam arriscar-se
a deixar sequer uma fraco de uma clula que depois poderia subdividir-se e
alastrar. S era aceitvel uma cura a cem por cento e s ela asseguraria que Alex se libertaria do
cancro. Graas  mastectomia, no seriam necessrias radiaes. E, devido  natureza do cancro, a
terapia hormonal tambm no seria necessria. Era o que os resultados finais dos exames tinham
indicado. Tambm fora feito um exame aos cromossomas
para examinar o ADN das clulas envolvidas; para ver se
havia um nmero normal ou anormal de cromossomas. Tinham apurado que as clulas de Alex eram
diplides, ou seja, que tinham os dois cromossomas habituais. O resultado
fora ptimo. Era um alvio ouvir aquilo, mas com a boa notcia veio a m notcia. A m notcia era
que Alex tivera de
facto um cancro e que agora tinha  sua frente seis meses de quimioterapia, o que a deixou
profundamente deprimida. Quando falaram nisso, a Dr. lebber compreendeu.
Era uma mulher pequena, de cabelo castanho- escuro, salpicado de branco, e simplesmente
penteado para trs; no usava maquilhagem. Tinha um rosto compreensivo e pequeno,
um aspecto asseado e umas mos imaculadas, cujos movimentos realavam o que ela dizia.
Tentou explicar a Alex que, apesar de os efeitos secundrios da quimioterapia poderem ser
desagradveis, no eram to temveis como as pessoas julgavam, e com um tratamento adequado
podiam ser controlados. E garantiu-lhe que nenhum dos efeitos secundrios provocava danos
permanentes.
A Dr. a lebber disse que queria saber pela boca de Alex se ela viesse a ter problemas. Os efeitos
secundrios que poderiam esperar eram a perda de cabelo, nuseas, dores no corpo, sensao de
fadiga e aumento de peso. Tambm poderiam surgir feridas na garganta, constipaes e problemas
de
 eliminao. Era natural que a menstruao parasse imediatamente; porm, a mdica avisou-a que
no seria impossvel
199
que ela voltasse depois da quimioterapia. A taxa de esterilidade era de cinquenta por cento, mas isso
dava-lhe hiptese de vir ainda a ter um beb... se ainda tivesse marido, pensou Alex, forando-se a
ouvir o que a mdica dizia. A Dr. a lebber garantiu-lhe que no eram conhecidos casos de
bebs com defeitos congnitos.
Havia uma possibilidade, ainda que remota, de surgirem
problemas com a medula ssea e de se registar um decrscimo acentuado de glbulos brancos mas
seria muito pouco
provvel. Tambm as irritaes na bexiga no eram invulgares. S o aumento de peso surpreendeu
Alex, pois seria de
esperar que com as nuseas e os vmitos ela perdesse peso,
em vez de o ganhar; a mdica explicou que se tratava de um
facto inevitvel, tal como a perda de cabelo. Sugeriu a Alex
que fosse imediatamente escolher uma cabeleira postia, ou
mesmo vrias. Com os medicamentos que iria tomar, era
quase certo que perderia todo ou quase todo o seu esplendoroso cabelo ruivo. Mas... voltaria a
crescer, garantiu-lhe a
mdica.
A Dr.a Lebber foi o mais esclarecedora e confiante possvel; Alex tentou convencer-se de que estava
a escutar uma
nova cliente, e que tinha de ouvir todos os testemunhos antes de reagir. Era um bom sistema para
ela e funcionou durante algum tempo; porm,  medida que a conversa avanava, o que comeou a
ouvir no podia deixar de se
apoderar dela. As nuseas, os vmitos, a perda de cabelo,
a inexorabilidade de tudo aquilo f-la perder o flego.
A mdica explicou-lhe que ela faria exames de cada vez
que viesse, uma anlise ao sangue, uma TAC e radiografias
regulares, e que tudo isto poderia ser feito no seu consultrio. Possuam o mais moderno que havia
em equipamentos.
Avisou-a de que tomaria um medicamento oral, o Cytox
durante os primeiros catorze dias de cada ms, e que depois lhe seria administrado metotrexato e
fluoruracilo por via intravenosa no primeiro e no oitavo dias desse mesmo ms.
Depois de os medicamentos intravenosos lhe serem administrados, podia voltar para o escritrio.
Queria que
tivesse o cuidado de repousar mais do que era habitual
na vspera, para terem a certeza de que os problemas seriam
200
minimizados e que a contagem de glbulos brancos no seria afectada.
- Eu sei que tudo isto parece muito confuso a princpio, mas vai habituar-se - declarou ela, sorrindo.
Alex ficou admirada ao ver que estavam a conversar quase h uma hora, quando a mdica a levou
para o gabinete contguo, para examin-la.
Alex despiu-se com cuidado, colocando as roupas dobradas em cima de uma cadeira, como se cada
momento, cada gesto tivesse importncia, e verificou que no conseguia deixar de tremer. As mos
no paravam, enquanto a mdica examinava o stio da operao e fazia um sinal de aprovao.
-J escolheu o seu cirurgio plstico? - perguntou ela. Alex abanou a cabea em sinal negativo.
Ainda no tomara essa deciso. No sabia sequer se quereria fazer cirurgia reconstrutiva. Pelo rumo
que as coisas estavam a tomar, no sabia se se preocuparia com isso. E, ao pensar nesse facto, as
lgrimas vieram-lhe aos olhos, enquanto a mdica lhe picava o dedo para recolher o sangue. De
repente, sentiu um n na garganta; quando a mdica ligou o dispositivo intravenoso, Alex desatou a
soluar e a pedir desculpa.
- Est bem, esteja  vontade e chore - disse a mdica tranquilamente. - Eu sei como isto mete medo.
Nunca mais ser to assustador como da primeira vez. Temos muito, muito cuidado com estes
medicamentos.
Alex sabia que era por isso que era to importante escolher um bom oncologista e devidamente
credenciado. Ouvira contar histrias horrveis sobre pessoas que tinham morrido por a
quimioterapia lhes ter sido administrada indevidamente. E, naquele momento, no conseguia deixar
de pensar nisso. E se ela reagisse mal? E se morresse? E se nunca mais voltasse a ver Annabelle?
Ou Sam?. Mesmo depois da terrvel discusso da vspera. Eram pensamentos insuportveis. A Dr.
lebber comeou a administrar-lhe uma infuso de dextrose e de gua por via intravenosa e depois
adicionou o medicamento; o lquido, porm, continuava a no entrar e a veia cedeu um pouco
depois de comearem. Fora doloroso, e a Dr. Lebber retirou logo o tubo e olhou para o outro
201
brao de Alex e depois para as mos, que continuavam a tremer.
- Em geral, prefiro a dextrose e a gua em primeiro lugar, mas hoje as suas veias no esto grande
coisa. Vou fazer uma aplicao directa e tentaremos este mtodo da prxima vez. Vou injectar o
medicamento no diludo na sua veia. Vai sentir uma picada, mas  mais rpido, e creio que hoje
ficar mais satisfeita se se despachar depressa disto.
Alex concordou, mas a aplicao directa parecia-lhe assustadora.
As mos minsculas da mdica pegaram na mo de Alex, e ela examinou cuidadosamente a parte de
cima da veia. Em seguida, injectou o medicamento, enquanto Alex tentva no se descontrolar.
Assim que acabou, pediu a Alex que apertasse a veia com fora, durante cinco minutos, enquanto
lhe passava uma receita de Cytoxan e ia buscar um comprimido e um copo de gua. Deu-o a Alex e
viu- a tom-lo.
- ptimo - disse ela, satisfeita. - J tomou a sua primeira dose de quimioterapia. Gostaria de a ver
precisamentt de hoje a uma semana, e quero que me telefone se sentir que est a ter problemas. No
seja tmida, no hesite e no se convena de que est a incomodar. Se qualquer coisa lhe parecer
invulgar, ou se se sentir mal, telefone-me. Veremos o que podemos fazer para ajud-la. - A mdica
entregou a Alex uma lista dos efeitos secundrios que eram habituais e dos que no eram. - Pode
contactar-me vinte e quatro horas por dia, que eu no me importo de atender os meus doentes.
Dirigiu-lhe um sorriso caloroso e levantou-se. Era muito mais baixa do que Alex e parecia muito
dinmica. Tive sorte, pensou Alex, quando olhou para ela; fazia aquilo que gostava. Era como
aquelas pessoas que iam ter com ela com problemas legais terrveis e processos judiciais
assustadores. Alex podia encarregar-se deles e fazer o melhor que podia por elas. Contudo, o
problema e a angstia eram deles e no dela. De repente, teve inveja da mdica.
 sada, Alex ficou admirada ao ver que ficara duas horas no consultrio da oncologista. Passava
pouco das duas
202
horas, e a mo ainda lhe doa quando chamou um txi. Tinha um penso no stio em que a mdica lhe
injectara os medicamentos. Comeava a aprender todos aqueles termos e
frases. Passaria bem sem aquele tipo de informao, e sentiu-se muito aliviada ao regressar ao
escritrio. No se sentia doente, no morrera, no lhe acontecera nenhuma desgraa.
Pelo menos, a mdica sabia o que estava a fazer. Alex lembrou-se de ir comprar uma cabeleira
quando descia Lexington
 Avenue. Mas era deprimente pensar nisso naquele momento.
Talvez a mdica tivesse razo. Seria menos aborrecido t-la
 mo quando precisasse, em vez de ir  loja compr-la, escondendo a cabea calva debaixo de um
leno. O pensamento estava longe de ser animador.
Alex pagou o txi e, quando entrou no escritrio, Liz
no estava na sua secretria. Alex respondeu aos telefonemas referidos nos recados que tinha em
cima da secretria e, um
pouco mais tarde, comeou finalmente a descontrair-se.
O cu no desabara. At agora, tinha sobrevivido. Talvez
aquilo no fosse to mau, afinal, disse com os seus botes, quando Brock entrou, em mangas de
camisa, com um monte de documentos. Eram quatro horas e Alex estava a trabalha ar h duas horas.

- Como correu? - perguntou ele, com um ar preocupado.
Havia sempre algo muito agradvel no modo como ele
lhe fazia as perguntas. No era importuno nem intrometido; parecia bvio que se preocupava com
ela, e isso comovia-a. Era como se fosse um irmo mais novo.
- Bem, at agora. Mas tive muito medo.
Alex no tinha intimidade com ele ao ponto de lhe dizer
que chorara, que ficara aterrada,  espera que a injeco fizesse efeito.
- Muito bem. Quer um caf? - perguntou ele.
- Adorava.
Brock voltou cinco minutos depois, e trabalharam durante
uma hora. Alex saiu s cinco horas em ponto, para poder ir ter com Annabelle. Fora um dia bom,
mas cansativo.
- Muito obrigada por toda a sua ajuda - disse ela a
Brock, antes de sair.
203
Encontravam-se no incio do caso de um pequeno empresrio que estava a ser processado num caso
de falsificao e discriminao. Desta vez, era uma mulher cancerosa que alegava ter sido
ultrapassada numa promoo. O patro fizera tudo o que pudera para ajud-la. At lhe arranjara
uma sala para ela trabalhar e poder descansar como precisava; dera-lhe trs dias de folga por
semana durante a quimioterapia e guardara-lhe o lugar. Mas, mesmo assim, ela processara-o.
Alegava que no fora promovida por estar cancerosa. O que a mulher pretendia era fazer algum
dinheiro, ficar sentada em casa e conseguir pagar todos os tratamentos e o processo. Aparentemente,
o cancro estava curado e ela nem sequer queria trabalhar mais. Porm, ainda devia uma srie de
tratamentos. E no havia dvida, segundo Alex apurou, de que a maior parte dos seguros de sade
pagava apenas quantias mnimas quando surgiam casos de cancro. Se as pessoas no podiam pagar
os tratamentos caros que lhes salvavam a vida, ficavam metidas num grande sarilho. O prprio
seguro de sade de Alex garantia apenas o pagamento de uma parte nfima das despesas. Mesmo
assim, a queixosa no tinha o direito de se vingar do patro. Ele oferecera-se para ajud-la, um facto
que ela negara mais tarde, e ele tinha provas. Como de costume, Alex tinha muita pena do acusado.
Detestava a injustia cometida por pessoas que julgavam ter o dever de fazer acusaes s porque
outros tinham dinheiro e elas no. E tambm era uma boa altura para ela se ocupar daquele caso,
que lhe fornecia uma srie de informaes teis sobre o cancro.
- At amanh, Brock - disse ela, quando se preparava
para sair.
- Tenha cuidado consigo. Deite-se cedo. E jante bem.
- Sim, mam - retorquiu ela, a brincar. Tudo aquilo eram coisas que Liz tambm j lhe dissera.
Tinha de manter-se firme e conservar as foras. No lhe agradava atingir o peso que a Dr. lebber lhe
falara. Detestava ter peso a mais, embora isso fosse raro, e sabia que Sam detestva mulheres
gordas.
- Muito obrigada, mais uma vez.
Alex saiu e foi para casa, a pensar na simpatia de todos e
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no alvio que sentia por j ter feito o primeiro tratamento.
Fora ainda mais traumtico do que ela esperava, e sentira-se ainda mais aniquilada, mas tudo
correra bem. No estava ansiosa por voltar da a uma semana; porm, talvez as coisas fossem
melhores dessa vez e, depois disso, faria um intervalo de trs semanas. Liz fora aviar-lhe a receita e
Alex levava os comprimidos na carteira. Era como se estivesse a tomar a plula outra vez, o que j
no acontecia h anos. No podia esquecer-se.
Quando Alex chegou a casa, Annabelle estava dentro da
banheira, e ela e Carmen estavam a cantar. Era uma cano
 da Rua Ssamo, e Alex foijuntar-se a elas depois de pousar a pasta.
- E como foi o teu dia? - perguntou Alex, inclinando-se para lhe dar um beijo, depois da cano.
- Foi bom. Aleijaste-te na mo?
- No... Ah, isto. - Era o penso da quimioterapia. - Foi no escritrio.
- Di?
- No.
- Eu tenho um penso com o Snoopy na escola - disse
Annabelle, orgulhosa.
Carmen comunicou a Alex que Sam telefonara a avisar
que no vinha jantar. Alex no tivera notcias dele durante todo o dia e concluiu que ele ainda estava
furioso pelo que se passara na noite anterior. Agora, ela nem sequer podia dizer-lhe que a
quimioterapia correra bem. Lembrou-se de lhe telefonar para o emprego; porm, depois das
palavras desagradveis que tinham trocado na vspera, concluiu que seria prefervel esperar at se
encontrar com ele. Reparou tambm que ele saa muito mais  noite, com clientes, do que era
costume. Talvez fosse apenas mais uma maneira de a evitar,
 e no havia dvida que estava a resultar. Era como se nunca o visse.
Jantou com Annabelle e resolveu esperar por ele. No entanto, estava to cansada que adormeceu s
nove horas, na
cama, com a luz acesa. Fora o dia mais difcil da sua vida,
ainda mais difcil do que o da operao, e Alex sentia-se
exausta.
205
Enquanto ela dormia, Sam jantava tranquilamente com
Daphne, num pequeno restaurante de East Sixties.
Parecia torturado, e Daphne mostrou-se uma interlocutora
compreensiva. Nunca lhe fazia exigncias, nunca o pressionava e nunca o censurava por aquilo que
ele no lhe dava.
- No sei o que est a acontecer comigo - disse ele,
sem ter tocado no bife, que estava a arrefecer, enquanto ela
lhe pegava na mo e o ouvia. - Tenho tanta pena dela, sei
do que ela precisa, mas j no consigo sentir por ela seno
dio. Raiva... pelo que aconteceu  nossa vida. Parece que a
culpa  toda dela, mas eu sei que no . Mas eu tambm no tenho culpa. Foi pouca sorte, e agora
ela est a comear a
quimioterapia e eu no consigo enfrentar isso. J no consigo olhar para ela. No quero ver o que
est a acontecer-lhe.
 aterrador de se ver e eu no sou bom nessas coisas. Meu
Deus! Sinto-me um monstro - desabafou Sam,  beira das
lgrimas.
- Claro que no s - redarguiu Daphne ternamente,
continuando a pegar-lhe na mo. - s apenas um ser humano. Essas coisas so terrivelmente
perturbadoras. Tu no
s nenhuma enfermeira, pelo amor de Deus. Com certeza
que ela no pode esperar que tomes conta dela... Ou que
consigas engolir... - Daphne procurava as palavras. Quero dizer... olhar para aquilo. Deve ser
medonho.
-  - confessou ele, honestamente. -  brbaro.
 como se eles tivessem pegado numa faca e o tivessem cortado. Eu chorei quando olhei pela
primeira vez.
- Que terrvel deve ter sido para ti, Sam - prosseguiu
Daphne ternamente, pensando s nele e no em Alex. Achas que ela percebeu?  uma mulher
inteligente. No pode ficar  espera que isso no te afecte.
- Ela espera que eu esteja ali a seu lado, para lhe pegar
na mo, para ir aos tratamentos com ela, para falar do assunto com a nossa filha. Eu no suporto
isso. Quero que
a minha vida volte a ser o que era.
- E tens esse direito - disse Daphne, para o acalmar.
Era a mulher mais compreensiva e menos exigente que
ele conhecia. S queria estar junto dele, em quaisquer circunstncias, apesar de todas as limitaes
que ele impusera
206
ao relacionamento de ambos. Por fim, concordara em irjantar com ela de vez em quando, desde que
ela compreendesse que ele no podia dormir com ela. No podia fazer isso a Alex. Nunca lhe fora
infiel e no iria comear a s-lo naquele momento, por muito grande que fosse a tentao, embora
toda a gente do escritrio j estivesse convencida de que ele tinha um caso amoroso com Daphne.
Daphne informara-o de que estava to apaixonada por ele que aceitaria quaisquer condies, desde
que ele a visse.
- Amo-te tanto - afirmou ela em voz baixa, enquanto ele olhava para ela, consumido por emoes
contraditrias.
- Tambm te amo.  a loucura de tudo isto. Amo-te e tambm amo Alex. Amo as duas. Desejo-te
mas tenho obrigaes para com ela. Mas agora s nos restam as obrigaes.
- Isso no  vida para ti, Sam - insistiu Daphne tristemente.
- Eu sei. Talvez isto se resolva dentro de pouco tempo. A situao tambm no  agradvel para ela.
Vai comear a odiar-me. Creio que j me odeia.
- Ento,  parva. Tu s o homem melhor do mundo - afirmou Daphne, categrica, mas Sam  que
sabia, e Alex tambm.
- Eu  que sou parvo - contraps ele, sorrindo. - Eu devia pegar em ti e fugir, antes que caias em ti e
conheas algum da tua idade e com uma vida menos complicada.
Nunca se sentira to enamorado de ningum, desde a juventude, talvez nem mesmo de Alex.
- Para onde fugirias? - perguntou ela, inocentemente, quando ambos comearam por fim a comer.
Sempre que estavam juntos, falavam durante horas e horas e esqueciam tudo o que os rodeava.
- Talvez para o Brasil. Ou para uma ilha prxima de Taiti. Para um stio quente e sensual, onde
pudesse ter-te s para mim, com flores e aromas tropicais. - ao dizer isto, Sam sentiu a mo dela a ir
ao seu encontro por baixo da mesa. Sorriu. Os dedos dela eram hbeis e engenhosos. Ests a ser m,
Daphne Belrose.
- Talvez devesses provar isso a ti prprio, um destes
207
dias. Estou a comear a sentir-me virgem - disse ela, para o arreliar.
Sam corou.
- Desculpa.
No estava a tornar a vida fcil para ningum, e por isso se sentia to culpado.
- No peas desculpa - acrescentou ela, a srio. A situao ainda ter mais valor quando te decidires.
Daphne tinha a certeza de que ele se decidiria, era apenas uma questo de tempo. Ela podia esperar.
Ele era merecedor disso. Tratava-se de um dos homens mais apetecveis de Nova Iorque, e um dos
mais bem sucedidos. Mesmo ali, num restaurante afastado, as pessoas reconheciam-no e
demonstravam-no, e o chefe de mesa ficara muito satisfeito ao v-los. Sam Parker era um dos
homens mais importantes de wall Street.
- Porque tens tanta pacincia para me aturar? - perguntou ele, quando mandaram vir a sobremesa e
ele encomendou a nica garrafa de Chteau d'Yguem que havia, a qual custava duzentos e
cinquenta dlares.
-J te disse. Porque te amo - respondeu Daphne, baixinho, em tom de conspirao.
- s doida - declarou ele, inclinando-se e beijando-a. Em seguida, fez um brinde com o vinho. - 
priminha do Simon! - exclamou Sam, em tom inocente; o que lhe apetecia dizer era: Ao amor da
minha vida, mas no o fez. I so teria sido desleal, para com Alex. Como podia ter acontecido uma
coisa daquelas? Como era possvel Alex estar cancerosa e ele apaixonar-se por outra pessoa ao
mesmo tempo? Nunca lhe passara pela cabea que os dois acontecimentos estivessem relacionados.
- Um dia, ficarei muito grato ao Simon - disse baixinho, e ela riu-se.
- Ou muito zangado.  o que esta anteviso tem
de mau. Ests a construir uma srie de expectativas em relao a mim. E eu posso vir a ser uma
desiluso.
- No  provvel - retorquiu ele, confiante, desejoso
de fazer amor com ela ali mesmo. Todos os momentos que passavam juntos representavam suplcios
que lhe torturavam o corpo.
208
Ele acompanhou-a a casa, a p. Como de costume, recusou subir at ao seu apartamento.
Demoraram-se, aos beijos, junto  porta, as mos dele acariciando-a.
- Tambm podamos ir l para cima. - Daphne tentava
seduzi-lo com os lbios e as mos, e Sam estava quase a explodir de desejo. - Creio que seria um
grande alvio para os
vizinhos.
- Seria um grande alvio para mim, asseguro-te. No
sei por quanto tempo conseguirei suportar isto - sussurrou
ele, beijando-a de novo, desesperado.
- Espero que no seja por muito, querido Sam - segredou-lhe ela ao ouvido, agarrando-lhe as
ndegas e apertando-o contra ela.
O corpo de Sam colou-se ao corpo escaldante e fremente da rapariga e estremeceu de desejo quando
se apercebeu
de que ela no trazia roupa interior, apesar do vento glido
de Novembro, caracterstico dos Invernos de Nova Iorque.
Precisou de apelar a todas as suas foras para lhe resistir.
- Ests a matar-me - disse ele, soltando uma gargalhada roufenha e deliciando-se com o sofrimento.
- E vais
apanhar uma pneumonia.
- Ento  melhor aqueceres-me, Sam.
- Oh, meu Deus, como eu te desejo.
Sam fechou os olhos e apertou-a contra si.
Por fim, conseguiu afastar-se dela, embora com mais dificuldade; percorreu a p os vinte e cinco
quarteires que o
separavam de casa, para recuperar o sangue-frio. Era quase
meia-noite, e Alex estava a dormir profundamente, com a
luz acesa. Sam ficou a olhar para ela durante muito tempo,
mas o seu corao ansiava por Daphne, e no por Alex. Fechou a luz, sem fazer barulho, e meteu-se
na cama. Eram
seis da manh quando acordou com um rudo estranho. Era
irritante e mecnico e prolongou-se por muito tempo; Sam
no conseguia abstrair-se dele e adormecer. A princpio julgou tratar-se de uma mquina,
e por fim lembrou-se que poderia ser uma avaria no
elevador. Mas, fosse o que fosse, o rudo continuava; quando despertou e se voltou, percebeu que
era Alex, a vomitar incontrolavelmente na casa de banho.
209
Sam ficou deitado durante um tempo, sem saber se havia
de ir ter com ela ou no; depois, levantou-se e ficou  porta.
- Ests bem?
Ela levou muito tempo a responder e depois fez um sinal
afirmativo.
- ptima, obrigada.
Ainda no perdera o sentido de humor, mas no conseguia estancar os vmitos.
- Foi alguma coisa que comeste?
At naquele momento ele optava pela recusa.
- Acho que  da quimioterapia.
- Chama o mdico.
Alex fez um sinal afirmativo e continuou a vomitar; Sam
foi tomar duche na casa de banho dos hspedes. Voltou
meia hora depois, e Alex estava deitada no cho da casa
de banho, com uma toalha fria na cabea e os olhos fechados.
- No ests grvida, pois no?
Alex deixou-se ficar de olhos fechados e abanou a cabea. Nem sequer teve foras para insult-lo.
Viera-lhe o
perodo antes da operao. Viera mais um dia azulu e ele nem
sequer lhe dirigira a palavra, quanto mais fazer bebs. Como
podia ele pensar que ela estava grvida? E estava a fazer quimioterapia. Como podia ele ser to
estpido? Para um
homem inteligente, era um verdadeiro pateta no que dizia respeito ao cancro.
Por fim, conseguiu energia suficiente para se arrastar
pelo quarto, de gatas, e telefonar  Dr. a lebber. A recepcionista fez imediatamente a ligao, e a
mdica disse-lhe que se tratava de uma reaco comum ao primeiro tratamento, embora a
lamentasse. Recomendou-lhe que comesse com cuidado, mas um pouco de alimento poderia ajudar
o estmago
a acalmar-se. Tinha de tomar o comprimido, por muita
enjoada que se sentisse ou por muito que vomitasse. No
podia falhar. Tambm se ofereceu para lhe dar outros medicamentos para os vmitos, que poderiam
ajudar; Alex, porm, tinha receio de ingerir mais medicamentos e, alm dissso,
estes tambm tinham efeitos secundrios.
- Obrigada - disse Alex, com dificuldade, antes
de vomitar outra vez, mas por muito menos tempo.
210
J no tinha nada dentro de si a no ser blis. Era como se todo o seu corpo tivesse sido projectado
para fora. Demorou uma eternidade a vestir-se e tinha um tom esverdeado quando entrou na cozinha
para assistir ao pequeno-almoo de Sam e de Annabelle. Sam ajudara a filha a vestir-se e afastara-a
de Alex.
- Ests doente, mam? - perguntou Annabelle, preocupada.
- Mais ou menos. Lembras-te do remdio de que te falei? Bem, tomei-o ontem e fiquei enjoada.
- Deve ser um remdio muito mau - comentou Annabelle.
- Vai fazer-me bem - respondeu Alex com firmeza, forando-se a dar uma dentada numa torrada,
apesar de no ter vontade nenhuma de comer. Reparou que Sam a observava por cima do jornal,
com um ar preocupado. Fora pssimo t-lo acordado com os vmitos, mas Alex sabia que ele
detestava as suas explicaes a Annabelle. - Desculpa - disse ela, dirigindo-se a ele, num tom
desagradvel. Sam retomou a leitura do jornal. Alex afastou-se quando ele saiu para ir levar
Annabelle  escola, sem fazer mais aluses aos vmitos dela naquela manh. Contudo, assim que
eles saram, Alex vomitou outra vez e pensou em no ir trabalhar. Sentou-se na cama, chorou e
resolveu telefonar a Liz, mas depois mudou de ideias. No iria ceder. Iria trabalhar nem que isso a
matasse.        Lavou a cara outra vez, e os dentes, e ps mais um pano frio na cabea; depois, com
um ar determinado, vestiu o casaco e pegou na pasta. No corredor, teve de voltar a sentar-se, com o
estmago s voltas, mas conseguiu chegar ao elevador, e depois  rua, e sentiu-se melhor. A
atmosfera fria ajudou, mas a viagem de txi, no. Voltou a sentir-se desesperadamente agoniada
quando chegou ao emprego e mal teve tempo de entrar na casa de banho das mulheres. O seu
aspecto era horrvel quando voltou para o gabinete, onde Brock e Liz estavam a conversar, por
acaso. Alex tinha a pele brilhante e esverdeada, o que os chocou profundamente. Ambos foram atrs
dela, muito preocupados, e Alex deixou-se cair na cadeira da secretria, exausta.
211
- Sente-se bem? - perguntou Liz, inquieta, enquanto Brock olhava para ela, de sobrolho carregado.
- No. Tem sido uma manh difcil.
Alex fechou os olhos ao sentir um novo acesso de nuseas; porm recusou-se a ceder, e aquilo
passou. Abriu de novo os olhos e viu Brock, mas no Liz. Brock estava preocupado.
- Ela foi buscar-lhe um ch. No quer deitar-se?
- Acho que no voltaria a levantar-me - respondeu ela, honestamente. - Porque no vamos
trabalhar? - inquiriu, corajosa.
- Consegue?
- Nem me pergunte - respondeu ela, abatida. Abanando a cabea, Brock foi buscar os seus papis.
Como sempre, trabalhava em mangas de camisa, com os culos de aro de osso na testa, quando no
precisava deles. Tra zia lpis no bolso, uma caneta na boca, uma rima de papl com trinta
centmetros de altura e uma caixa de Saltines para Alex.
- Experimente isto.
Deixou cair a caixa em cima da secretria e sentou-se com o trabalho que ambos partilhavam. E,
enquanto trabalhavam, ele observava-a atentamente. Alex tinha um aspecto horrvel, mas parecia
estar a sentir-se um pouco mellhor. O trabalho distraa-a dos seus problemas. E Liz estava sempre a
trazer-lhe ch. Alex mordiscava as bolachas que Brock lhe trouxera.
- Porque no se deita um pouco durante a hora de almoo? - sugeriu ele, mas Alex abanou a cabea.
No queria quebrar o ritmo.
Estavam envolvidos num trabalho muito minucioso sobre um dos novos casos de Alex. E
encomendaram sanduches de frango que, na opinio de Alex, eram suficientes para o seu almoo.
Uma hora depois, Alex sentiu a comida subir-lhe  boca e ficou em pnico. Tinha uma pequena casa
de banho ao lado do seu gabinete e, sem dizer nada a Brock, desapareceu; fartou-se de vomitar. Os
vmitos prolongaram-se por
meia hora e Brock no pde deixar de ouvir. Era terrvel ouvi-la.
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Pouco depois, saiu e voltou com um pano frio e hmido, uma embalagem de gelo e uma almofada.
Sem bater nem dizer nada, abriu a porta, que felizmente ela no fechara  chave; de repente, Alex
sentiu os braos fortes dele atrs de si, quando se ajoelhou sobre a sanita e caiu contra a parede. Por
instantes, ele receou que ela tivesse perdido os sentidos, mas no.
- Encoste-se a mim, Alex - disse ele serenamente. Deixe-se ir.
Alex no ripostou, no disse uma palavra. Estava demasiado enjoada e agradecida pela ajuda.
Deixou-se recuar para os braos dele e Brock sentou-se no cho com ela ao colo. A casa de banho
mal tinha espao para as pernas compridas de ambos, mas conseguiram. Brock ps-lhe uma pedra
de gelo na nuca e o pano hmido na testa. Por momentos, Alex abriu os olhos e fitou-o, mas no
disse nada. No podia.
Ele puxou o autoclismo e tapou a sanita; pouco depois, encostou-a  almofada e tapou-a com um
cobertor. Ela estava agradecida por tudo e ele esteve sempre ali sentado, a olhar para ela, de mo
dada com ela, e sem dizer nada.
Passou-se quase uma hora antes de ela conseguir falar, baixinho. Estava completamente exaurida, e
at a fala representava um esforo.
- Acho que consigo levantar-me agora - pronunciou.
- Porque no se deixa estar aqui deitada um pouco? perguntou ele, em voz baixa, mas depois teve
uma ideia melhor. - Vou tir-la daqui, Alex. No faa nada.
Alex j h muito que deixara de vomitar e podia passar para o gabinete. Sem qualquer esforo,
Brock pegou-lhe ao colo, surpreendido com a sua leveza, deitou-a no sof de couro cinzento que ela
tinha no gabinete, ps-lhe a almofada debaixo da cabea e tapou-a com o cobertor. Alex estava um
pouco envergonhada por se ter abandonado assim, mas no se importou. Sentia-se grata por ele
estar ali para ajud-la.
- Feche a porta  chave - pediu ela, em voz baixa,quando ele estava a seu lado, a vigi-la, como uma
me vigiava ao seu beb.
- Porqu?
- No quero que algum entre e me veja.
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Alex garantira a toda a gente que seria capaz de trabalhar durante a quimioterapia, e este comeo
no era nada auspicioso.
Ele obedeceu e depois veio sentar-se numa cadeira a seu lado. No queria deix-la sozinha, apesar
de ela lhe parecer um pouco melhor.
- Quer que eu a leve a casa? - perguntou ele,  cautela, mas ela abanou a cabea.
- Eu fico.
- Quer dormir um bocadinho?
- Vou ficar aqui deitada. V trabalhar. Eu levanto-me daqui a pouco.
- Tem a certeza?
Brock estava surpreendido com ela. Nunca a admirara tanto como naquele momento. Ela recusava-
se a desistir ou a deixar-se vencer. Era uma verdadeira lutadora.
- Tenho - respondeu ela. - V voc trabalhar. Falava em voz baixa, e ele tambm. - Obrigada.
- No se preocupe.  para isto que servem os amigos. A nica coisa que a entristecia era o facto de
Sam no ser capaz de fazer o mesmo.
Brock apagou algumas luzes, e ela ficou ali deitada durante um certo tempo, de olhos fechados.
Meia hora depois levantou-se e foi ter com ele, que estava a trabalhar na sua secretria. Tinha um
aspecto um pouco desalinhado e a voz rouca, mas estava pronta para voltar ao trabalho, e nenhum
deles falou no que se passara.
Brock lembrou-se de abrir a porta e Liz entrou com o caf e uns aperitivos. Qual deles era melhor?
s cinco horas Brock acompanhou-a ao elevador e levou-lhe a pasta.
- Eu vou chamar-lhe um txi e depois volto - disse com naturalidade.
- No tem mais nada que fazer seno ajudar velhinhos a atravessar a rua? - gracejou ela.
Porm, naquela tarde, tinham-se tornado amigos, e dava-se conta de que nunca mais esqueceria
isso. No sabia o que fizera para merecer aquela amizade, mas impressionara-a mhuito.
- O Brock deve ter sido escuteiro.
214
- Por acaso, fui. No havia mais nada que fazer no Illiis. Alm disso, sempre tive um fraco por
velhinhas.
-  o que parece - respondeu Alex, sorrindo. Sentia-se mil anos mais velha, naquele momento, mas
Brock achava-a formidvel.
Brock levou cinco minutos a arranjar um txi e disse a Alex que esperasse l dentro. Ela ia a
ripostar mas ele afastou-se e foi muito firme nas suas instrues. J pagara o txi para que ningum
pudesse apanh-lo e depois foi l dentro busc-la.
- Est tudo pronto.
Meteu-a dentro do txi e disse-lhe adeus. Alex ainda estava admirada com tudo o que ele fizera por
ela. Perguntou a si prpria como poderia agradecer-lhe. E, quando chegou a casa e viu Annabelle,
sentiu-se um farrapo. Gostaria de ter tomado um banho quente com ela, mas Annabelle ainda no
vira a cicatriz e Alex no tencionava mostrar-lha. Assim, tomou um banho sozinha, na sua casa de
banho, com a porta fechada  chave, e foijantar com Annabelle; no comeu nada. Disse-lhe que
comeria mais tarde, com o pap. Sam chegou s sete horas, um pouco antes de Annabelle ir para a
cama, e leu-lhe uma histria. Em seguida, ele e Alex sentaram-se a jantar o que Carmen lhes
deixara. Alex, porm, mal tocou na comida. Apesar de fazer um esforo para comer, no conseguiu.
- As coisas correram melhor hoje? - perguntou ele, com a maior solicitude de que foi capaz, embora
Alex tivesse a sensao ntida de que ele no queria falar naquilo.
- Estive bem - respondeu ela, eliminando por completo o relato dos sessenta minutos que passara
deitada no cho da casa de banho do seu gabinete e a meia hora que passara deitada no sof, com
Brock a pr-lhe gelo na testa. - Tenho uma srie de casos novos. - Era o que ele queria ouvir,
mesmo que fosse apenas uma parte da histria.
- Tambm ns - disse ele, sorrindo e tentando esquecer a discusso da noite anterior e todas as
coisas desagradveis que tinham dito um ao outro. - Temos uma quantidade enorme de novos
clientes, graas ao Simon.
- No te parece que h a vigarice, pois no, Sam?
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perguntou ela, desconfiada. Tantos clientes novos daquela
dimenso deixavam-na um pouco nervosa.
- Deixa de ver problemas em tudo. No assumas sempre o papel da advogada - disse ele, num tom
de repreen      so no muito agradvel.
- Deformao profissional - concluiu Alex com um
sorriso dbil, sentindo-se outra vez nauseada s com o cheiro do jantar.
Em seguida, arrumou a cozinha sozinha; porm, nessa
altura o pouco que comera voltou a importun-la. Contorceu-se de novo no cho da casa de banho,
com uns vmitos
horrveis, e desta vez no tinha Brock Stevens a seu lado
com uma almofada e uma pedra de gelo.
- O que tens? - perguntou Sam finalmente, quando
veio v-la. Tinha de admitir que ela estava com um aspecto
horrvel. - Talvez isso no seja s da quimioterapia. Talvez tenhas apendicite ou outra coisa
qualquer.
Tinha dificuldade em acreditar que a quimioterapia provocasse aquela reaco.
-  a quimioterapia - disse Alex, com uma voz
que parecia sair de O Exorcista e desatando a vomitar outra vez.
Sam saiu, incapaz de assistir quilo.
Pouco depois, Alex conseguiu chegar  cama e deixou-se
cair, exausta, enquanto Sam olhava para ela, aborrecido.
- Eu sei que isto no  simptico da minha parte,
mas porque  que tu te sentiste bem no emprego durante todo
o dia e tens nuseas assim que me vs? Trata-se de um perodo de compreenso ou eu produzo esse
efeito em ti? - perguntou ele, sem saber o que ela passara durante todo o dia;
ela no queria assumir que lhe mentira acerca do que se passara no escritrio.
- Que graa!
- Achas que ests a reagir emocionalmente a isto ou
s alrgica a esse medicamento?
Sam no conseguia entender nem acreditar. Nunca
vira ningum a vomitar com aquela violncia nem com aquela
frequncia.
- Acredita que  da quimioterapia - insistiu Alex.
Tenho ali um papel que diz o que h a esperar do tratamento. Queres l-lo?
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- No - respondeu ele, honestamente. - Basta-me a tua palavra. - E, depois, como se tentasse ainda
encontrar a explicao para aquilo, acrescentou: - Tu nunca ficaste assim quando estavas grvida.
- No tinha um cancro nem estava a fazer quimioterapia nessa altura - respondeu ela secamente,
tentando ainda recompor-se. - Talvez haja uma diferena.
- Eu penso que isso  psicolgico. Acho que devias telefonar ao teu mdico.
-J telefonei. E ela disse que isto  desagradvel mas  normal.
- No me parece normal.
Sam no queria compreender. Negava completamente a verdade.
Por fim, foram dormir. Quando Alex acordou na manh
seguinte, voltou a ter nuseas mas no vomitou. Ambos foram para o emprego, como de costume, e
ela levou Anna          belle  escola, o que a deixou mais bem-disposta. Qualquer
pequeno passo para a normalidade constitua de repente uma
vitria, e Alex conseguiu passar a manh inteira a trabalhar,
sem se sentr enjoada ou perturbada.
S de tarde, quando estava outra vez a trabalhar com
Brock,  que a sanduche de peru lhe deu a volta ao estmago e a obrigou a contorcer-se na casa de
banho, como se estivesse a morrer. Desta vez, Brock no hesitou e entrou, e
Alex ficou admirada ao aperceber-se de que ele lhe segurava na cabea e nos ombros enquanto ela
vomitava. Alex no se importou. De facto, era menos assustador no estar s e t-lo a seu lado.
Tinha vergonha de estar naquele estado;
quando se apoiou nele, fitou-o sem perceber por que razo
 ele fazia aquilo.
- Devia ter sido mdico... - disse ela, com um sorriso.
- Odeio ver sangue - confessou ele.
- Mas no se importa de ver vomitar? O que se passa consigo? Gosta de mulheres que vomitam?
- Adoro-as - disse ele, soltando uma gargalhada. Acabei assim uma srie de namoros no liceu e na
faculdade. Sou muito bom nisto. Mas parece que as coisas so um pouco mais complicadas em
Nova Iorque, ou talvez no, hein?
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-  doido! - Alex ainda se sentia demasiado fraca para se mexer. Estavam ambos sentados no cho
outra vez, e ela estava encostada a ele. - Mas estou a comear a gostar de si.
Era como se fossem casados. No havia embarao, apenas a necessidade dela e o desejo dele de
satisfaz-la. Por instantes, Alex perguntou a si prpria se Deus lhe enviara precisamente o amigo
certo no momento certo.
Depois, Brock pareceu-lhe mais srio, quando voltou a falar.
- A minha irm passou por isto.
Pareceu-lhe muito triste ao dizer aquilo.
- Fez quimioterapia?
Alex ficou admirada, como se ningum tivesse passado por aquilo antes dela.
- Sim. Teve cancro da mama, como a Alex. Esteve prestes a desistir do tratamento vrias vezes. Eu
andava no primeiro ano da faculdade e ia a casa para tomar conta dela. Ela era dez anos mais velha
do que eu.
- Era? - perguntou Alex, nervosa.
Brock sorriu.
-  - respondeu. - Conseguiu vencer a doena. E a Alex tambm vai conseguir. Mas tem de fazer a
quimioterapia, por muito mal que se sinta, ou por muito terrvel que ela seja, ou por muito que a
deteste. Tem de faz-la.
- Eu sei. Assusta-me imenso. Seis meses parecem uma eternidade.
- No so - contraps ele, parecendo mais velho do que era na realidade. - A morte  que  eterna.
- Eu sei. A srio.
- No pode encarar isso de nimo leve, Alex. Tem de tomar os comprimidos, por muito enjoada que
eles a deixem e tem de ir aos tratamentos. Eu vou consigo, se quiser. Tambm fui com ela. Ela
detestava-os e tinha medo das agulhas.
- Eu tambm no posso afirmar que gosto, mas no pareceu assim to mau at eu comear a vomitar
as entranhas. Mas, mais uma vez,  uma das formas de conhecer os amigos.
Alex sorriu e ele retribuiu. No trazia culos e tinha a
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gravata de lado. Tinha um ar gaiato mas, ao mesmo tempo, o seu olhar indicava que era muito mais
sensato. Com trinta e dois anos, vira muito mais do que Alex imaginara. Era maduro, tinha bom
corao e gostava muito dela.
- Vamos voltar ao trabalho? - perguntou Alex pouco depois, no momento em que Liz entrou para
deixar o correio em cima da secretria e ficando admirada ao v-los sair da casa de banho.
- Ol. Estvamos numa reunio - disse Alex com naturalidade. Liz riu-se. No fazia ideia do que
eles estariam ali a fazer, mas achou graa.
- As pessoas vo pensar que estamos a injectar-nos ou a consumir cocana, se continuarmos
assim, ou a fazer sexo na casa de banho - disse Alex, rindo-se.
- H boatos piores do que esses.
Brock deu uma gargalhada natural e sentou-se do outro lado da secretria, diante dela. O aspecto de
Alex melhorara.
- Sim. Tambm acho.
H quase dois meses que no fazia amor com Sam e era provvel que no fizesse to cedo, pelo
modo como as coisas prosseguiam entre eles. Contudo, o sexo no parecia ter muita importncia. A
sobrevivncia  que era essencial. Era a nica coisa que importava naquele momento. Trabalharam
juntos durante toda a tarde e, no fim do dia, ele foi outra vez chamar-lhe um txi, apesar de Alex
garantir que se sentia bem. Na sexta-feira, conseguiu ir levar Annabelle s aulas de dana.
Curiosamente, fazia tudo aquilo de que precisava. E, se estava a sentir-se menos bem, tambm no
estava totalmente fora de combate. Comeava a pensar que talvez. talvez sobrevivesse. Se o seu
casamento sobreviveria ou no, isso era outra coisa. Na sua opinio, era muito menos provvel.
CAPTULO 13
Na segunda-feira seguinte, a Dr. Webber ficou muito satisfeita com os progressos de Alex.
- A senhora est a reagir bem - disse ela, em tom de cumprimento.
A contagem de glbulos estava boa. E conseguiram fazer o tratamento por via intravenosa,
precedido de dextrose e de gua, o que foi um pouco menos traumtico para Alex, agora que sabia o
que tinha a esperar do tratamento.
Dessa vez, sentiu-se igualmente enjoada, mas j no foi apanhada de surpresa. E Brock continuou a
tratar dela, e Lis a vigi-la como um anjo-da-guarda.
- Comeo a sentir-me culpada em relao a isto - confessou ela a Brock, quando estavam de novo
sentados no cho da casa de banho, no dia seguinte ao segundo tratamento.
- Porqu? - perguntou ele, admirado.
- Porque no  o Brock que est a fazer quimioterapia, sou eu. Porque h-de passar por tudo isto?
No  casado comigo. Esse pesadelo  meu, no  seu. No tem obrigao nenhuma de fazer isto.
Alex no percebia por que razo  que ele se mostrava to atencioso para com ela. No havia
motivo para isso, embora fosse uma ajuda. Ele era a nica pessoa que estava do seu lado naquele
momento.
- Porque no havemos de partilhar? - disse ele com simplicidade. - Porque no deixa que mais
algum a aju, Isso podia acontecer a qualquer um de ns. Um raio podia atingir-nos a qualquer
momento. Ningum est livre disso. E, se eu estou aqui para a ajudar, talvez um dia algum esteja
junto de mim, se me acontecer o mesmo.
- Eu estarei - respondeu Alex, com ternura. - Eu estarei junto de si, Brock. Nunca esquecerei isto.
E ambos sabiam que ela estava a ser sincera.
- Estou  a trabalhar para o aumento de ordenado - troou ele, soltando uma gargalhada e ajudando-
a a levantar-se.
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Estavam ali h uma hora. Fora uma manh difcil.
- Logo vi que tinha uma segunda inteno - retorquiu
Alex, sorridente.
Naquela semana, o tratamento cansara-a muito mais. E o
Dia de Aco de Graas era da a dois dias. Cansava-a o simples facto de pensar que tinha de
arranjar o peru.
- E porque no fica com o meu lugar? - perguntou
Alex, gracejando, quando ambos se sentaram de novo a trabalhar. - O Brock seria um ptimo
substituto.
 - Prefiro trabalhar consigo.
Ao dizer isto, Brock olhou para ela e, por instantes, Alex sentiu algo diferente entre eles. No sabia
o que significava, nem se devia dar-lhe importncia. Virou a cara para o lado, ligeiramente
embaraada. Era to aberta com ele, to livre, e perguntou
a si prpria se no deveria s-lo. Talvez ambos estivessem a aproximar-se demasiado. Afinal, ela era
uma mulher casada.
Mas ele era um garoto, como Alex se lembrou, visto que tinha menos dez anos do que ela.
- Eu tambm gosto de trabalhar consigo, Brock - salientou ela, num tom afvel, tratando-o de novo
como se
fosse um filho mais novo, e depois riu-se de si prpria, uma das coisas que Brock adorava nela. -
Quando no estou a
vomitar para cima de si.
- Tenho o cuidado de ficar atrs de si - disse ele, de tal maneira que s quem tivesse passado pelo
mesmo poderia
entender.
- Voc  horrvel.
No final da tarde, falaram dos planos que tinham para o
Dia de Aco de Graas. Ele ia para casa de uns amigos no
Connecticut, e ela ficava em casa com Annabelle e Sam.
Alex confessou-lhe que no estava entusiasmada em relao
aos cozinhados.
- porque no os faz ele? Ele sabe cozinhar?
- Mais ou menos, mas a festa de Aco de Graas  a
minha especialidade. - E depois admitiu algo que no dissera a mais ningum. -  como se eu
tivesse de provar-lhe
lguma coisa. Ele anda muito irritado com todo este caso.
s vezes, penso que ele me odeia por isto. Preciso de mostrar-lhe que ainda sou capaz de fazer tudo
o que era costume, que nada mudou.
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Foram palavras patticas; Brock, porm, mostrou compreend-las perfeitamente. Melhor do que
Sam.
-  apenas uma mudana temporria. Ele no conseguiu perceber isso? Mesmo que a Alex no seja
capaz neste momento, ser mais tarde.
- Ele ainda est demasiado zangado para perceber isso.
- Isso  duro para si.
- Sim, nem me fale nisso.
- E como est a sua filha a reagir?
- Bem. Fica preocupada quando estou enjoada e eu tento afastar-me dela o mais possvel. Nada
disto  fcil.
- A Alex precisa de bons amigos que a ajudem nesta fase - disse ele com afecto.
- Tenho a sorte de o ter a si - agradeceu ela, sorrindo; Na vspera do Dia de Aco de Graas, Alex
deu-lhe um abrao e disse-lhe que lhe estava grata. Desceram juntos por instantes, Alex sentiu-se
triste ao separar-se dele. Conseguia ser to franca e extrovertida com o Brock! Enquanto vomitava a
seu lado, ganhara confiana nele e conseguira falar-lhe dos seus sentimentos. De repente, quatro
dias de folga, sem falar com ele, faziam-na sentir-se muito s.
E, quando chegou a casa, viu o peru no frigorfico e pensou no trabalho todo que teria no dia
seguinte, a fazer recheio e batata doce, legumes e pur de batata. E Sam gostava sempre de tarte de
abbora e de frutas, e Annabelle gostava de tarte de ma. Naquele ano, Alex prometera fazer pur
de castanhas e molho caseiro de uvas. Sentia-se doente s de pensar nisso, mas sabia que naquele
ano, mais do que em qualquer outro, tinha de ser. Era como se a sua relao com Sam dependesse
disso e do que ela pudesse provar que era ainda capaz de fazer.
Sam tambm tivera despedidas afectuosas no escritrio.
Naquela noite, Daphne iria para casa de uns amigos em Washington, e ele sentiu-se s quando foi
lev-la ao comboio e a viu partir. Estava cada vez mais ligado a ela e sentia-se cada vez mais infeliz
quando no a via. Assustava-o pensar que ficaria sozinho com Alex durante quatro dias, mas
reconheceu que talvez lhes fizesse bem. Assim que chegou a casa naquela noite, percebeu que no
seria fcil e que as coisas no eram como dantes.
222
Alex estava deitada na cama, com um saco de gelo na cabea, e acabara de vomitar, segundo
Annabelle lhe disse.
- A mam est doente - informou ela inocentemente. Ainda vamos ter peru?
- Claro que vamos - garantiu ele.
Meteu-a na cama e depois voltou ao quarto e olhou para a mulher, que estava deitada.
- Amanh queres ir a um restaurante e esquecer isto? perguntou, num tom de acusao.
- No sejas parvo - respondeu Alex, desejsa de esquecer tudo mas sabendo que no era possvel. -
Eu vou estar bem.
- No pareces. - Sam sentia-se sempre dividido, sem saber se ela estava a exagerar e se aquilo era
uma questo psicolgica, ou se deveria ter pena dela. Era difcil saber o que pensar. - Posso trazer-te
alguma coisa? Ginger ale? Cola? Alguma coisa que te acalme o estmago?
Alx estava farta de beber garrafas inteiras de Maalox, mas nada a ajudava.
Pouco depois, levantou-se outra vez e foi fazer o que tinha a fazer na cozinha. Ps a mesa para o dia
seguinte e reparou que cada passo que dava era uma agonia. Sentia-se esmagada pelo cansao.
Doa-lhe o corpo todo e perguntou a si prpria se no estaria a ficar com gripe, ou a sofrer mais
efeitos secundrios da quimioterapia. A bexiga tambm a in comodara muito naquela noite e,
quando foi para a cama, Sam j estava a dormir e ela ficou desolada. Ele prometera ajud-la na
manh seguinte.
Ps o despertador para as seis e um quarto, a fim de meter o peru no forno. Era grande e levava
muito tempo a cozer. Em geral, o almoo do Dia de Aco de Graas era ao meio-dia. Porm,
quando se levantou, Alex estava demasiado enjoada para se mexer, e passou uma hora a vomitar na
casa de banho, o mais silenciosamente possvel.
Quando Annabelle se levantou, ela estava j a pr o peru no forno e, pouco depois, Sam foi ter com
elas. Annabelle queria ir ao cortejo de Aco de Graas do Macy, e Alex no tinha coragem de pedir
ao marido que no fosse e que ficasse a ajud-la.
223
Saram os dois por volta das nove horas, e Alex desenvencilhou-se o melhor que pde na cozinha.
Fizera o recheio, os legumes e preparava-se para comear a fazer o pur de batata. Felizmente,
tinham comprado as tartes feitas, mas ainda no tratara das castanhas.
Assim que eles saram, Alex teve um acesso de vmitos que a deixou sem flego. Assustou-se tanto
que esteve prestes a ligar para o 115; de repente, desejou que Brock estivesse ali para a ajudar. Foi
buscar um saco de gelo e meteu-se no duche, a vomitar, pensando que isso a ajudaria. s onze e
meia, quando voltaram, ainda estava de camisa de noite e com um aspecto horrvel.
- No te vestiste?
Sam parecia escandalizado ao v-la. Nem sequer se penteara, o que significava que nem sequer se
incomodara a fazer um esforo. Mas o peru cheirava bem e estava tudo no forno ou ao lume.
- A que horas comemos? - perguntou Sam, quando Annabelle foi para o quarto brincar e ele ligou a
televiso para ver futebol.
- No antes da uma. Atrasei- me com o peru. E fora um milagre, considerando que estivera to mal
de manh.
- Precisas de ajuda? - perguntou ele com naturalidade,
recostando-se e levantando os ps.
Era um pouco trde, e Alex no disse nada. Conseguiu fazer tudo, o que s a surpreendera. Sam
nem imaginara a luta que ela travara.
Foi despir a camisa de noite, vestiu um vestido branco e
penteou-se. No teve tempo nem se sentia suficientemente bem para se maquilhar. Estava quase da
cor do vestido quando finalmente se sentaram  mesa. E Sam olhou para ela, enquanto cortava a
carne, irritado por ela no ter feito um esforo para se maquilhar. Queria mostrar-se doente. Queria
que tivessem pena dela? Pr um pouco de blush teria disfarado.
Alex, contudo, nem sabia como tinha mau aspecto embora se sentisse mal. Era como se o seu corpo
estivesse coberto de chumbo, e mal se podia mexer quando lhes serviu o almoo.
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Sam disse as mesmas oraes de sempre e Annabelle contou  me como fora o cortejo. Cinco
minutos depois de comearem a comer, Alex teve de levantar-se da mesa a correr. O trabalho, o
calor da cozinha e os cheiros tinham sido demasiado para ela. No conseguia. Fizera tudo o que
pudera para no vomitar, mas no conseguia.
- Pelo amor de Deus! - vociferou Sam, desesperado por ela no conseguir manter uma aparncia de
normalidade diante de Annabelle e dele prprio. - ao menos no podes fazer um esforo para estar
aqui sentada?
- No consigo - respondeu Alex, entre os vmitos e as lgrimas. - No consigo parar.
- Faz um esforo, valha-me Deus! Ela merece um Dia de Aco de Graas melhor do que este.
Todos ns merecemos.
- Cala-te! - gritou Alex, desatando a soluar e gritando to alto que ambos sabiam que Annabelle
podia ouvi-los. No me faas uma coisa destas, patife! No sou capaz de me conter!
- O diabo  que no s capaz. Andas por a todo o dia, de camisa de noite, com essa maldita cara
branca como a cal, a assustar toda a gente. J nem sequer tentas, excepto quando vais para o
emprego. Mas, para ns, deixas-te andar por a a vomitar, sempre que te convm.
- Vai-te lixar! - gemeu Alex, e depois vomitou outra vez.
Talvez ele tivesse razo. Talvez fosse uma reaco emocional. Talvez ela no conseguisse castig-lo
mais. No entanto, fosse o que fosse, no conseguia acabar com aquilo. No voltou para a mesa
seno no momento de servir a sobremesa, e a pobre Annabelle estava triste e silenciosa quando viu
a me.
- Sentes-te melhor, mam? - perguntou ela com a sua vozinha frgil e os olhos muito abertos e
desolados. - Tenho pena que estejas doente.
Talvez Sam tivesse razo. Talvez todos se sentissem responsveis. Talvez ela estivesse a fazer a
infelicidade de todos. Talvez fosse prefervel morrer. J no sabia o que pensar, nem o que sucedera
a Sam. Era um estranho. e tudo o que significara para ela, todo o amor e a ternura que ele lhe
dedicara tinham desaparecido por completo.
225
- Estou bem, querida. Agora sinto-me melhor - disse ela a Annabelle, ignorando Sam.
Depois do almoo, Annabelle deitou-se no sof com ela e Alex contou-lhe histrias. Deixou que
fosse Sam a lavar a loua tda, e ele estava furioso quando acabou. Annabelle fora ao quarto buscar
um vdeo, quando ele saiu da cozinha e viu Alex.
- Obrigado por este ptimo Dia de Aco de Graas - disse ele, sarcstico. - Lembra-me para eu ir a
outro lado no ano que vem.
-  vontade.
Ele no lhe dirigira uma palavra de agradecimento quer pelo trabalho quer pelo esforo que ela
fizera.
- Tinhas de lhe estragar o dia, no tinhas? No podias sentar-te aqui durante uma hora, s para ela
saber como t estavas doente.
- Desde quando  que s um estupor, Sam? - perguntou Alex, olhando para ele. - Nunca me apercebi
de que fosses assim. Acho que andava demasiado atarefada.
- Talvez andssemos ambos - respondeu ele, entre dentes, e foi para o escritrio ver futebol.
J tivera outros dias de Aco de Graas como aquele. H anos, quando a me estava demasiado
doente para sair do quarto e fazer o peru. O pai, em geral, embriagava-se. E, quando foi para a
escola, nem se incomodava a vir a casa no Dia de Aco de Graas. Os feriados eram muito
importantes para ele, e tambm era importante que Alex fizesse um esforo. Ela sempre o fizera.
Mas, agora, era como a me dele, e isso s contribua para que ele a odiasse.
 tarde, depois do desafio de futebol, Sam foi sair sozinho. Deu um grande passeio a p, pelo
parque; quando voltou, comeram os restos, e Alex parecia mais bem-disposta. Como lhes estragara
a refeio de Aco de Graas, recuperara as foras e sentia-se melhor. Ou pelo menos foi o que ele
deduziu.
Annabelle continuava abatida e perguntara vrias vezes  me porque  que ela e o pap estavam
sempre zangados e a gritar um com o outro. Alex respondeu-lhe que isso no significava nada, e
que os adultos s vezes eram assim. Annabelle, porm, continuava apreensiva.
226
Naquela noite, Sam  que foi deitar Annabelle e fez
questo de dizer a Alex que talvez ela se sentisse demasiado
doente para isso. ao lembrar-se do que Annabelle lhe dissera sobre a discusso, Alex no disse nada
a Sam.
Foi para o quarto, depois de dar as boas-noites a Annabelle, e deitou-se na cama, a pensar na
infelicidade da sua vida. Como a situao se degradara! Era difcil acreditar que voltaria a melhorar.
E surpreendeu Sam com o que disse quando ele voltou.
Alex fitou-o com um ar de resignao. Talvez ela fosse obrigada a aceitar que as coisas nunca mais
seriam as mesmas e
que tudo acabara.
- No s obrigado a estar aqui, bem sabes. No fao de
ti um refm.
- O que queres dizer com isso?
Sam parecia espantado; de repente, Alex perguntou a si
prpria se ele no estaria  espera disso. Talvez ele no tivesse coragem de lhe dizer o que queria
fazer e esperasse que fosse ela a terminar. Nos ltimos tempos, parecia procurar
desculpas para odi-la.
- Significa que pareces sentir-te muito infeliz e que no
queres estar aqui. Sai quando quiseres, Sam. A porta est aberta.
Eram as palavras mais duras que ela lhe dirigira; no entanto, Alex precisava de diz-las. Depois de
tudo o que passara nos ltimos dois meses, nada era to difcil como fora nos ltimos tempos.
Estva a lutar pela sua vida. E pelo seu casamento.
- Ests a dizer-me que saia de casa? - perguntou Sam,         com esperana de que fosse verdade,
pensou Alex.
- No, no estou. Estou a dizer-te que te amo e que quero continuar casada contigo. Mas, se no
houver reciprocidade, no precisas de continuar casado comigo. Podes sair quando quiseres.
- Porque ests a dizer uma coisa dessas? - perguntou ele, desconfiado.
O que sabia ela? O que lhe tinham dito? Teria lido qualquer coisa na sua mente? Ou dera ouvidos a
mexericos acercade Daphne?
227
-Digo isto porque comeo a sentir que me odeias.
- Eu no te odeio - respondeu ele tristemente. Depois, olhou para ela  cautela, receoso de falar de
mais, mas sabia que tinha de ser honesto. - J nem sei o que sinto. Estou furioso com aquilo que
est a acontecer-nos.  como se ti vssemos sido atingidos por um raio, h dois meses, e nada
voltasse a ser o mesmo. - Eram as mesmas palavras que Brock pronunciara naquela semana, acerca
da irm. Era o tal raio. - Estou furioso, estou assustado, estou triste. J no me pareces a mesma
pessoa. Nem eu. E no consigo suportar que estejamos sempre a falar de doenas e de tratamentos.
Mal tinham falado nisso; porm a realidade era demasiado forte para ele, e Alex sabia-o.
- Creio que te fao lembrar a tua me neste momento e isso  de mais para ti - comentou Alex, com
franqueza. Talvez tenhas medo que eu morra e te abandone, tal como ela fez. - Alex tinha lgrimas
nos olhos quando pronunciou aquelas palavras, mas elas no o fizeram aproximar-se. Tambm eu
tenho medo. Mas estou a fazer tudo o que posso para impedir que isso acontea.
- Talvez tenhas razo. Talvez isto seja muito mais complicado do que parece. Mas creio que  muito
mais simples. Acho que ambos mudmos, que alguma coisa se passou entre ns.
- E agora?
- Ainda no pensei nisso.
- Avisa-me quando o fizeres. Queres ir a um terapeuta comigo? - perguntou ela. - H muitas pessoas
na nossa situao que vo consultar um terapeuta, e o nosso casamento no  o primeiro a
descarrilar por um dos parceiros ter um cancro.
- Meu Deus, porque hs-de atribuir tudo a esse facto? O simples facto de a ouvir pronunciar aquela
palavra enervava-o. - O que tem uma coisa a ver com a outra?
- Foi por a que tudo comeou, Sam. Dantes, tudo corria bem.
- Talvez no. Talvez isto s tenha revelado uma crise. Talvez tenha sido o resultado de trs anos de
sexo com dias marcados e com hormonas, a tentarmos ter outro filho.
228
Aquilo nunca parecera incomod-lo; porm, tudo era possvel.
- Precisas de aconselhamento? - perguntou ela outra
vez.
Sam abanou a cabea.
- No, no preciso. - Tudo o que ele queria naquele
momento era estar junto de Daphne. Ela era a sua cura, o
seu escape, a sua liberdade. - Quero resolver isto sozinho.
- No me parece que consigas, Sam. No me parece
que nenhum de ns consiga. Vais sair de casa? - perguntou
Alex, nervosa, com medo que a resposta fosse afirmativa,
mas sem vislumbrar outra.
- Creio que no devemos fazer uma coisa dessas  Annabelle, em especial antes do Natal e do
aniversrio dela.
Alex teve vontade de gritar: E eu? mas no o fez.
- O que eu quero  mais liberdade. Creio que devemos
seguir os nossos prprios caminhos, sem darmos explicaes um ao outro. Voltaremos a falar disto
daqui a dois meses, talvez depois do aniversrio de Annabelle.
- O que lhe diremos?
Alex sentia-se desfeita; contudo, tentou no o mostrar.
- Isso  contigo. Desde que vivamos ambos aqui, duvido que ela repare.
 No estejas to certo disso. Ela hoje perguntou-me
porque passamos agora o tempo a gritar um com o outro:
Ela sabe, Sam. Ela no  estpida.
- Nesse caso, cabe-nos comportarmo-nos melhor na
presena dela - declarou ele, num tom cheio de reprovao.
Alex teve vontade de bater-lhe. Ele j no era o homem
que ela amara e com quem se casara. No entanto, por Annabelle, teria de esforar-se para que o
novo pacto funcionasse.
- Creio que isto vai ser mais difcil do que julgas - afirmou Alex, olhando para ele do outro lado do
quarto.
Depois de cerca de dezassete anos de casamento, seria impossvel viverem como dois companheiros
de quarto.
- Isso depende de ns. Alm disso, tenho muitas viagens a fazer nos prximos meses.
- Os teus negcios parece estarem a sofrer uma mudana radical - comentou Alex, tentando no
pensar na vida
pessoal de ambos, agora destroada. - Porqu?
229
- O Simon tem-nos de facto aberto as portas.
- Continuo a pensar que devias estar mais alerta em relao a ele, Sam. Talvez os meus instintos
estejam certos desde o princpio.
- Acho que s paranica e no vou discutir isso contigo.
- Compreendo. O que fazemos agora? Damos os bons-dias e as boas-noites no corredor? Voltamos a
jantar juntos?
- Se isso for compatvel com os nossos horrios. No percebo por que razo  que as coisas tero de
mudar tanto, pelo menos no que diz respeito a Annabelle. Mas eu vou mudar- me para o quarto de
hspedes.
- E como vais explicar-lhe isso? - perguntou ela, interessada.
Parecia que Sam tinha tudo preparado; Alex perguntou a si prpria se ele j planeara aquilo e ela se
limitara a ir ao encontro dos seus desejos. J no confiava nele, tal como no confiava em Simon, o
novo scio. Fora ela que lhe preparara o esboo do alargamento da sociedade, e no gostava de
Simon nem das coisas que ele pedira.
- Contigo to doente, tenho a certeza de que ela vai compreender que eu no quero incomodar-te -
disse Sam, sarcstico, como se Alex estivesse a simular a doena.
- Isso  decente da tua parte - retorquiu Alex com frieza, escondendo toda a mgoa e a desiluso que
sentia. Com certeza que a situao vai ser interessante.
- Creio que  a nica soluo possvel, neste momento. Trata-se de um bom compromisso.
- Entre quem? Abandonas-me porque eu perdi um seio e deitas-me para a valeta s porque ests
cansado de mim? Que compromisso estamos ns a fazer? Que esforo tens feito desde que tudo isto
aconteceu?
Alex estava furiosa com ele, magoada e desolada por tudo o que acontecera. Ele tinha razo. Era
como se tivessem sido atingidos por um raio, e ela sabia que ficariam marcados para sempre.
- Lamento que encares a situao dessa maneira. Mas, pelo menos, estamos a tentar, a bem de
Annabelle.
- Ns no estamos a tentar - corrigiu Alex. - Estamos a fingir. Estamos a representar para ela. Quem
julgas tu que enganas, Sam? Este casamento acabou.
230
- No estou preparado para me divorciar de ti - anunciou Sam, com um ar condescendente, e mais
uma vez Alex teve vontade de se levantar e de lhe bater.
- Isso  nobre da tua parte, Sam. Porque no? Achas que parecia mal? A pobre da Alex perdeu um
seio e tu no consegues abandon-la e divorciar- te?  muito melhor esperar uns meses. De facto,
tecnicamente, bem podias esperar pelos seis meses da quimioterapia, e depois toda a gente pensaria
que estavas agarrado a mim. Pelo amor de Deus, Sam, metes nojo. s o maior impostor do mundo e
eu estou-me nas tintas para as pessoas de quem te escondes. Eu sei como . E tu tambm. E acabou-
se. Faz o que te apetecer. O nosso casamento acabou.
- Como podes estar to certa disso? Quem me dera ter essa certeza - retorquiu ele, falando com
franqueza.
Queria ser livre, mas havia uma parte dele que no queria deix-la. Queria todas as opes em
aberto, mas sem responsabilidades. Queria tudo. Daphne e a hiptese de voltar para Alex, talvez da
a um ano. No queria desistir de Alex para sempre.
- Convenceste-me - disse ela, respondendo  sua pergunta. - Tens sido um autntico patife para mim
desde que eu fiz a mastectomia. A nica desculpa que tenho conseguido arranjar para justificar o teu
comportamento  dizer a mim prpria que no conseguiste controlar a situao. Mas sabes uma
coisa? Estou a ficar velha, Sam. Estou a ficar cansada de arranjar desculpas: Ele est cansado. Ele
est desorientado. Isto  duro para ele. Isto faz-lhe lembrar a me. Ele no consegue. Isto 
demasiado ameaador para ele. Tu s uma desculpa miservel para um ser humano.
Havia lgrimas nos olhos de ambos.
- Desculpa, Alex.
Sam voltou-lhe as costas e Alex comeou a chorar baixinho. Que maus momentos tinham passado
desde a descoberta da sombra na mamografia! No era uma situao justa, mas tinha de ser
resolvida.
- Desculpa - disse ele outra vez, olhando para ela mas sem fazer qualquer movimento para se
aproximar, para a consolar, pois no conseguia.
231
Saiu do quarto e Alex ouviu- o no escritrio. Meia hora depois, sentiu a porta da rua a fechar-se.
Sam nunca mais lhe dirigiu a palavra, saiu e andou a p durante horas e horas. Foi at ao rio, depois
dirigiu-se lentamente para sul e por fim deu consigo na Rua Cinquenta e Trs. Sabia o que queria e
perguntou a si prprio se destruiria o seu casamento s para o ter. Naquele momento, era demasiado
tarde para pensar nisso. Fizera o que tinha a fazer ou o que queria. Era demasiado tarde para voltar
atrs, e s lamentava ter sido obrigado a magoar Alex. Mas ela tambm o magoara, apesar de no
ter culpa. Curiosamente, era como se ela o tivesse trado.
Parou junto de uma cabina telefnica na Segunda Avenida, e pensou que aquilo no fazia sentido.
Daphne fora passar o Dia de Aco de Graas a Washington. Mas ele queria telefonar-lhe, s para
ouvir- lhe a voz no atendedor, queria deixar-lhe uma mensagem e dizer-lhe que a amava.
Ela respondeu ao segundo toque e, por instantes, Sam, admirado, nem conseguiu responder.
- Daphne?
- Sim. - A voz dela era sensual e sonolenta. Passava da meia-noite e ela estava na cama. - Quem
fala?
- Sou eu. O que ests a fazer aqui? Julguei que tinhas ido passar o Dia de Aco de Graas a
Washington.
Ela riu-se, e Sam imaginou-a a espreguiar-se ao mesmo tempo. Estava a gelar na cabina.
- E fui. Empanturrmo-nos ao almoo, depois fomos patinar no gelo e eu voltei para casa  noite.
Eles amanh iam todos para stios diferentes. No seria propriamente um fim-de- semana. Onde
ests?
Sam nunca lhe telefonara  noite desde que Alex comeara a fazer quimioterapia, e Daphne s lhe
telefonava de vez em quando. Afinal, ele era casado e ela era muito cautelosa: Era demasiado
esperta para agir de outro modo e respeitava a situao dele.
De repente, Sam comeou a rir-se baixinho ao telefone.
- Tenho o rabo gelado e estou numa cabina entre a Cinquenta e Trs e a Cinquenta e Dois. Estou a
andar h horas e apeteceu-me telefonar-te:
232
- Que diabo ests a a fazer? Porque no sobes pelo menos para tomares um ch?. Prometo que no
te mordo.
- Eu obrigo-te a isso. - Depois, muito vulnervel e
abatido, Sam acrescentou: - Tive saudades tuas.
- Tambm eu - disse ela em voz baixa, mais sensual
do que nunca. - Como foi o teu Dia de Aco de Graas?
- Bastante triste. No quero falar nisso. Ela estava
doente. Foi difcil para todos, sobretudo para a Annabelle. No sei. Tivemos uma longa conversa
esta noite. Depois conto-te.
Ao ouvi-lo, ela apercebeu-se de que qualquer coisa mudara. De repente, ele parecia-lhe mais livre e
muito mais aberto. Estava cansado e triste, mas no ansioso ou dividido.
- Sobe, antes que geles.
- Vou j.
Sam estava a menos de um quarteiro de distncia e desatou a correr at chegar  porta dela. De
repente, percebeu que era o nico stio onde queria estar. Era o nico stio onde queria estar desde
que a conhecera. Ela era to saudvel e jovem, to bela e to perfeita.
Tocou  campainha e ela abriu-lhe a porta. Sam galgou
os degraus como se fosse um adolescent, e, depois, parou ao v-la no limiar da porta. Os seus
cabelos negros voluptuosos caam-lhe sobre os ombros, escondendo um seio e desnudando o outro.
Vestia uma camisa de noite de algodo branco e delicado, com bordados, completamente
transparente. Todo o seu corpo se lhe revelou ali. Depois, sem uma palavra, Sam aproximou-se dela,
empurrou-a para dentro e fechou a porta.
O apartamento era acolhedor e estava aquecido. Sam
despiu-lhe a camisa de noite pela cabea, sem esperar mais tempo, afastou-lhe para trs os cabelos
sedosos e ficou a admir-la, em todo o seu esplendor. Os seios perfeitos, a cintura fina, as pernas
compridas e graciosas, e o ambiente requintado em que se encontravam.
- Oh, meu Deus.
Sam no disse mais nada. Havia apenas uma pequena luz
no quarto e ele deitou-a sobre o edredo de penas que trouxera de Inglaterra. Era bela, sensual,
experiente, para alm
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de todas as expectativas, e levou-o ao xtase vezes sem conta. Sam sentiu-se explodir dentro dela
meia dzia de vezes antes de chegar a manh. Fora a noite mais extraordinria da sua vida. Acendeu
a lareira e fez amor com ela ali mesmo em frente, e depois na cama e por fim na banheira. Tinham
feito amor antes do amanhecer; depois, e quando acordaram, ao meio- dia, ele no podia acreditar
que a desejava outra vez, e ainda foi capaz. Ela passou- lhe os lbios sedosos pelo estmago, at s
coxas, e depois para cima, entre as pernas, onde eles encontraram o que procuravam. E Sam
suplicou e, dessa vez, veio- se na boca dela com um furor trmulo.
- Oh, meu Deus. Daphne. Vais dar cabo de mim. murmurou ele, feliz. Mas que maneira esta de
morrer.
Abraou-a e ficou ali agarrado a ela, sem conseguir acreditar na sua sorte. Tinham esperado meses
por aquela situao, e ele no quisera vir ao encontro dela seno quando se libertara de Alex. Agora
sabia que estava livre, tinha de estar. No desejava outra mulher no mundo a no ser Daphne.
- Amo-te - sussurrou ele, quando ela se afastou para adormecer de novo nos seus braos, de costas,
as ndegas redondas e perfeitas coladas a Sam.
- Tambm eu te amo - respondeu ela, a sorrir. Valia a pena ter esperado por ele. Sempre tivera a
certeza de que ele viria. Ele agarrou-lhe os seios e sentiu-se feliz. E afastou-se, para dormir a seu
lado, tentando no pensar em Alex.

CAPTULO 14
Quanto mais no fosse por delicadeza, Sam telefonou a Alex na sexta- feira, ao fim da tarde, e
avisou-a que no passaria o resto do fim-de- semana em casa. No lhe disse onde estava, e ela no
fez perguntas. Prometeu que lhe telefonava, e depois falou com Annabelle e disse-lhe que sentia a
sua falta. Perguntou a si prprio se Alex saberia onde ele estava, ou porqu, mas afastou esses
pensamentos. Depois, foi ao Bloomingdale's com Daphne e comprou meia dzia de camisas, uns
pares de calas de ganga, umas calas de veludo, um casaco, pegas, roupa interior e uma camisola.
Em seguida, foram a um armazm e compraram uma lmina de barbear e todos os artigos de toilette
de que ele precisava. Sam no queria ir a casa naquele momento, no queria ver nem Alex nem
Annabelle. Queria estar completamente s com Daphne.
Naquela noite, fez o jantar para Daphne e ela fingiu que o ajudava, mas insistiu em andar a entrar e
a sair da cozinha, completamente nua. Por fim, ele ia queimando o jantar. Deixaram-no no
microndas e foram para a cama. E,  meia-noite, ela fez-lhe uma omoleta. Passaram a maior parte
do tempo a explorar o corpo e as preferncias um do outro. Conversaram at de madrugada, Sam
fez pipocas, viram filmes antigos, mas perderam a parte mais importante do argumento porque ele
fez de novo amor com ela e s retomaram o filme quando este estava quase a acabar.
Passaram mais uma noite extraordinria nos braos um do outro e, na manh de sbado, era como
se sempre tivessem sido amantes. Ele sabia que queria ficar com ela e com ela passar o resto da sua
vida. S tinha agora de saber como iria agir perante Alex.
- O que queres fazer hoje? - perguntou ele, quando ambos se espreguiavam, e a perspectiva de
passar mais um dia a fazer amor veio- lhe  ideia; porm, pensou que deviam pelo menos esforar-
se por fazer qualquer outra coisa.
- Sabes patinar no gelo? - perguntou Daphne, que
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parecia uma criana, muito bem dotada, sentada a seu lado na cama.
- Pertenci  equipa de hquei de Harvard - respondeu ele, orgulhoso.
- Vamos?
Era como recomear a viver. Ela era to jovem e to cheia de vida. No tinha responsabilidades
nem fardos. Foram ao lollman Memorial, em Central Park, e Sam descobriu que ela era uma ptima
patinadora. Danaram, rodopiaram e descreveram crculos  volta um do outro. Ela executou
impecavelmente saltos em parafuso, e ele ficou impressionado. Depois, levou-a a almoar ao
Tavern-on-th-Green, mas por volta das duas horas estavam na cama outra vez, como se nunca se
tivessem separado.
- O que vais fazer em relao ao emprego? - perguntou ele, quando estavam os dois deitados lado a
lado, depois de fazerem amor, s quatro e meia. - No sei se conseguirei estar separado de ti o
tempo suficiente para me levantar e ir para o trabalho.
J para no falar do facto de ter dito a Alex que ficaria
em casa durante os dois meses seguintes e que voltariam a falar da relao de ambos em Janeiro,
depois do aniversrio de Annabelle. Isso fora antes de fazer amor com Dapne. Agora tudo mudara
outra vez. Sam, porm, continuava a pensar que deveria respeitar o seu acordo.
J falara nisso a Daphne, na vspera, e ela conclura que se tratava de uma soluo muito razovel.
- Seria terrivelmente duro para a tua filha se desaparecesses de repente, em especial antes do Natal -
disse Dapne, compreensiva.
Sam gostava que ela encarasse a situao daquela maneira. Tornava-lhe a vida muito mais fcil. A
verdade  que sempre se mostrara muito paciente para com ele, desde o princpio.
- Estou desejoso de que a conheas.
- Devagar, meu querido, devagar - disse ela, passando a descrever as torturas sexuais que lhe
reservava para da a pouco.
Todos os pensamentos se desvaneceram num minuto. Naquela noite, ela participou-lhe que passaria
uma semana
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com o filho, na Sua, a esquiar. Assim seria mais fcil escolherem com quem estariam depois das
frias, e Sam props-se ir ter com ela depois de o filho voltar para o pai. Resolveram passar uma
semana em Gstaad e uns dias em Paris.
Passaram o fim-de-semana a fazer planos, a tornar-se amigos e a apaixonar-se como ele disse que
nunca estivera
por ningum, mas isso foi apenas porque tentava esquecer Alex.
Alex tentava esquec-lo tambm. Passou um fim-de-semana tranquilo com Annabelle, tentando
ordenar as suas
foras. Ainda se sentia enjoada, mas no vomitava com tanta frequncia. Liz telefonou-lhe para
saber como ela estava, e um casal de amigos, conhecedor da situao, telefonou-lhe
tambm. Contudo, no lhe apetecia ver ningum e no podia deixar de perguntar a si prpria onde
fora Sam, se estava sozinho, ou apenas a esconder-se. Annabelle parecia disposta
a aceitar a histria de que ele partira em viagem de negcios, mesmo no fim-de-semana de Aco de
Graas.
Sam no voltou para casa no domingo  noite, embora Alex contasse com isso; tambm no ficou
preocupada. Estava triste, mas no inquieta. Sam telefonou duas vezes a Annabelle durante o fim-
de- semana, e Alex no falara com ele. Limitara-se a passar o telefone  filha e tentara no pensar
no marido.
Foi um alvio quando chegou segunda-feira e Alex pde voltar para o trabalho e tentar esquecer os
seus problemas.
Depois de deixar Annabelle na escola, foi para o emprego e sentiu-se melhor. Toda a gente tinha um
ar descansado e mais feliz depois do fim-de-semana prolongado. At Alex,
embora o seu no tivesse sido bom.
- Como foi o feriado? - perguntou Brock,  tarde, enquanto trabalhavam.
Ele divertira-se imenso no Connecticut, com os amigos, embora tivesse feito vrias ndoas negras,
segundo disse, a jogar futebol.
- A srio?
Alex sorriu cautelosamente em resposta  pergunta dele sobre o fim-de- semana.
- Foi horrvel. Creio que eu e o Sam percebemos finalmente
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que isto nunca mais vai recompor-se. Acabou tudo.
Eu estive enjoada como uma perua no Dia de Aco de Graas, e ele ficou furioso. Continuo a
pensar que isto lhe lembra a me quando estava a morrer e arrastava todos com ela, mas ele no
admite que  assim. Perde a pacincia e porta-se como um estupor.
De qualquer modo, resolvemos separar as nossas vidas, apesar de continuarmos debaixo do mesmo
tecto, o que devia ser um desafio. No tenho energias para discutir sobre isso. Daqui a sete semanas,
depois do aniversrio de Annabelle, reveremos a situao.
- Parece-me um acordo muito civilizado.
- Creio que  - respondeu Alex, tristemente. - De facto, considero que  pattico.  espantoso o que
duas pessoas podem fazer uma  outra quando tentam. Nunca pensei que isto nos acontecesse, mas
acho que a vida est cheia de surpresas.
Alex sentia-se velha e cansada, e incapaz de lutar contra ele. No estava disposta a isso, embora
durante as duas semanas seguintes se sentisse melhor do que antes. Deixara de tomar os
comprimidos, de acordo com o plano do tratamento, mas s voltaria a fazer outro tratamento por via
intravenosa quinze dias antes do Natal.
Quando recomeou, sentiu- se to enjoada como da primeira vez. E isso afectou-a particularmente
porque, com todos os seus problemas, no fizera as compras do Natal, e de repente apercebeu-se de
que no conseguiria. Tinha o catlogo da F. A. O. Schwartz em cima da secretria, e assim
encomendou vrias coisas; porm, no tinha energia para ir comprar pequenos presentes para
Annabelle e para Sam, para os amigos e colegas.
- Desculpe, mas sinto-me horrivelmente. - disse ela a Brock, quando estava deitada no sof do seu
gabinete.
Brock estava habituado a v-la assim, e por vezes trabalhava com ele deitada e verificava as
informaes que ele lhe dava.
- Em que posso ajud-la? - perguntou ele, compassivo. - Quer que eu v fazer-lhe algumas
compras?
- Desde quando  que tem tempo para isso?
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Estavam ambos cansados com a avalancha de novos casos. Alex passara dois a Matt, mas ela e
Brock tentavam assegurar os outros.
- Posso ir  noite. As lojas esto abertas at tarde. Porque no me d a lista das compras?
Alex nem sequer teve tempo de lhe responder. Desatou a correr para a casa de banho, a vomitar, e
s meia hora depois  que saiu e pde voltar a falar.
Na semana seguinte, fez outro tratamento por via intravenosa, que a deixou ainda mais fraca.
Faltava apenas uma semana para o Natal e ela ainda no comprara um nico presente. Nessa altura,
porm, Liz e Brock libertaram-na da responsabilidade. Alex estava to enjoada que teve de ficar um
dia em casa e Liz foi buscar a lista das compras. Estava triste por v-la to nauseada. E, quando l
chegou, encontrou Alex lavada em lgrimas. Estava em frente do espelho da casa de banho, a
chorar. O cabelo caa-lhe aos tufos e
Alex tinha as mos cheias de cabelos ruivos quando foi abrir a porta a Liz.
- Olhe o que est a acontecer-me - disse ela, a soluar. Sabia que havia uma grande hiptese de
aquilo suceder, mas ainda no tivera tempo de ir comprar a cabeleira de que a Dr. Webber lhe falara.
Passara a manh inteira a vomitar e depois aproximara-se do espelho e vira o cabelo a cair-lhe aos
molhos.
- No posso suportar isto - soluou ela, enquanto Liz se agarrava a ela, tentando consol-la. -
Porque est a acontecer-me uma coisa destas? No  justo.
Chorava como uma criana e Liz ficou satisfeita por ter sido ela a vir e no Brock. Ele idolatrava-a
e teria ficado destroado ao v-la.
Liz encaminhou Alex para a sala de estar depois de esta ter deitado os cabelos fora, e de se ter
sentado a soluar. Tinha um aspecto horrvel, estava plida, tinha os olhos vermelhos e a cara to
inchada que no se podia tocar-lhe, mas havia qualquer coisa nela que era diferente. Continuava
bonita mas parecia doente, muito doente, e desesperadamente infeliz.
- Tem de ser forte - lembrou-lhe Liz com firmeza, decidida a no a deixar resvalar para a
autocomiserao.
239
- Eu tenho sido forte - respondeu Alex quase a gritar
e sempre a soluar. - E de que me vale? O Sam foi-se embora, j no o vejo. Chega a casa  meia-
noite, ou nem
sequer vem, vive no quarto de hspedes como se fosse um
estranho, e s o vejo quando ele est com a minha filha. Estou
sempre enjoada, ela agora tem medo de mim e ver o que
acontece quando ela me vir sem cabelo. A pobrezinha ainda
nem fez quatro anos e tem uma me que  um monsttro.
- Acabe com isso! - ripostou Liz, o que surpreendeu
Alex. - Tem muitas coisas a agradecer, e isto no vai durar
sempre. Tem mais cinco meses para passar por isto e depois
se tiver sorte, estar tudo acabado. Se o Sam for um acidente na sua vida, ento ele que v para o
diabo. Agora tem
de pensar em si e na sua filha. Em mais ningum. Compreende?
Alex fez um sinal afirmativo e assoou-se, surpreendida
pela firmeza daquela mulher mais velha que sabia exactamente do que estava a falar. Passara pelo
mesmo. O marido
dera-lhe mais apoio do que Sam, mas a luta fora dela e
de mais ningum, e fora isso mesmo que ela transmitira a Alex.
- A quimioterapia  deprimente e perder um seio 
uma coisa terrvel, mas a Alex no pode desistir. O seu cabelo
voltar a crescer e no passar o resto da vida a vonitar.
Tem de ver para alm disso. Pense no que quer fazer daqui a
cinco meses. Concentre-se nisso e no nisto, agarre-se a
um objectivo - sugeriu ela, sabiamente.
- Deixar de vomitar seria um bom recomeo.
- Vai habituar-se a isso.  uma afirmao horrvel,
mas  verdadeira. Tambm pode conviver com esse aspecto da sua vida.
- Eu sei. Agora dou comigo no cho da casa de banho,
como se j esperasse. J no me surpreende. -
Alex, deixou-se de novo abater. - Mas a perda do cabelo,
sim. Eu sei que devia contar com isto, mas acho que
no estava preparada.
-J comprou uma cabeleira?
- No tive tempo - respondeu Alex, sentindo-se
embaraada e estpida.
        - Vou arranjar-lhe uma. Uma ruiva e bonita
para o seu cabelo. - Liz deu-lhe uma palmadinha no ombro.
E, agora, onde est a sua lista de compras de Natal?
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Comprarei o que puder, e depois eu e o Brock dividiremos o resto entre ns, esta noite, e veremos
se podemos tratar de tudo. Posso ocupar-me disso este fim-de-semana.
Carmen tambm j lhe prometera ficar at mais tarde para embrulhar os presentes. Eles eram
incrveis. Quem havia de dizer, trs meses antes, que a sua vida se resumiria  sua empregada,  sua
secretria e ao seu assistente na empresa? Porm, eram todos ddivas de Deus. E ela no teria
conseguido nada sem eles.
Alm disso, nunca esperara que Sam a abandonasse. Ele mal vinha a casa e mantinha-se afastado
dela, como se j no pudesse suportar aquilo. Sempre que ela o via, ele ia a sair 
pressa; alm disso, andava bem vestido e tinha um aspecto
muito atraente.
Brock e Liz apareceram  noite, j tarde, com um monte de presentes. Alex telefonara para o
escritrio e pedira a
Brock que escolhesse uma carteira bonita para Liz no Saks. Ele comprara uma bela carteira preta de
pele de lagarto, e
ambos concordaram que ela ia ador-la. Tinham comprado coisas maravilhosas e, depois de Liz
sair, Brock ficou mais
um pouco a tomar ch com Alex, na cozinha.
- Obrigada por ter feito isto tudo. Sinto que sou um fardo para toda a gente.
Alex, porm, no tinha alternativa e sabia-o. Havia que aceitar aquela situao.
- No  assim to importante - respondeu ele tranquilamente. - Ir fazer as compras de Natal para
uma amiga no  exactamente a mesma coisa que subir ao monte Kilimanjaro, embora eu tambm
fosse capaz de faz-lo por si.
Mas tem de dar-me um pequeno sinal.
Alex sorriu, reconhecida. Ele fora um bom amigo e significava muito para ela. Tambm lhe fizera
bem ficar um dia
em casa, embora no se sentisse com foras. No entanto, continuava a sentir-se muito frgil em
relao ao cabelo. Tinha um leno Herms na cabea quando Liz e Brock chegaram, e Liz avisara-o
do que sucedera. Quisera comprar uma
cabeleira a Alex, mas no vira nenhuma decente e Alex dissera que iria arranjar uma na manh
seguinte.
Est c sozinha neste momento? - perguntou Brock,
241
referindo-se a Sam, mas ela compreendeu e encolheu os
ombros.
- Quase sempre. - Nas ltimas trs semanas, Sam fartara-se de viajar e quase no viera a casa. Ela
mal o via. Estou a habituar-me. Creio que  mais difcil para a Annabelle, embora ela o veja mais do
que eu.
Brock apercebeu-se de que o Natal iria ser duro para ela,
com o casamento desfeito, uma sade to frgil e, agora, a
perda do cabelo, alm da do peito. Teve pena dela e lamentou no poder fazer nada para alterar a
situao. Tencionava
ir esquiar para Vermont, entre o Natal e o Ano Novo, e no
sabia se havia de oferecer-se para ficar na cidade a fazer-lhe
companhia; contudo, no acreditava que ela aceitasse. E foi
ento que teve uma ideia melhor.
- Talvez isto parea um pouco estranho. No gostaria
de vir comigo a Vermont entre o Natal e o Ano Novo?
Brock estava ao corrente do seu plano de tratamentos e era
fcil imaginar que ela estaria na melhor fase, visto que
no andaria a tomar comprimidos nem a ser submetida a tratamentos por via intravenosa. - Tambm
podia trazer a
Annabelle. Vou ficar numa casa que os meus amigos me emprestam todos os anos, em Sugarbush. 
muito rstica,
 confortvel. Podia passar o dia sentada  lareira e eu
inscreveria a Annabelle numa escola de esqui.
- Por sinal, parece que o Sam a leva com ele antes de
ir para a Europa. Creio que vo  Disneylndia.
Alex, porm, no conseguia imaginar-se a ir para
Vermont com Brock, por muito compreensivo que ele fosse
e por muito bem que ela o conhecesse. E Brock apercebeu-se
facilmente da sua hesitao.
- Porque no pensa nisso? Ficar muito sozinha.
- Est bem - prometeu Alex, mas sem inteno
de pensar no assunto.
Brock demorou-se mais um pouco e depois saiu.
Alex foi para a cama, a pensar na sorte que tinha por ter to
bons amigos. E, na manh seguinte, sentiu-se surpreendentement melhor. At olhar para o espelho
outra vez e verificar
que lhe cara mais cabelo durante a noite. Havia trs manchas
enormes no leno, e Alex sentiu um impulso enorme de
242
conserv-las. Quando olhou para o espelho, verificou que j se viam partes do couro cabeludo.
Desatou outra vez a chorar. Estava a perder tudo. J no se sentia uma mulher, mas uma coisa, um
corpo que estava a desagregar-se lentamente. Apressou-se a pr o leno na cabea antes de
Annabelle entrar e ficou admirada por ver Sam a seu lado quando foi preparar o pequeno-almoo.
Ele j lhe dera flocos de aveia.
- Ests bonita, mam - disse Annabelle, admirando um fato verde-escuro e um leno a condizer que
Alex descobrira numa gaveta. Tinha um ar muito chique e europeu.
- O que quer isto dizer? - perguntou Sam, sorrindo-lhe, com um ar divertido. Alex estava fascinante,
o que era imvulgar quando ia para o emprego. - Vais a algum lado hoje? - perguntou ele, apenas
para fazer conversa.
Sam tentava ser agradvel e Alex apercebeu-se disso. Ele nem imaginava por que razo  que ela
estava de leno e no fora suficientemente sensvel para adivinhar; portanto, Alex no lhe disse
nada.
- Tenho uma reunio esta manh.
Alex tinha uma reunio num estabelecimento que vendia cabeleiras na Rua Sessenta, onde se
dirigia por sugesto da
Dr. Webber. A mdica dissera-lhe que eles tinham bons estilos e vrios tons, e que eram muito teis
naquele tipo de
servios.
- Precisamos de voltar a falar acerca do Natal? - perguntou-lhe Alex, do outro lado do jornal. - Eu
sei que a
Annabelle fica aqui comigo e que depois tu a levas.  no dia vinte e cinco ou vinte e seis? Por uma
semana?
- Eu levo-a para a Disneylndia at ao dia um de Janeiro, e depois volto aqui e parto para a Sua. -
Sam sorriu a
Annabelle. - E regresso no dia dos anos dela.
- Parece-me um calendrio apertado - disse Alex,
mordaz, perguntando a si prpria onde iria ele. - Passas
aqui o Natal connosco ou tens outros planos? - perguntou
Alex friamente, quando viu o rosto desolado de Annabelle.
- No vais estar c, pap?
- Claro que vou - confirmou ele, fulminando Alex
com o olhar. - Passaremos o Natal juntos.
A criana mostrou-se imediatamente aliviada e Alex sentou-se
243
na cadeira e fechou os olhos, debatendo-se com um acesso de nuseas. Era to cansativo estar junto
dele, e por vezes at de Annabelle. Exigiam-lhe tanto! Eram necessrias tantas energias para lhes
dar o que eles precisavam e para lutar pela sobrevivncia e pela dignidade perante Sam. Era uma
luta penosa para a qual no tinha foras.
Sam levou Annabelle  escola, e Alex seguiu directamente para a loja das cabeleiras. Hesitou ao
entrar, mas ficou admirada com o tamanho da coleco. A Dr. Webber tinha razo, e Alex no levou
muito tempo a escolher duas cabeleiras caras que pareciam mesmo feitas do seu cabelo, com um
corte muito elegante e bastante bonitas. Ficavam-lhe muito bem com o fato verde. Alex ps o leno
ao pescoo e sentiu-se outra vez um ser humano. Era espantosa a diferena que fazia. Concluiu que
fora estpida em no as ter comprado mais cedo.
- Uau! Olhem para ela! - disse Brock, assobiando
quando Alex entrou no gabinete; Liz sorriu de orelha a orelha.
Sabia onde Alex fora e agradava-lhe v-la com to bom aspecto. Ainda estava muito plida, mas
tinha uma aparncia muito melhor do que no dia anterior.
- Foi ao cabeleireiro? - perguntou Brock. Depois, ficou atrapalhado, lembrando-se de repente que
Liz lhe contara. Por momentos, esquecera-se.
-  o que se poderia dizer.
- Agrada-me - disse ele, com um ar admirador, de sbito Alex ficou embaraada com o modo como
ele a olhou.
Tinham-se aproximado muito nos ltimos dois meses; no entanto, eram apenas amigos. De vez em
quando, julgava ver algo diferente nos olhos de Brock, como se a apreciasse como mulher e no
apenas como uma amiga mais, o que a surpreendia.
Comearam logo a trabalhar, e Alex teve uma boa manh;  hora do almoo, deitou-se no sof e
adormeceu; os outros foram a almoos e a festas de Natal com amigos. Alex s tinha foras para
trabalhar e para passar o Natal com a filha.
244
Passou o resto da tarde a trabalhar sozinha e teve uma reunio com dois scios antes de ir para casa.
Brock ia outra vez fazer compras de Natal e, quando Alex chegou a casa, Carmen estava a
embrulhar os presentes. Alex sentiu-se intil e indefesa; porm estava to cansada que nem se
ofereceu para ajud-la.
Naquela noite, Sam chegou a casa com uma rvore de Natal, demorou-se o tempo suficiente para
decor-la e depois saiu. E Alex ficou sentada, sozinha, deprimida, lembrando-se do Natal anterior
ao nascimento de Annabelle, apenas quatro anos antes, e de muitos outros. Parecia que fora h tanto
tempo, do outro lado do mundo. Era inacreditvel como tanta coisa mudara desde ento. Naquela
noite, Alex estava sentada na cama a ler a correspondncia e a tentar no pensar em Sam, quando
reparou num convite que Sam deixara aberto, em cima da mesa. Era uma festa de Natal dada por
uns amigos, e Alex p-lo de lado. No tinha foras para ir a lado nenhum e muito menos a festas.
Fez tudo o que era preciso para levar Annabelle ao Macy, para ela ver o Pai Natal. Quando chegou a
casa, desatou a vomitar outra vez e ficou exausta. Carmen no estava e pouco depois Annabelle foi
ter com ela  casa de banho. Alex estava deitada no cho, sem a cabeleira, de olhos fechados. Agora
quase no tinha cabelo. Cara-lhe em poucos dias, e na vspera ela cortara a maior parte. S tinha
uns tufos aqui e ali, mas at esses caam diariamente. No lhe restavam quase nenhuns.
- Mam! O teu cabelo caiu! - gritou Annabelle, vendo a cabeleira no cho, ao lado da me.
Alex levantou-se de um salto, pois no queria que ela visse aquilo. E Annabelle chorava, olhando
para ela, e agarrando-se  cabea, aterrorizada, enquanto Alex tentava consol-la.
-  apenas uma cabeleira, querida, est tudo bem. Est tudo bem.
Depois, viu Annabelle a olhar para ela, aterrada. No era um espectculo agradvel, tinha algo de
doentio. Viam-se       tufos de cabelo aqui e ali, e o couro cabeludo  vista. Alex interrogara-se se
no seria prefervel cort-los.
245
- No te esqueas de que eu te avisei que o cabelo da mam ia cair. Mas vai voltar a crescer. - Alex
estava de joelhos, com ela ao colo, mas a criana cada vez chorava mais. Eu gosto muito de ti. Por
favor, no chores.
Alex detestava a cabeleira e o motivo que a levara a conpr-la. De repente, tudo se deteriorara na
sua vida. Apetteceu-lhe atirar as culpas todas para Sam, mas sabia que no podia.
Annabelle levou muito tempo a acalmar-se; quando Carmen entrou na casa de banho para cuidar
dela, a criana ainda estava perturbada e Alex contou-lhe o que acontecera.
- Est bem, ela h-de habituar-se - afirmou Carmen,
dando uma pancadinha no brao de Alex.
 Alex pusera a cabeleira mais curta e, enquanto Annabele dormia a sesta, resolveu ir dar um passeio
a p, para apanhar ar. Faltavam dois dias para o Natal e ela mal dera por isso. Liz e Brock tinham-
lhe feito as compras todas, com excepo de um belo estojo de toilette que ela encomendara na
fany's e mandara enviar a Sam e um livro de arte que tencionava comprar-lhe h muito tempo. No
fora a festas nem visitara os amigos. Alm da visita ao Pai Natal e da rvore que Sam e Annabelle
tinham decorado, Alex nem prestara ateno ao Natal.
- Sente-se bem para sair, Mistress Parker? - perguntou Carmen, com um ar preocupado.
- Sinto-me bem. S quero subir a Madison durante cinco minutos.
- Est muito frio, leve um chapu! - gritou ela. Alex sorriu. Levava uma das cabeleiras.
- No preciso!
Desceu no elevador e pensou na vspera de Natal. Sam afirmara que estaria com elas, mas Alex mal
o vira durante toda a semana e concluiu que ele devia ter ido s festas habituais. No lhe pedira que
o acompanhasse. De qualquer modo, sabia que ela no seria capaz, e no foram juntos a nenhuma.
Alex declinou mesmo o convite dos seus amigos mais ntimos que iam cantar cnticos de Natal a Gr
Village.
Alex parou a olhar para uma montra na Madison.
246
As montras da Ralph Lauren estavam particularmente bonitas. Estava ali a admir-las quando uma
rapariga particularmente
vistosa saiu e desceu a escada, a rir-se e a falar com sotaque ingls. Levava um casaco preto, curto,
tinha umas pernas fabulosas e calava umas botas de camura preta. Levava na cabea um grande
chapu cor de areia, que lhe dava um ar
romntico. Em seguida, voltou-se para algum e Alex sorriu ao ver o homem debruar-se.
Lembrou-se de si prpria e de Sam h uns anos. Ele at se parecia um pouco com Sam.
Levava um casaco azul-marinho de bom corte e ia carregado de embrulhos vermelhos com laos
dourados. Havia algo de dolorosamente agridoce no casal. Pareciam tojovens e estavam
enamorados. Beijaram-se outra vez... e foi ento que Alex viu o homem a olhar para a rapariga de
chapu e percebeu quem ele era. Era Sam. Ficou boquiaberta, a olhar para ele, apercebendo-se de
repente do que acontecera. Sam estava apaixonado por outra pessoa, e Alex no pde deixar de
perguntar a si prpria h quanto tempo teria aquilo acontecido, e se teria sido antes de ela adoecer. E
se fosse tudo uma impostura? E se ele se tivesse servido da sua doena como desculpa para a
deixar?
Alex quis desviar o olhar deles mas no conseguiu; nesse momento, Sam pegou no brao da
rapariga para atravessarem a rua e entrarem noutro estabelecimento. No imaginavam que ela
estivesse ali, e Sam no a vira.
Entraram noutra loja e Alex sentiu as lgrimas a correrem-lhe pela face quando se apercebeu de que
estava tudo acabado entre eles. No podia competir com aquilo. A rapariga parecia ter uns vinte e
cinco anos e at Sam parecia de sbito mais jovem. A princpio, ao olhar para ele, julgara que ele
tinha trinta anos, e no cinquenta. Em seguida, subiu a Madison em passo apressado, sem ouvir os
cantores nem as campainhas do Pai Natal, sem ver as pessoas, as rvores de Natal e as montras. No
via nada seno a sua prpria vida feita em farrapos.
Chegou a casa meia hora depois de ter sado, ainda pior do que antes. Estava com uma palidez
mortal, as mos tremeram-lhe ao pendurar o casaco, e foi para o quarto taciturna. Fechou a porta e
deitou-se na cama, perguntando a si
247
prpria como conseguiria voltar a encar-lo. Era por isso que ele queria a sua liberdade. Fora tudo
uma impostura, um jogo, com ele a dizer que precisava de tempo. Do que ele precisava era de outra
mulher. E tinha-a.
Em seguida, Alex foi para a casa de banho e viu-se ao espelho. A seus olhos, parecia cem anos mais
velha e, quando tirou a cabeleira, devagar, viu no que se tornara. Estava desfigurada e calva. Tinha
um cancro, perdera um peito e o ca belo. Lembrou-se da rapariga que vira com ele e apercebeu-se
da mais feia das realidades. J no era uma mulhr.

CAPTULO 15
Na vspera de Natal, Sam foi para casa cedo, depois de ter ido levar Daphne ao aeroporto. Esta ia a
Londres, ver os pais e o filho, e Sam iria juntar-se a ela em Gstaad, depois de levar Annabelle 
Disneylndia e de a entregar de novo 
me.
Oferecera a Daphne uma pulseira de diamantes espectacular antes de se separar dela, e um alfinete
de rubis em forma de corao que lhe comprara na Fred Leighton. Sam sempre fora generoso e
sempre comprara coisas bonitas tambm para Alex, embora nada to importante como aquilo.
Comprara-lhe um belo relgio Bulgari que sabia que ela gostava de ter h muito tempo, mas
nenhuma daquelas pequenas coisas que exprimiam interesse e afecto. No queria desorient-la.
Era impossvel esconder que o Natal seria diferente naquele ano. Por muito que se esforassem; at
Annabelle parecia dar-se conta disso, e a criana desatou a chorar quando puseram  porta as
bolachas para o Pai Natal e o sal e as cenouras para as suas renas.
- E se ele no me trouxer o que eu pedi? - chorava ela. Sam e Alex tentaram anim-la; porm ela
estava inconsolvel e admitiu por fim que tinha medo que ele estivesse zangado com ela porque
naquele ano ela lhe pedira uma coisa um pouco mais difcil.
- Pedi-lhe que pusesse a minha mam boa depressa, para ela deixar de tomar os remdios e o cabelo
lhe nascer outra vez.
Ao ouvir estas palavras, Alex desatou a chorar tanto que
teve de se afastar, e at Sam se viu em dificuldades.
- O que  que o Pai Natal te disse? - perguntou Sam,
com a voz rouca.
Annabelle pedira aquilo quando Alex a levara a ver o Pai
Natal ao Macy.
- Ele disse que isso era com Deus, no com o Pai Natal.
- Ele tem razo, princesa - explicou Sam, enquanto
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Alex se assoava  ajustava a cabeleira. Trazia a mais comprida. - Mas a mam vai melhorar, de
qualquer maneira, e vai
recuperar o cabelo.
Sam ficara admirado ao ouvir falar do cabelo, pois nunca
se apercebera de que ela o perdera. Alex nunca lhe falara no
assunto. Isso levou-o a pensar como estava afastado. Andava to envolvido com Daphne e com o
seu caso amoroso durante o ltimo ms que nem reparara em mais nada. Nem
quisera saber do que se passava em casa e nem sequer prestara muita ateno ao que ocorria no
emprego.
Larry e Tom tinham-no interpelado uma ou duas vezes,
e Simon parecera satisfeito. Larry dissera qualquer coisa
a respeito de ele e Frances lamentarem o que estava a passar-se
        com Alex. E Sam julgou perceber que ele lamentava tambm o que se passava com eles.
Perante o que estava
a acontecer com Daphne, era bvio que eles estavam a ter
problemas com o casamento. Sam, contudo, no lamentava
nada. E convenceu-se de que os scios tinham inveja dele.
Nunca se lembrou de que eles considerassem infame o facto
de ele abandonar Alex naquele momento, quando ela estava
a fazer quimioterapia e a lutar contra o cancro.
Pouco depois, Annabelle acalmou-se e foram os dois deit-la. A criana ficou to satisfeita ao v-los
assim que Alex
sentiu um n na garganta. Mais tarde, quando foram para
a cozinha, Sam parecia atrapalhado.
- No me apercebi de que tinhas perdido o cabelo
comentou ele, servindo-se de um dos biscoitos do Pai Natal.
Este ano, tinham menos de tudo: menos biscoitos,
menos bolos de Natal, menos presentes e menos alegria. A rvore de Natal parecia mais pequena.
Com a doena
de Alex, ningum se esforara tanto. E tambm no tinham
enviado cartes de boas-festas. Alex no tivera foras e
Sam no saberia como assin-los. Da Alex... E talvez do Sam...
mais ou menos isso.
- Julguei que no querias que eu anunciasse o que
aconteceu ao cabelo - respondeu Alex, tentando no pensar
na mulher que vira com ele na vspera. O pior  que se
percebia que no se tratava de um caso fortuito. Quando
os vira juntos, quase que pareciam casados.
250
- Ele vai crescer outra vez - afirmou Sam, de novo desamparado. Sentia- se sempre desorientado e
indisposto na presena dela.
- O meu cabelo vai. O nosso casamento, no - respondeu ela tristemente. Sabia que tinham
combinado no falar no assunto seno da a um ms, mas era difcil no o fazer.
- Tens a certeza disso?
Sam olhou-a bem nos olhos e ficou  espera da resposta.
- E tu no tens? Tenho a impresso de que j te decidiste. Alex tirara aquela concluso ao v-lo com
a rapariga inglesa a sair da Ralph Lauren.
- No se pode ter a certeza.  difcil no recordar os velhos tempos.
- No me parece que sejam assim to velhos - respon deu Alex honestamente. - Talvez tu fosses
infeliz h mais
tempo do que eu.
- No creio que infeliz seja o termo correcto. Confuso. Sinto-me confuso desde que adoeceste. Isso
modificou-te.
No fora uma acusao. Fora uma afirmao. E, aos olhos de Sam, justificava o seu comportamento
e era um passaporte para a liberdade.
 - Creio que nos modificou a ambos. No creio que estas coisas nos deixem na mesma.  um
caminho longo e difcil para a sobrevivncia.
- Deve ser terrvel - disse ele, mostrando-se compreensivo pela primeira vez.
Ele estava mais afectuoso, reconheceu Alex. O facto de se ter apaixonado tornara-o mais brando.
Contudo, Alex no se deixou comover.
- Tens sofrido muito.
- Fora o que est para vir - disse ela, sorrindo. Exactamente quatro meses e meio.
- E depois?
- Depois espero at ver se h uma recorrncia. O perodo crtico dura cinco anos. Parece que o
tumor no  dos piores e que a quimioterapia me d uma segurana adicional.
Continuamos a viver a nossa vida e tentamos no pensar nisso. As mulheres que eu conheo e que
sobreviveram a isto
251
h muito tempo dizem que s pensam no assunto quando vo fazer os exames mdicos de rotina,
uma vez por ano. Gostaria de j ter atingido essa fase. Isto  muito assustador.
Era a primeira conversa sria que tinham h trs meses, e Alex estava admirada por ele querer falar
no assunto. Fosse quem fosse a rapariga, tornara-o mais humano. No entanto, Alex no lhe
agradecia, sentia apenas inveja, tristeza e raiva.
- Se tiveres uma recorrncia, voltas a combat-la - insistiu ele, tentando encoraj-la.
- No  provvel - respondeu ela com naturalidade, desejosa de tirar a cabeleira, que a incomodava.
Mas no se atrevia a permitir que ele visse como ela estava naquele momento. - So muito raros os
casos em que se sobrevive a uma recorrncia. Em geral, morre-se.  por isso que os tratamentos so
to agressivos da primeira vez.
Sam compreendia agora melhor a situao e ficara chocado com o que ela lhe dissera. Talvz no se
tivesse apercebido da sua rudeza, ou no tivesse dado ateno ao caso. Alex naquele momento,
depois de estar com Daphne, enchia-o de compaixo, mas nada mais. Para ele, o resto acabara.
Naquele momento, apenas tinha pena dela e se enternecia com as recordaes de tempos melhores.
- O que vais fazer durante a ausncia de Annabelle? perguntou ele, tentando mudar de assunto. O
ambiente estava a ficar um pouco pesado para ele.
- Nada. Dormir, descansar e trabalhar. Nos tempos que vo correndo, a minha vida social no 
muito activa. Tenho poucas energias. E gasto- as com a Annabelle e com os processos.
- Porque no vais para fora? Fazia-te bem. Ou no podes?
- Posso. Todos os meses tenho um intervalo de duas semanas para os tratamentos, mas prefiro c
ficar. no queria ir para fora com Brock, apesar do seu convite. A intimidade da relao de ambos
parecia crescer, mas mal o conhecia. E no queria ir sozinha. No fazia sentido. Ficaria melhor em
sua casa, na sua cama, com as suas coisas, perto da sua mdica, se surgisse algum problema. Era
muito introvertida e muito dependente do que lhe era familiar. Havia demasiados elementos
assustadores na sua vida,
252
naquele momento, para que ela criasse outros elementos novos.
- Detesto pensar que ficas sozinha - declarou ele, com remorsos.
 Era estranho. Agora que Daphne partira, ele sentia-se de sbito responsvel por Alex. Era como
uma doena que o importunava, e aquilo no lhe agradava. Sentia-se satisfeito
por partir com Annabelle no dia a seguir ao Natal.
- Eu ficarei bem. No quero ir para lado nenhum. E tenho muita coisa para me entreter no emprego.
- A vida no  s trabalho - lembrou ele, sorrindo. Alex olhou-o fixamente.
- No , Sam?
Sam saiu da cozinha sem lhe dar resposta. Perguntava a si prprio se ela no teria um sexto sentido
em relao a
Daphne, ou se algum no lhe contara. Duvidava. Ela estava demasiado envolvida consigo prpria
naquele momento para pensar que existia mais algum. Nem devia desconfiar de nada.
Todos os presentes de Annabelle estavam embrulhados e escondidos num armrio fechado  chave.
Pouco depois das
nove horas, Alex e Sam puseram-nos debaixo da rvore e depois foram para os seus quartos, como
dois estranhos. Alex ficou a ler um pouco e ouviu o telefone tocar  meia-noite. Porm, deixou-o
atender. Sabia que no era para ela. E tinha razo. Era Daphne, que acabara de chegar a Londres e
quej tinha saudades dele. Sam sentiu-se muito bem ao falar com ela e apercebeu-se de como era
deprimente estar
junto de Alex. Ela no era propriamente divertida naquele momento. Parecia ter desistido da vida, e
tudo  sua volta parecia estar a desabar e a morrer: o seu nimo, o seu cabelo, o seu casamento. Sam
sabia que devia apoi-la mais, mas no conseguia.
- Tenho muitas saudades tuas, querido - disse-lhe Daphne. - No vou conseguir suportar a tua
ausncia. Tens de despachar-te. Meu Deus, est tanto frio aqui.
Daphne esquecera-se dos rigores do Inverno londrino, e o aquecimento do seu apartamento no
funcionava. S tinha a lareira e faltava-lhe Sam para a aquecer.
253
- Cala-te, seno apanho j o prximo Concorde - disse
ele, quase a tremer de saudades.
- Quem me dera. Isto  insuportvel.
Ambos sabiam que era impossvel. Ambos tinham deveres paternais a cumprir.
Por fim, desligaram, e todo o corpo de Sam lhe doa
quando, deitado na cama, pensava naquela jovem extraordinria que modificara totalmente a sua
vida desde o Dia de Aco de Graas. Nunca conhecera ningum como ela.
Nem Alex, nos seus melhores tempos, nunca lhe despertara
uma paixo como aquela.
No dia de Natal, Annabelle acordou s seis da manh.
Foi um dia longo e feliz para ela, e at agradvel para Alex e Sam. Annabelle gostou muito de todos
os seus presentes
e Sam ficou comovido com a generosidade do presente
de Alex, dizendo-lhe que o tinha adorado. Ela gostou do relgio, embora entendesse a mensagem
que ele transmitira:
a troca de presentes pessoais entre eles deixara de se justificar... E a sua evidncia magoou-a. Para
alm disso, passaram uns bons momentos juntos.
Conseguiu fazer rosbife para todos e disfarar os enjoos.
No foi um dia to desastroso como o de Aco de Graas.
Depois, foi deitar-se, a descansar, e s por graa, j que estavam em casa, ps a cabeleira curta, e
ela e Annabelle pareciam gmeas. Sam disse mesmo que ela lhe agradava.
Alex vestiu uma camisola vermelha e umas calas de
camura preta e ficou surpreendentemente bonita. Tinha a
barriga um pouco inchada e ganhara um certo peso, mas nada
muito grave. Era estranho, j que estava to doente, mas fora
o que a Dr.a Webber previra.
De tarde, foram dar um pequeno passeio a p; Sam
chamou um txi e levou-as ao Centro Rockefeller para
verem os patinadores. Mas v-los s lhe fez lembrar Daphne.
Alex sentiu-se cansada e tiveram de voltar de txi
para casa. Era bvio que ela no podia dar nem mais um
passo. Sam teve mesmo de ajud-la a ir para o quarto. Doa-lhe
as articulaes e no conseguia andar mais sem ajuda.
- A mam sente-se bem? - perguntou Annabelle,
preocupada.
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Ele fez um sinal afirmativo, dividido entre a compaixo
que sentia pela mulher e a irritao pela ansiedade que ela
provocava na filha com a sua doena.
- Ela est bem - respondeu ele, com firmeza.
- Ela estar bem enquanto ns estivermos na Florida?
- Ela vai sentir-se muito bem. A Carmen fica c para
tomar conta dela.
Annabelle ficou muito descansada com as respostas do
pai; mais tarde, Alex levantou-se para fazer a mala da filha.
 Era engraado emalar todas as suas pequenas coisas... De repente, Alex sentiu-se dominada pelo
pnico. E se um dia,
quando ela j no pudesse cuidar da filha, Annabelle tivesse
de ir viver com Sam? E se ela a perdesse tambm? S de
pensar nisso ficou outra vez nauseada e, ao sentar-se, toda
ela tremia. Fez um esforo para se levantar e acabar de fazer a mala. No ia permitir que isso
acontecesse, no ia perd-la em favor de Sam, nem daquela mulher. Esse receio f-la acompanh-
los ao jantar, nessa noite, embora estivesse verdadeiramente exausta com todos os esforos que
fizera no
Natal. Contudo, jantou com eles, depois foi para a cama e
 dormiu at o despertador tocar de manh.
Ajudou Annabelle a vestir-se e disse-lhe que se divertisse e que telefonasse quando lhe apetecesse,
que nadasse e que passasse bem aqueles dias com o pap. Depois, puxou-a para si e abraou-a como
se tivesse medo de nunca mais a ver.
Apercebendo-se do pnico da me, Annabelle desatou a chorar quando ela a afastou, e estiveram
agarradas uma  outra
durante muito tempo. Annabelle sabia como a me gostava
dela e apercebeu-se instintivamente da sua solido.
- Gosto muito de ti - gritou Alex, com as lgrimas
nos olhos, quando eles entraram no elevador, e Sam olhou
para ela com o ar aborrecido que j lhe era familiar, enquanto Annabelle chorava baixinho.
- Ela fica bem - recordou Sam a Annabelle, quando
desciam no elevador com as malas, irritado por ter de lhe
garantir aquilo.
Alex no se importara de se abraar  filha e de assust-la
daquela maneira. O episdio trouxe  memria de Sam todo o ressentimento que experimentava
desde Outubro e desde
255
que a me morrera, h anos. Para ele, era um alvio afastar-se dela. S o facto de estar junto dela o
deprimia, por muitos esforos que Alex fizessse.
Apanharam um txi para La Guardia e, quando partiram, Alex estava sozinha no quarto, sentindo-se
perdida sem eles. Passara mais tempo com Sam nos ltimos dois dias do que no ms anterior, e de
certo modo isso fora agradvel, mas tambm muito doloroso. Era como forar-se a olhar para
qualquer coisa que j no lhe pertencia e a lembrar-se de todos os motivos por que gostara dela.
Mesmo depois de ele a ter magoado e desamparado tanto, tinha de fazer um esforo para deixar de
o amar. O facto de se preocupar com ele era destruidor, e ao v-lo com aquela rapariga percebia que
no valia a pena continuar. Sentia-se aliviada, agora que ele partira.
Pouco depois, foi lavar a loua do pequeno-almoo e fazer a cama de Annabelle. Carmen no vinha.
Sem Annabelle, Alex dissera-lhe que no precisava de ajuda e dera-lhe o dia de folga. Alex vagueou
sem rumo pela casa e por fim foi tomar um duche. Tentou convencer-se a vestir-se e a ir dar um
passeio, para no se sentir to s. Todavia, ao pensar nisso, lembrou-se de que vira Sam com a
rapariga inglesa apenas h trs dias. E, de repente, no lhe apeteceu sair. Queria voltar para a cama e
dormir o dia todo. No tinha nada que fazer, visto que no ia para o emprego. No entanto, um certo
esprito espartano aconselhou-a a tomar duche e a vestir-se, pelo menos. Tirou a cabeleira e viu-se
ocasionalmente ao espelho. Acabara de cair-lhe o resto do cabelo e, de repente, ela ficara
completamente calva. Os ltimos cabelos estavam agarrados  cabeleira que ela atirara para o
lavatrio; ao despir o roupo e a camisa de noite, ficou a olhar para si prpria e a pensar no que
pareceria aos olhos de Sam. Estava careca e tinha uma cicatriz. No stio do seio tinha agora uma
superficie plana de carne branca, com uma cicatriz estreita e rosada, e sem mamilo. Nem sequer
parecia um homem. Era ainda menos do que isso. Parecia um manequim, sem cabelo e sem peito,
como aqueles que se vemdesconjuntados no cho das lojas, no dia em que mudam as montras.
256
Desatou a chorar e apercebeu-se de que no s Sam se fora embora como tambm Annabelle. J
perdera o marido e talvez viesse a perder a filha. Era como se fosse despojada de tudo o que fora,
amara ou desejara. A nica coisa que lhe restava era o trabalho, e j nem sequer o podia fazer como
dantes. Era um pssaro ferido, coxo, sem penas e moribundo. Sentia-se feia, intil e doente.
Perguntou a si prpria se no seria mais fcil morrer, desistir agora, antes de perder ainda mais
coisas. Para qu esperar que lhe fosse arrebatado o que restava? Para qu esperar que Sam lhe
dissesse que queria o divrcio para casar com aquela rapariga e que Annabelle se apaixonasse por
ela? Para qu esperar que eles amatassem? Ou que a deixassem sozinha?
Ficou ali a chorar, a olhar para si prpria e, ao longe, ouviu o telefone, mas no se deu ao trabalho
de ir atender. Por fim, o seu estmago libertou-se de toda a angstia da sua doena e dos seus
pensamentos e Alex, nua, ajoelhou-se no cho e comeou a vomitar. Pouco depois, j s tinha
acessos. A situao era-lhe demasiado familiar. Fora naquilo que ela se tornara, numa mquina
avariada que s sabia expelir blis. Nada mais lhe restava. E, quando aquilo acabou, Alex deixou-se
ficar deitada no cho, a chorar. Depois, voltou para a cama e enrolou-se debaixo dos cobertores.
No comeu nada durante todo o dia, e Sam e Annabelle no telefonaram. Estavam demasiado
ocupados a divertir-se na Disneylndia. Tinham partido, ao encontro da vida, num mundo de sol,
onde ela vivia sozinha, nas sombras escuras do seu prprio Inverno. Ficou ali deitada, a chorar no
escuro, at que o estmago vazio lhe fez voltar as nuseas, e regressou  casa de banho. Foi um dia
interminvel de vmitos e de lgrimas, em que o fantasma careca que vira ao espelho estivera
sempre, sempre. Nem se deu ao trabalho de acender as luzes, mas continuava a ver-se.
Depois, ao fim da tarde, o telefone voltou a tocar, mas ela no atendeu. Estava demasiado doente,
cansada, mal-disposta e desejosa de morrer, para falar com algum. Annabelle no precisava dela
naquele momento. Tinha Sam. Ningum precisava dela. Ela no era nada. Ningum. Nem sequer
uma mulher.
257
O telefone no parava de tocar, quando ela estava deitada, lavada em lgrimas, desejosa de que ele
se calasse. Porm, ele no se calava. Finalmente, estendeu o brao e levantou o auscultador, sem
dizer nada.
- Est?
Alex conhecia aquela voz, mas no conseguia raciocinar.
- Est? Alex? - repetiu a voz.
- Sim. - A voz dela era vaga e desconjuntada. Quem fala?
-  o Brock Stevens.
Nem parecia ela, e Brock no percebeu se ela piorara ou voltara de mais um tratamento.
- Ol, Brock. - Alex pareceu-lhe muito cansada, e ele ficou preocupado. - Onde est?
Era como se ela no se importasse, mas tivesse de dizer qualquer coisa.
- Estou no Connecticut, com uns amigos. Queria voltar a perguntar-lhe se no quer ir para Vermont.
Parto amanh.
Alex sorriu. Ele era uma ternura. Mas tambm lhe parecia muito estpido. Ela estava a morrer.
Porque precisava ele de uma amiga moribunda? Ajud-la era uma perda de tempo.
- No posso. Tenho de trabalhar.
- Ningum tem de trabalhar esta semana e ns tratmos de tudo.
- Est bem. - Alex sorriu, sem foras, sentindo-se de novo nauseada. O facto de no ter comido
deixara-a ainda mais enjoada e ela sabia-o. - Sou uma mentirosa. Mas no
posso ir, de qualquer modo.
- A sua filha est a? - perguntou ele, que no queria larg-la sem luta.
Queria que ela fosse com ele. Achava que lhe faria bem e Liz concordara com ele quando lhe falara
no assunto. Alex precisava de sair dali, e o ar puro far-lhe-ia bem desde que ela no exagerasse.
- A Annabelle est na Florida - respondeu. - E
Sam deve estar com a namorada - disparou ela, por uma questo de precauo.
258
Sentia-se um pouco tonta por no ter comido nem bebido nada.
- Ele disse-lhe uma coisa dessas?
Brock parecia aborrecido ao fazer a pergunta. Achava
que o marido dela era um autntico estupor e que no a merecia. Porm, como amigo, no podia
dizer-lhe uma coisa
dessas.
- Vi-os juntos, na antevspera de Natal. Ela  muito jovem e muito bonita. - Alex parecia
embriagada, e Brock estava cada vez mais preocupado com ela. - E tenho a certeza
de que ela tem tudo aos pares. O Sam detesta qualquer coisa que no seja perfeita.
        - Alex, por favor, est bem? - perguntou ele, olhando
para o relgio e calculando o tempo que levaria a chegar  cidade para ir busc-la. Ou podia
telefonar a Liz e ela iria l a casa. No sabia o que havia de fazer. No lhe agradava o
tom de voz dela em especial sabendo que estava sozinha.
Havia sempre a hiptese de, com aquele estado de esprito, cometer alguma loucura.
- Estou bem - respondeu ela, imvel, de olhos fechados, para no vomitar. - Hoje caiu-me o resto do
cabelo.
Assim, est muito mais asseado.
- Porque no descansa um pouco? Telefono-lhe daqui a
uma hora. Est bem?
- Est bem - respondeu ela, sonolenta.
Alex desligou e esqueceu-se dele. Queria esquecer-se de
tudo. Se no comesse durante seis dias, at Annabelle voltar para casa, talvez estivesse morta
quando eles chegassem. Seria muito mais fcil do que morrer da quimioterapia. Deixou-se
adormecer e, um pouco mais tarde, ouviu um alarme, uma campainha ou um som. Tentou ignor-lo
durante muito tempo; depois, percebeu que era a campainha da porta. No imaginava quem fosse e
tentou ignor-la durante
muito tempo, mas ela no parava de tocar. Depois, algum
comeou a bater na porta com as mos. Alex vestiu o roupo, foi  porta e espreitou pelo ralo. Era
Brock Stevens.
Alex ficou muito admirada, abriu a porta e ficaram os dois a olhar um para o outro, ela de roupo de
caxemira bege, e ele de camisolo e de parca, calas de veludo e botas fortes.
Brock cheirava a ar puro e tinha um ar quase alarmado.
259
- Estava muito preocupado consigo - disse ele.
- Porqu?
Alex parecia um pouco ausente e delirante; porm, ele
conhecia-a o suficiente para saber que ela no estivera a beber. Estava apenas muito enjoada e
talvez nem tivesse comi          do nada. Alex afastou-se para o deixar entrar, e ele foi atrs dela para a
sala de estar. Depois, viu-se ao espelho e percebeu que no pusera a cabeleira.
- Merda!  assim... - disse, olhando para ele como se
fosse uma mida.
- A Alex parece a Sinead O'Connor, mas melhor.
- No sei cantar.
- Nem eu - comentou ele, sem deixar de olhar para
ela e a pensar que Alex era parecida com a Audrey Hepburn.
Era ainda mais bela sem cabelo, to simples e sem adornos. Toda a beleza do seu rosto sobressaa
como se fosse um
ser estranho, vindo de outro mundo. Havia uma luminosidade nela que sempre o comovera.
- O que aconteceu? - perguntou ele.
Era bvio que acontecera qualquer coisa. Era como se
tentasse deixar-se morrer. E era verdade. Mesmo ao telefone, ele apercebera-se disso.
- No sei. Esta manh vi-me ao espelho, a Annabelle
foi-se embora, e eu fiquei outra vez enjoada... So coisas
de mais para combater... O Sam e essa outra mulher... 
to mau. So problemas a mais - confessou ela honestamente, e ele ficou furioso.
- E ento... desistiu.  isso?
Estava a gritar, e Alex ficou admirada.
- Eu tenho de fazer as minhas prprias opes - lembrou ela tristemente.
- Acha que sim? A Alex tem uma filha e, mesmo
tem deveres para consigo prpria, para j no falar para com as pessoas que gostam de si. Precisa de
combater
Alex. No se ir embora to cedo. E no vai ser fcil.
Contudo, no pode deitar-se a e morrer, s porque tem uns problemas a mais.
- Porque no? - disse Alex, que parecia distante dele.
260
- Porque sou eu que digo que no. J comeu hoje? - perguntou ele, implacvel.
Como era de esperar, Alex abanou a cabea em sinal negativo.
V vestir-se - ordenou Brock. - Eu vou fazer qualquer coisa para comer.
- No tenho fome.
- No me interessa. No vou ficar aqui a ouvir esses disparates. - Brock agarrou-a pelos ombros e
abanou-a levemente. - No me interessa o que lhe fizeram ou o que pensa da sua vida neste
momento. Despida, com um seio ou com dois, e careca como uma guia, tem obrigao de lutar
pela sua vida, Alex Parker. Por si. Por si prpria. Por mais ningum.  um bem precioso. E todos
ns precisamos de si. Quando se vir ao espelho e no gostar do que v, lembre-se de que essa
mulher  a Alex. Os enfeites no significam nada.  exactamente a pessoa que era antes disto
acontecer. Ou talvez mais, no menos. No se esquea disso.
Alex atemorizara-se enquanto ele estivera ali a pregar-lhe um sermo. Sem dizer nada, foi para a
casa de banho. Despiu o roupo, abriu o chuveiro e deixou-se ficar ali durante muito tempo, a olhar
para o espelho; viu a mesma mulher que vira de manh, o mesmo pssaro ferido, a mulher com uma
cicatriz no stio do peito, a mulher sem cabelo, mas, ao olhar para ela, percebeu que ele tinha razo.
Por si prpria, pelo que fora, pelo que podia ser e pelo que sempre seria. Podia perder um seio e o
cabelo, mas no podia perder-se a si prpria. Sam nunca lhe podia roubar isso. Ento, chorou
baixinho, pensando no que Brock acabara de ensinar-lhe, abriu o chuveiro e deixou a gua quente
escorrer-lhe pela cabea, pelos ombros e pelo resto do corpo.
Vestiu calas de ganga e uma camisola e ps a cabeleira curta que deixara no lavatrio, de manh,
depois de sacudir os cabelos que estavam agarrados a ela. E foi para a cozinha, descala.
- No precisa de pr a cabeleira por minha causa - disse ele, sorrindo. - A menos que se sinta melhor
assim.
- Sinto-me esquisita sem ela - admitiu Alex. Brock fez ovos mexidos, torradas e batatas fritas. Alex
261
no conseguiu comer as batatas, mas engoliu a custo a torrada e os ovos mexidos, alimentando-se
um pouco. No entanto, no queria desafiar a sorte e passar o resto da noite enjoada, na casa de
banho. O seu estmago estava uma lstima, mas ela desconfiava de que Sam tinha razo, por uma
vez e que a sua m disposio era de natureza emocional.
Sentaram-se tranquilamente na cozinha durante algum tempo; depois, Alex disse-lhe que Annabelle
adorara os presentes todos.
- Foi engraado ir compr-los - revelou ele. - I gosto de midos - acrescentou, sorrindo, aliviado por
v-la comer.
- Ento, porque no se casa? - perguntou ela, brincando com os ovos.
- A Bartlett e Paskin no me d tempo - respondeu ele, sorrindo, com um ar arrapazado e muito
atraente.
- Teremos de comear a alivi-lo mais do trabalho - gracejou ela.
Conversaram durante algum tempo, sobre os feriados e sobre o modo como as coisas tinham corrido
com Sam. Depois, ele foi lavar a loua.
- No tem de fazer isso, Brock. Eu posso ocupar-ne disso mais tarde.
- Porque no? A Alex consegue fazer tudo, no  verdade? E Vermont? No vim aqui por mim,
percebe? Vim aqui por si.
Brock olhou-a bem nos olhos e, como sempre, ela ficou-lhe grata.
- No me parece.
- No vou desistir. A Liz tambm acha que lhe far bem vir - insistiu ele, com firmeza.
- O que  isto? Uma comisso? - Alex riu-se, mostrando-se de sbito divertida e comovida. - J
ningum se importa com o que eu sinto?
- Francamente, no.
Brock ignorou por completo o veto dela.
- No tem uma pessoa a srio para passar o fim-de-semana consigo?
- A Alex parece-me uma pessoa a srio - respondeu ele, com um ar decidido.
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Ela abanou a cabea e apontou para a cabeleira.
- No deixe que este monte de plos oengane. Estou muito cansada para esquiar, estou muito velha
para namorar, estou muito enjoada para me divertir e, alm disso, sou casada.
- No me parece, e no ser por muito tempo. Brock estava a ser muito brusco com ela e Alex
continuava a rir-se.
- Mas que simptico! Bem, digamos que sou um produto em segunda mo. - E depois, olhou para
ele, divertida, e acrescentou: - Est a dizer-me que quer namorar comigo?
Era bvio que ela no acreditava naquilo e ele tambm se riu.
- No. Mas, caso se sinta melhor a pensar assim, pense
 vontade. Estou a pedir-lhe isto como amigo, um amigo
que gostaria de ver esse rosto descorado apanhar sol, sentar-se em frente de uma lareira, bem
quente, e beber chocolate quente, e dormir  noite, sabendo que est com amigos, e no sozinha
num apartamento na cidade.
- Muito bem dito, para um garoto da sua idade.
-  verdade. E tenho muita experincia em tratar e em
dar de comer a velhotas como a Alex. A minha irm era... 
dez anos mais velha do que eu.
- D-lhe as minhas condolncias - disse ela, sorrindo.
Est a tornar a recusa muito difcil.
- Foi por isso que vim ter consigo - insistiu ele, fitando-a com um sorriso afectuoso; Alex lembrou-
se outra vez
como o estimava.
-Julguei que tinha vindo comer de borla - disse ela,
ainda a rir-se.
- E vim, mas tambm vim para falar consigo.
- A estada no Connecticut deve ter sido uma chatice.
Alex era implacvel com ele e Brock estava a gostar. Conheciam-se bem e comeavam a divertir-se.
- Foi uma chatice no Connecticut! Ento, vem ou no?
- Quer dizer que tenho alguma alternativa? Comeava a
pensar que me punha ao ombro e me levava.
- E posso faz-lo, se no se portar bem.
263
-  mesmo doido, sabe? A ltima coisa de que precisa  de que eu vomite para cima de si no
caminho para Vermont e que depois fique enjoada como uma perua, quando l chegar.
-J estou habituado. J no saberia viver sem isso - brincou ele, sorrindo.
- O Brock  maluco.
- E a Alex  gira, e  para isto que servem os amigos.
- ? - inquiriu Alex, comovida. - Julguei que eles serviam s para ir fazer compras de Natal, para
nos tratarem dos processos e para nos levantarem do cho da casa de ba nho quando estamos
enjoados.
Era para isso que serviam os maridos, mas no o dela.
- Cale-se e v fazer a mala. Est a embaraar- me.
- Isso  impossvel.
- Venho busc-la s oito horas, ou  cedo de mais? De repente, ele ficara preocupado com ela.
-  boa hora. Tem a certeza? - perguntou ela, outra vez. - E se lhe apetecer engatar umas midas?
- A casa  grande. Fecho-a  chave no seu quarto. Prometo.
Sorriam ambos quando Alex o acompanhou  porta. No podia acreditar que se deixara convencer;
de repente tambm estava desejosa de ir com ele. Sabia que tinha hora e meia e vrios enjoos  sua
frente, mas acontecera-lhe uma coisa. Salvara-se. Queria ir com ele, queria agarrar-se  vida. Mais
do que qualquer outra coisa naquele momento, queria vencer. Sabia que tinha de vencer.

CAPTULO 16
Os dias passados em Vermont foram os mais felizes para Alex desde que adoecera. Telefonara a
Sam e a Annabelle a dizer-lhes onde estava, e Sam pareceu admirado.
- No sabia que conseguias viajar - disse ele, preocupado. - Tens a certeza de que te faz bem estares
a?
- Quem  que est contigo?
- Um amigo do emprego. Sinto-me bem. Vejo-te em Nova Iorque, no dia de Ano Novo.
Alex deu-lhe o nmero de telefone; porm, eles nunca lhe telefonaram.
A casa que Brock pedira emprestada era simples, mas acolhedora. Havia quatro quartos e uma
espcie de dormitrio. Brock deu-lhe o quarto maior do primeiro andar e ficou com um pequeno, no
rs-do-cho; para no a incomodar.
 E sentaram-se os dois ao p um do outro, como velhos amigos, a ler e a fazer palavras cruzadas; e
fizeram pequenas batalhas de bolas de neve, como duas crianas.
Alex deu longos passeios na neve com Brock, e um dia ela chegou mesmo a tentar esquiar, mas foi
demasiado para ela. Depois da quimioterapia, no tinha foras para isso. No entanto, sentiu-se
melhor do que h vrias semanas. S houve um dia em que se sentiu mal. Ficou na cama e  noite j
estava melhor.
No dia seguinte ao da chegada, Brock descobriu um velho tren na garagem e puxou-a, para ela no
se cansar de mais.
 noite fez-lhe o jantar; quando ela lhe disse que fosse    sair com amigos, ele limitou-se a rir e
respondeu-lhe que tambm estava muito cansdo. Gostava de ficar em casa na companhia dela.
Uma noite, foram jantar ao Chez Henri, passaram uns momentos muito agradveis e, no fim da
semana, Alex sentia-se muito melhor outra vez. Estava na fase melhor da quimioterapia, o que
significava que comearia outro tratamento dentro de pouco tempo; felizmente essa altura ainda
no chegara. Nunca tivera umas frias to agradveis.
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Depressa se tornaram amigos e passaram grande parte do tempo a rir e a divertir- se.
Noutro dia, encontraram-se para almoar na estalagem depois de Brock ter ido esquiar. Alex estava
sempre a chamar-lhe a ateno para raparigas bonitas e depois apontava-lhe discretamente uma
srie de esquiadoras jovens e atraentes, em cuja companhia ela considerava que ele devia estar.
- Elas tm catorze anos! Pelo amor de Deus! Quer que eu seja preso?
- No tm! Tm pelo menos vinte e cinco anos - disse ela, fingindo-se ofendida.
-  a mesma coisa.
Nem mesmo as raparigas de vinte e cinco anos o atraam. Sentia-se feliz na companhia de Alex.
Nunca lhe dirigiu qualquer proposta, sequer velada, de ordem sexual, e isso f-la sentir-se bem.
Falaram muito de Sam. Alex admitiu que ele a magoara muito quando o vira com a rapariga  porta
da Ralph Lauren.
- Acho que o teria morto. Ou a ela. - disse Brock mas Alex limitou-se a abanar a cabea.
-Nem pensar nisso. Acabou. A culpa no  deles. Aconteceu. E, quando me vejo ao espelho neste
momento, compreendo.
- Isso  um disparate. - Brock irritava-se quando ela dizia coisas daquelas. - E se isso lhe
acontecesse a ele? Se ele perdesse um brao, uma perna ou um testculo? A Alex ter-lhe-ia dado um
pontap?
- No. Mas ns somos diferentes. E eu acho que isso  um smbolo de feminilidade. No me parece
que a maior parte dos homens resista bem a estas situaes. Nem todos os maridos so como o da
Liz.
No entanto, Liz tambm admitira que passara os seus maus bocados com o marido.
 - No creio que se deva destruir um casamento por a mulher perder um seio, um cabelo ou um
sapato. Pelo amor de Deus! Como pode aceitar uma coisa dessas? Brock estava indignado.
 Alex olhou para ele com um sorriso sbio. Era dez anos mais velha do que ele.
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- Neste momento, no tenho alternativa. O tipo no
est a aceitar a situao, Brock.  to simples como isso. A loja fechou. Ele mudou de ramo.
- Ah  isso? Desiste? - Brock estava escandalizado
com a falta de nimo de Alex.
- O que sugere que eu faa? Que d um tiro nela?
- Que d um tiro nele - respondeu Brock, com naturalidade. - Bem o merece.
- O Brock  um romntico - comentou ela, num tom
acusatrio.
- E a Alex tambm - ripostou ele.
- E ento? Isso no me paga a renda da casa nem me
devolve o marido. Ele odeia deformidades. Odeia doenas.
Nem sequer consegue olhar para mim. Viu-me uma vez
despida depois da operao, e ia desmaiando. Pu-lo doente. Isto no  um bom alicerce para um
casamento feliz.
- Encare a situao de frente. Ele  um cobarde              -Talvez seja. Mas tem muito bom gosto
no que diz
respeito a mulheres. Ela  uma rapariga muito bonita,
Brock. Por sinal, tem a idade adequada para si. Talvez devesse arrastar-lhe a asa e oferecer uma
concorrncia forte.
Brock no lhe disse que preferia arrastar a asa a Alex.
No lhe parecia o momento adequado. E ela sentia-se to 
 vontade com ele que Brock no queria estragar aquele momento. Passaram a vspera de Ano Novo
em casa, a ver televiso, a comer pipocas e a falar dos sonhos das suas vidas, das suas carreiras
profissionais e do que espervam do futuro.
Ela desejava que ele encontrasse uma mulher que tomasse
conta dele, e ele desejava-lhe sade e felicidade em tudo o que ela ambicionasse. E,  meia-noite,
cantaram Auld Lang
num unssono perfeito. Depois, ela foi para a cama e
pensou na amizade de ambos e como os bons amigos eram
raros e preciosos.
Sentiam-se ambos tristes por partirem no dia seguinte.
Alex tinha um aspecto muito melhor do que quando chegara. Registara-se nela uma mudana subtil.
Tinha mais energia e mais combatividade do que anteriormente. De repente,
estava determinada a sobreviver ao cancro.
267
A caminho de casa, Alex no disse nada, pensando que iria voltar a ver Sam, mesmo que fosse s
por uma noite. Sabia que ele partia para a Europa no dia seguinte e conven ceu-se que sabia porqu.
Para ir ter com a amiguinha. De vez em quando, Brock perguntava-lhe se ela se sentia bem, ela
respondia que sim, mas estava muito pensativa. Ele foi de mo dada com ela durante um tempo,
para a confortar. Era seu amigo e seu colega. Bons companheiros.
Chegaram quase  noite, e Brock pareceu-lhe verdadeira mente triste quando foi lev-la a casa. Alex
deixou-se ficar sentada no carro, a olhar para ele, e nem sabia como agradecer.
- Devolveu-me a vida, sabe? Passei uns dias formidveis.
- Tambm eu. - E, depois, tocou-lhe afectuosament na face. - No deixe que ningum lhe tire o
nimo. A Alex  a mulher mais sensacional que eu conheo.
Brock tinha lgrimas nos olhos ao dizer aquelas palavras e Alex comoveu-se mais uma vez. Ele
sabia chegar-lhe ao corao sem grande esforo.
- Gosto muito de si, sabe? E o Brock  um palerrma. Quem  sensacional  voc. Ir ser um marido
fabuloso e ela ser uma rapariga de sorte.
- Fico  espera da Annabelle - disse ele, com um sorriso que Alex adorava. Aquele que lhe dava o ar
de ter catorze anos outra vez.
- Ela  uma rapariga de sorte. Mais uma vez, obrigada, Brock.
Alex beijou-o na face, e o porteiro levou-lhe a mala. Naquela noite, quando Sam e Annabelle
chegaram  casa, encontraram Alex com muito melhor aspecto.
Annabelle vinha cheia de histrias da Disneylndia. Bocejava e ria-se ao mesmo tempo, quase a
dormir. Depois i beijo a Alex e adormeceu quase instantaneamente assim que pousou a cabea na
almofada.
- Parece que ela se divertiu a valer - disse Alex, sorrindo para Sam.
Tambm ele notava nela uma diferena. Nada muito ntido, mas era como se Alex tivesse feito as
pazes consigo prpria e com o que estava a acontecer.
268
- Eu tambm me diverti muito - disse Sam. - Ela faz boa companhia. Custou-me traz-la.
- Eu tive muitas saudades dela - admitiu Alex, mas nenhum deles afirmou que tivera saudades do
outro. Tambm isso desaparecera. A pretenso de que o casamento ainda existia. Ambos sabiam que
isso no era verdade.

Sam fez as malas naquela noite e, na manh seguinte, foi para Londres, enquanto Annabelle e Alex
tomavam o pequeno-almoo. Prometeu telefonar assim que chegasse  Sua, e Annabelle lembrou-
lhe que deveria voltar a tempo do seu aniversrio. Depois de ele sair, Annabelle olhou para Alex,
admirada, e assinalou que o pai se esquecera de dar um beijo  me. Dessa vez no lhe perguntou
porqu. Ela sabia. At Annabelle se apercebia da diferena.
O resto da semana passou-se a correr. Alex conseguiu lev-la s aulas de dana e passar um fim-de-
semana tranquilo com ela. Na segunda-feira seguinte, o pesadelo recomeou. Era altura de fazer
mais um tratamento por via intravenosa. E, dessa vez, Alex teve ainda mais enjoos do que era
costume. O primeiro tratamento do ms deixava-a sempre muito maldisposta, sobretudo por estar
aliado aos comprimidos de Cytoxan. Quando voltou para o escritrio, Alex teve a sensao de que
ia morrer. Teve de ir para casa cedo, de tarde. Quando Annabelle viu a me a vomitar sem d nem
piedade, desatou a chorar e ficou chocada ao v-la sem a ca beleira.
Alex foi trabalhar no dia seguinte; o dia pareceu-lhe interminvel e, por volta das cinco horas
conseguiu arrastar-se para casa. Dessa vez foi Carmen que se debulhu em lgrimas e Alex s lhe
conseguiu arrancar uma torrente histrica de palavras em espanhol. Assim que viu Annabelle,
compreendeu o que se passara. A criana cortara rentes os seus belos caracis ruivos, para ficar
mais parecida com a me.
- Oh, querida, porque fizeste uma coisa destas? - perguntou Alex a chorar, nauseada e exausta,
perguntando a si prpria como explicaria aquilo a Sam.
- Eu quero ficar parecida contigo - chorou Annabelle, sentindo-se culpada pelo que fizera e
assustada com a doena da me. E o pai partira por uma semana, o que tambm a assustava.
269
Alex tentou mais uma vez explicar a sua doena a Annabelle, e foram ler A Mam Est a Melhorar,
mas nada parecia ajudar a filha. Alex estava demasiado nauseada para imprimir muita convico ou
energia s suas explicaes, e Annabelle estava demasiado perturbada para ser razovel. Alex
recebera mesmo um telefonema da escola, a dizer que ela estava a passar por uma fase muito difcil
e que falava muito dos tratamentos e da doena da me. Annabelle no se expandia, mas a
professora sentia que ela estava aterrada pelo facto de a me estar a morrer. E Alex sentia-se
demasiado doente e assustada para ajud-la; nenhuma delas tinha qualquer apoio de Sam nesse
domnio.
E, pior ainda, parecia que a quimioterapia ia deixando Alex cada vez mais doente de ms para ms.
No fim da semana, nem conseguiu ir ao emprego; teve ainda de organizar a festa de aniversrio de
Annabelle. E sabia como isso era importante. Annabelle precisava de normalidade e da garantia de
um ambiente familiar. E h muito que esperava ansiosamente pelo dia do seu aniversrio.
Mais uma vez foi Liz quem comprou a maior parte dos presentes para ela e os artigos de papel.
Quando chegou o dia, a pastelaria enganou-se no bolo e Alex esqueceu-se de t lefonar ao palhao. A
melhor amiga de Annabelle ficou de cama, com gripe, assim como trs outras amigas, e a festa
perdeu grande parte do interesse. Todo o dia foi um desastre, mesmo com a ajuda de Carmen, e
Alex chorou quando vi o o ar de desapontamento da filha.
Sam chegara na vspera, bastante tarde, e estava descontrolado com a diferena horria e irritvel.
Alm disso, era bvio que no lhe agradara voltar e, quando viu o cabelo retalhado de Annabelle,
ficou louco.
- Como  possvel que a tenhas deixado fazer uma coisa destas? Como? Porque  que permitiste que
ela te visse sem a cabeleira? - perguntou ele, furioso.
- Eu estava a vomitar e cada no cho. Pelo amor de Deus, Sam. No posso estar sempre a
preocupar-me com a minha aparncia. Eu estou doente.
Alex no se apercebera, mas Annabelle estava a ouvi-los discutir, com um ar aterrado.
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- Ento, ela no devia estar contigo - acusou ele. Completamente aterrorizada, Alex atirou-se a ele e
esbofeteou-o. Annabelle desatou a chorar muito alto, mas os pais continuaram a discutir.
- Nunca me digas uma coisa dessas! Ela no vai para lado nenhum! E no te esqueas disso! - gritou
Alex.
- No ests em condies de tomar conta dela - berrou ele, enquanto Annabelle corria para os braos
da me.
- Estou, sim - rosnou Alex. - E, se lhe tocares, meu filho da me, levanto-te um processo por
discriminao como tu nunca sonhaste. Ela fica comigo. Entendido?
Alex agarrou-se  filha, a tremer, enquanto Sam a fulminava com o olhar, furioso.
- Ento, no tires essa cabeleira.
Sam recuou ligeiramente perante as ameaas de Alex e os soluos da filha. Annabelle no queria
separar-se da me, mas tambm detestava que eles discutissem. Calculou que fosse por causa dela,
mas nunca percebeu ao certo porqu.
Foi uma noite difcil para todos; Sam saiu assim que Annabelle foi para a cama. No dia seguinte,
Alex e ele sentaram-se e falaram a srio. Aquele sistema no estava a funcionar. Chegara a altura de
ele sair de casa e ambos tinham conscincia disso. A discusso da vspera abalara os dois. Sam,
porm, surpreendeu muito Alex ao dizer que no lhe parecia aconselhvel sair antes que ela
acabasse os tratamentos. No que lhe dizia respeito, o que se passara com o cabelo de Annabelle
parecia ser a prova disso. Sentia que precisava de estar ali para ajudar a vigiar a filha e para impedir
que ela se deixasse abater enquanto a me estava doente e a fazer o tratamento.
- No preciso de ti c como ama-seca, Sam. Podes ir-te
embora, se quiseres.
- Sairei em Maio, quando acabres a quimioterapia - respondeu ele, com firmeza.
 - No posso acreditar que me digas uma coisa dessas.
Ficas por causa da quimioterapia?
- Fico por causa da Annabelle, no caso de estares demasiado doente para tomares conta dela. E,
quando acabares,
eu saio.
271
-Estou impressionada. E, depois, Sam? Alex estava a pression-lo. Queria saber se ele ia casar com
a namorada. E quem era ela. Mas ele no estava disposto a revelar-lhe os seus segredos.
- Ainda no pensei nisso.
Alex podia adivinhar. Era bvio. Ele tinha um aspecto jovem e era magro e muito elegante. Era fcil
perceber que se sentia feliz e que estava apaixonado, e ela estava espantada por ele querer andar por
ali at ela acabar a quimioterapia, mesmo que fosse s de vez em quando. Ainda faltavam quatro
meses, e ningum mais do que Alex desejava que aquilo acabasse.
- Achas que consegues aguentar at l? - perguntou Alex, pressionando-o de novo.
- Consigo, se tu conseguires tambm. No estarei aqui sempre, mas estarei perto e disponvel, se a
Annabelle precisar de mim.
- Muito bem - resmungou Alex, debatendo-se entre o desejo de que ele ficasse e o de que ele se
fosse embora, sem saber qual seria pior. Aquela situao adiava o que era inevitvel, e ela deixara
de enganar-se a esse respeito. Sabia que dentro de pouco tempo, naquele momento ou da a quatro
meses, ele a deixaria. E, j o fizera, na maior parte das coisas.
No dia seguinte, quando Alex contou a Brock, este no queria acreditar no acordo a que ambos
tinham chegado. Fazia sentido, por Annabelle, mas era muito duro para todas as outras pessoas e
parecia eternizar a situao.
Ningum estava mais consciente desse facto do que Daphne. Mostrou-se um pouco desapontada
quando Sam lhe comunicou que ficaria em casa com Alex at Maio.
- E eu que tinha esperana de que viesses j para junto de mim!
Haviam passado uns dias formidveis na Europa. Entregavam-se um ao outro a fazer amor e
tinham-se divertido imenso em Gstaad; em seguida, ele levara-a a Paris e comprara-lhe tudo aquilo
em que punham as mos. Tinham ido  Cartier,  Van Cleef,  Herms e  Dior,  Chanel e
Givenchy e a todas as pequenas lojas das quais Daphne se
272
enamorara. Contudo, o que ela desejava verdadeiramente era
Sam, apesar de compreender a razo que o levava a adiar a
mudana para sua casa. De qualquer modo, esta era demasiado pequena para ambos. E ele falara em
comprar um
apartamento num condomnio fechado, em Maio, depois de
Alex acabar o tratamento.
- No ser por muito tempo - prometeu ele.
Alm disso, no teria de dormir em casa todas as noites. . Ia continuar a fazer o que fizera e a
passar a maior parte das noites com Daphne. Tambm queria apresent-la a Annabelle; receava
ainda que isso fosse demasiado confuso para a filha e que ela fosse contar  me. No entanto,
Daphne no o
pressionava para a conhecer. Como admitira perante ele desde o incio, no era ostensivamente
sentimental em relao
s crianas. Alis, no era ostensivamente sentimental em relao a muitas coisas. Era sensual em
relao a tudo, sempre, em qualquer oportunidade. Na Europa, tinham feito         ;
amor em todo o lado, incluindo num gabinete de prova na
Dior e outro na Givenchy. Ela era impetuosa e apaixonada,
e fazia-o sentir-se novo, outra vez, e totalmente liberto dos
seus problemas.
Alex voltou a v-los num sbado  tarde, em Fevereiro. Tinham acabado de sair do Christie's,
onde ele adquirira em
leilo um anel de esmeraldas para Daphne. Sam comprou-lhe muitas coisas e parecia sentir-se feliz
por estrag-la com
mimos. Alex ficou a observ-los. Viu-os subir lentamente
Park Avenue, indiferentes a tudo o que os rodeava. Ficara
triste ao v-los outra vez. Havia muitas coisas que a entristeciam. O modo como Annabelle ficava
quando o pai saa, ou quando falava nele, e Alex tinha de arranjar desculpas para explicar porque 
que ele no dormia em casa tantas vezes.
Entristecia-a ainda ver o aspecto do seu corpo, ou verificar que o cabelo no voltara a crescer-lhe. E
no ficou particularmente satisfeita quando a Dr. Webber lhe sugeriu que
fizesse cirurgia reconstrutiva. J decorrera bastante tempo
para que comeasse a pensar na operao, e Alex verificou
que no estava interessada. No gostava do que via, mas estava habituada ao seu aspecto.
Curiosamente, foi com Brock
que falou acerca disso, e ficou admirada ao ver que, na opinio dele,
273
ela deveria ser operada. No havia nada de que ela no pudesse falar com ele. No havia um nico
assunto ta bu. Ele era a coisa mais parecida com um irmo que ela alguma vez tivera.
- Mas qual  a diferena, se eu tiver um seio ou dois? Quem se importa com isso? - disse ela,
agressiva, depois do almoo em Le Relais, numa das suas melhores semanas sem quimioterapia.
- Importa-se a Alex, ou deveria importar-se. No pode viver como se fosse uma freira para o resto
da vida.
- Porque no? Eu fico gira de preto, e nem sequer tenho de rapar o cabelo.
Alex apontou para a cabeleira mais comprida e mais vistosa que trazia, e ele fez-lhe uma careta.
-  mesmo m. Estou a falar a srio. Um dia, vai preocupar-se com isso.
- No, no vou. Eu gosto de ser diferente. E depois? Se algum me amasse verdadeiramente, no se
importaria que eu passasse por todos esses reveses para fazer um implante? Com os diabos, no
estamos a falar do Sam. Para ele, eu teria de ter dois seios novos, para competir com a sua garota
inglesa.
- No interessa. - Brock olhou para ela, persuasivo. Continua a pensar que devia fazer a operao.
Isso f-la-  sentir-se bem. No ficar zangada consigo prpria sempre que se vir ao espelho.
- O Brock importar-se-ia? - perguntou ela, bruscamente. - Se conhecesse uma rapariga que s
tivesse um seio, qero eu dizer.
- Poderia poupar muito tempo, evitar todas essas decises difceis - respondeu ele, agora a brincar
com ela. No, no me importaria - respondeu, com sinceridade. Mas eu no sou uma pessoa vulgar
e sou mais novo. Os tipos da sua idade ligam mais s aparncias e  perfeio.
- Sim, como o Sam. Todos ns os conhecemos, muito
obrigada. - Alex ainda se lembrava muito bem da cara de Sam quando a vira. - Est bem. Portanto,
o que est a
dizer-me  que eu preciso de fazer cirurgia reconstrutiva ou s terei um homem mais novo na minha
vida. Essas so as minhas hipteses.
274
- Basicamente, sim - respondeu ele, de novo a brincar
com ela.
Alex estava bem-disposta. E havia coisas que ele sempre
quisera dizer-lhe, e que nunca dissera. Parecia que nunca
chegava o momento adequado.
- Eu continuo a pensar que so complicaes a mais.
At a mdica diz que  muito doloroso. E o processo  lamentvel. Tiram um pedao de pele de um
lado, mais um
pedao de outro, fazem tneis, abas, crculos e bossas, aplicam o implante e tatuam o mamilo. Meu
Deus, porque no
hei-de eu pintar um, se encontrar algum de quem goste?
Posso dar-lhe qualquer forma, qualquer tamanho, qualquer
cor. Podia dar-me uma ajuda... - troou ela.
Brock riu-se e atirou-lhe o guardanapo para a obrigar a
calar-se.
- A Alex est obcecada.
- Acha que pode acusar-me? Perdi um marido por causa do meu seio, e o tipo foge e encontra uma
rapariga com
dois. Acha que isto no quer dizer nada? Quanto mais no
fosse, ele  ganancioso.
- Acho que devia ser operada!
- Acho que prefiro fazer um lifting facial. Ou uma operao plstica ao nariz.
- Vamos voltar ao trabalho, antes que resolva fazer uma
operao plstica aos ouvidos.
Brock adorava estar com ela e trabalhar com ela; tambm gostava de Annabelle. Vira-a muitas
vezes quando fora
levar documentos a Alex. Annabelle achava-o divertido e
gostava de brincar com ele. Um dia, ele levara-a a esquiar, quando Alex estava bastante enjoada,
Carmen com gripe e
Sam desaparecera com Daphne.
A caminho do emprego, falaram dos processos mais recentes. Alex no ia a julgamentos h quatro
meses, mas
aproximava-se um, e ela tentava decidir se estava  altura
dele, caso Brock a ajudasse. Sentia-se tentada a isso; porm, no queria proporcionar ao cliente
menos do que aquilo que
ele merecia. Tinha muito em que pensar enquanto estivesse
a fazer a quimioterapia. E, por fim, resolveu entregar o caso
a Matt Billings.
275
Em Maro, Brock convidou-a outra vez para ir para Vermont, num fim-de-semana em que Sam
levava Annabelle. Ela aceitou o convite e passaram ambos uns dias maravilhosos. Alex tentou
esquiar e saiu-se um pouco melhor. Sentia-se mais forte e s lhe restavam oito semanas de qui
mioterapia. Estava ansiosa por chegar ao fim, mas para ela isso implicava vrias coisas. Implicava
que Sam sairia de casa e que mudaria de vida. E, apesar de ela chamar garota  namorada dele,
desconfiava que eles se casariam. Era evidente que ele estava muito envolvido com ela e mostrava-
se muito reservado sempre que Alex tentava fazer-lhe perguntas. De facto, nunca assumira que
havia mais algum, mas era bvio que Alex sabia. Sam sempre fora um cavalheiro e recusava-se a
falar disso com ela.
Tambm significava que Alex teria de seguir a sua vida. Havia que encarar o facto de Sam ter
partido, mesmo que ainda vivesse na mesma casa, naquele momento. Quando a quimioterapia
acabasse, ela voltaria a ocupar-se de julgamentos. No sabia ao certo o que havia de fazer mais. De
repente, assustava-a o facto de voltar a ficar sozinha, embora Brock estivesse sempre a dizer-lhe que
o pior j passara.
Regressavam a p dos carrossis de Sugarbush quando Brock voltou ao assunto. Alex olhou para
ele, pensativa, e concluiu que ele tinha razo. Fazer quimioterapia sem o marido era muito mau,
mas mais uma vez ela tivera Brock que sempre a acompanhara.
Uma vez, fora mesmo ao mdico com ela, para perceber melhor a situao e ver como era. Estivera
sempre de mo dada com ela. Poucas eram as coisas que ele no lhe fizera nos ltimos seis meses.
Era como se fosse um irmo para ela, e no havia nada que ela tivesse medo de dizer-lhe ou
mostrar-lhe.
Naquela noite, voltaram a falar de cirurgia reconstrutiva depois de ela lhe ter feito o jantar, e de ele
lhe ter dito
que era boa cozinheira, embora no to boa como ele.
- Isso  que sou. Sabe fazer soufl? - gabou-se ela. Pareciam duas crianas, a implicarem, a rirem-se
e
fazerem troa um do outro, quando no estavam propriamente envolvidos em assuntos mais srios.
276
- Sei - respondeu ele, mentindo.
Alex sorriu.
- Bem, eu tambm no sei.
Continuaram a falar da operao que a Dr. a Webber sugerira. s vezes, gracejavam, por estarem a
falar de coisas tristes.
- No me interessa - insistiu Alex, falando a srio.
A verdade  que no queria falar daquilo; Brock, porm,
abordara o assunto.
- Mas devia interessar- se.
Tratava-se agora de um tema familiar de conversa. De
repente, Alex voltou-se e olhou para ele. Perdera o acanhamento por completo. Ele vira-a vomitar
durante meses e vira-lhe a cabea calva. Agora Alex no via nenhum inconveniente em mostrar-lhe
aquilo de que falavam. Olhou para ele com um ar estranho, perguntando a si prpria o que ele
pensaria disso. Confiava verdadeiramente na sua opinio e no seu corao bondoso.
- Quer ver? - perguntou ela, com naturalidade, como
uma criana que se oferecesse para tirar as calas a um colega da escola.
Por instantes, sentiu-se um pouco estranha e deu uma
gargalhada nervosa; ele olhou para ela, muito srio, e fez um sinal afirmativo.
- Sim, quero. Sempre tive curiosidade de saber como
era - respondeu ele, sinceramente. - No consigo imaginar que seja to feio como diz que .
-  muito feio - advertiu ela. - No  bonito e tem
uma cicatriz. No entanto, at ela sabia que tinha um aspecto melhor do que em Outubro passado. E
depois, sem mais delongas, Alex despiu a camisola e desabotoou a blusa devagar.
Tirou-a e, aps uma breve hesitao, despiu a camisola
trmica que trazia, sem soutien. Era como se fosse um espectculo de striptease, lento e muito
respeitvel. Alex estava diante dele, em toda a sua nudez, com um seio nu e
sem o outro.
Primeiro, Brock olhou-a nos olhos, antes de olhar para
todo o lado; o modo como ela retribuiu o olhar indicou-lhe
277
que ele tinha a sua autorizao. Trocaram um olhar inocente e simples. E, quando ele olhou para
ela, o corao saltou-lhe do peito. Ela tinha um ar to doce e to jovem, e to vulnervel, com o
nico seio ainda empinado e firme, e o outro como se lhe tivesse sido arrancado com um sabre. Sem
pensar, Brock estendeu-lhe os braos e puxou-a lentamente para si. No podia mostrar-lhe o
contrrio do que sentia. Amava-a h demasiado tempo para esconder os seus sentimentos naquele
momento, depois do gesto simples e corajoso dela.
- A Alex  to bonita - murmurou ele, junto do cabelo dela. -  to perfeita e to corajosa. E to boa,
Alex. Afastou-se para poder contempl-la de novo. - Eu acho
que  formidvel.
- Com dois seios ou com um? - perguntou ela, com um sorriso tmido, sem saber porque se lhe
mostrara assim, mas sem esperar aquela reaco.
No sabia ao certo o que esperava; porm, aquela sbita ternura de Brock surpreendera-a e
comovera-a ao mximo.
- Amo-a tal como . A Alex tinha razo. - Brock apertou-a contra si, sentindo o calor do corpo dela.
Amo-a assim mesmo - disse ele, curvado sobre ela.
A confiana que existia entre ambos era incomensurvel e muito especial.
- No era isso que devia dizer - respondeu ela, baixinho. - Devia dar-me uma opinio objectiva.
Alex sentia-se de sbito atrada por ele e no o esperava. A relao de ambos fora casta at ali, e ela
no estava preparada para aquele acesso sbito de sensualidade, de amor e de emoo.
- Estou a dar-lhe uma opinio objectiva - sussurrou ele, passando-lhe os lbios pela face. - A Alex 
muito
muito bonita, e eu no consigo afastar-me de si. Depois, muito devagar, com uma ternura que ela
nunca conhecera, Brock beijou-a. Entretanto, uma mo acariciava-lhe ternamente o seio e a outra
aflorava-lhe a cicatriz, e depois o estmago e as costas. E, ao pux- la para si, Brock
segurou-a com as suas mos fortes; Alex quase sentiu que o ar lhe faltava. Depois, Brock beijou-a
ainda com mais for a. Brock. O que estamos a fazer? - perguntou ela,
278
mal conseguindo pensar. - O que estamos... O que...
Ohhh gemeu ela quando Brock lhe abriu o fecho das
calas, fez deslizar a mo l para dentro e depois lhas despiu
devagarinho.
Sem pensar, Alex tirou-as, e as mos dele comearam a
explorar-lhe as pernas, as ancas, as coxas e tudo o resto.
Despiu-se e, pouco depois, estavam ambos nus naquela casa
acolhedora onde ele a trouxera pela segunda vez. Brock deitou-a no sof em frente da lareira acesa,
e os seus lbios percorreram-lhe todo o corpo. Beijou-lhe o seio e depois a cicatriz e depois deixou
que a lngua viajasse lentamente para sul, enquanto ela se contorcia e ele a apertava contra si.
- Oh, Brock... Oh, Brock...
Alex no podia acreditar no que estava a acontecer. Como podiam estar a fazer uma coisa daquelas?
De repente, ele
era tanta coisa mais. Era uma parte do seu mundo, da sua
vida, do seu corpo, quando penetrou nela e ambos soltaram
um longo e suave gemido de prazer infinito. Durante muito
tempo, os corpos de ambos moveram-se em conjunto, enquanto a lareira ardia e as falhas saltavam
de vez em quando. Depois, de repente, ele soltou um grito impressionante e
ela teve um arrepio indescritvel, quando se vieram ao mesmo tempo. Ficaram calados e atordoados,
nos braos um do
outro. Ele desejava-a h tanto tempo, e ela nunca se apercebera do que ele sentia. Tinham crescido
juntos, lentamente, como duas rvores, com as folhas entrelaadas, e as razes que a pouco e pouco
se tornavam uma s, at nunca mais se separarem.
- Oh, meu Deus, o que aconteceu? - Alex sorriu, indolente, e ele beijou-a outra vez e depois puxou-a
mais para
si sem sair de dentro dela.
- Queres que eu te explique? - perguntou ele. - No
sabes, nem nunca sabers como eu suspirei por isto. Nunca
sabers como eu te amei, e como rezei para que este momento chegasse, se me perdoas a afirmao.

Brock exultava.
- Onde me encontrava eu enquanto isso tudo estava a
acontecer? - perguntou ela, espantada e muito feliz.
Nunca fora to feliz como naquele momento. Ele era
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sensvel, terno e incrivelmente sensual. E eram amigos h tanto tempo que agora era fcil am-lo. A
transio fora suave e intensa, e Alex sentia-se ligada a ele para sempre.
- Como  que eu no me apercebi dos teus sentimentos? - perguntou ela outra vez, sentindo-se
muito estpida.
- Estavas demasiado ocupada a vomitar.
-Assim parece. - Alex sorriu outra vez. - Ainda bem que tive a subtileza de me despir.
De repente, lembrando-se de como fora ingnua, Alex soltou uma gargalhada. Nunca imaginara
sequer que chegasse quela situao, mas estava satisfeita. No podia acreditar que tivesse feito
amor com ele, com a sua deformidade e a sua cicatriz, sem sequer ter tentado escond-las dele.
Naquele momento, Brock tirou- lhe a cabeleira com cuidado e atirou-a para o lado. No precisavam
de artificios entre eles.
- Aposto que isto significa que eu no preciso de fazer cirurgia reconstrutiva. Consegui arranjar um
tipo mais novo do que eu. No era essa a alternativa? - Alex sorriu e depois comeou a ficar
preocupada. -J pensaste na idade que eu tenho, seu jovem louco? Tenho mais dez anos do que tu.
Praticamente tenho idade para ser tua me.
Tretas. Comportas-te como se tivesses doze. No serias nada sem mim - respondeu ele,
sinceramente, sem arrogncia ou pretenso.
- Por acaso, isso  verdade. Mas, mesmo assim, sou mais velha do que tu.
- No estou impressionado.
- Devias estar. Quando tiveres noventa anos, eu terei cem.
- Eu fecharei os olhos quando fizermos amor - garantiu-lhe ele.
- Eu empresto-te a minha cabeleira.
- ptimo.
Brock pegou na cabeleira e p-la na cabea. Alex riu-se quando ele a beijou outra vez e o sentiu de
novo erecto, de repente, havia uma ansiedade nos seus beijos, uma insistncia que no se satisfaria a
no ser com o corpo dela. Fizeram amor outra vez, junto da lareira; depois, com receio de resfri-la,
Brock foi buscar um cobertor e tapou-a, e ela adormeceu
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nos seus braos. Era um homem feliz. E sabia que nunca a deixaria partir. Esperara demasiado por
ela, e ela cara nos seus braos nua e sem malcia. Agora, ele faria tudo o que
tinha a fazer para conserv-la. Ela era sua, finalmente, e no de Sam. E Brock tencionava mant-la
para sempre.

CAPTULO 17
Uma semana depois da ida a Vermont, Brock acompanhou Alex  quimioterapia e sentou-se em
silncio ao p dela durante o exame mdico, a que se seguiu o tratamento por via intravenosa. Todas
as radiografias e a TAC estavam a ter bons resultados e agora faltavam apenas sete semanas: A Dr. a
Webber estava muito satisfeita com Alex e incluiu Brock nas trocas de impresses acerca dos
tratamentos. Dirigia-se a ambos como se eles fossem um casal.
- Isto  esquisito. Alex sorriu timidamente quando apanharam um txi para regressarem ao emprego.
Ia apoiada nele e sentia os primeiros acessos de nusea; porm, estava muito descontrada na
companhia de Brock. No havia qualquer acanhamento entre eles.
- O que  que  esquisito? - perguntou ele, observando- a para se certificar de que ela estava o
melhor possvel.
- Ns. - Alex sorriu, ajustando a cabeleira, que estava torta. - As pessoas tratam-nos como se
fssemos casados. J reparaste? Ontem, em Sugarbush, o homem da mercearia julgou que tu eras
meu marido. E a Dr. a Webber age coma se me tivesses acompanhado desde o princpio. Ningum
repara que eu tenho quase idade para ser tua me?
Alex admirava-se como tudo era fcil. Tinham-se envolvido fisicamente apenas h trs dias, e a
situao j parecia totalmente natural, no s a eles como aos que os rodeavam.
- Creio que eles no reparam - comentou ele, beijando-lhe o nariz. - Uma coisa d para a outra, no
, mazinha?
- Devias estar l fora a brincar com os outros meninos de catorze anos. Com meninos saudveis de
catorze anos.
- Meta-se na sua vida, senhora advogada. A nica coisa que ambos sabiam que tinham de fazer era
manter segredo sobre a sua relao no emprego. Os scios e os estagirios no tinham autorizao
para confraternizar ou casar entre si, ou namorar; caso contrrio, um deles teria de sair da empresa.
Tratava-se de uma regra muito comum
282
nas empresas de advogados e, sendo o mais novo, Brock perderia o emprego, se algum soubesse
que eles namoravam.
Conversaram durante o caminho e pouco depois foram apanhados num engarrafamento de trnsito.
Levaram muito tempo a chegar, e os efeitos da quimioterapia surgiram a trs quarteires de
distncia do destino. Tiveram de mandar parar o txi; Brock segurou-a com cuidado enquanto ela
vomitava para uma sarjeta de Park Avenue, diante de dezenas de pessoas que estavam no passeio.
Foi terrvel, e Alex, mortificada, no conseguia parar. At o motorista sentiu pena dela. Era bvio
que no estava embriagada, mas mesmo enjoada. Brock disse ao motorista que esperasse mas no
desligasse o taxmetro. Quis lev-la a casa, mas ela insistiu em voltar para o escritrio com ele.
- No sejas teimosa, pelo amor de Deus. Precisas de ir para casa descansar.
- Tenho trabalho para fazer - afirmou Alex, sorrindo, no meio da sua infelicidade. - No penses que
mandas em mim, agora que estou apaixonada por ti.
- Isso seria demasiado fcil.
Brock pagou o txi e levou-a para cima. Teve de ampar-la; porm, nenhuma das pessoas que a viu
desconfiou de nada. Todos os scios que os conheciam sabiam que Brock era o assistente dela e que
Alex estava doente h vrios meses. As pessoas tinham muita pena do seu estado.
Liz foi fazer-lhe ch e Alex passou mais uma hora sentada no cho da casa de banho. De vez em
quando, Brock vinha ampar-la e fazer-lhe companhia.
- Isto  doentio - disse ela por fim. - Trabalhamos mais nesta casa de banho do que na minha
secretria.
- No ser por muito mais tempo - lembrou ele. E merecera a pena. Segundo a Dr. Webber, o cancro
desaparecera, e esperava-se que fosse para sempre.
Brock levou-a a casa s cinco horas e depois voltou para o emprego, onde ficou at s nove.
Naquela noite, antes de sair do escritrio, telefonou-lhe. Sam estava outra vez fora e Brock
perguntou a Alex se podia passar l por casa para v-la.
- Apetece-te? - perguntou ela docemente.
283
- Claro. Adorava ver-te.
Alex ainda estava admirada com o que acontecera entre eles no fim-de-semana, mas os efeitos
brtais da quimioterapia no lhes permitiam fruir o prazer de estarem juntos. Ainda se lembrava dos
momentos deliciosos que haviam passado em Vermont. Tinham sido um sonho. Meia hora depois,
Brock chegou. Trouxe-lhe flores e beijou-a com cuidado, assim que a viu. Ela estava de camisa de
dormir e de roupo; o roupo abriu-se quando ele a beijou e acariciou. Alex pusera uma das
cabeleiras antes de ele chegar, e ele ralhou-lhe por isso e lembrou-lhe que ela no era obrigada a
us-la por causa dele.
- Acho que prefiro ver-te sem ela. Ficas mais sensual.
- Ests doido.
- Por ti - disse ele em voz baixa, metendo-a na cama e beijando-a outra vez. Em seguida, foi 
cozinha e ps as flores numa jarra. Alex estava com muito melhor aspecto do que de tarde, e ele
sentou-se  beira da cama e falou com ela durante muito tempo, passando um dedo indolente por
todas as partes do corpo dela que o atraam.
- Sou um homem de sorte - disse ele, observando-a. Desejara-a durante tanto tempo, quisera estar
ali por ela e para ajud-la. Quisera salv-la das garras de Sam e agora ela viera ao seu encontro, por
si s. Era o destino.
- s um rapazinho tolo - afirmou ela, sorrindo; no
entanto, era bvio que ele j no era um rapaz, mas sim um homem. Alex, porm, no podia
esquecer-se de que ele era mais novo do que ela. No entanto, isso fazia-a sentir-se segura e to
protegida.
- Onde est o Sam a esta hora? - perguntou ele casualmente, sentado na cama a seu lado, por convite
dela.
- Em Londres, outra vez. Mal o vemos. Ele diz que
fica apenas at eu acabar a quimioterapia. E que depois se vai embora. Acho que anda  procura de
casa. Um agente imobilirio telefonou-me a semana passada por causa de um apartamento com
terrao na Quinta Avenida. Aposto que ele tenciona ir viver l com a namorada.
Alex tentou no se mostrar afectada por isso, mas estava.
Ainda se sentia magoada pelo facto de ele a ter trado.
284
- Vais pedir o divrcio?
- Ainda no. No  pressa. Isso no faz qualquer diferena. Agora seguimos rumos diferentes.
Todavia, o assunto era importante para Brock. E ele sabia que era cedo de mais para for-la a isso.
Mas queria-a
para si e queria viver com ela. Queria Sam fora do circuito.
Fez-lhe companhia at s onze horas. Depois, meteu-a na
cama, apagou as luzes e saiu.
Na noite seguinte, Brock fez o jantar para ela e para
Annabelle. Depois, ele e Alex foram trabalhar e dessa vez,
quando foi deit-la, Brock teve de fazer um esforo para
se dominar. Ela estava to bonita e ele ansioso por fazer
amor com ela outra vez; ela, contudo, ainda no se sentia
bem, e nenhum deles queria arriscar-se a acordar Annabelle.
A criana tinha-se divertido a brincar com ele e no imaginava o que estava a acontecer. Aceitava-o
como amigo, sem
qualquer resistncia.
No fim-de-semana, Alex voltou a melhorar e Carmen
foi trabalhar no sbado de manh, podendo Alex ir passar o
dia com Brock, no apartamento dele. No saram da cama
durante todo o dia, e Alex nunca imaginara que fazer amor
com algum pudesse ser assim. Ele era espantoso. Sentiam-se completamente  vontade nos braos
um do outro e com
os corpos um do outro. No havia nada a esconder, a recear ou a calar. Passaram horas a fazer amor,
num abandono total.
E, no domingo, ele veio passar o dia com ela e com Annabelle. Alex disse  filha que tinham de
trabalhar, mas no       ;
fizeram nada. Foram ao jardim zoolgico, almoaram e depois levaram Annabelle ao parque infantil
e ficaram a v-la
brincar com as outras crianas, sentados, como todos os outros pais.
- Devias estar com algum da tua idade - insistiu
Alex, mas num tom menos convincente do que antes, ao
lembrar-se que tinham estado juntos na vspera. Agora seria duro desistir dele. Tudo nele, a sua
mente, o seu corao, a sua ternura para com ela, o seu corpo, a atraa. - Devias ter filhos.
- Podes ter mais filhos? - perguntou ele casualmente.
285
No era uma coisa que o preocupasse. Gostava de Annabelle e no rejeitava a hiptese de adopo.
- No creio. Tentei engravidar desde que tive a Annabelle, mas no consegui, embora ningum
descobrisse porqu. E a doutora Webber diz que metade das mulheres da minha idade ficam estreis
depois da quimioterapia. No sei o que aconteceria, mas em todo o caso no devo engravidar
durante os prximos cinco anos e depois j serei demasiado velha para isso. Tu merces melhor,
Brock.
- Estou farto de dizer isso a mim prprio. - troou ele, arreliador.
Alex empurrou-o.
- Estou a falar a srio.
- Isso no me incomoda. No sei se teria pena de no ter filhos meus. Considero que a adopo 
uma grande coisa. Ou tens alguma objeco? - perguntou ele, curioso.
Havia coisas que ainda queria saber a respeito dela.
- Nunca pensei nisso. Podia ser agradvel. Mas no achas que um dia virs a ressentir-te do facto de
no teres um filho do teu sangue?  uma coisa maravilhosa - declarou ela, olhando para Annabelle e
depois para ele. - Eu no sabia o que isso era seno depois de ela nascer, e apercebi-me do que
perdera. Quem me dera ter comeado mais cedo!
- No tiveste tempo. Com uma carreira profissional como a tua. Nem sei como consegues.
-  um acto de prestidigitao. Tens de estar sempre a estabelecer prioridades e s vezes estragas
tudo. Mas resulta quase sempre. Ela  uma criana formidvel e eu tento acompanh-la o mais que
posso. O Sam tambm  muito bom para ela, quando c est.
No entanto, at quele momento, Brock nunca soubera nada acerca de Sam que o tivesse
impressionado.
Naquela noite, foram ambas jantr fora com Brock, nu
restaurante da Rua Oitenta e Quatro. Brock contou histrias divertidas a Annabelle e fez imitaes
para ela se rir. No fim do dia, eram todos bons amigos. E, no dia seguinte, ele levou Alex  consulta
da Dr. a Webber. Nunca mais a deixara ir sozinha: agora, ela pertencia-lhe. Depois, recomeou tudo,
os vmitos, a fadiga e as duas ou trs semanas boas, at ao tratamento seguinte. Porm, o tempo
parecia voar.
286
Aproveitavam todos os momentos que tinham, em casa dela,  noite, quando Sam l no estava, o
que acontecia quase sempre, ou em casa dele, quando Carmen dormia em casa de Alex. Durante o
dia, tinham fome um do outro. E, uma vez, chegaram mesmo a descontrolar-se na casa de banho do
gabinete de Alex. Ele sara com a camisa mal abotoada e a gravata de lado e Alex rira-se tanto que
mal conseguia dominar-se. Eram como duas crianas: divertiam-se e mereciam-no. Alex pagara um
alto preo por tudo isso. E Brock esperara muito tempo por ela. Nunca nenhum deles fora to feliz e
at Annabelle gostava muito dele, assim como Carmen. Esta continuava furiosa com Sam por tudo
o que ele no fizera por Alex nos ltimos seis meses, e era agradvel ver a patroa feliz outra vez.
At Liz percebera e ficara satisfeita por ambos, mas fingia no dar por isso.
Trabalhavam sempre juntos, ainda mais do que dantes, e consultavam-se mutuamente sobre tudo o
que dizia respeito ao trabalho. Alex partilhava todos os casos com ele, e ningum estranhava,
porque ela estava muito doente desde o Outono e confiava muito nele para a ajudar. Todos pareciam
muito impressionados com o sistema que os dois adoptavam e com os resultados. Era a relao
perfeita, e eles estavam sempre juntos. Nenhum deles parecia cansar-se da companhia do outro.
Pelo contrrio, adoravam-na.
At Sam reparou que ela estava diferente. Parecia mais feliz e despreocupada; e, nas raras vezes em
que se encontraram ao pequeno-almoo, ela brincou um pouco com ele e no lhe pareceu to
irritada.
Em Abril, Alex perguntou-lhe finalmente quando  que ele saa de casa, num dia de manh em que
Carmen fora levar Annabelle  escola e estavam ambos a acabar de tomar o pequeno-almoo e a ler
os jornais.
- Ests com pressa que eu saia? - perguntou ele, um pouco admirado.
- No - respondeu ela, tristemente. - Mas os agentes imobilirios esto sempre a telefonar-te.
Julguei que j tinhas encontrado alguma coisa. No  possvel haver assim tantos apartamentos em
Nova Iorque.
Telefonavam de dia e de noite. E Daphne andava a
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pression-lo. Fora paciente durante muito tempo e agora queria-o para si. Ele sentia-se sempre um
pouco dividido entre voltar para casa  noite e ficar com ela. No era que quisesse ir, mas sentia-se
culpado por causa de Annabelle, como se fosse obrigado a estar l de manh.
- Ainda no encontrei nada. Depois, digo-te - respondeu ele, friamente. - De qualquer modo, ainda
no acabaste os tratamentos - lembrou.
Por instantes, Alex teve a sensao de que ele estava a retardar a sada. Sabia, porm, que ele no
queria deixar a filha.
- Acabo dentro de quatro semanas - informou ela, com uma voz aliviada.
J tinham passado cinco meses, os mais longos da sua vida, mas esse perodo estava quase a acabar.
Ela e Brock no conseguiam falar de outro assunto, e das coisas que fariam quando ela se sentisse
melhor. J iam ao cinema e tinham ido  estreia de uma pea de teatro. Ela queria ir  pera com
ele; contudo, ainda no tivera foras. Tinham falado em comprar assinaturas para a temporada
seguinte, mas talvez fosse um grande compromisso.
- E tu? - perguntou Alex a Sam, tentando mostrar-se
natural. - O que fazes este Vero? Ou ainda no pensaste nisso?
- Eu.. Bem. No sei ainda. Talvez v  Europa um ou dois meses.
Fora o mais vago possvel. Sabia que Daphne queria passar uns tempos no Sul de Frana, e Simon
falara- lhe de um iate fabuloso que estava para alugar. Era um programa um pouco mais ambicioso
do que os Veres que costumavam passar em Long Island e das frias no Maine; por outro lado, ele
tinha posses para isso, e parecia-lhe divertido. Sentia que devia proporcionar uma poca especial a
Daphne, depois de toda a pacincia que ela tivera durante o Inverno.
- Um ou dois meses na Europa? - Alex olhou para
ele, admirada. - Os negcios devem estar a correr muito bem!
- E esto. Graas ao Simon.
- E quanto a Annabelle? Leva-la contigo?
- Uma parte do tempo. Creio que ser divertido para ela.
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Daphne tambm passaria duas semanas com o filho, embora a ideia no a entusiasmasse muito.
Enquanto Alex o escutava, perguntou a si prpria como seria a namorada dele e de que modo
trataria a sua filha. Era uma questo que teria de ser resolvida antes do Vero.
- A Annabelle no sabe que vais sair de casa - lembrou-lhe Alex. Tinham de encarar esse facto, mas
ainda era demasiado cedo e ele ainda no encontrara casa. - Vai ser duro para ela. - Seria duro para
todos, e sabiam-no. No era fcil acabar com dezassete anos de casamento, mesmo depois de toda
aquela preparao.
- Ela vai ficar furiosa comigo - disse Sam, desolado, esperando que a filha gostasse de Daphne e lhe
tornasse as coisas um pouco mais fceis.
Daphne era to jovem, engraada e bonita, pensou ele. Como  que algum poderia no gostar dela?

- Ela h-de aceitar isso.
Tinham ultrapassado uma srie de situaes difceis naquele ano. No entanto, ultimamente,
Annabelle parecia um pouco menos preocupada com a me.
- Parece que ests a sair-te bem - comentou ele, observando-a e pressentindo algo diferente e mais
feminino nela.
Parecera-lhe to mortia naqueles primeiros meses; agora, parecia-lhe regressar lentamente  vida.
Isso fazia-o sentir-se melhor, quanto  sua sada de casa, e pior, ao mesmo tempo.
Surpreendentemente, tambm o fazia sentir a falta dela.
- Eu sinto-me bem - garantiu ela.
Porm, falar com ele ainda a entristecia e irritava, s vezes. Era difcil no ser assim. E ainda era
mais difcil no pensar na rapariga pela qual ele ia deix-la. Alex vira-o outra vez com ela, num
restaurante, mas ele ainda no sabia. No entanto, Alex ficara destroada.
Naquele dia, quando saiu para o emprego, Sam ia ainda a pensar em Alex e a recordar como tinham
sido felizes e algumas das coisas divertidas que haviam vivido juntos. Como ela era selvagem e
simples quando ele a conhecera! To inteligente e bela. Sam sempre gostara da sua frontalidade, da
sua honestidade, da sua integridade e do seu sentido de
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honra. Sabia que todas essas qualidades ainda l estavam, mas era como se ela fosse uma estranha.
No podia deixar de reconhecer que a culpa era, em grande parte, sua.
- Hoje ests ajuizado - comentou Daphne, em tom de admoestao, quando ele a viu no seu
gabinete, um pouco mais tarde.
- No, estou apenas a pr em ordem as coisas em casa. Temos mesmo de arranjar um apartamento.
Sam queria iniciar uma nova vida para poder comear a esquecer a antiga por completo. Excepto no
que dizia respeito a Annabelle, evidentemente. Sabia que era altura de apresent-las uma  outra.
Alex no poderia dizer grande coisa naquele momento, mesmo que Annabelle lhe contasse o que
iria acontecer, e h muito que ele sentira que Alex sabia que havia outra mulher, embora nunca o
tivesse confessado, nem imaginasse que ela os vira.
- Viste alguma coisa de que tivesses gostado esta semana? - perguntou ele, esperanado.
Era exasperante. Tinham visitado todos os pequenos apartamentos que havia em Nova Iorque e
surgia sempre qualquer inconveniente. A maior parte deles precisava de ser bem decorada e
reconstruda.
-  to estpido, de facto - lamentou-se Daphne.
H sempre quartos a mais, ou vista a menos, ou  um andar muito baixo e muito barulhento.
Tambm pretendiam um apartamento com lareira e,
de preferncia, com vista para o parque ou para o rio. Gostariam de ter vista para Central Park e
procuravam na Quinta Avenida. Sam estava disposto a pagar mais de um milho. Poderia hipotecar
o apartamento e, com os lucros do seu ltimo negcio, isso no seria problema.
Alex j afirmara que no queria nada dele, excepto
uma penso para Annabelle. Estava a ser muito decente e tinha o seu emprego como advogada. No
queria o dinheiro de Sam. O que ela quisera ele no lhe dera.
- No fiques assim to taciturno - aconselhou Dapne, adulando-o, depois de fechar a porta do
gabinete e sentar-se-lhe ao colo, roando-se nele.
Sam sorriu timidamente. Sabia que estava a ser tolo
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por ter remorsos em relao ao passado. O passado acabara.
Fora bom, mas o presente era melhor. E, como de costume,
quando ele meteu a mo debaixo da saia de Daphne, os seus
 dedos no encontraram obstculos. Ela no usava roupa interior, nem collants, e ele adorava isso.
De vez em quando,
vestia um cinto de ligas e meias, e tinha uma coleco fabulosa de soutiens sexy, mas as cuecas
eram algo que Daphne h muito dispensara.
- Tenho reunies marcadas para esta manh, Miss Belrose? - perguntou ele, beijando-a, enquanto
ela lhe abria a braguilha e o acariciava com os seus dedos hbeis.
- Creio que no, Mister Parker - respondeu ela, num
tom muito britnico. - Oh, espere... Sim... Lembrei-me
 agora de uma... Ah, c est...
 Daphne despiu-lhe as calas e colou os lbios ao seu corpo, enquanto Sam se recostou na cadeira,
com um gemido
de prazer. A reunio no durou muito, mas foi extremamente agradvel; quando ela saiu do gabinete
dele pouco depois, ia a sorrir e tinha a saia ligeiramente amarrotada.

CAPTULO 18
A agulha entrou na veia de Alex pela ltima vez e depois
saiu de novo, numa tarde de Maio. Brock estava sentado
ao seu lado e ela chorou de emoo quando aquilo acabou.
Ainda tinha cinco comprimidos de Cytoxan para tomar, mas
depois ficaria livre. Fizera uma ltima radiografia, uma contagem de glbulos e uma mamografia.
Estava limpa. Sobrevivera a seis meses terrveis de quimioterapia, e ele ajudara-a.
Despediu-se da Dr.a Webber e marcou uma consulta para
da a seis meses; apesar de estar enjoada, sentiu-se livre
quando saiu do consultrio.
- O que vamos fazer para comemorar? - perguntou
Brock quando estavam na Rua Cinquenta e Sete, a olhar um
para o outro, aliviados e incrdulos.
- Tenho uma ideia - disse ela, olhando para ele com
um ar travesso.
No entanto, ambos sabiam que da a uma hora ela estaria
de novo a vomitar. Todavia, seria tambm a ltima vez.
Nunca mais voltaria a acontecer. Alex tinha a certeza disso.
No o permitiria.
Voltaram para o escritrio e passaram uma tarde calma.
Ela teve enjoos, mas no to maus como era costume. Parecia que at o corpo dela sabia que sofrera
o ltimo ataque,
o ltimo terrvel ataque.
E, naquela noite, Alex deitou-se nos braos dele, com
a porta fechada  chave, no fosse Annabelle acordar. Tinham
finalmente desistido de ser castos em casa dela. Sabiam
que, se Sam no estava em casa por volta das nove ou dez horas, era porque no vinha, e naquela
noite no foi diferente.
- O que vamos fazer agora, Alex? - perguntou Brock.
Tinham voltado a falar de Long Island. Ela queria alugar
uma casa com ele para passarem o Vero, e um dos
amigos oferecera-lhe a sua casa em East Hampton, o que era
tentador. Alex no queria prejudicar Brock devido s
regras de convenincia estabelecidas pela empresa; porm,
292
estava convencida de que isso no iria acontecer. E estavam to bem camuflados que ningum
desconfiaria de nada ao v-los juntos.
- Gostaria imenso de fazer uma viagem contigo - disse ele.
- Onde?
Alex adorava sonhar com ele. A vida de ambos em conjunto fora um sonho at ento, uma promessa
para o futuro.
- Paris. Veneza. Roma. So Francisco - disse ele, mais realista.
- Vamos a isso - concordou ela, de repente. H um ano que Alex no gozava frias e, embora tivesse
muito tempo  sua frente, sofrera tanto que sentia que podia afastar-se por alguns dias.
- No temos de ir ao tribunal no ms que vem, isso j eu sei. Porque no vamos passar uns dias
fora? Seria divertido.
- Combinado - respondeu ele, radiante. - Vais aceitar
a casa em East Hampton?
- Creio que sim - decidiu ela, enquanto estavam ali
deitados.
De repente, podiam fazer planos, podiam orientar a sua
vida. Podiam ir para fora. Ela era de novo uma pessoa real,
com esperanas e sonhos e, com sorte, com futuro.
As semanas seguintes foram frenticas para Alex. Continuava embrenhada no trabalho e aceitou
ainda mais responsabilidades relacionadas com julgamentos futuros. Chamou
a si toda a sua carga de trabalho, e o ltimo dia do Cytoxan
passou-se quase sem novidade. No primeiro dia de Junho, j se sentia mais forte e mais igual a si
prpria. Iam para So Francisco no fim do ms; no entanto, antes disso, ela e Sam tinham de falar
com Annabelle e anunciar-lhe que o pai ia
sair de casa.
Sam encontrara finalmente uma casa com terrao, que
lhe agradava. Ficava perto do stio onde viviam, e tinha uma sala de estar com uma vista
espectacular, uma bela casa de
jantar, trs quartos, instalaes para a empregada. Custava
uma fortuna mas Daphne adorou-a.
293
- Podemos? - suplicou ela, como uma menina que pedia uma nova boneca, e ele no teve coragem
de dizer que no. Apesar do preo, era um belo apartamento. Tinha uma grande suite para os donos
da casa, um quarto para Annabele e um quarto de hspedes, onde Sam disse que o filho de Daphne
poderia ficar quando fosse visit- los. Ela, porm, replicou que preferia ir v-lo a Inglaterra.
Acrescentou que era muito longe para uma criana de cinco anos vir sozinha e as criadas eram to
enfadonhas que ela nem pensava em mand-las vir com ele. Tinha sempre bons motivos para no o
trazer, e s vezes Sam perguntava a si prprio se ele seria um sentimentalo ou se ela no prestaria
como me. Talvez ambas as coisas fossem verdadeiras, mas ele no se importava com isso. Naquele
momento, tinha de concentrar-se em Annabelle e, pouco antes do Dia dos Mortos em Combate Sam
e Alex chegaram a casa cedo e disseram-lhe.
- O pap vai-se embora? - perguntou ela, com os olhos marejados de lgrimas e uma expresso de
pnico.
- Fico apenas a trs quarteires daqui - informou
Sam, pegando-lhe ao colo, mas ela debateu-se, totalmente angustiada.
- Porqu? Porque se vai embora?
O que fizera ela? O que tinham eles feito? Porque acontecia uma coisa assim? Annabelle no
entendia. E os pais viram-se obrigados a combater as lgrimas e a consol-la.
- Eu e a mam pensamos que  melhor assim, querida - disse Sam, tentando acalm-la e explicar a
situao com simplicidade. - De qualquer modo, eu tambm no passo aqui muito tempo. Viajo
muito. E eu e a mam pensamos...
Como haviam de explicar aquilo, a uma criana de quatro anos? Eles prprios no sabiam ao certo
se entendiam a situao. Como poderiam explicar-lha agora?
- Eu e a mam pensamos que todos seremos mais felizes se ela tiver a casa dela e eu a minha. Tu
podes ir
Geralmente a 30 de Maio. (N. da T. )
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visitar-me sempre que quiseres e passar os fins-de-semana comigo. Podemos fazer montes de coisas
divertidas. At podemos ir outra vez  Disneylndia, se quiseres.
Contudo, Annabelle era mais esperta e estava ao lado da
me. O suborno no resultou.
- No quero ir  Disneylndia. No quero ir a lado nenhum. - E, depois, o argumento fatal: -J no
gostas de
ns, pap?
Sam quase sufocou ao ouvir aquelas palavras e apressou-se
a sosseg-la.
- Claro que gosto muito de ti.
-J no gostas da mam? Ainda ests zangado com ela
por ter adoecido?
A resposta correcta teria sido sim, mas a franqueza em Sam no chegava a esse ponto.
- Claro que no. Claro que no estou zangado com ela.
E gosto muito dela. Mas ns... - Mais uma vez, Sam teve
de reprimir as lgrimas, enquanto Alex pegava em Annabelle. - No queremos estar casados por
mais tempo. No como era costume. Queremos viver em stios diferentes.
- Vo-se divorciar?
Annabelle estava verdadeiramente chocada. Ouvira falar
daquilo na escola, a Libby leinstein. Os pais dela eram divorciados e a me voltara a casar e tivera
gmeos, mas a situao no agradava a Libby.
- No, no vamos divorciar-nos - respondeu Sam,
com firmeza, embora Alex no soubesse ao certo porque
no o fariam.
De que valia morrer aos poucos? Mas nenhum deles parecia estar preparado para dar o passo final, e
no havia pressa. Por isso, conseguiram sossegar Annabelle, pelo menos
naquele momento.
- Vamos apenas viver em casas separadas.
- Eu no quero que vocs faam isso - ripostou Annabelle, olhando para o pai com um ar furibundo.
Depois,
com um gesto sbito, voltou-se no colo de Alex e olhou para a me. - A culpa  toda tua, por teres
adoecido. Ele ficou zangado connosco e agora vai-se embora. Foste muito
m! Fizeste com que ele nos detestasse!
295
A criana falou com tal veemncia que nenhum dos pais estava preparado para encarar a situao.
Annabelle libertou-se dos braos de Alex, correu para o quarto e bateu com a
porta. L dentro, atirou-se para cima da cama e desatou a soluar, inconsolvel. Ambos tentaram
falar com ela, mas em vo. Por fim, Alex resolveu deix-la sozinha por algum tempo e foi para a
cozinha, em silncio. Sam j l estava, a olhar para ela, mudo de desgosto e de remorso. Nunca se
sentira to mal na sua vida, agora que olhava para Alex.
- Como de costume, a culpa  toda minha - salientou Alex, desolada.
Ele abanou a cabea, sentindo-se to mal como ela.
- Ela acabar por me odiar, no te preocupes. A culpa no  de nenhum de ns,  assim mesmo. Foi
o que aconteceu.
- Ela vai ultrapassar isto - afirmou Alex, sem convic o. Acontecia o mesmo a todas as crianas. -
Ela ver que tu no ests assim to longe e, se te vir com frequncia, sentir-se- bem. Tens de fazer
esse esforo.
- Evidentemente - concordou ele, aborrecido com o sermo. - Eu quero t-la comigo sempre que me
deixares.
- Podes t-la quando quiseres - respondeu Alex gen rosamente, mas incomodada com aquela
sensao, como se estivessem a dividir castiais e no a filha. Depois, olhou para ele, recordando-se
dos planos que tinham feito. E quanto a este fim-de-semana?
Sam manifestara o desejo de levar a filha para Hampton no fim-de-semana do Dia dos Mortos em
Combate. Alugara uma casa por quatro dias e pensava que seria divertido para ela. Alex concordara.
- Gostaria de lev-la comigo, se ela quiser vir.
- Ela est zangada comigo, e no contigo. Lembras-te?
Alex e Brock iam passar o fim-de-semana prolongado a Island. - Ela vai sentir-se bem - insistiu
Alex, para o sossegar, e depois foi ver como estava a filha.
Annabelle calara-se e estava estendida na cama, com
ar desolado.
- Desculpa, querida - disse-lhe Alex, com ternura. Eu sei que isto custa. Mas o pap continua a
gostar muito de ti e vai ver-te muitas vezes.
296
- E tu continuas a levar-me s aulas de dana? - perguntou Annabelle, confusa.
Era muita coisa para uma criana de quatro anos. Alex
era da mesma opinio e tinha quarenta e trs. E Sam acabara
de fazer cinquenta.
- Claro que te levo s aulas de dana. Todas as sextas-feiras. No vou adoecer mais. Acabei de
tomar os meus remdios.
- Todos? - perguntou Annabelle, desconfiada.
- Todos - confirmou Alex.
- O teu cabelo vai crescer outra vez?
- Acho que sim.
- Quando?
- Daqui a pouco tempo. Podemos ser gmeas outra vez.
- E no vais morrer?
Aquele era o ponto crucial para todos, e uma promessa
difcil.
- No. - Era mais importante sosseg-la naquele momento do que ser completamente sincera. No
havia garantias,
mas tambm no havia qualquer indcio de recorrncia. - Eu
no vou morrer. Estou de boa sade.
- Ainda bem! - Annabelle sorriu, quase disposta a perdoar a Alex o facto de ter perdido o pai. -
Porque  que o
pap tem de ir-se embora neste momento? - perguntou, a
choramingar.
Era to difcil explicar-lhe.
- porque se sentir mais feliz. E isso  importante para ele.
- Ele no  feliz aqui connosco?
- Agora, no.  feliz contigo. Mas no comigo.
- Eu bem disse que ele estava zangado contigo. Devias
ter-me dado ouvidos - disse Annabelle, em tom de censura. Alex riu-se. Iam ficar bem. Todos
tinham sobrevivido.
Haviam conseguido ultrapassar as coisas ms e desagradveis.
Alex voltou para junto de Sam, antes de ele sair, e foi encontr-lo a fazer a mala no quarto de
hspedes. A maior parte das suas coisas ainda l estava, mas ele avisara-a que se mudaria dentro de
duas semanas. Ficaria um ms no Carlyle
297
at o apartamento estar pronto. No quisera mudar-se para casa de Daphne, e o Carlyle parecia-lhe
ser um bom meio-termo, e um stio agradvel para Annabelle ir visit-lo.
- Ela est bem. Est abalada, mas vai habituar-se - comentou Alex tristemente.
- Na sexta-feira, vou busc-la  escola e levo-a comigo para Southampton. E depois trago-a na
segunda- feira  noite.
- Est bem - concordou Alex, apercebendo-se de que tinham entrado numa fase completamente
nova.
Apesar das idas e vindas de Sam durante os ltimos seis meses, a situao tornava-se agora oficial.
Tinham falado com Annabelle. Iam separar-se, no divorciar-se, mas separar-se. Agora, o mundo
era outro.
- Pobrezinha! - disse Brock, compadecido, quando Alex lhe contou o que se passara,  noite. - Deve
ser-lhe muito difcil compreender uma situao dessas. J  dificil para os adultos.
- Ela culpa-me pelo que aconteceu. Disse que, se eu no tivesse adoecido, ele no se teria zangado
connosco. H uma certa verdade nisto, mas eu acho que estava tudo ali,  flor da pele. Suponho que
no tinha o casamento perfeito que eu julgava ter. Caso contrrio, ele no se teria desmoronado to
depressa.
- Creio que aquilo que sofreste afectaria muitas relaes - comentou ele, tentando ser imparcial.
Alex fez um sinal afirmativo e depois lembrou-se de uma
coisa.
- Um destes dias, quero conhecer a tua irm. Brock abanou a cabea, mas no disse nada. Depois
Alex distraiu-se quando falaram dos planos para Fire Island. Parecia que o fim-de-semana ia ser
divertido. Ficariam num hotelzinho antigo e excntrico em The Pines, e Alex sabia por experincia
prpria que, quando entrasse no barco e sentisse o ar salgado na cara, deixaria os seus problemas
para trs. Era disso mesmo que precisava.
 Sam podia ter optado por um fim-de-semana semelhante quele. Foi buscar Annabelle  escola,
pegou na mala dela,
levou-a a almoar, antes de irem buscar Daphne e de
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partirem para Southampton. Queria almoar a ss com Annabelle, primeiro, para prepar-la; a
criana, contudo, parecia mais confusa do que nunca. A ideia de que havia outra mulher na vida dele
parecia-lhe inimaginvel.
- Ela vem passar o fim-de-semana connosco? - perguntou Annabelle, olhando para ele, estupefacta.
- Porqu?
- Ora. - Sam procurava uma resposta adequada, sentindo-se de repente muito estpido. - Para me
ajudar a tratar de ti, para nos divertirmos mais.
Era uma resposta idiota e ele sabia.
- Como a Carmen? - perguntou ela, de novo confusa.
Sam soltou uma gargalhada nervosa.
- No, minha palerma. Como amiga.
- Como o Brock?
Esta era, pelo menos, uma referncia que ela entendia, e Sam agarrou- se a isso.
- Exactamente. A Daphne trabalha comigo no escritrio, tal como o Brock trabalha com a mam. -
Havia mais semelhanas do que aquelas que ele sabia, mas Sam no desconfiava de nada. - E ela 
minha amiga e vem passar o fim-de-semana connosco.
- Vais trabalhar com ela, como a mam trabalha com o Brock?
- Bem, talvez. Mas, de facto. No, pensmos em divertir-nos e em brincar contigo durante todo o
fim-de-semana.
- Est bem. Parecia- lhe uma situao idiota; pelo menos, estava disposta a conhecer Daphne. No
entanto, as ideias que Sam tinha para o fim-de-semana eram completamente diferentes das de
Daphne.
Por que diabo no trouxeste uma pessoa para tomar conta dela? - Daphne olhou para ele, incrdula,
quando ele foi busc-la a casa. Annabelle ficara no carro. Sam tinha as 4 chaves e espreitava-a da
janela. - Ou pelo menos uma empregada. No conseguiremos ir a lado nenhum com uma criana
dessa idade. Ficaremos amarrados durante todo o fim-de-semana. Tratava-se de uma faceta de
Daphne que ele nunca vira, e ela no estava nada satisfeita quando ele lhe pegou na mala.
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Desculpa, querida - disse ele. - Nem sequer pensei
misso.
Ele e Alex sempre tinham tomado conta de Annabelle quando iam para fora, e nunca houvera
problema. Porm, mais uma vez, ela era filha de ambos, e eles eram casados. Para a prxima vez,
trago a Carmen, prometo.
Sam deu-lhe um beijo e Daphne acalmou. Levava um vestido de algodo azul e via-se-lhe o peito 
transparncia. Sam j sabia que ela no trazia nada por baixo.
- Vais ador-la - prometeu ele, quando desciam as es cadas. - Ela  adorvel.
Daphne, contudo, no a achou particularmente adorvel e mostrou-se bastante desconfiada.
A viagem at Long Island foi prdiga em perguntas, respostas desajeitadas e mentiras sem
importncia; quando chegaram, Sam estava a transpirar e parecia muito nervoso. Foi pr a bagagem
de Daphne no quarto ao lado do seu e a de Annabelle num quarto do outro lado do corredor. Daphne
soltou uma gargalhada sonora ao perceber o estratagema:
- Ests a brincar, no ests, Sam? Ela tem apenas quatro anos e no percebe o que se passa.
Daphne no se importava com o que Annabelle diria  me. Mas ele importava-se.
-Julguei que poderias deixar as tuas coisas ali. Ela no precisa de saber onde dormimos - sugeriu
ele.
- E se ela tiver um pesadelo?
Sam nem pensara nisso. Daphne parecia perceber mais de crianas.
- Iremos ao encontro dela.
Sam resolvera o problema, mas Daphne riu-se dele outra vez.
- Vais dizer-lhe que no saia da cama, sob pena de a matares, no vais, querido?
- Est bem, est bem.
Sam sentiu-se estpido e desconfortvel. Teve de passar a tarde a admitir que Annabelle era um
autntico fedelho, que comia doces em demasia, e que passava muito tempo ao sol sem chapu.
Annabelle vomitou o jantar todo em
cima de Daphne.
300
- Encantadora - comentou Daphne, muito aborrecida, quando Sam tentava limp-la. - O meu filho
est sempre a fazer o mesmo. J tentei explicar- lhe que  extremamente feio.
- A minha mam est sempre a vomitar - afirmou
Annabelle, na defensiva, fulminando-a com o olhar.
Sabia que no eram amigas, e no iam s-lo, dissesse o
        pap o que dissesse. Ela no era como o Brock. Era m e desagradvel. E estava sempre a
mexer no pap e a beij-lo.
Annabelle vira.
- A minha mam  muito corajosa - continuou Annabelle, enquanto Sam lhe tirava o vestido e o
atirava para o lavatrio. Ps-lhe a mo na testa, mas ela no tinha febre.
Ela ficou muito doente, o pap zangou-se com ela e agora vai-se embora para uma casa nova.
- Eu sei, querida, tambm eu - anunciou Daphne, antes que Sam conseguisse impedi-la. - Eu sei
tudo acerca
disso. Eu vou viver com ele.
Annabelle ficou horrorizada e correu para o quarto que
lhe tinham destinado. Assim que ela saiu, Daphne tirou as
alas do vestido e despiu-o, e ficou completamente nua em
frente de Sam.
- Ela vomitou em cima do meu vestido - explicou,
embora Sam j soubesse.
- Desculpa. Creio que isto  muito para ela engolir de
uma s vez - disse ele, sem se aperceber das suas prprias
palavras. Daphne sorriu.
- Parece que sim. No te preocupes com isso.
Daphne beijou-o e ele no conseguia tirar as mos de cima dela, mas sabia que tinha de o fazer.
-  melhor vestires-te. Vou ter com a Annabelle.
- Porque no a deixas ficar um bocado a pensar no que aconteceu? Ela h-de habituar-se. No  boa
ideia estragar as
crianas com mimos.
Era isso que ela pensava? Estragar as crianas com mimos? Fora por isso que deixara o filho em
Inglaterra com a
av e o ex- marido?
301
- No me demoro - disse ele, subindo as escadas e perguntando a si prprio at onde iria aquela
guerra.
Annabelle estava a chorar quando ele l chegou e continuou a chorar at adormecer ao colo dele;
Sam sentiu-se muito mal com tudo o que se passara. Queria que Annabelle e Daphne gostassem
uma da outra. Ambas eram importantes para ele, ambas eram figuras importantes na sua vida,
precisava de ambas e queria que, pelo menos, elas gostassem uma da outra.
Porm quando Annabelle acordou no dia seguinte, s seis da manh eles ainda estavam na cama, e
Daphne estava nua nos braos do pai. Sam no pensara no que poderia acontecer de manh e
esquecera-se de lhe pedir que vestisse uma camisa de noite. Annabelle andou a passear pelo quarto
sem fazer barulho e ficou a olhar para eles, de boca aberta, horrorizada. Sam tambm no tinha nada
vestido e sugeriu a Annabelle que esperasse por eles l em baixo; Daphne no ficou satisfeita por ter
sido acordada quela hora e passou a manh inteira maldisposta.
As duas raparigas comearam a discutir e, por fim; Sam levou Annabelle  praia para acalmar os
nimos; quando foi buscar Daphne para o almoo esta ficou furiosa por a criana ir com eles.
- Pelo amor de Deus, o que queres que eu lhe faa? Que a deixe em casa sozinha?
- No morreria por causa disso, sabes? Ela no  um
beb. Devo dizer que vocs na Amrica tratam os filhos de uma maneira muito esquisita. Estragam-
nos com mimos e fazem deles o centro de tudo. Isso nem sequer  saudvel para os midos. Ela
precisa de ser tratada como uma criana, garanto-te, Sam. Teria ficado muito mais feliz em casa,
com uma empregada, em vez de ir contigo para todo o lado. Se a me quiser fazer isso com ela,
porque tem uma vida desgraada, ento que o faa, mas aviso-te j que eu no tenciono faz-lo. No
te impingirei o meu filho mais do que uns dias por ano e no esperes que eu faa de ama-seca com a
tua. No o farei! - exclamou ela, com petulncia.
Pela primeira vez em seis meses, Sam sentiu-se ferido e
desapontado com ela; perguntou a si prprio se najuventude
302
dela se passara qualquer coisa que a tornara to desagradvel para com as crianas. Segundo ele, era
inconcebvel que algum no gostasse delas. Porm, quando pensou nisso, apercebeu-se de que ela
o avisara logo desde o incio. S esperava que estivesse disposta a modificar-se.
De qualquer modo, foram os trs almoar, mas foi um constrangimento. Annabelle no tirou os
olhos do prato e no comeu nada. Ouvira tudo o que Daphne dissera e, naquele momento, odiava-a
e apetecia-lhe voltar para a sua mam; depois do almoo, disse-o ao pai. Este, desolado, explicou-
lhe que a mam fora passar o fim-de-semana fora.
Sam conseguiu arranjar uma baby-sitter de dezasseis anos para aquela noite, depois de andar a
perguntar aos vizinhos. E foi jantar e danar com Daphne ao clube de Conscience Point. Quando
voltaram para casa, Daphne vinha mais bem-disposta; naquela noite, ele pediu-lhe que vestisse uma
camisa de noite. Ela riu-se dele e disse-lhe que no tinha nenhuma.
O dia seguinte passou-se mais ou menos da mesma maneira, e todos se sentiram aliviados quando
regressaram  cidade.
Alex j estava em casa  espera deles, sozinha, quando chegaram. Daphne ficou no carro enquanto
Sam levou Annabelle  me.
- Divertiram-se? - perguntou ela, radiante, com umas calas de ganga azuis, uma blusa branca e uns
sapatos vermelhos.
Sam no pde deixar de reparar como ela estava bonita, depois de todos aqueles meses, com a pele
bronzeada.
No entanto a cara de Annabelle falava por si. Olhou para a me e tinha os olhos cheios de lgrimas.
Sam tocou ternamente no ombro da filha.
- Tivemos alguns problemas de desajustamento. Acho que no tomei a deciso mais acertada. Levei
uma amiga e isso no foi fcil para Annabelle. - Nem para Daphne. Desculpem - disse ele,
dirigindo-se a ambas, e Alex olhou para um e para o outro, desanimada, perguntando a si prpria o
que acontecera.
Annabelle olhou para Sam e depois para Alex.
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- Odeio-a! - exclamou, bruscamente.
- Tu no odeias ningum - corrigiu Alex, olhando para Sam.
Devia ter sido um fim-de- semana ptimo. Alex perguntou a si prpria o que teria feito a rapariga
inglesa para Annabelle dizer uma coisa daquelas. Talvez nada, a no ser o facto de estar ali com
Sam.
- Tens de ser simptica para com as amigas do pap, Annabelle. Ests a ser malcriada para ele se
fores malcrida para os amigos dele - declarou Alex com calma, mas Annabelle no se deixava
silenciar facilmente.
- Ela andava sempre nua. Foi horrvel. E dormiu com o pap.
Annabelle franziu o sobrolho e correu para o seu quarto, sem se despedir do pai, enquanto Alex
olhava para Sam, um pouco admirada com a falta de discrio deles.
- Talvez seja melhor dizeres qualquer coisa  tua amiga. Se isto  verdade, no me parece adequado
ela ver tais cenas.
Alex estava preocupada. Aquela no era a maneira apropriada de conduzir as visitas da filha. E
ficara espantada por Sam ter feito uma coisa daquelas.
- Eu sei - concordou ele, tristonho. - Desculpa. Foi tudo um pesadelo. Foi muito desagradvel. -
Depois, olhou para Alex, pesaroso. - Foram ambas impossveis, para te ser franco.
Alex devia ter tido pena dele, mas no teve. Teria sido divertido, se Daphne no tivesse andado nua,
a pavonear-se.
- Ters de alterar qualquer coisa quando ela for visitar-te, se vais viver com ela. - Fora a primeira
vez que Alex reconhecera a situao, mas Annabelle  que puxara o assunto. - Ela  pequena de
mais para isso.
- Eu sei. E eu sou velho de mais. Eu trato do assunto: Ela no viu nada que no devesse ver -
retorquiu ele, esgotado. - Oh, a propsito, ela vomitou na sexta-feira.
- Vocs divertiram-se, no  verdade?
Alex riu-se dele e, por instantes, Sam lembrou-se dos velhos tempos. Ela estava a rir-se dele e ele
tinha de admitir que a situao tinha o seu qu de engraado. Foi dar um beijo a Annabelle, mas ela
ainda estava zangada com ele e
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recusou-se a despedir-se. Estava zangada com o mundo e confusa. Depois de lhe atirar um beijo
rpido e de dizer adeus  mulher, Sam desceu a correr e foi ter com Daphne.
- Sentes-te bem outra vez, meu amor? - perguntou
ela, aproximando-se mais dele no carro. Sam ficara desapontado com o fim-de-semana passado com
a filha e, de vez em quando, ainda o afectava ver Alex. Os fantasmas da vida
passada continuavam a persegui-los, e ambos tentavam esquec-los.
-Tenho pena que as coisas no tenham corrido um
pouco melhor - confessou Sam, tranquilamente, reconhecendo o fiasco.
- Ela vai melhorar - garantiu Daphne, confiante, comeando a falar com ele acerca da casa.
Todavia, quando Sam se mudou para o Carlyle, em Junho, as coisas pioraram. Daphne estava l
sempre com ele, e
Annabelle apercebeu-se de repente que era uma intrusa.
- Detesto-a! - exclamava ela, implacvel, sempre que
voltava para casa.
- No, no detestas - contrariava Alex, com firmeza.
- Detesto, sim.
Levaram-na para ver a nova casa, e Annabelle afirmar a
que tambm a detestava. A nica coisa que ela disse apreciar era a limonada e os bolos de chocolate
do Carlyle. Sam tentava tambm organizar o Vero, alugara o iate e uma casa em Cap d Antibes, e
Alex concordara em deixar ir a filha com eles.
Foi Daphne, porm, que levantou objeces veementes 
incluso de Annabelle. Afirmou que Annabelle no iria com
eles para a Europa, nem mesmo com uma empregada para
tratar dela.
- Ela  minha filha, pelo amor de Deus!
Sam estava horrorizado com a atitude da amante e muito
magoado. No era isso que ele esperava da mulher com
quem vivia. E iam passar seis semanas fora, muito tempo
para ele estar longe da filha.
 - Muito bem. Ento, podes traz-la quando ela tiver
dezoito anos. No lhe compete estar connosco num iate e numa casa no Sul de Frana. E se ela cair
 gua? No vou
305
passar o tempo a preocupar-me com ela. Eu tambm no levo o meu filho.
De facto, ela s passara uma semana com ele em Lon dres. Daphne transformava aquilo no
derradeiro sacrifcio, e Sam comeava a conhec-la melhor.
Estava constantemente a discutir por causa disso e ele no se sentia disposto a ceder; foi Annabelle
quem acabou por decidir. No quis ir com eles, no quis ir para a Europa e deixar a sua mam. Eles
iam passar uma semana em Lon dres, duas em Cap d'Antibes e trs no iate, na costa de Frana,
Itlia e Grcia. Para Alex, era uma maravilha, mas no
para a filha.
- Talvez ela seja ainda muito nova - sugeriu Alex amavelmente a Sam. - Talvez para o ano.
Alex calculava que ele j estivesse casado com a rapariga nessa altura; ento, Annabelle seria
obrigada a dar-se com ela. Era estranho, visto que ele ainda no lhe pedira o divrcio, mas ela sabia
que se aproximava esse momento, se calhar no final do Vero. Talvez ele no quisesse dar a
impresso de que estava a forar as coisas. Alex j se resignara: O seu casamento passara  histria;
de qualquer modo, nun ca fora to esplendoroso como a vida dele com Daphn Sam nunca se
lembrara de ir para o Sul de Frana ou de alugar um iate enquanto estivera casado com Alex.
- O que vais fazer com ela? - perguntou Sam, preocupado com Annabelle, e desolado por no a ter
junto dele durante o Vero.
- Aluguei uma casa em East Hampton. Gostava muito de a levar comigo. Vou pedir  Carmen para
ficar l comnosco durante uma semana e tirarei outra semana para estar com ela.
Sam achou que era uma boa ideia, e Annabelle ficou muito entusiasmada quando eles lhe disseram.
- No tenho de ir com o pap nem com a Dapne? perguntou ela, incrdula. - Uau!
A reaco da filha magoou-o profundamente;  noite, quando voltou para o Carlyle, Sam estava
aborrecido com Daphne.
- Pelo amor de Deus, no amues! - pediu Dapne,
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enchendo-lhe um copo com champanhe. - Ela ainda  uma
criana e iria detestar aquilo. E ns bem a temos visto, sempre maldisposta. Isso no seriam frias. -
Daphne sorriu-lhe, muito aliviada por o assunto estar arrumado. - O que queres fazer esta noite?
Sair ou ficar em casa?
A vida era uma festa constante para ela; e, quando no
era uma festa, era uma orgia.
- Talvez seja melhor eu ir trabalhar, para variar - respondeu Sam, de mau humor.
Estava a deixar que os scios tomassem conta de tudo.
Ele e Simon arranjavam todos os novos negcios e Simon
encarregava-se de uma srie espantosa de pormenores. Sam
andava to embrenhado nas suas viagens e na mudana da
sua vida que se sentia um pouco culpado por no dar mais
ateno  empresa.
- Oh, no trabalhes - choramingou Daphne. - Vamos fazer qualquer coisa que seja divertida.
Antes que ele pudesse sugerir alguma coisa, ela pusera-se
em cima dele, com as pernas abertas, e puxara a saia para cima: s uma coisa atraiu Sam. Deitou-a
no sof do hotel e
possuiu-a com mais mpeto do que era costume. Estava
meio zangado e meio apaixonado. Sentia-se desapontado e
ferido e to dominado pela paixo que s vezes parecia ir enloquecer.

CAPTULO 19
No fim de Junho, Alex e Brock mudaram-se para a casa de Vero e adoraram-na. Era simples e
confortvel, com cortinados de xadrez azul e branco e alcatifa de sisal. Tinha uma grande cozinha
rstica com azulejos portugueses e um jardinzinho adorvel para Annabelle brincar. A criana
tambm achou a casa muito bonita quando a levaram l pela primeira vez, no fim-de-semana do 4
de Julho.
Annabelle no se mostrou surpreendida por Brock l estar, e Alex foi muito mais cautelosa do que
Sam fora com Daphne. Brock dormia oficialmente no quarto de hspedes do rs-do-cho, e tinha o
cuidado de descer todas as manhs, antes de Annabelle se levantar; um dia, de manh, quando eles
se esqueceram e iam sendo apanhados, Brock vestiu as calas e fingiu que estava a arranjar
qualquer coisa na casa de banho de Alex.
Annabelle sentia-se completamente feliz e  vontade com ele, e iam os trs juntos para todo o lado.
Alex recuperava rapidamente todas as suas foras e estava cheia de energia e de boa disposio. Em
meados de Julho, surpreendeu-os a descer as escadas sem a cabeleira. O cabelo, curto, era macio e
encaracolado.
- Ests to bonita, mam! Como eu! - exclamou Annabelle, rindo-se e indo l para fora brincar.
Brock sorriu para Alex e esta quase ia caindo da cadeira com a pergunta dele.
- Ento quando nos casamos, Mistress Parker? Alex sorriu, hesitante. Estava muito apaixonada por
ele, mas nunca se permitira pensar no futuro, por vrias razes.
- O Sam ainda no me pediu o divrcio.
- E porque esperas que ele o pea? Porque no lho pedes quando ele voltar da Europa?
Era disso que Brock estava  espera.
Alex olhou para ele, muito sria, hesitante e cautelosa.
- Isso no seria justo para ti, Brock. Eu agora
estou bem, mas se voltasse a acontecer-me alguma coisa mais?
308
- Ele j demonstrara que era capaz de enfrentar a situao, mas a questo no era essa. - No quero
fazer-te uma
coisa dessas. Tens direito a ter um futuro certo.
- Isso  um disparate - respondeu ele, furioso com ela. No podes ficar a sentada, durante cinco
anos,  espera do       !
que possa acontecer. Tens de continuar a viver e enfrentar o que vier. Eu quero casar contigo, e com
a Annabelle - disse
ele, pegando-lhe na mo e beijando-lha do outro lado da
mesa. - No quero esperar. Quero viver agora a nossa vida. Quero viver com vocs e tomar conta de
ti. No quero
que isto acabe depois do Vero.
- Nem eu - respondeu ela, com sinceridade, mas ela
tinha mais dez anos do que ele e um cancro. - O que diria
a tua irm a tudo isto? - Alex ainda no a conhecera nem
falara com ela, mas sabia como ela era importante para
Brock. Podia tirar essa concluso de certas coisas que ele
dissera, mas em geral Brock falava muito pouco dela. - Ela
no se sentiria infeliz? Devias casar com uma jovem bonita
que te desse muitos filhos e no tivesse problemas.
- Ela dir-me-ia para eu fazer o que achasse melhor. E o
melhor s tu. Alex... estou a falar a srio. Quero que peas o divrcio ao Sam quando ele voltar da
Europa. E depois
casaremos quando tudo acabar.
- Amo-te.
Alex sorriu-lhe ternamente do outro lado da mesa, enquanto ambos observavam Annabelle a
brincar. Alex sentiu-se muito comovida com a disponibilidade dele em aceit-la
sob quaisquer condies.
- Quero casar contigo. E vou continuar a insistir at tu
dizeres que sim - declarou ele, obstinado.
Alex riu-se.
- No  que eu no queira. E o teu emprego? - perguntou ela, muito sria. Ele no poderia casar com
ela e
mant-lo.
- Tive duas outras ofertas este ano. So muito boas.
Talvez faa melhor em ir para outro lado qualquer. Mas, antes de sair, gostaria de falar com os
scios mais antigos.
Quem sabe se, pelo facto de teres estado doente, eles no
abririam uma excepo para ns e no nos deixariam trabalhar juntos...
309
- Talvez. Ns somos uma boa equipa. - Alex sorriu-lhe, agradecida. - E para o ano tu sers
candidato a scio.
- Falaremos com eles, mas primeiro com o Sam - informou ele, tranquilamente.
- Eu ainda no dei o meu acordo - disse ela, com um ar travesso mas adorvel.
- Vais dar - afirmou ele, confiante, e tinha razo.
No final da semana, Alex concordou. Iria pedir o divrcio a Sam e casaria com Brock assim que
tudo estivesse acabado.
- Deves ser doido. Tenho o dobro da tua idade - disse ela, distrada.
- Tens mais dez anos, o que nem conta, e pareces mais nova do que eu.
De facto, era verdade que Alex rejuvenescera desde que tinham ido para Long Island. Os efeitos da
quimioterapia estavam a dissipar-se, o cabelo era mais forte do que dantes e Alex perdera o inchao
provocado pelo tratamento. Pareci a mesma de antes da doena, talvez melhor. E eles pareciam
midos a brincar na praia, aos fins-de-semana. Alex sentia
-se muito descontrada nas manhs de segunda-feira, quando ela e Brock iam no carro. Carmen
vinha ao domingo  noite, para eles poderem regressar  cidade na segunda-feira a tempo de irem
para o emprego. E, s quintas-feiras, saam o mais cedo que podiam e iam para Long Island.
Durante o Vero, a maior parte dos advogados no ia trabalhar s sxtas-feiras, e a empresa fechava
ao meio-dia, como muitas outras empresas em Nova Iorque.
Quando chegavam  casa de praia, Annabelle estava sempre  espera deles, feliz e entusiasmada.
Durante a semana, Alex e Brock ficavam em casa dele, o que parecia ser o mais conveniente. Foi
um Vero perfeito.
Annabelle tivera notcias do pai vrias vezes. Nessa altura, estava em Cap d'Antibes. Telefonara-lhe
e enviara uma dzia de postais ilustrados. Alex, porm, no falou com ele, pois ele nunca telefonava
quando ela l estava, e, de qualquer modo, no queria pedir-lhe o divrcio pelo telefone. J no
tinha dvidas. Brock convencera-a. Ele esperara mais do que qualquer outro homem para provar o
seu
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amor por ela. E como ele sabia o que estava a fazer e o que queria, ela no tinha motivos para
question-lo. Sabia que o amava.
Sentia-se uma mulher de sorte por estar junto dele.
Ficou admirada quando estavam deitados na praia, em
meados de Julho, e reparou que ele observava o seu fato de          ;
banho. Depois, inclinou-se e beijou- a.
- s linda - disse ele, com afecto, e ela sorriu- lhe.
Annabelle andava ali perto, mas a perspectiva de uma pequena sesta depois do almoo era atraente.
- E tu s cego - respondeu ela, piscando os olhos por
causa do sol.
Ele tocou-lhe ao de leve no peito e ela sentiu um formigueiro em todo o seu corpo.
- Acho que devamos ir consultar um cirurgio plstico
dentro de pouco tempo.
- Porqu?
Alex tentou mostrar-se natural, mas no gostava de falar nisso. Apesar da ternura com que ele a
tratava, sentia-se ainda obcecada com a sua aparncia. E usava quase sempre uma
prtese.
- Acho que devias faz-lo - disse ele ternamente.
- Queres que eu faa uma operao plstica ao nariz ou um lifting  cara?
- No sejas trocista. s nova de mais para passares o
resto da vida a esconderes-te. Devias andar sempre nua. Brock tinha de facto um ar bastante
circunspecto; contudo, ela sabia que ele tentava que ela se sentisse melhor com a
falta do seio.
- Ests a dizer que queres que eu ande para a nua como
a rapariguinha inglesa do Sam? No me parece.
O facto de pensar em Daphne ainda a aborrecia.
- Isso no interessa. Sabes o que eu quero dizer. Pelo
menos, vai falar com um mdico, informa-te do que isso envolve. Podias faz-lo este Vero e vias-
te livre disso, e depois ficavas com dois seios para sempre.
- Parece que  horrvel e que di imenso!
- Como sabes?
- Falei com outras mulheres do meu grupo de apoio e a
doutora Webber falou-me disso. Parece que  horrvel!
311
- No sejas piegas.
Ambos sabiam que ela era tudo menos piegas. No entanto, ele queria que ela tivesse confiana em
si prpria e se sentisse completa outra vez. Falava-lhe constantemente no assunto e at lhe dera o
nome de um famoso cirurgio plstico que um mdico seu amigo lhe indicara. Brock era sempre
muito expedito.
- Marquei-te uma consulta - anunciou ele, bruscamente, uma tarde, quando estavam no emprego.
Alex olhou para ele, admirada.
- Isso  uma violncia. - Alex no queria ir e discutiu com ele durante meia hora. - No vou.
- Vais, sim, eu vou contigo. Fala com ele. Isso no te faz doer.
Alex estava ainda renitente quando chegou o dia da consulta; por fim, foi com ele e ficou admirada
ao ver como este mdico era diferente do seu outro cirurgio. Enquanto o outro era frio, metdico e
falava de realidades duras e de perigos inegveis, este falava em melhorar a situao e contribua
para que as pessoas se sentissem melhores consigo prprias. Era baixo, gordo e amvel, e tinha um
grande sentido de humor. P-la a rir alguns minutos depois e encaminhou habilmente a conversa.
Examinou o seio de Alex, ou o stio onde ele estivera, e olhou tambm para o outro e disse-lhe que
poderiam fazer um bom trabalho. Optariam por um implante ou por uma expanso de tecidos, o que
exigiria dois meses de injeces semanais de um soluto salino para se obter a forma desejada.
Quando muito, Alex preferia o implante, por ser imediato. Mas, em todo o caso, ainda no estava
convencida. Ele explicou-lhe que a operao seria cara e, evidentemente, no isenta de dores, mas
poderiam reduzi-las ao mnimo e, na idade dela, valia a pena.
- No queira ficar assim para o resto da vida, Mistres
Parker. Podemos dar-lhe um belo seio.
O mdico sugerira a partilha dos mamilos. Apesar de tudo o que disse para encoraj-la, Alex ainda
estava com medo.
Naquela noite, porm, depois de fazerem amor, perguntou a Brock se ele se importava que ela no
fizesse a operao.
312
- Claro que no - respondeu ele, sinceramente. -
Mas pensei que devias faz-la. No entanto, isso  contigo.
Eu amar-te-ei mesmo sem os dois seios. Deus sabe.
Um chegava.
No entanto, sem lhe dizer nada, Alex pensou nisso durante quinze dias e, no fim de Julho, um dia de
manh, fez-lhe uma surpresa em East Hampton.
- Vou tratar disso - comunicou ela, sentando-se  mesa com ele depois de lavar a loua.
Brock estava embrenhado na leitura do jornal de domingo.
- Tratar de qu? - perguntou ele, olhando para ela,
confuso, mas sempre interessado no que ela tinha para lhe ;
dizer. - Vamos tratar de alguma coisa hoje?
- Hoje, no. Vou telefonar na segunda-feira.
- Telefonar a quem?
Brock sentiu que perdera uma parte importante da conversa.
- ao Greenspan.
- Quem ?
Brock estava ausente. Parecia meio adormecido. Talvez
fosse um novo cliente.
- O mdico onde me levaste. O cirurgio plstico. Alex tinha um ar muito determinado e parecia
nervosa.
- Vais? - Brock ficou radiante e feliz por ela. Achava
que ela se sentiria satisfeita com os resultados. - Isso  bom
para ti!
Beijou-a e, na segunda-feira seguinte, fiel  sua palavra,
Alex telefonou ao mdico e comunicou-lhe que se decidira
pelo implante. Estava aterrorizada com a operao e com a
perspectiva de ter mais dores; no entanto, encontrava-se decidida a ir para a frente. O mdico tivera
uma desistncia no final da semana e disse-lhe que esperasse ficar quatro dias nohospital, mas que,
depois disso, poderia regressar ao trabaalho. Teria dores durante uns tempos, mais do que na
operao anterior, confessou, mas nada do mal-estar que sentira durante a quimioterapia.
 Naquela semana, Alex no foi trabalhar na quinta-feira, e Carmen aceitou ficar em East Hampton
com Annabelle.
Alex disse  filha que tinha de fazer uma viagem de servio.
313
No queria preocup-la ao falar-lhe no hospital. S disse a Carmen, que a princpio ficou inquieta
mas que depois se sentiu aliviada quando Alex lhe comunicou o que decidira. Tambm achou que
era uma boa ideia, assim como Liz. Todos se mostraram entusiasmados, excepto Alex, que estava
aterrada e hesitante at ao ltimo minuto.
Na quarta-feira, Alex passou a noite inteira acordada, ao lado de Brock, arrependida por se ter
decidido.
No dia seguinte s seis horas da manh, Brock levou-a a Lenox Hill, e uma enfermeira e um
anestesista explicaram-lhes tudo o que tinham a fazer. Deram uma bata a Alex e a enfermeira ligou-
a a um aparelho de soro. Alex desatou a chorar, sem conseguir dominar-se. S se lembrava da
quimioterapia e da ltima operao, e sentia-se completamente idiota.
O Dr. Greenspan chegou e pediu que lhe dessem um Va lium.
- Precisamos que estejam todos bem-dispostos aqui - disse ele sorrindo. Depois, olhou para Brock,
divertido, e perguntou: - Tambm quer tomar um?
- Gostaria muito.
Alex j estava semiadormecida quando a levaram de maca para a sala de operaes. Brock, nervoso,
esperou no quarto e passeou pelos corredores durante cinco horas, at que o Dr. Greenspan veio ter
com ele e lhe disse que tudo correra bem. Estava satisfeito. Fora um processo complicado mas tudo
correra s mil maravilhas.
- Creio que ela vai ficar muito satisfeita com os resultados.
Ele pusera um implante e, como o seio original era pequeno, no fora necessria uma grande
quantidade de tecidos, embora,  claro, tivesse sido preciso algum para dar forma desejada. Havia
outras operaes; Alex, porm preferira a rapidez do implante, embora soubesse que tinha de ser
muito bem acompanhada em caso de ocorrer um derrame, e que deveria fazer parte de um grupo de
controlo, para fornecer dados sobre os implantes de silicone.
- Ela ter de voltar c daqui a um ou dois meses, para fazer uns ajustamentos finais.
314
Tinham-lhe explicado que o mamilo e as tatuagens poderiam ser feitos com anestesia local.
- Mas creio que ela reagir bem - assegurou-lhe
Greenspan.
S duas horas depois  que Alex saiu da sala de recuperao, e vinha ainda muito atordoada.
- Ol. Como correu? - perguntou ela, em voz baixa.
- Bem - respondeu Brock para a acalmar, embora no
tivesse visto nada.
Os quatro dias seguintes no hospital foram desconfortveis para Alex, mais do que ela esperava, e
ainda tinha muitas dores quando regressou ao emprego na segunda-feira seguinte. Contudo, no
havia nenhumas das implicaes da
operao anterior, nem qualquer dos perigos.
A ligadura incomodava-a; Alex, porm, conseguiu trabalhar bastante, e muitos scios estavam ainda
de frias, ningum se apercebendo da sua situao. Ficou no seu gabinete
e vestiu uma camisa de Brock por cima das ligaduras. Ele
trouxe-lhe o almoo, e no fim do dia foram para casa dele.
Na quinta-feira, uma semana depois da operao, o mdico
tirou-lhe o penso e os pontos, e eles regressaram a East
Hampton. Annabelle ficou em xtase ao v-los, e Alex pegou-lhe ao colo com cuidado.
- Magoou-se, mam? - perguntou ela, preocupada, e
de sbito assustada outra vez.
Annabelle tambm tinha ms recordaes, e Alex no
queria assust-la.
- No, estou bem - disse ela, tranquilizando-a.
- Est doente outra vez?
Annabelle fitou a me com os olhos muito arregalados e
Alex, sentindo-a a tremer, puxou-a mais para si.
- Estou bem - informou ela ternamente, pegando-lhe
ao colo, mas depois percebeu que tinha de explicar-lhe.
Disse-lhe muito simplesmente que quando se aleijara no
peito, h dez meses, lhe tinham tirado um bocadinho e que
agora o tinham posto outra vez. Pareceu-lhe a explicao
mais simples; naquela noite, quando o pai telefonou, Annabelle disse-lhe que a mam encontrara o
peito e que o pusera
outra vez, o que ela considerava ser uma boa notcia, mas
315
que espantou o pai. Sam concluiu que Annabelle vira a prtese de Alex. Nunca lhe passou pela
cabea que ela tivesse sido operada outra vez, e no pediu para lhe falar porque Daphne estava
mesmo a seu lado.
Nessa altura, estavam no iate, e alguns dos excntricos amigos ingleses de Daphne estavam com
eles. Era um grupo muito mundano, com passatempos muito sofisticados; passavam o tempo a
visitar-se uns aos outros nos iates e nas vi vendas ao longo da Riviera. Dentro de poucos dias,
partiriam para a Sardenha.
E todos os dias Brock lembrava a Alex que tinha de falar com Sam assim que ele voltasse da
Europa. Estava ansioso por se casar.
- Eu sei, eu sei. - Alex sorriu e beijou-o ternamente para o tranquilizar. - Acalma-te. Assim que ele
voltar, telefono-lhe.
Se o divrcio fosse declarado no Outono, ela e Brock poderiam casar-se na Primavera. Era o que ele
queria. s vezes, o seu zelo juvenil fazia-a sentir-se velha; porm, da certa forma, isso agradava-
lhe. Quase nunca pensava na diferena de idades, mas era inegvel que havia momentos em que lhe
faltava uma certa maturidade, que Alex tentava ignorar. De vez em quando, as suas experincias e
os seus pontos de vista divergiam um pouco.
O Vero passou-se depressa para todos. Daphne detestou sair da Europa e s a sua paixo por Sam a
fez regressar a Nova Iorque. Admitiu que tinha muitas saudades de Londres. A vida nos Estados
Unidos no era a mesma para ela. contudo, Sam esperava que ela se distrasse com a nova casa. E
prometeu-lhe que viajariam mais e que comeariam a passar mais tempo no estrangeiro. No era
fcil para ele, com os compromissos profissionais que tinha em Nova Iorque, mas tambm tinha
muitos clientes no estrangeiro e faria qualquer coisa para a manter feliz. Passava tanto tempo com
ela que h meses que vinha descurando os seus negcios. Era uma rapariga muito exigente e parecia
bvio que estava habituada a ter tudo o que queria.
Quando Sam voltou, Alex e Brock lamentavam que o
Vero tivesse chegado ao fim. Tinham a casa de East Haton
316
at ao Dia do Trabalho e, no primeiro fim-de-semana
aps o seu regresso, Sam levou Annabelle com ele para
Bridgehampton. Ia para l com uns amigos e, depois de seis semanas e meia ausente, Daphne
concordou em deix-lo levar Annabelle.
- Achas que elas se daro melhor desta vez? - perguntou Alex a Brock, a srio.
Annabelle sentira-se to infeliz da ltima vez que vira
 Daphne! Quando Sam veio traz-la no domingo, ao princpio da tarde, era bvio que qualquer coisa
acontecera. Estava muito tenso quando veio traz-la, aparecera sozinho, e,
embora ela soubesse que Brock estava ansioso por que ela
falasse com ele, no houve oportunidade, porque Sam meteu-se no carro e arrancou de imediato.
Mal falara com
Alex.
Alex olhou para Annabelle assim que ele saiu.
        - O que aconteceu? - perguntou.
- No sei. O pap recebeu uma srie de telefonemas.
Esteve sempre ao telefone e gritou muito com as pessoas
que lhe telefonaram. E hoje disse que tinha de se vir embora. Fez-me a mala e trouxe-me a casa. A
Daphne tambm se
fartou de gritar. Disse que, se ele no a tratasse bem, ela voltaria para Inglaterra. Seria ptimo. Eu
acho que ela  mesmo m, e estpida.
Era bvio que qualquer coisa correra mal; no entanto,
tornava-se impossvel decifrar o qu pela descrio de Anna           belle.
No dia seguinte, quando Alex e Brock iam para a cidade
 de comboio, Alex deu um salto e olhou fixamente para a
primeira pgina dosjornais. Havia fotografias de Sam, Larry e Tom. Iam ser indiciados pelo tribunal
por investimentos fraudulentos e por vrias outras acusaes impressionantes, incluindo peculato.
- Deus do cu! - exclamou ela, estendendo o jornal a
Brock. Era inacreditvel. Brock sempre fora de uma honestidade meticulosa.
- Uau!
Primeira segunda-feira de Setembro. (N. da T. )
317
Brock assobiou ao ler aquilo. As acusaes eram muito graves, e Simon tambm estava implicado,
embora ainda no tivesse sido indiciado. Os trs scios primitivos  que eram acusados, pelo
menos, de uma dzia de casos de burla e de peculato.
- Ele est metido num grande sarilho. No admira que ontem estivesse to aborrecido.
Brock olhou para Alex, que estava petrificada. O que fizera ele  sua vida nos ltimos meses? Em
que disparates se metera? Podia apanhar vinte ou trinta anos de cadeia com as acusaes que
pendiam sobre ele. O que diabo acontecera?
- Vou telefonar-lhe quando chegarmos ao escritrio - disse ela, pensativa: Ainda no podia acreditar
no que lera.
Assim que chegou ao escritrio, j tinha duas chamadas dele. Entrou no gabinete, fechou a porta e
ligou-lhe. Sam atendeu logo.
- Obrigado por responderes ao meu telefonema. Sam parecia extremamente nervoso.
- O que se passa? - perguntou Alex, ainda atordoada. Estava convencida de que o conhecia.
- inda no sei ao certo. Conheo uma parte da questo. No sei se alguma vez saberei a histria
toda. Mas sei o suficiente. Estou em srias dificuldades, Alex. Preciso de ajuda. Preciso de um
advogado.
Sam tinha um advogado excelente, mas no era um especialista em direito criminal.
- Eu tambm no sou, Sam - respondeu ela com brandura, com pena dele, por ter deixado a vida
fugir-lhe, por ter-se afastado tanto que nem se apercebera do que estava a fazer. Perguntou a si
prpria se a rapariga tinha alguma coisa a ver com aquilo. Tinha a certeza de que Simon estava
envolvido, embora ainda no tivesse sido indiciado.
- Tu s uma litigante. Podes, pelo menos, aconselhar-me sobre o que devo fazer. Posso falar
contigo? Posso ir ter contigo, Alex? Por favor!
Ele suplicava-lhe, ao fim de dezassete anos. Alex sentiu
que devia, no mnimo, ouvi-lo. Alm disso, apesar de tudo o que lhes acontecera, ela continuava a
gostar dele.
- Verei o que posso fazer. Mas vou recomendar-te a
318
um especialista em direito criminal, Sam: No sou parva ao
ponto de tentar ajudar-te e de prejudicar-te em virtude da
minha ignorncia. Mas farei o melhor que puder, se quiseres contar-me o que aconteceu. Quando
queres aparecer?
- Pode ser agora?
Sam no conseguia suportar a tenso por mais tempo.
Eram dez horas e Alex tinha um compromisso  uma e
meia, mas estava disponvel at l.
- Est bem. Podes vir.
O seu trabalho burocrtico podia esperar, e ela foi dizer a Brock o que ia fazer.
- No devias pass-lo j a um especialista em direito
criminal?
- Quero falar com ele primeiro. Acompanhas-me?
Era um pedido estranho; porm, tratava-se de uma reunio de natureza profissional e ela respeitava
a opinio de
Brock.
- Se quiseres. Posso dar-lhe um murro nos queixos
quando ele acabar de falar? - perguntou ele com um sorriso.
No imaginava um fim mais adequado para Sam Parker
do que vinte anos de cadeia. S queria ouvi-lo por causa de Alex, mas no estava particularmente
inclinado a ajud-lo.
- No podes agredi-lo at ele pagar a conta - declarou
Alex sorrindo.
A sua vida era agora com Brock, e no com Sam, quaisquer que fossem os problemas deste.
Bem, no te esqueas de lhe fazer a pergunta essencial.
Brock lembrava-lhe a questo do divrcio, mas no era
aquele o momento indicado.
- Descontrai-te. Isto  uma questo profissional.
Sam chegou vinte minutos depois, plido, apesar do seu
tom bronzeado. Tinha umas olheiras enormes e quando se
sentou do outro lado da mesa de reunies, em frente de
Alex e de Brock, as mos tremiam-lhe visivelmente. O homem encontrava-se em estado de choque.
A sua reputao
cara em desgraa e toda a sua vida se desmoronara, aparentemente em seis semanas, enquanto
estivera na Europa com
Dap ne.
319
Alex perguntara-lhe se ele se importava que Brock assistisse  reunio e, embora ele no tivesse
ficado entusiasmado, concordara, se ela achasse que isso era til. Queria receber toda a ajuda
possvel e estava muito reconhecido a Alex. Disse-lhe que ela era a melhor advogada que ele
conhecia e que apreciava a opinio dela. No disse mais nada, mas o olhar que trocaram era antigo e
familiar. Conheciam-se e amavam-se h muito tempo, e era difcil esquec-lo.
A histria que ele contou no era agradvel e, no momento em que a contava, ainda no tinha todas
as respostas. Aparentemente, o que sucedera, tanto quanto ele podia deduzir, fora que Simon
introduzira, lenta mas firmemente, clientes sem escrpulos na empresa e falsificara as histrias e os
relatrios deles, fornecidos por vrios bancos europeus. Depois, por mtodos que Sam ainda no
deslindara por completo, Simon comeara a cometer fraudes. Desfalcara-os, roubara dinheiro a
clientes legtimos e comeara a lavar quantias enormes em fontes desacreditadas na Europa. Ao que
parecia, aquilo durara meses, e Sam admitiu, sem acusar, que, durante a doena de Alex e o perodo
de tenso entre eles, ele deixara de prestar toda a ateno que devia aos seus negcios. No quis
dizer-lhe, a menos que fosse obrigado a isso, que tambm se deixara distrair devido ao seu caso
amoroso com Daphne.
No entanto, Sam explicou que ainda no tinha a certeza se Daphne fora incorporada na empresa por
Simon como chamariz. Contudo, a chegada dela fora muito oportuna, alm da distraco que ela
provocara.
Depois, Sam admitiu que, na Primavera, comeara a
desconfiar de que algo correra mal nos negcios de Simon com um dos clientes e, aparentemente,
certos fundos haviam sido mal geridos. Porm, quando confrontara os scios com essa hiptese,
eles tinham-no tranquilizado e insistido que aquilo no era o que parecia, e ele conclura que no
havia motivos para se preocupar. Percebia agora que quisera acreditar na histria deles. E,
curiosamente, segundo confessou, fora precisamente nessa altura que Alex lhe recordara as
suspeitas que ela prpria tinha em relao a Simon, e ele negara-as com veemncia.
320
- Fui sempre um idiota - admitiu ele, naquele momento. - O Simon era to desonesto como eles. Tu
tinhas razo. E agora eu descobri que o Larry e o Tom estavam na jogada com ele. No a princpio,
mas em Fevereiro apanharam-no em qualquer coisa que ele fez e ele comprou-os. Pagou-lhes para
se calarem e convenceu-os de que ningum sabia. Pagou um milho de dlares a cada um,
depositados numa conta da Sua. Por isso, durante os ltimos seis meses, associaram-se a ele em
casos de peculato, de roubo e de negcios fraudulentos. Nem quero pensar como fui estpido e
cego, ou quis ser. O Simon at arranjou maneira de me afastar do caminho, e eu fui para a Europa
durante dois meses, enquanto eles faziam alguns dos piores negcios. Ele arranjou-me o iate e eu
ca na esparrela como um idiota, com a ajuda da Daphne. E, durante a minha ausncia, algum no
banco desconfiou e fez queixa de ns  SEC' e ao FBI e eles envolveram o Ministrio da Justia, e
todo o castelo de cartas se desmoronou  nossa volta. Arrastaram consigo o idiota que eu sou.
Quando cheguei a Londres, apercebi-me de que qualquer coisa estava mal, quando falei com uns
scios anteriores de Simon. Creio que ele pensou que eu sabia mais do que sabia na realidade, o que
no era verdade. Mas, quando telefonei ao Larry e ao Tom a perguntar o que se passava, eles deram-
lhe cobertura, porque tambm estavam muito assustados. E, durante a minha ausncia, fizeram vinte
milhes de dlares de negcios fraudulentos em meu nome. Estou metido no pntano com eles at
ao pescoo.
Sam estava destroado e cheio de pavor. Tudo o que ele
construra fora destrudo, assim como a sua reputao. A sua vida estava por um fio naquele
momento.
- Mas tu no estavas l quando eles fizeram esses negcios - atalhou Alex. - Isso no ajudar?
- Esses negcios so apenas a ponta do icebergue. H coisas muito piores, e eu telefonava quase
todos os dias. Eles mandavam-me documentos por correio expresso e eu assinei alguns
memorandos. Eles davam-lhes um aspecto muito respeitvel.
Securities and Exchange Commission (Comisso de Controlo de Movimento de Valores). (N. da T. )
321
E agora sou to responsvel como eles. Queria que tudo estivesse bem. Queria que as minhas
suspeitas fossem infundadas. No queria enfrentar o que eles estavam a fazer. Mas, quando voltei,
na semana passada, e comecei a fazer perguntas, assustei-me e depois comecei a investigar. No
imaginas o que se passou no ltimo ano. No posso acreditar que tenha sido to idiota ou que tenha
sido feito tanto mal, no s  minha reputao como  minha empresa. Est tudo acabado, Alex.
Sam olhou para ela com lgrimas nos olhos. No chorara por ela, mas chorava por ele prprio
naquele momento.
- Tudo o que eu constru acabou. Aqueles dois idiotas venderam-me por dois milhes de dlares e
agora vamos todos parar  priso, graas ao Simon.           Sam fechou os olhos e tentou recuperar
a compostura.
Alex teve pena dele, mas no tanta como esperara. Ele confiara em Simon quando no devia,
quando o seu prprio instinto o avisara desde o incio. E continuara de olhos fechados quando
Simon destrura no s a sua empresa como tambm a sua vida e o seu futuro. Sam abriu muito os
olhos e fitou-os, aterrado, sem receio de mostr-lo.
- O que achas disto?
Sam olhou directamente para Alex, e ela hesitou, apenas por breves instantes.
- O caso  muito feio, Sam. Tomei apontamentos e quero telefonar a um dos nossos scios. Mas no
creio que consigas safar-te. A tua responsabilidade implcita, neste caso,  enorme. Vai ser muito
difcil convencer o tribunal que desconhecias o que estava a passar-se, mesmo que isso fosse
verdade.
- Acreditas em mim?
- At certo ponto - respondeu ela, francamente. Acho que no quiseste saber o que estava a
acontecer e deixaste que as coisas decorressem sem a tua interferncia.
Em silncio, Brock concordava totalmente com ela.
- O que fao agora?
Sam estava aterrorizado e tinha boas razes para isso.
- Diz a verdade. Toda. Em especial aos teus advogados. Conta-lhes tudo o que sabes, Sam. Essa ser
a tua nica salvao. E quanto ao Simon?
322
- Vo indici-lo esta tarde.
- E a rapariga? A prima dele? Qual  o papel dela em tudo isto?
Para alm de ter destrudo o casamento deles. Sam fora manobrado por profissionais e revelara-se
um idiota. e sabia-o.
- Ainda no sei. - Sam desviou o olhar de Alex.      Ela diz que no  responsvel, que no sabia.
Continuo a pensar que tinha conhecimento quando entrou nojogo e que
depois optou por ficar de fora quando c chegou. Ou talvez no tenha sido assim. Talvez ela
estivesse a par de tudo - concluiu ele, passando as mos pelo cabelo, enquanto Alex o observava.
Sam pagara um alto preo pelo seu caso amoroso. Pagara
com a sua empresa, com a sua reputao, com o seu dinheiro, e talvez com a sua vida, se fosse parar
 priso. Mesmo assim, ela queria ajud-lo. Ele ainda era seu marido.
Em seguida, Alex pegou no telefone e ligou a Phillip
Smith, um dos scios mais antigos. Era especialista em fraudes fiscais e em violaes da SEC. Era
mais ou menos a
mesma coisa. Ele prometeu descer da a cinco minutos.
- E tu? Tambm ficas neste caso? - perguntou Sam
num tom pattico.
Brock teve vontade de lhe bater. Ela j no lhe pertencia. J a fizera sofrer o suficiente mas, apesar
de tudo, Alex ainda era leal para com ele, quanto mais no fosse por causa da filha.
- Eu no te serviria de nada - declarou Alex, honestamente. - Esta no  a minha especialidade.
E, apesar de ter pena dele, Alex tambm no se queria envolver demasiado.
 - Mas. intervirs? Ajudars o teu colega? Alex. Por favor.
Brock voltou-se para o lado. No queria assistir quilo. Sam estava a aproveitar-se de Alex, e ela
sentia-se obrigada a ajud-lo.
- Verei o que posso fazer. Mas tu no precisas de mim, Sam. Vamos saber o que o Phillip Smith diz
depois de falares com ele.
323
Alex dirigira-se-lhe com muita ternura. E Brock ficou
aborrecido com aquilo. Independentemente do que ela dissera
e do que Sam lhe fizera, havia ainda um lao entre eles.
- Preciso de ti! - excclamou Sam, desesperado, em voz
baixa, no momento em que o scio snior chegou e Brock
foi chamado l fora por uns minutos.
Alex fez as apresentaes e partilhou os apontamentos
com Phillip Smith. Este fez um aceno de cabea e franziu
o sobrolho; depois, sentou-se ao lado de Alex, em frente de Sam.
- Vou deix-los sozinhos - disse ela, levantando-se
e olhando para Sam.
De repente, ele tornara-se uma figura pattica. Parecia
destroado com o que acontecera.
- No te vs embora.
Sam olhou para ela como uma criana amedrontada; de
sbito, ela recordou-se do que sentira quando lhe dissera
que tinha um cancro, como se sentira s e assustada e como
ele se recusara a estar junto dela. Andava atrs de Daphne e
permitira que criminosos destrussem a sua empresa, enquanto deixava que Alex vomitasse as
entranhas.
- Eu volto - respondeu ela, tranquilamente.
No queria encoraj-lo a tornar-se dependente dela.
O caso ia ser complicado, e ela tinha a certeza de que ele
seria julgado. O caso levaria meses, se no anos, e ela queria
ter o cuidado de no se comprometer demasiado.
Quando saiu do gabinete, Brock andava de um lado para
o outro, furioso.
- Aquele filho da me choramingas! - protestou
ele, olhando para Alex, como se a culpa fosse dela. - No fez
a ponta de um corno por ti durante um ano, se  que fez alguma coisa antes, o que eu duvido, e
agora aparece aqui a chorar,
porque est prestes a ir para a cadeia. Tens mesmo de det-lo, sabes? Far-lhe-ia bem. Seria perfeito.
Aquele estupor
e a prima presos por peculato e por burla... E depois ele
vem ter contigo a chorar para tu o salvares!
Brock estava to furioso que nem conseguia parar.
Era quase como se ele tivesse sido trado, e no Alex.
- Acalma-te, Brock - disse ela, tentando tranquiliz-lo. - Ele ainda  meu marido.
324
- No por muito tempo, espero. Mas que indivduo
mesquinho! Vem para aqui, com o seu fato caro e o seu relgio de dez mil dlares, depois de ter
desembarcado de um
iate no Sul de Frana, e fica muito admirado por os scios
serem uns criminosos e ele ter sido indiciado pelo tribunal. Bem, isto no me surpreende. Eu acho
que ele estava metido nisto desde o princpio.
- Eu no - respondeu Alex tranquilamente, sentada 
secretria, enquanto ele andava de um lado para o outro,
cheio de dio pelo marido dela. - Acho que talvez tenha sido muito semelhante quilo que ele disse.
Ele andava a divertir-se e no prestou ateno  empresa e eles deram-lhe cabo da vida. Isso no o
iliba, porque ele devia ter vigiado o
que eles andavam a fazer. Tem responsabilidades, mas andou
a brincar e a esconder-se. E eles encontravam-se muito atarefados enquanto ele estava a dormir.
- Continuo a pensar que ele merece isto.
- Talvez.
Alex ainda no tinha a certeza do que pensava acerca daquele caso. Depois de o seu cliente da uma
e meia ter sado
s duas e um quarto, Sam ainda estava a falar com Phillip
Smith; pouco depois, pediram a Alex que lhes fizesse companhia de novo. Dessa vez, foi sem
Brock, o que lhe parecia
mais simples. Apercebera-se de que havia sido um disparate
pedir-lhe que estivesse presente da primeira vez. Era injusto
pedir a Brock que fosse objectivo.
- Ento? - disse ela, sentando-se junto dele. Inconscientemente, Sam notou que a silhueta de Alex
estava mais natural; depois, fez um esforo para se ocupar dos seus prprios problemas. - Onde
estamos ns? - perguntou ela,
concentrando-se totalmente no assunto. Era como um mdico com o seu doente, desapaixonada e
profissional.
- Receio que no estejamos muito bem colocados - explicou Phillip Smith.
Ele no dourava a pilula. Sentia que Sam estava bastante
exposto e que muito provavelmente o indiciamento do tribunal teria sequncia. De facto, Sam corria
o risco de ser alvo de outras acusaes. Phillip tinha a certeza de que o caso
iria a tribunal, e o que aconteceria na presena dos jurados
325
era imprevisvel. Sam tinha boas hipteses de perder. Em especial, se os jurados no acreditassem
nele. O argumento
mais forte que tinha a seu favor era o facto de no ter sabido
o que acontecera seno muito mais tarde. Phillip Smith
achava que os scios se afundariam com Simon, mas havia
uma hiptese remota de salvar Sam, se conseguissem separar
o caso dele em termos filosficos e atrair as simpatias dos jurados. A mulher dele tinha um cancro,
ele estava quase fora
de si por causa dela, a tomar conta dela e sem dar ateno aos negcios. Confiara nos scios e, de
facto, no cometera conscientemente qualquer crime: fora uma pea de xadrez manejada por Simon
e pelos scios.
Tudo isto parecia razovel a Alex, em termos legais. Porm, de repente, parecia-lhe injusto que ele
se servisse dela para se defender, quando fizera to pouco para a ajudar.
Compreendia que se tratava de um artifcio legal, mas, mesmo assim aquilo aborrecia-a.
- Na sua opinio, isto resultar? - perguntou-lhe Phillip bruscamente. Sabia que eles estavam
separados e queria
saber qual seria a reaco dela.
- Talvez - respondeu ela,  cautela. - Se ningum se
mostrar demasiado difcil. Creio que a maioria das pessoas
sabia que o nosso casamento estava a desmoronar-se e que o
Sam no me dava apoio.
Sam estremeceu ante a sinceridade dela, mas no pde
negar. No disse nada.
- As pessoas sabiam que ele no a apoiava?
- Algumas. No pus nenhum anncio no jornal. Mas
suponho que a vida do Sam estava bastante preenchida, na
altura. - Alex olhou de frente para Sam, que no estava 
espera do que se seguiu. - Ele andava manifestamente envolvido com outra pessoa desde o Outono
ou, pelo menos,
muito antes do Natal.
Sam ficou estupefacto ao ouvir aquilo; porm, surpreendentemente calmo. Nunca julgara que ela
tivesse sabido to cedo da existncia de Daphne.
Phillip Smith olhou para ele com muita frieza.
- Isso  verdade?
Sam detestava ter de admiti-lo e chocava-o pensar que
326
Alex j tinha conhecimento de tudo nessa altura. Sabia, contudo, que tinha de ser honesto, por
muito desagradvel que isso fosse na presena de Alex.
- Sim,  verdade.  a mulher de que eu te falei. A prima do Simon. A Daphne Belrose.
- Ela tambm est implicada?
- Por enquanto, no, mas receia vir a estar. Anda a dizer que volta para Inglaterra logo que acontea
alguma coisa.
- Seria um disparate - comentou Smith com firmeza. Isso transform-la- numa fugitiva e eles
poderiam extradit-la de Inglaterra. Qual  a sua situao com ela neste momento?
- Estou a viver com ela, pelo menos at esta manh - respondeu Sam, sentindo-se um perfeito idiota.
- Compreendo. - Phillip fez um sinal afirmativo. Bem, Mister Parker, preciso de algum tempo para
digerir isto, e veremos o que faz o tribunal. Quando vai depor?
- Daqui a dois dias.
-Isso d-lhe tempo para traar um plano de aco.
Phillip no parecia satisfeito com o caso, e Sam no lhe
era simptico de todo; no entanto, estava disposto a aceit-lo
por Alex. No tinha dvidas de que seria um caso interessante e prolongado. Depois, deixou-os ss
na sala de reunies e disse a Sam que lhe telefonaria na manh seguinte.
Avisou Alex que lhe telefonaria mais tarde. E os dois ficaram a ss, um perante o outro. Era a
primeira vez que estavam ss desde o comeo do Vero.
- Desculpa. Eu ignorava que sabias tanto - confessou
verdadeiramente penalizado e com uma humildade que lhe
era invulgar.
- Sabia o suficiente - retorquiu ela, tristemente, sem
querer abordar o assunto. J no valia a pena. Fossem quais
fossem os laos que restavam, ou a filha de ambos, o seu casamento acabara. - Acho que ests
metido num sarilho,
Sam. Num grande sarilho. Lamento que tudo isto tenha
acontecido. Espero que o Phillip possa ajudar-te.
- Tambm eu. - E, depois, com uma expresso de
327
verdadeira desolao, olhou para ela do outro lado da mesa. Desculpa arrastar-te nisto tudo, causar-
te este embarao. Tu no mereces uma coisa destas.
- Nem tu. Tu merecias um bom pontap no rabo - disse ela, com um sorriso triste. - Mas no to
forte.
- Talvez - respondeu ele com um ar infeliz, consumido pelo remorso por tudo o que lhe fizera. -
Quando sou beste da Daphne?
- Vi-te com ela a sarem do Ralph Lauren, pouco antes do Natal. O vosso ar dizia tudo. No era
muito difcil ima ginar o resto. Creio, como tu em relao ao Simon, que no
quis ver. Era demasiado doloroso e tinha tantas outras coisas com que me preocupar.
Fora devastador, mas ela no o confessou. Sam percebeu-o, ao olhar para ela, e desejou que o tempo
recuasse e alterasse as coisas. Agora, era demasiado tarde.
- Creio que perdi a cabea temporariamente. S conseguia pensar no que acontecera quando a
minha me morreu. De certo modo, convenci-me de que tu eras ela e que ias morrer e arrastar-me
contigo, como sucedeu ao meu pai.
Entrei em pnico. Creio que o caso com a Daphne tambm foi uma loucura. Era a minha maneira de
me esconder da realidade. Mas feri toda a gente durante o processo. Nem sequer sei o que hei-de
pensar neste momento. No sei se ela me encurralou, ou se foi sincera.  uma sensao terrvel.
Nem sequer sei ao certo se a conheo.
No entanto, conhecia Alex e sabia como a magoara: E detestou-se por isso. Sabia agora que teria de
pagar por aquilo para o resto da vida.
- Talvez fosse o destino, Sam - disse Alex, filosofando.
Era tarde de mais para eles, mas pelo menos ele recup rara a lucidez e compreendera porque a
magoara. O terror de perd-la afectara tudo, tal como sucedera com a sua me.
- Suponho que queres divorciar-te agora - disse, entendendo-a perfeitamente.
Alex, ao olhar para ele, to vulnervel, to ferido, to assustado, com um futuro to incerto, no
conseguiu pression-lo.
328
- Podemos falar disso depois de te libertares dos teus problemas.
Naquele momento, no lhe parecia decente penaliz-lo mais. Apesar de Brock desejar ardentemente
o divrcio, na realidade, no havia grande pressa. Um ou dois meses no fariam muita diferena.
- Mereces muito mais do que eu te dei - disse ele, desolado.
Sam ia a dizer mais qualquer coisa; porm, teve o bom senso de no se aproximar dela. Apreciara a
sua amabilidade e no queria abusar.
Alex no podia discordar do que ele dissera. Mas agora compreendia um pouco melhor. E
felizmente tivera Brock para ajud-la a ultrapassar aquilo.
- Talvez no tivesses alternativa - concedeu ela, amavelmente. - Talvez no pudesses evitar o que
sucedeu.
- Eu devia ter levado um pontap. Fui um autntico idiota.
- Hs-de sair disto, Sam - animou-o, com ternura. s boa pessoa, fundamentalmente, e o Phillip 
um belo advogado.
- E tu tambm s, e uma boa amiga - disse ele, reprimindo as lgrimas e levantando-se ao mesmo
tempo que ela.
- Obrigada, Sam - agradeceu ela, com um sorriso. Tentarei acompanhar o que se passar. Telefona-
me, se precisares de mim.
- D um beijo meu  Annabelle. Tentarei ir v-la este fim-de-semana, se no estiver na cadeia -
disse ele tristemente.
Alex sorriu-lhe,  porta.
- No estars. Adeus.
Alex voltou para o gabinete, e Brock estava  sua espera. Andava outra vez de um lado para o outro,
muito ansioso. Sabia que ela estivera outra vez com Sam na sala de reunies. Liz dissera-lhe. E vira
Phillip sair.
- Disseste-lhe?
- Mais ou menos. Ele disse que j calculava que eu quisesse o divrcio e que voltaramos a falar
disso quando ele se visse livre deste problema.
329
- O qu? Porque no lhe disseste que o querias j? Brock estava furioso, e ela parecia exasperada e
exausta. Fora esgotante estar ali sentada, a discutir os motivos pelos quais o casamento de ambos
falhara, e tambm muito aborrecido, sobretudo sabendo que ele estava metido em grandes apuros.
Seria muito traumatizante para Annabelle se ele fosse para a priso.
- Eu no lhe disse que o queria agora, porque no faz diferena se nos divorciarmos este ms ou
para o prximo. Pelo amor de Deus! No vamos a lado nenhum. Tenhamos um certo respeito por
ele ou, pelo menos, compaixo.
 acusado de peculato e de burla. E tinha acabado de chegar da Europa quando soube. Depois de
dezassete anos de casamento e de uma filha, acho que posso conceder-lhe umas semanas de trguas
para ele tratar dos seus problemas.
 - E que benevolncia teve ele para contigo no ano passado? Teve pena de ti? Lembras-te? - gritou
ele, o que era invulgar.
Alex achou que ele estava a comportar-se como uma criana, mas no disse nada.
- Lembro-me perfeitamente. Mesmo assim, no creio que tenha de lhe bater na cabea por causa
disso. Acabou-se, Brock. No interessa quando  que conseguiremos a certido de bito. O meu
casamento com o Sam morreu. Ambos sabemos isso.
- Com esse filho da me, no estejas to certa disso: E, se a mida dele o mandar  fava, no tarda
nada que venha bater-te  porta. Eu reparei no modo como ele olhou para ti.
- Oh, cus, acaba com isso! Isto  completamente ridculo!
Alex recusou-se a discutir mais com ele. Brock voltou para o gabinete, furioso, e ela no voltou a
v-lo seno quando saram do emprego juntos, s sete horas da tarde. Mesmo nessa altura, Brock
estava de mau humor e manteve-se amuado durante o jantar. Alex nunca o vira comportar-se
daquela maneira, e foi preciso convenc-lo a acabar com aquela situao.
Na casa da Quinta Avenida, porm, Daphne no se
330
comportava melhor com Sam. Batia com as portas, partia copos e atirava coisas, e Sam no estava a
achar graa nenhuma.
- Como te atreves a acusar-me de uma coisa dessas, patife? - gritava ela. - Como te atreves a acusar-
me de te ter encurralado, como tu disseste? Eu no desceria a uma coisa dessas! Mas que truque
baixo esse de tentares atirar os teus crimes para cima de mim! Bem, no penses que te safas. O
Simon j disse que vai arranjar-me um advogado, se eu precisar. Mas tambm no vou ficar aqui
sentada  espera disso. Voltarei para Londres se essas acusaes ridculas se mantiverem. No vou
ficar sentada a ver-te ir para a cadeia e a tentares arrastar-me contigo.
- Na verdade, querida, creio que no serias uma boa companhia, a avaliar por tudo isto. - Sam olhou
para os objectos estilhaados  sua volta e no teve foras para discutir mais com ela. - O que
pensarias tu no meu lugar? Atraste-me para a tua cama, no ano passado, e foi muito agradvel,
devo acrescentar. Entretanto, o Simon ia destruindo a minha empresa. Custa a crer que no
soubesses nada do que estava a passar-se, embora me agrade pensar que no sabias. A propsito,
descobri que a minha mulher soube sempre do nosso caso. Devo dizer que tens de dar crdito 
pobre mulher. Ofereci-lhe o pior acordo que uma mulher podia ter nesta vida, enquanto ela jazia,
semimorta, a vomitar as entranhas por causa da quimioterapia, e ela teve a elegncia de no admitir
que sabia que ns tnhamos um caso amoroso. Ela  uma verdadeira senhora.
Ao contrrio de Miss Belrose, pensou Sam, mas no o disse.
- Ento porque no voltas para ela? - perguntou Daphne, sentando-se numa cadeira de couro preto e
balouando uma perna por cima da outra, o suficiente para ele ver o que tinha ali. Mas ele j vira e
j no se sentia enfeitiado. Quebrara-se o encantamento.
- A Alex  demasiado inteligente para me aceitar - respondeu ele, tranquilamente, em resposta 
sugesto de Daphne. - No a culpo sequer. Creio que tenho o dever de, pelo menos, no me
aproximar dela.
- Talvez vocs se meream um ao outro. O senhor e a
331
senhora Perfeio. O senhor Honestidade. O senhor Ingenuidade, que no imaginava que o Simon
estava a multiplicar os seus negcios por milhes. At onde vai a tua ingenuidade, Sam? Ou, para
ser mais directa, at que ponto vai a tua estupidez? No me digas que no sabias nada! Eu no o
ajudei a tramar nada, mas, pelo amor de Deus, at eu percebia o que estava a acontecer. No me
digas que tu no sabias!
- A estupidez incrvel de tudo isto  que eu andava distrado. Andava to atarefado a tentar meter-me
debaixo das tuas saias que nem via o que se passava  minha volta. Tu cegaste-me, minha querida.
Eu fui um perfeito idiota e suponho que mereo o que est a acontecer-me.
- No est a acontecer nada, Sam. Acabou tudo. Tu ests liquidado - exclamou ela, num tom
zombeteiro, como se isso a divertisse.
- Eu sei que estou. Graas ao Simon.
-E nem sequer arranjars emprego como funcionrio bancrio quando isto tudo acabar.
- E tu, Daphne? Como te sentes com tudo isto? Estars aqui para me fazeres o jantar quando eu
chegar a casa, vindo de um empregozeco qualquer, a vender pregos?
Sam olhava para ela com um desprezo total e falava com sarcasmo. S agora via quem ela era.
- No creio - respondeu Daphne, descruzando as pernas outra vez e mostrando tudo o que ele
desejara. Sam perdera uma vida inteira pelo que ela tinha entre as pernas, no valera a pena. - A
festa acabou, Sam. Chegou o momento de eu me ir embora. Mas foi divertido, no foi?
- Muito - reconheceu ele, enquanto ela se aproximava
devagar, e lhe metia a mo no interior da camisa aberta. Apalpou-lhe os mamilos, o peito e o
estmago firmes, mas
ele no se mexeu. Depois, tentou meter-lhe a mo nas calas, mas ele agarrou-lha antes que ela
avanasse. Era a nica coisa que tinham tido, sexo puro, e em grande quantidade. Mas o prazer sara
caro.
- Sentirs a minha falta? - perguntou ela, sem se afastar dele e aproximando-se ainda mais.
Era como se ela quisesse provar qualquer coisa, abraando-o mais uma vez; ele, porm, no
permitiria.
332
- Sentirei a tua falta - respondeu ele, pesaroso. - Sentirei a falta da iluso.
Trocara a vida real por uma fantasia, e sabia-o. Era uma admisso amarga. E perdera Alex durante o
processo.
Daphne colou a sua boca  dele, com fora, e agarrou-se a ele at o sentir vibrar; ele beijou-a com o
que restava da sua paixo. Depois, afastou-se e olhou-a com um ar triste, pensando que nunca viria
a saber se ela colaborara na sua destruio ou se fora tudo tarefa do primo. Era terrvel no saber.
- Uma ltima vez - suplicou ela, com uma voz rouca. Gostara mais dele do que tencionava. No era
pessoa para se envolver ou ficar naquela situao para sempre. E com ele fora diferente. Mas at ela
sabia que tudo estava acabado.
Ele abanou a cabea em resposta  pergunta dela. Saiu de casa e deu um longo e tranquilo passeio a
p. Tinha muito em que pensar: Voltou duas horas e meia depois. No se ouvia nada quando entrou
em casa. Sam olhou  sua volta e percebeu que ela no estava. O apartamento estava to vazio como
o seu corao. Ela levara tudo o que ele lhe oferecera e no lhe deixara nada, excepto recordaes e
perguntas. Naquela noite, no noticirio das onze horas, anunciaram que Simon Barrynore fora
indiciado pelo tribunal por dezasseis casos de peculato e de burla. Ningum fez referncia  sua
prima, e possvel cmplice, Daphne Belrose, que, naquele preciso momento, ia de avio para
Londres.

CAPTULO 20
A comparncia de Sam perante o grande jri foi assustadora. Durou o dia inteiro. E, no final, a
acusao foi formalizada. Samuel Livingston Parker seria julgado sob a acusao de nove crimes.
Cada um dos scios era acusado de treze e Simon Barrymore de dezasseis.
Alex no fora s audies de Sam. Porm, telefonara-lhe
depois de Phillip Smith ter regressado ao escritrio.
- Desculpa, Sam - disse ela tranquilamente.
Sempre pensara que a acusao seria formalizada. Agora
Sam teria de combat-la ou de apelar, na esperana de reduzir o nmero de crimes de que era
acusado. Ojulgamento
estava marcado para o dia dezanove de Novembro e eles tinham trs meses para preparar a defesa.
Phillip Smith j recrutara trs dos melhores advogados
da empresa para ajud-lo. Larry e Tom eram representados
por outra firma e Simon era representado por algum
em quem Alex nunca ouvira falar.
- E a rapariga? - perguntou Alex, naturalmente.
Eles no conseguiram deitar-lhe a mo. Como  que
ela conseguiu safar-se?
- Foi uma questo de sorte, suponho.
- Ela deve estar satisfeita - comentou Alex friamente.
- No fao ideia. Foi para Londres. Percebeu que
os bons tempos tinham acabado.
E Daphne no se enganara. Sam sabia o que lhe estava
reservado. O xito no mundo financeiro era muito volvel.
Assim que o dinheiro e que os grandes negcios desapareciam, e depois de um escndalo como
aquele, desaparecia tambm o respeito e o reconhecimento. Sam ainda no
tentara, e no tencionava faz-lo to cedo, mas tinha a certeza de que, se telefonasse para La
Grenouille, Le Cirque ou o Four Seasons, s poderia fazer reservas s cinco e meia ou s onze e
meia, e a mesa seria na cozinha. O champanhe
corria enquanto havia dinheiro.
A partir daquele momento o nome de Sam Parker
fora esquecido.
334
Curiosamente, Sam sempre afirmara que isso no tinha
importncia para ele; apercebia-se agora de que no era assim. O simples facto de saber que o seu
nome estava conspurcado, que a sua empresa fora por gua abaixo e que a sua
reputao estava destruda fazia-o sentir-se acabado. De repente, percebeu o que Alex sentira
quando perdera o seio e,
com ele, o seu sentido de feminilidade e de atraco sexual e a sua capacidade para ter filhos. Ela
sentira-se diminuda como mulher. E ele decerto no a ajudara nada ao sair de casa para os braos
de outra mulher. Uma boa prenda. Agora, s tinha remorsos. Com a perda da sua situao
importante e da sua respeitabilidade, ele sentia que perdia a sua virilidade e a sua condio de
homem.
- O Phillip est a arranjar uma grande equipa para ti        disse-lhe Alex ao telefone, para o
encorajar.
O pior  que Alex nem sequer lhe queria mal. A situao
teria sido mais fcil se ela o odiasse, mas aparentemente no

 odiava. Parecia no se importar com o que ele lhe fizera.
Reconciliara-se com tudo o que lhe acontecera. Sam no sabia como ela o conseguira. E era
evidente que ainda no se
apercebera do seu envolvimento com Brock. Alex no comprometera nada, e nem mesmo as
queixas de Annabelle contra ele pareciam ter implicado outra coisa que no fosse amizade.
- Vais ser integrada nessa equipa? - perguntou Sam,
embaraado com a sua prpria pergunta.
Sentia-se to inseguro e assustado que o seu comportamento era quase infantil. Nem sequer sabia o
que iria fazer 
sua vida antes do julgamento. Eles iam fechar a empresa e liquidar os negcios. E todos os bens da
empresa tinham sido
 congelados. Sam tentava reunir tudo o que podia para atender ao maior nmero possvel de
clientes, com os seus prprios recursos, mas haveria perdas considerveis para muitos. Simon era
responsvel pela maior parte delas, mas Tom
e Larry tambm tinham a sua quota-parte de responsabilidades, e Sam, inconscientemente, ajudara-
os, visto que apusera tambm a sua assinatura. Estivera sempre desatento. Sentia-se terrivelmente
culpado, mas era demasiado tarde para alterar a situao. S lhe restava sofrer o castigo, fosse ele
335
qual fosse. s vezes, pensava que merecia ir para a cadeia por mera estupidez, e disse-o a Alex
antes de ela ter oportunidade de responder  pergunta dele.
- Tanto quanto sei, ainda no h crime. No, no farei parte da equipa, mas estarei atenta.
Ele sabia que no merecia tanto da parte dela, e no argumentou.
- Obrigado. Vamos fechar o escritrio na prxima semana ou dentro de quinze dias. J se foi
embora quase toda a gente. - Levara precisamente trs dias a esvaziar todos os gabinetes e ningum
queria estar aliado a eles por mais tempo do que era necessrio. - Acho que, depois disso, ser
apenas a preparao para o julgamento. - E depois, sem mais nem menos, Sam acrescentou: - Vou
vender o apartamento. Agora no preciso dele e, francamente, o dinheiro faz-me falta. - Na verdade,
Sam comprara-o por causa de Daphne. - Alm disso, se for preso, no preciso da dor de cabea que
 pag-lo. Vou ficar hospedado no Carlyle.
- Isso vai agradar  Annabelle.
Alex tentava mostrar-se encorajadora; porm, tal como acontecera com a sua doena no ano
anterior, o prognstico no era famoso. Sam tinha uns maus bocados a passar. Ficaria sem um tosto
e exposto  curiosidade de todos; todos os seus pecados, toda a sua estupidez e todos os seus
fracassos ficariam  merc de doze homens ou mulheres virtuosos, um jri constitudo pelos seus
pares, o qual determinaria o seu futuro. Era uma perspectiva bastante assustadora.
Ento, Alex lembrou-se que estava cuase a chegar o fim-de-semana do Dia do Trabalho.
- Vais levar a Annabelle?
- Gostaria.
Sam estaria a ss com ela e seria um alvio no ter de discutir com Daphne. No tinha pensado em
ir fosse onde fosse. Queria apenas estar com Annabelle e fruir a sua companhia.
Carmen trouxe-a para a cidade; quando ele veio busc-la,
Alex no estava em casa. Naquela semana, no voltou a
v-lo no escritrio, embora soubesse que ele l fora falar com Phillip. Oficialmente, Alex tentava
manter-se fora do
336
caso, mas continuava atenta, embora  distncia. E prometera a Sam que assistiria ao julgamento e
compareceria s reunies preliminares sempre que pudesse. Contudo, no queria que Phillip
sentisse que ela estava a intrometer-se ou a interferir.
Na sexta-feira  tarde, quando ela e Brock foram passar
o fim-de-semana a East Hampton, estavam ambos exaustos.
Brock ainda andava aborrecido por ela no ter enfrentado
directamente Sam, pressionando-o com o divrcio; Alex
achava que ele estava a ser irracional e infantil. Na noite de sexta-feira, tiveram outra vez uma
grande discusso e, pela primeira vez em cinco meses, foram para a cama zangados.
De manh, porm, quando acordaram, ele puxou-a para
si e pediu-lhe desculpa.
- Desculpa. Tenho sido um idiota, mas ele assusta-me,         confessou.
Alex voltou-se para ele, admirada.
- O Sam? Porqu? O pobre est praticamente na cadeia.
Tem tantos problemas! O que te assusta?
- A histria. O tempo. Annabelle. Independentemente
do que esse filho da me te fez o ano passado, ele ainda  teu
marido e viveu dezassete anos contigo. Isso tem muito peso.
-        difcil lutar contra isso.
Brock olhou para ela intencionalmente, e ela no pde
neg-lo; mas amava-o e quis que ele soubesse.
,       - No tens de te preocupar, Brock - sossegou-o ela,
agarrando-se mais a ele e acariciando-lhe o cabelo com a
mo, como a um filho. s vezes, sentia-se muito mais velha, mas comovia-a o que ele sentia e, em
certos aspectos,
Brock tinha razo. As coisas a que ele se referia haviam-na
ligado a Sam durante quase duas dcadas. Brock tambm tinha uma histria com ela, uma histria
que se pautava por
uma ternura admirvel e ela no podia ignor-la. Alm dissso, amava-o. - No te preocupes com ele.
Eu tratarei de
tudo depois do julgamento. No me pareceu adequado faz-lo antes disso. Tal como o facto de ele
sair de casa antes de eu acabar a quimioterapia. Tenho a certeza que ele o desejava, mas, por muito
torpe que fosse nessa altura, ficou at eu acabar. s vezes,  apenas uma questo de decncia bsica
e de boas maneiras.
337
Alex sorriu e Brock retribuiu-lhe o sorriso. Pela primeira vez num espao de dias, sentiu-se
descontrado e puxou-a para si.
- Certifica-te apenas de que as boas maneiras no te mantm amarrada a ele. Seno, as minhas
maneiras deterioram-se num instante. Sou capaz de o matar.
Brock era a pessoa mais meiga que ela conhecia e Alex sabia que ele no falava a srio. S queria
que ela se libertasse do casamento com Sam e ela no o culpava. Tambm o desejava. Mas da
maneira certa, no momento certo, sem causar ainda mais sofrimento.
Passaram um fim-de-semana agradvel na praia e, na segunda-feira, fizeram as malas com pena.
Brock alugara uma carrinha para levarem tudo para casa, e estavam a desfazer as malas em casa
dela quando Sam chegou com Annabelle. A criana parecia muito mais bem-disposta do que depois
dos fins-de-semana passados com Daphne; dessa vez Sam ficou um pouco admirado. De repente, ao
ver Brock a ajud-la a tirar a bagagem do carro, percebeu que a relao deles ultrapassava a esfera
profissional.
- Posso ajudar-te? - perguntou Sam delicadamente, levando uma caixa para o vestbulo.
De sbito, sentiu-se um estranho naquela que fora a sua casa e percebeu que ela no lhe pertencia.
Brock foi muito delicado para ele e Alex mostrou-se muito agradvel; porm, quando ele viu
Annabelle com eles, percebeu que no podia interferir naquele conjunto. Eles faziam parte dele,
mas Sam no.
Saiu pouco depois, deprimido, e Brock sentiu-se satisfeito. No havia dvida. A mensagem fora
clara. Ela agora  minha, e Sam percebera-a.

CAPTULO 21
Annabelle voltou para o infantrio depois do Dia do Trabalho, e os outros regressaram  rotina
habitual. Alex retomara toda a sua carga de trabalho e ia ao tribunal quase diariamente. Brock
continuava a ajud- la, mas tambm tinha os seus prprios casos, e no trabalhavam tantas vezes
juntos como durante a quimioterapia de Alex. Ambos reconheciam que tinham saudades desse
tempo.
Vrios scios elogiaram-na pela coragem que demonstrara durante a doena, e Alex tornara-se uma
espcie de lenda na empresa. E, apesar do muito tempo que continuavam a passar juntos quase
todos os dias, ainda ningum desconfiava que ela e Brock andavam seriamente envolvidos um com
o outro. O caso deles continuava a ser um segredo bem guardado.
Brock passava todas as noites com Alex e a filha, depois de sair do emprego, e quase sempre dormia
l. Nenhum deles era de opinio que fosse bom para Annabelle que ele vivesse l a tempo inteiro;
por isso, Brock tinha de acordar de madrugada e ir para casa, o que ambos detestavam. S aos fins-
de-semana  que ele dormia l em casa, no quarto de hspedes. E tanto Alex como Brock estavam
ansiosos por falar do divrcio a Sam e pr a sua vida em ordem, quanto mais no fosse para
dormirem descansados, como Brock dizia. Annabelle adorava-o e talvez no se tivesse importado se
ele se mudasse l para casa.
Em Setembro, ainda faltavam mais de dois meses para o julgamento de Sam. E, em Outubro, as
suas reunies na empresa com Phillip Smith e com a equipa que este formara para o defender
tinham-se acelerado radicalmente. Ia ser um caso difcil de ganhar, e todos o sabiam. At Sam
alimentava poucas iluses. Nessa altura, j fechara a empresa, e todos os empregados haviam sido
dispensados. ao todo, as burlas ascendiam a cerca de vinte e nove milhes de dlares. Poderia ter
sido muito pior, mas Sam fizera o que pudera para minimizar os prejuzos dos clientes e tentava
activar todas as
339
aplices de seguros que podia para reembolsar as pessoas pela diferena. No entanto, fosse qual
fosse a perspectiva, o caso era feio. Os seus esforos para ajudar as pessoas a reaver o que podiam
no se destinavam a favorecer a sua defesa; faziam pura e simplesmente parte da sua maneira de ser.
Talvez naquele momento ele fosse mais igual a si prprio. Parecia mais feliz e mais tranquilo,
embora, quando Alex o via nas reunies com Phillip, ele estivesse tenso e muitas vezes nervoso. A
perspectiva de ir para a priso aterrava-o, mas admitia tambm que era uma hiptese muito
provvel. Phillip dissera-lhe mais do que uma vez que impedir que ele fosse para a cadeia era um
objectivo difcil de atingir.
Nos fins de Outubro, faziam-se acordos, e os promotores pblicos tentavam consegui-los para
fortalecer a acusao; at ento ningum o conseguira. Ofereciam-lhes em troca penas reduzidas,
mas isso no era muito apelativo. Em especial para Sam, cuja defesa argumentava que ele fora
extremamente estpido mas no intencionalmente desonesto.
- Achas que isso vai resultar? - perguntou Brock num fim-de-semana, enquanto vigiavam
Annabelle, que brincava no parque infantil.
Alex ficou a pensar.
- No tenho a certeza - declarou ela, honestamente. Espero que sim, para bem dele. Mas se eu
fizesse parte de um jri e ele me dissesse que fora parvo ao ponto de no se aperceber de que os
scios andavam a roub-lo enquanto ele andava atarefado a deixar-se defraudar, acho que me
desataria a rir e o mandaria logo para a cadeia.
- Tambm  isso que eu penso.
 Brock no tinha muita pena de Sam e continuava a pensar que ele merecia aquilo. No entanto, Alex
discordava dele.
- No podes mandar um tipo para a priso por ser mau para a mulher enquanto ela anda a fazer
quimioterapia, Brock. Isso  um disparate. Isso no faz dele um criminoso, mas sim um patife. A
questo aqui no sou eu, mas sim saber se ele andava a enganar as pessoas conscientemente. Acima
de tudo, eram advogados, e a conversa resvalava muitas vezes para os seus casos pessoais.
340
- Ele sabia... No me digas que ele no sabia. No queria saber. Mas sabia que o Simon no era
honesto. Tu prpria o afirmaste.
- Eu estava convencida de que o tipo era um escroque - disse ela, pensativa. - Mas o Sam sempre o
defendeu. Era
tudo to fcil, o dinheiro continuava a entrar, a avaliar pelo
que ele dizia, e eu julgo que ele quis acreditar que tudo era legal. Foi suficientemente ingnuo para
acreditar nisso, mas, repito, isso no  um crime grave.
- Ele devia ter verificado tudo mais de perto.
- Sim, devia.  nesse aspecto que eu creio que a sua vida amorosa interferiu.
- Vai ser um julgamento empolgante - previu Brock.
E foi. Os jornais no falavam de outra coisa a partir do
momento em que comearam os depoimentos. E, em meados de Novembro, faziam-se apostas na
comunidade financeira sobre quem iria e quem no iria para a priso. Toda a
gente pensava que Simon arranjaria maneira de se safar, pois
era demasiado falso para no o fazer. Continuava a fazer negcios na Europa enquanto aguardava
julgamento e estava
envolvido em meia dzia de casos escuros; porm, nada parecia det-lo. Previa-se que Tom e Larry
fossem para a priso. Sam, porm, era a incgnita que ningum conseguia
prever. A maior parte das pessoas estava convencida de que ele seria condenado, mas outras
pensavam o contrrio. Gozava de uma excelente reputao h muito tempo, e alguns
dos mais antigos acreditavam na sua histria, embora os
membros mais jovens de wall Street no acreditassem. Estavam convencidos de que ele devia saber,
ou sabia, e que no
quisera ouvir falar nisso, que era tambm o que Brock pensava.
Quando comeou o julgamento, Alex encontrava-se presente. Assistiu  seleco do jri e trocou
impresses com
Sam nos corredores, s para o manter distrado. Sam tinha
quatro advogados e havia mais cinco envolvidos na defesa
dos outros trs. Era um acontecimento de grande projeco, e a sala de audincias estava cheia de
reprteres. Alex perguntara a Brock se tambm queria ir, mas este dissera que no. Ambos sabiam
que aquilo ia ser um circo.
341
Brock continuava muito tenso em relao a Sam, e ansioso pelo divrcio de Alex. Dizia que no
acreditava seno quando ela falasse com Sam e lhe pedisse o divrcio. Alex continuava a prometer
que isso aconteceria logo aps o julgamento, e falava a srio. Ela e Brock estavam fisicamentt
envolvidos h oito meses e eram amigos ntimos h muito mais tempo, e ela amava-o. No entanto,
ela e Sam tinham-se conhecido h dezoito anos e tinham-se amado durante todo esse tempo. Alex
tambm lhe devia alguma coisa e, embora Brock no gostasse disso, Alex sabia que ele tambm
compreendia a situao. Porm, contra a sua vontade, e apesar de todos os raciocnios, Brock era
extremamente ciumento. Alex ficara admirada ao aperceber-se disso, mas tambm se deixara
comover.
O julgamento propriamente dito comeou na tarde do terceiro dia, reinando ma atmosfera de
grande tenso na sala de audincias. O jri fora escolhido com todo o cuidado e fora avisado de que
os temas que teria pela frente seriam complicados e de natureza financeira. Havia quatro argui dos,
acusados de crimes de vrios graus, e cada caso foi exposto com grande mincia. O de Sam foi o
ltimo, e Alex considerou que o juiz o expusera com grande clareza. Era um juiz excelente e ela
sempre tivera boas experincias com ele, mas isso no tinha qualquer significado naquele momento.
Os factos eram todos contra Sam, a menos que o jri acreditasse na sua histria. Ele era um homem
honesto, ou pelo menos sempre fora, mas a verdade neste caso era dificil de engolir.
Os depoimentos prolongaram- se por trs semanas, e o Dia de Aco de Graas passou-se sem que
se lhe desse muita ateno. Alex e Brock cozinharam um peru em casa dela e Annabelle comeu no
Carlyle com Sam, mas este no estava com disposio para comemoraes. Alex no pde deixar
de lembrar-se de que a sua reaco extrema  doena um ano antes, fora a gota de gua que fizera
transbordar o copo e que Sam ficara furioso por ela estar to enjoada que no conseguira vir para a
mesa. Sam recordava-se que o trauma desse dia o atirara finalmente para os braos e para a cama de
Daphne, pela primeira vez, e o que ele desejava acima de tudo, era que o tempo pudesse voltar para
trs.
342
No dia seguinte ao Dia de Aco de Graas, Sam apresentou-se no tribunal, muito distinto, alto e de
fato escuro;
quando Alex o viu, perguntou a si prpria como se sentiria
o marido. Sabia como a situao era difcil para ele, como
estava preocupado e como se encontrava em risco todo o seu
futuro. Ou pelo menos dez ou vinte anos desse futuro. Ao
pensar nisso, Sam estremeceu e olhou para Alex.
- Obrigado por teres vindo - disse ele em voz baixa, e
ela fez um aceno com a cabea.
Via como ele estava preocupado; parecia-lhe, no entanto,
 preparado para aceitar o que lhe coubesse. Ele j sabia que,
se perdesse, teria trinta dias at  leitura da sentena para tratar dos seus assuntos, antes de ir para a
priso, o que andaria para depois do Natal. Era um pensamento aterrador, no momento em que o
juiz pediu ordem na sala.
A segunda semana de Dezembro foi a ltima do julgamento. Sam foi  barra e o seu depoimento foi
emotivo e
muito comovente. Teve de parar uma ou duas vezes, quando se sentiu extenuado, e os reprteres
tiraram apontamentos rapidamente; Alex acreditou na sua histria. Sabia que
aquela poca fora um pesadelo para ambos, que estavam fora de si, e que o caso dele com Daphne
devia ter ensombrado ainda mais o seu julgamento. Ficou admirada com o seu
prprio desprendimento, em relao a Sam, porm, no
conseguia encarar o facto de ele ir parar  priso. Nem queria pensar que em tempos o amara. Isso
teria sido demasiado
doloroso.
Depois, quatro dos advogados dirigiram-se ao jri, nalguns casos de uma forma comovente, e Alex
concluiu que o
discurso de Phillip fora muito claro e descrevera os factos com clareza. Realava que o prprio Sam
afirmara, no banco das testemunhas, que entre a doena da mulher e a sua
prpria estupidez ele se permitira pensar que o que estava a
passar-se era legal, quando no era. A questo  que ele no sabia o que os outros andavam a fazer.
Nunca defraudara
ningum conscientemente, nem tomara parte no que acontecera. Conscientemente, nunca fizera
parte do conluio.
O jri levou cinco dias a deliberar e pediu provas e depoimentos. Recordaram tudo o que puderam e
depois
343
terminaram. Sam e os outros estavam muito plidos, quando lhes pediram que se levantassem no
momento em que o jri entrou na sala. Alex reparou que Simon tentava ostentar desprezo, mas
estava demasiado plido para que algum acreditasse nisso. Tal como os outros, estava hirto de
medo, e Sam era o nico de quem Alex tinha pena. E da pobre Annabelle. E se o seu pap fosse para
a priso? Algum na escola lhe falara disso, e Sam e Alex tinham tentado explicar-lhe o que se
passava de uma forma simples, mas a situao era demasiado confusa para ela. E no, no sabiam
se ele seria preso ou no, mas esperavam que tal no acontecesse. Fora uma m deciso.
Naquele caso, o primeiro jurado era uma mulher, que comunicou o veredicto em voz alta e clara.
Comearam por Tom e enumeraram as treze acusaes que pendiam sobre ele, e a cada uma ela
respondeu com uma nica palavra: Culpado. Culpado. Culpado. A leitura prolongou-se
eternamente, e a situao repetiu-se com Larry e com Simon. Houve um grande burburinho na sala,
os representantes da imprensa comearam a ficar desvairados, e o juiz, furioso chamou toda a gente
 ordem.
Depois foi a vez de Sam, e ento o veredicto foi inocente para todas as acusaes de peculato.
Porm, Sam foi considerado culpado em todas as acusaes de burla e conspirao. Alex ficou
colada ao cho e olhou para ele. Este ouviu o juiz em silncio, que disse que os acusados teriam de
regressar dentro de trinta dias para ouvir a leitura da sentena, e que conservaria em seu poder os
processos e os relatrios preliminares para deliberar at l. Foram libertados mediante uma cauo
de quinhentos mil dlares cada um, o que correspondia a uma fiana de cinquenta mil dlares,
quantia que Sam pusera de parte assim que fora indiciado. Em seguida, o juiz lembrou a cada um
deles que no poderiam sair do estado nem do pas. Depois, encerrou a sesso e houve um rebulio
imediato. Os fotgrafos dispararam as suas mquinas sobre todos eles, e Alex teve de abrir caminho
para se aproximar de Sam.
Sam parecia em estado de choque quando ela chegou ao p dele; tinha lgrimas nos olhos, o que era
compreensvel.
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As mulheres de Larry e de Tom soluavam ostensivamente,
mas Alex no lhes dirigiu a palavra. Simon saiu da sala de
audincias quase a seguir ao seu advogado.
- Tenho tanta pena, Sam - disse ela, suficientemente
alto para ele a ouvir, enquanto algum os fotografava.
-Vamo-nos embora daqui - pediu ele, destroado.
Alex inclinou-se sobre Phillip e perguntou-lhe se precisava de falar com o seu cliente, mas ele
abanou a cabea. Ficara
muito desapontado com o veredicto. Agora, todos os seus
esforos se concentrariam no sentido de reduzir a pena, mas
as hipteses eram muito escassas. Sam iria para a priso.
Alex saiu atrs dele, enquanto as cmaras e os microfones eram projectados para as suas caras. Por
fim, conseguiram romper a multido e apanhar um txi antes que algum
conseguisse det-los.
- Ests bem? - perguntou Alex.
Sam tinha um aspecto terrvel, e Alex receava que ele tivesse um ataque cardaco ou uma trombose.
aos cinquenta
anos, isso no era totalmente impossvel, embora fosse improvvel.
- No sei. Acho que estou atordoado. Eu sei que j esperava isto, mas creio que no... Vamos para o
Carlyle:
No hotel, foram encontrar reprteres  espera dele. Contornaram o edifcio at Madison Avenue e
entraram  pressa.
Ele perguntou-lhe se ela queria subir por uns minutos. Assim que chegaram ao quarto, Sam mandou
vir bebidas para
ambos. Um usque para ele e um caf para ela. Alex no bebia lcool.
- No sei que dizer - confessou Alex honestamente.
Faltavam-lhe as palavras. S lhe restavam sentimentos. Tristeza por ele e por Annabelle, que estava
prestes a perder o pai, por vinte anos ou mais. Era impossvel pensar numa
        coisa daquelas.
O perodo at  leitura da sentena seria difcil para todos, mas naquele momento tinham de viver
com isso.
- Posso fazer alguma coisa? - perguntou ela, desorientada.
Sentia-se quase to perturbada como no momento em
que soubera que tinha um cancro. No podia fazer nada para alterar a situao.
345
- Toma bem conta da Annabelle - pediu ele, desatando a chorar.
Sentou-se, com o rosto escondido nas mos, a soluar, durante muito tempo. Alex no disse nada,
aproximou-se dele e segurou-o pelos ombros com ternura. Quando chegaram as bebidas, ela
assinou, trouxe o tabuleiro para dentro e deu-lhe o usque. Sam aceitou-o, agradecido, e pediu-lhe
desculpa pela sua falta de compostura.
- No sejas tonto, Sam. Est tudo bem - respondeu ela com doura, tocando-lhe no ombro.
No podiam fazer nada. Ele fora considerado culpado e tinha de ir para a priso. Sabiam isso.
Sam bebeu um gole e olhou para ela.
- Devo-me ter sentido to mal como tu, quando te disseram que tinhas um cancro.
-  verdade - confirmou Alex, com um sorriso triste. Mas eu preferia fazer quimioterapia do que ir
para a priso.
Ele soltou uma gargalhada cnica e bebeu outro gole de usque.
- Obrigado. No creio que eles me dem alternativa.
- Acredita que no irias gostar.
- Eu lembro-me - disse ele tristemente, desolado por no a ter acompanhado. - Meu Deus, tu estavas
doente. E eu recusava-me a aceitar porque no podia suportar esse facto. At deixei que a Daphne
me ajudasse. Ela tinha sempre pena de mim e no de ti, e eu concordava totalmente com ela. Ns
ramos gente simptica. O senhor e a senhora Extraordinrios.
Sam olhou Alex nos olhos, grato por ela ter sobrevivido.
- Tens sabido dela? - perguntou Alex, curiosa. Ele abanou a cabea.
- Nem uma palavra. Ela  to querida. Tenho a certeza
que se mudou para pastos mais verdejantes. Ela cair de onde quer que esteja. A Daphne  uma
rapariga esperta no que toca aos seus interesses. - Ento, Sam olhou para a mulher com uma tristeza
incomensurvel. - Porque ests aqui? No devias estar aqui neste momento.
Era verdade, mas ela era fiel e ambos sabiam isso. Alm disso, Brock tinha razo. Dezoito anos
tinham construdo laos fortes entre eles.
346
- Amei-te durante muito tempo.  difcil esquecer isso - disse ela honestamente, j sem recear que
ele a magoasse.
Sabia que ele no podia faz-lo. Encontrava-se agora muito distante.
-  melhor esqueceres depressa - disse Sam. - Trinta
dias. Pedirei o divrcio antes disso, a propsito. Tenho a certeza de que o teu jovem amigo
advogado ficar aliviado.
O pobre parece que me quer matar sempre que me v. Diz-lhe que agora pode descansar, eu vou-me
embora.
Alex sorriu com a ironia das suas palavras. Conheciame -se bem um ao outro. Ele percebera
finalmente quem era
Brock. Embora tivesse sido bastante mais lento do que ela
fora ao descobrir a relao dele com Daphne. Mas agora no
havia segredos entre eles.
- Ele no  um pouco novo de mais para ti?
Houve um toque de cime na voz dele que a fez lembrar-se de Brock e sorrir. Estavam ambos a ser
patetas.
- Eu digo-lhe isso todos os dias, mas ele  muito teimoso. - Alex sorriu, lembrando-se de Brock. -
Foi espantoso
para mim quando estive doente. Passou os primeiros cinco
meses comigo, no cho da casa de banho do meu gabinete,
enquanto eu vomitava, antes de me convidar fosse para o
que fosse.
- Ele  bom homem - comentou Sam, para ser agradvel. - Quem me dera ter sido to decente como
ele.    Depois pensou no resultado do julgamento e encolheu os ombros, desolado. - Talvez fosse
precisamente por isso que
eu no fiquei junto de ti. No quero arrastar-te comigo.
Precisas da tua liberdade.
- E tu tambm - retribuiu ela, amavelmente.
- Diz isso ao juiz - disse ele, levantando-se. No tinha
o direito de a reter por mais tempo e ainda lhe fazia pior estar junto dela. Era to bvio que tudo
acabara para Alex, e era to duro estar junto dela. - Diz  Annabelle que eu vou busc-la amanh.
Quero fazer muitas coisas com ela este
ms.
Talvez s lhe restasse um ms de liberdade, e ele ia pass-lo todo com ela. Teria gostado de pass-lo
tambm com
Alex, mas nunca lhe teria pedido uma coisa dessas. Sabia
que no podia.
347
Nessa noite, quando Alex voltou para casa, para junto de Annabelle, estava triste. Brock telefonou a
dizer que vira o noticirio e que lamentava. Ficaria a trabalhar at mais tarde e chegaria da a pouco;
porm, quando chegou, Alex ficou irritada com a atitude dele em relao a Sam. Mostrou-se
desdenhoso e abertamente satisfeito por Sam ter sido condenado. Afirmo que Sam estragara a vida
dela e que no fundo merecia o que acontecera.
- Parece-me que vinte anos de cadeia podem ser um preo muito alto pelas asneiras dele, no achas?

- Quem  que no cometeu erros? Ele foi estpido e egocentrista, e ingnuo ao confiar nos scios,
mas no merece perder tudo, nem a Annabelle, por causa dos seus erros. Ela precisa do pai.
- Devia ter pensado nisso antes de trabalhar com o Simon. Com os diabos, Alex, o tipo falava por si!
Tu prpria o sentiste.
E Alex no podia neg-lo. Nunca confiara em Simon. Mas Sam confiara, e isso custava-lhe caro
naquele momento.
No dia seguinte, quando Sam veio buscar Annabelle, com um ar exausto, Alex achou que Brock
fora desnecessariamente desagradvel para com ele e, depois de Sam sair com Annabelle, disse-lho.
- Ele j tem que lhe chegue. No precisa que sejas mal criado.
Era raro discutirem, mas para Alex era uma questo
de lealdade e de amabilidade.
- Eu no fui malcriado, fui frio, o que  uma grande diferena.
- Tu no foste frio, Brock - retorquiu ela, como
se fosse a me dele a repreend-lo. - Foste desagradvel, o que  diferente. Isto podia ter acontecido
a qualquer de ns. Ele foi arrastado por uma multido fascinante que se serviu dele. Ests assim to
certo da tua invulnerabilidade? - perguntou ela, e Brock insistiu que nunca lhe poderia acontecer
uma coisa daquelas.
No entanto, foi a atitude dela que aborreceu Brock. no gostou das coisas que ela disse nem do
modo como as disse.
348
- Porque ests a defend-lo? - perguntou ele, de sbito
preocupado. - Ainda ests apaixonada por ele?
Brock olhou-a fixamente. Ele era o acusador e ela a
acusada.
- No creio - respondeu ela com sinceridade, querendo ser justa para ambos. Preocupo-me com ele.
Lamento
o que aconteceu.
- No achas que ele o merece? - insistiu Brock.
Estavam sozinhos em casa dela depois de Annabelle ter
sado com Sam, e Brock no queria perder a oportunidade.
-       Desejava saber o que ela sentia.
- No, no creio que ele o merea - respondeu Alex,
tristemente. - Est certo que ele perca a empresa e o emprego... A sua posio na comunidade... At
a sua reputao. Ele foi parvo; prejudicou muita gente pelo facto de
no ter visto o que os outros andavam a fazer. Mas no devia ir para a priso por isso, Brock, nem
por no me ter
apoiado... No est certo. Acho que ele no merece isso.
- Tu s demasiado benevolente - retorquiu Brock, observando-a. Depois, aproximou-se dela,
devagarinho, e
abraou-a. - Acho que  por isso que eu te amo. Depois, fechou os olhos e apertou-a tanto contra si
que Alex
mal podia respirar. - No quero perder-te, mais nada. Esse
 que  o ponto essencial para mim... Continuo a ouvir o
que tu dizes dele e a ver qualquer coisa no teu olhar que ainda sofre pelo Sam. Ainda no acabou,
digas o que disseres.
Ele ainda vive algures no teu corao... Talvez seja natural,
depois de dezoito anos e de uma filha pequena... No sei... S no quero perder-te - repetiu ele,
beijando-a.
 Quando se afastaram para respirar, Alex sorriu-lhe e tocou-lhe nos lbios com um dedo.
- No vais perder-me, Brock. Eu amo-te.
Alex estava a ser sincera.
- Mas tambm o amas - replicou ele, sabiamente, e
dessa vez Alex no o desmentiu.
- Talvez, sem saber. No o amo no sentido romntico
 do termo. Mas amo o que ele era e o que tivemos. Vivemos
juntos durante muito tempo. Julguei que tnhamos tudo...
E depois tudo se desmoronou.  difcil compreender isso.
349
Estavam unidos por um lao, como membros da mesma famlia, que era impossvel de destruir. - Eu
compreendo a sua dor. Creio que entendo o que ele fez. Sei como se sente.  difcil explicar isto a
outra pessoa ou deixar de o sentir, s porque as coisas mudaram entre ns.
- Tens a certeza que mudaram? - perguntou ele com brandura.
- Tenho - respondeu ela, com determinao. - Agora j no sou mulher dele. Sou algum diferente
do que era. No sei. No sei ao certo se poderemos recuar, depois de tudo o que nos aconteceu.
Podemos apenas avanar. E Alex aconchegou-se nos braos de Brock. Mas tambm no era sua
mulher. No pertencia a ningum. Pertencia a si prpria, pela primeira vez h vrios anos. Por muito
s que se tivesse sentido durante uns tempos, agora por vezes at gostava. Tinha o melhor dos dois
mundos. Um sentido de si prpria que nunca tivera, e Brock, que amava profundamente.
- Se alguma coisa mudar, avisa-me - pediu ele, com simplicidade, analisando o seu olhar e no
muito sossegado
com o que via. Sabia que ela estava dividida nos seus sentimentos. Tinha pena de Sam e devia
lealdade a Brock. E,  sua maneira, amava ambos, e Annabelle, e queria o que era justo para cada
um. Por vezes, isso no era fcil.
- No digas isso - pediu ela, num tom de censura. Nada mudar. Vai ser uma poca difcil para ele, e
eu gostaria, pelo menos, de apoi-lo.
- Porqu? Ele no te apoiou no ano passado. Porque  que este caso h-de ser diferente?
- Talvez em nome dos velhos tempos. - No entanto era isso que Brock pretendia dela. Pretendia o
mesmo vnculo antigo que a unia a Sam naquele momento, mesmo  distncia.
- No te compadeas demasiado dele. Eu preciso de ti - disse ele, beijando-a outra vez com ternura.
- Tambm eu - respondeu Alex, em voz baixa, e fizeram amor naquela cama que ela em tempos
partilhara com Sam e que nunca mais partilharia com ele. O que dissera a Brock era verdade e
acreditava nisso. O passado desaparecera e era altura de avanar. Alm disso, Alex amava-o.
350
Naquela tarde, Sam ficara pensativo quando Alex fora buscar Annabelle ao Carlyle, depois de pai e
filha terem passado o dia juntos. Era como se nas ltimas vinte e quatro horas o veredicto se tivesse
entranhado nele; Sam comeava a entrar em pnico. Estava prestes a perder tudo, a liberdade, a
vida, a filha e at os ltimos resqucios de tudo o que partilhara com Alex. E, de sbito, sentia-se
muito menos sereno do que na noite anterior, depois do veredicto, quando bebia o seu usque. A
presena de Annabelle recordara-lhe tudo o que ele iria perder, e o facto de ver Alex tornava a
situao ainda mais pungente.
Naquela tarde, dissera a Annabelle que as coisas no tinham corrido bem para ele. Ela ainda no
entendia o que isso queria dizer e ele no lhe explicara todas as implicaes. No lhe falara em
separar-se dela, nem em ir para a priso. Trataria disso mais tarde. Ainda tinha trinta dias para o
fazer.
- Divertiram-se? - perguntou Alex, sorrindo. Viera buscar Annabelle enquanto Brock fora comprar o
jantar ao Gristede.
- Divertimo-nos a valer - respondeu Sam, com melhor aspecto mas ainda tenso. - Fomos patinar. -
Em seguida, disse a Annabelle que fosse buscar a boneca e a camisa ao outro quarto. Voltou-se para
Alex, com um ar angustiado. - Desculpa aquilo com o teu amigo, esta manh. Ele parecia
aborrecido. Creio que o perturbei.
Alex fez um aceno com a cabea e hesitou na resposta mas, como sempre, foi honesta.
- Ele tem medo da nossa histria, Sam. No posso culp-lo. Dezoito anos  muito tempo,  difcil
explicar isso a outra pessoa. Ele receia que essa fidelidade seja mais forte do que o amor, o que 
um disparate.
- ? perguntou ele, ternamente, atrevendo-se a levantar os olhos para ela, e foi doloroso o que viu.
Viu uma mulher que ele magoara profundamente e recordou-se de todos os momentos que passara
com ela. - Lamento ouvir isso. Creio que tenho sorte por ainda existir qualquer coisa, depois do que
te fiz.
Sam passara a noite anterior e aquela tarde a pensar nela e no sofrimento que lhe causara.
351
- Sam, no, pediu ela, com doura.
Era demasiado tarde para recriminaes. Havia demasiados remorsos e ms recordaes, alm das
boas.
- Porque no? Acho que no devia dizer nada, mas de repente tenho esta sensao estranha de que o
tempo voa, o que sabemos no ser assim to estranho, depois do veredicto de sexta-feira. Talvez
seja importante falar agora, caso no tenhamos oportunidade de falar mais tarde.
Alex compreendia o que ele sentia, mas no era capaz de ajud-lo. Podia estar ali junto dele, at um
certo ponto; podia ajud-lo em relao a Annabelle e solidarizar-se com o que ele estava a passar,
mas no seria capaz de dar-lhe mais do que isso. Essa parte da sua vida pertencia agora a Brock.
- Ainda te amo - confessou ele em voz baixa, falando- lhe ao corao, no momento em que
Annabelle voltou para o outro quarto, aos saltos, com a boneca e a camisa na mo. Estou a ser
sincero - insistiu ele.
Ela voltou-lhe as costas e ignorou-o, desejando que ele no tivesse dito nada. No tinha esse direito.
Alex ajudou Annabelle a vestir-se, a pr o chapu e o casaco, com as mos a tremer, e no disse
uma palavra a Sam seno quando Annabelle foi chamar o elevador e eles foram atrs dela.
- No tornes as coisas mais dificeis do que tm de ser. Sei que este  um perodo dificil para ti e
sinto-me muito mal, mas Sam. No nos magoes a todos outra vez. - Se ele estava a brincar com ela,
isso s a magoaria, e tambm a Brock, a Annabelle e a ele prprio. - No faas isso.
- Eu no quis magoar-te - declarou ele, pensativo. De sbito, tinha tanta coisa para lhe dizer. - Creio
que tenho de ter coragem para te deixar em paz, sinta eu o que sentir, sobretudo se for para a priso.
Prometi isso a mim prprio. Mas talvez seja um erro maior deixar que te vs embora sem pelo
menos te dizer que te amo. Sei que no tenho direitos em relao a ti. Com os diabos, j nem sequer
me sinto um homem. Tudo aquilo a que liguei a minha identidade desapareceu, dinheiro, sucesso,
posio. Creio que foi o mesmo que sentiste quando perdeste o seio, mas somos ambos estpidos. A
tua feminilidade no era o teu seio... A
352
masculinidade no era o meu emprego. Est nos nossos coraes, nas nossas almas, naquilo que
somos, naquilo em que acreditamos. No sei porque nunca entendi isso antes. Entendo melhor
agora, e o diabo  que me apercebi disso demasiado tarde, demasiado tarde para ns. E s me
apetecia recuar um ano e comear de novo.
Alex sentia-se chocada com o que ele acabava de dizer.
- No posso, Sam - retorquiu ela em voz baixa, fechando os olhos por instantes, para no ver a dor
nem o amor no olhar dele. Porque no lhe dissera ele aquilo tudo um ano antes? Agora, era
demasiado tarde. - No me digas essas coisas. No posso voltar atrs e no posso fazer isso ao
Brock.
Ainda naquela manh ela lhe prometera que no o faria.
- O que andas a fazer com ele? - perguntou Sam,
aborrecido. - Ele  um garoto. Um garoto simptico, isso vejo eu. E tem sido bom para ti. Mas,
daqui a dez anos, onde estars? Ele pode dar-te aquilo que tu queres?
- No  aquilo que ele me pode dar - garantiu ela com
firmeza. -  que ele j me deu muito. Agora  a minha vez de dar.
- No lhe podes dar a tua vida em troca do que ele fez
por ti, tal como eu no posso compensar-te pelo que no fiz. Mas. ainda te amo, Alex. Tu ainda s
minha mulher. Talvez euj no tenha direitos sobre ti. No tenho com certeza. Mas quero que saibas
que sempre te amarei. Mesmo nos meus momentos mais loucos, nos meus piores. Sempre te amei.
No queria afastar-me, mas tambm no podia ficar. Estava a fugir de tudo, de ti, do fantasma da
minha me, da realidade. E tive de me ligar quela rapariga. Sei que fiz mal, mas ela estava a dar
comigo em doido. E tu tambm. Eu estava a enlouquecer. Contudo, nunca quis magoar-te.
Ele queria que ela ouvisse tudo aquilo antes de ele ir para
a priso. Mas no era justo. Ele tocara num ponto que ainda estava demasiado sensvel e atingia
uma parte dela que ainda lhe pertencia, o que era demasiado doloroso. Alex no queria am-lo.
Foi com uma voz grave e triste que ela lhe respondeu,
olhando para Annabelle, que os esperava, ao longe, no corredor.
353
- Seria muito mais fcil, Sam, se nos afastssemos un do outro sem mcula. No olhes para trs, no
chores pelo passado. De que serve isso agora?
- Talvez de nada. Mas no h situaes imaculadas aps dezoito anos. No sei onde  que tu acabas
e eu comeo - confessou ele, de lgrimas nos olhos. - Consegues sair assim desta situao?
Consegues dizer que no sentes nada, apenas lealdade? No acredito.
Nem ela acreditava; de repente, ficou furiosa com o que ele estava a fazer. Naquele momento, ele
queria confessar-lhe todos os seus pecados e mostrar-lhe a sua alma.  ltima hora, apesar de tudo o
que fizera, no queria perd-la.
- O que pretendes de mim, Sam? - inquiriu ela, furiosa. - Obrigar-me a admitir que te amo, para que
tu te sintas bem quando partires?. Deixa-me ir embora. Vamos ambos libertar-nos, tal como
afirmaste ontem, depois do veredicto. Ambos precisamos disso. No leves isso contigo para a
priso.
- No consigo abstrair-me - retorquiu ele, numa agonia visvel. Passara a noite acordado, a pensar
nela e no veredicto. E, de repente, tudo se modificara. No queria deix-la afastar-se dele em
silncio. - No sei como hei-de abstrair-me disto - repetiu, tocando-lhe no brao e desejoso de beij-
la. - Ainda te amo.
- Tambm eu, Sam - respondeu ela tristemente, e Brock tambm o sabia e tambm o dissera. - Mas
agora  demasiado tarde.
Ambos sabiam que era verdade; ele, porm, ainda no estava preparado para desistir, e Alex olhou
para ele. Anna belle acenou-lhes, e a porta do elevador abriu-se.
- No faas isso, Sam. Por favor. Para bem de ns dois.
Fora muito mais fcil quando ele sara para ir ter com
Daphne. Parecia to seguro nessa altura, e agora tinha um ar to destroado que Alex j no sabia ao
certo o que lhe via.
- Desculpa, Alex - disse ele, desesperado e infeliz. Posso voltar a ver-te?
Sam parecia estar em pnico. O elevador aguardava.
354
- No. - Alex abanou a cabea e correu ao encontro
de Annabelle, arrependida de ter vindo. - No posso,
Sam. No podia fazer aquilo a Brock nem a si prpria.
No podia. - Desculpa.
Em seguida, entrou no elevador, atrs de Annabelle e,
quando as portas se fecharam, ele lanou-lhe um olhar ardente. A caminho de casa, agarrada  filha,
Alex tentou afast-lo do pensamento e tudo o que ele dissera, e pensar em
Brock.
- O pap estava zangado contigo?
Annabelle olhou para ela, confusa, com o vento frio a
bater-lhe na cara, enquanto as outras pessoas passavam por
elas, apressadas, com as compras de Natal.
- No, querida. Estava bem - mentiu Alex, sem saber
por que razo as crianas viam sempre tudo aquilo que no
deviam.
- Ele ficou triste quando ns nos viemos embora.
- Talvez estivesse triste por se separar de ti, mas no estava zangado. Garanto-te. - Apenas triste. E
muito insensato.
Foi um alvio chegar a casa e encontrar Brock e os odores deliciosos que vinham da cozinha. Ele
estava a fazer o
molho para o esparguete e po de alho; Alex prometera fazer sopa, massa, salada e semifrio.
- Correu tudo bem? - perguntou Brock olhando para
Alex quando ela tirou o casaco e aqueceu as mos. Parecia
estar com muito frio e a tremer um pouco.
- Correu - respondeu ela, com um sorriso, abraando-o, junto do fogo, e tentando esquecer tudo o
que Sam lhe
dissera.
No entanto, fizesse o que fizesse naquela noite, ou por
muito que se agarrasse a Brock quando este estava deitado a
seu lado, as palavras de Sam continuavam a pairar  sua volta como espritos.

CAPTULO 22
Annabelle foi passar uma semana com Sam, a seguir ao Natal, e Alex fez questo de no o ver
quando foi lev-la. Deixou-a subir sozinha no elevador do Carlyle. Alex nunca mais soubera dele
desde a ltima vez que o vira, e s podia concluir que ele recuperara o bom senso.
A vspera de Natal fora maravilhosa, com Brock e Annabelle. E tinham alugado a mesma casa em
Vermont, para irem passar a semana entre o Natal e o Ano Novo. Dessa vez, Alex esquiou e
divertiu-se muito. H um ano que no se sentia to bem. Tinha o cabelo mais comprido e usava-o
apanhado num rabo-de-cavalo de que Brock muito gostava e que considerava muito sensual. Depois
daqueles dias em Vermont, ele acalmara-se em relao a Sam. Sabia como Alex o amava e de
repente sentiu-se ridculo por se ter preocupado.
Enquanto l estavam, souberam tambm que Sam pedira o divrcio logo aps o Natal. E Alex
sentiu-se particularmente aliviada. Era bvio que ele recuperara a lucidez. Deixar o passado para
trs era difcil para ambos, mas ela no duvidava de que isso se impunha.
Ela e Brock falaram em casarem-se tranquilamente em Junho, e ela voltou a lembrar-lhe que ainda
tinham de esclarecer a situao na empresa. Haviam falado at da lua-de- mel, na vspera do dia de
Ano Novo, deitados em frente da lareira, e Alex dissera, com um ar sonhador, que gostaria muito de
ir  Europa.
- Creio que isso se pode arranjar - respondeu ele, meigo, calmo e compreensivo.
Tinham acabado de fazer amor, e ele estava deitado a seu lado, quase a dormir. Alex sorriu e
acariciou-lhe o cabelo. s vezes, ele parecia-lhe um rapaz, uma criana grande crescida, to
inocente e confiante, que o amava ainda mais por isso.
No dia de Ano Novo, regressaram a Nova Iorque.
A viagem foi longa e eles passaram primeiro por casa para
356
deixarem os esquis e as malas. Depois, Alex foi buscar Annabelle ao Carlyle, ainda com o fato de
esquiar. Telefonou a Sam da recepo, e ele pediu-lhe que subisse s por um minuto. Ela hesitou e
depois concluiu que no havia problema. Ele pedira o divrcio durante a sua ausncia. Entendera o
que ela queria.
Quando subiu e ele veio abrir-lhe a porta, ficou admirada. Ele tinha um ar assombrado.
Ao v-lo, recordou-se de tudo outra vez e da agonia que ele enfrentava. De repente, sofreu por ele e
odiou o facto de ele ir para a priso. De certo modo, ao rev-lo, revivia todas as emoes que
evitara at ento.
Annabelle continuava a no se aperceber da tenso do pai e disse que passara uns dias ptimos com
o seu pap.
- Ainda bem, querida.
Alex beijou-a e abraou-a com fora, enquanto Sam a olhava, melanclico, debruada sobre a filha.
s vezes, ainda se sentia atormentada pelo que ele lhe dissera da ltima vez que se tinham
encontrado. E desta vez no era diferente.
- Senti a tua falta - insistiu ele em voz baixa, enquanto Annabelle fazia a sua mala no quarto ao lado.
Sam no queria que a filha o ouvisse.
- Mas no devias ter sentido - respondeu Alex tranquilamente; depois, agradeceu-lhe por ter pedido
o divrcio. Sabia que ele o fizera por sua causa e estava-lhe grata por isso.
- Pelo menos, devo-te isso - afirmou ele, desolado, procurando no olhar dela qualquer coisa que
parecia no estar l, e, se estava, ela recusava-se a revel-la. - Devo-te muitas coisas, a maioria das
quais nunca te conseguirei pagar.
-J fizeste o suficiente - retorquiu ela, e no estava a ser desagradvel. Tinham partilhado muitas
horas felizes e, sobretudo naquele momento, Alex estava-lhe profundamente grata pela filha. - Tu
no me deves nada.
- Mesmo que eu ficasse contigo para o resto da vida, no te compensaria do que fiz.
S conseguia pensar naquilo agora, obcecado por no a ter apoiado. Agora tinha muito tempo para
pensar.
- No sejas parvo, Sam - disse ela, tentando aliviar o
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momento. - Deixa de pensar nisso. Acabou. Tens de continuar a viver. Temos ambos.
- Temos? - perguntou ele, encaminhando-se lentamente para ela.
Annabelle continuava a fazer a mala dela no quarto, e Alex desejou que ela se apressasse. Poderia
ter ido ajud-la, mas no queria entrar no quarto de Sam. E, ao olhar para ele, viu que ele estava
junto dela, sem flego, e viu no olhar dele tudo o que dantes amara, toda a ternura, todo o amor e
toda a bondade que a tinham atrado. Era o mesmo homem e precisava tanto dela; ela, porm,
mudara. Agora tudo parecia diferente  sua volta. Ou no?
- Alex.
Sam pronunciou o seu nome com uma profunda melancolia; ela olhou para ele, no momento exacto
em que ele a puxou para si e a beijou ao de leve nos lbios, antes que ela pudesse det-lo. Alex
comeou a afastar-se, e ele puxava-a mais para si. De repente, ela foi incapaz de se lembrar por que
razo havia ele de parar e por que razo no queria ela que ele fizesse aquilo. Era como se nada
tivesse mudado, como se tivessem recuado no tempo e ela lhe pertencesse outra vez. E depois, de
repente, lembrou-se de Brock, e percebeu que j no pertencia a Sam e que no podia permitir que
aquilo acontecesse. Perguntou a si prpria porque subira outra vez, ou se desejava que aquilo
acontecesse. E sentiu-se culpada.
- No! - Foi a nca palavra que Alex pronunciou, quando ambos pararam e ela ficou sem flego.
Sentia-se entorpecida e, de sbito, muito assustada. No queria que ele a puxasse para si, no queria
fazer aquilo. - Sam, no posso.
Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas, e ele sentiu-se um
patife. Estava a aproveitar-se dela e sabia que no tinha esse direito. Restavam-lhe apenas uns dias e
depois afastar-se durante anos. Fora por isso que concordara em divorciar-se dela. Por isso e por mil
outras razes, que esqueceu no momento em que a beijou.
- Desculpa, Alex. No consigo pensar que vou ficar
longe de ti.
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Sentia-se quase to culpado como ela. Mostrava-se tambm incrivelmente suplicante. Parecia
vulnervel e receoso, apaixonado por ela e dolorosamente familiar.
- Tenta portar-te bem - aconselhou ela, com uma voz um pouco rouca e muito sensual. - Eu sei que
isso  difcil para ti, mas tenta, por favor. - Alex sorriu, pesarosa. Queria enfurecer-se, mas ele
excedera-se tanto e estava to necessitado que ela no conseguiu.
Sam fez um sinal afirmativo, embaraado; sorriu-lhe, no momento em que Annabelle saiu do quarto
com a sua malinha e o saco de presentes que Sam lhe oferecera no Natal. Ambos trocaram um olhar
sobre a cabea da filha, e Alex quis zangar-se com ele mas no conseguiu.
Sam foi lev-las l abaixo e acenou-lhes at perd-las de vista. Annabelle voltou-se para trs meia
dzia de vezes para lhe dizer adeus e afirmou-lhe que gostava muito dele; Alex, porm, fez questo
de no olhar para trs. Tinha medo do que veria se o fizesse. E no queria. Vulnervel ou no, ele
tocara numa parte dela que Alex julgava j no existir, mas sabia agora que existia. Imaginara que
essa parte morrera, e estava agora aterrada ao ver que tal no acontecera. No podia deixar- se
arrastar. No podia amar os dois. Agora no podia dar-se ao luxo de amar Sam. Ela e Brock tinham
um futuro  sua frente. E a nica coisa que sabia quando voltava para casa a p  que teria de
afastar-se de Sam para sempre.
Quando chegou a casa, Brock estava l  sua espera. Alex atirou-se-lhe ao pescoo e abraou-o com
fora enquanto ele a beijava.
- O que quer isto dizer? - perguntou ele, satisfeito com o fervor dos beijos dela. Vermont fizera bem
a ambos. Estavam mesmo a precisar daquilo.
Naquela noite, fizeram os dois o jantar; depois, Alex foi ajudar Annabelle a desfazer a mala e os
embrulhos, enquanto ele punha um disco e arrumava a cozinha. Horas depois, quando Annabelle j
estava na cama e Brock estava a tomar duche, Sam telefonou.
Alex estava sentada no escritrio, a pensar nele e, ao ouvir a sua voz, deu um salto. Era como se ele
tivesse escutado os pensamentos dela.
359
- S queria que soubesses que no estou arrependido de te ter beijado - disse ele. Alex teve vontade
de desligar o telefone. No sabia se havia de rir ou de chorar. Mas ela tambm o amara. O problema
era esse. - Mas quero saber uma coisa.
- O qu? - perguntou ela, sentindo-se culpada s por falar com ele. Era difcil acreditar que ele fora
seu marido. Mais parecia um amante ilcito.
- Quero saber se tu lamentas o que aconteceu. Se lamentas, se j no me amas, deixar-te-ei em paz,
sejam quais forem os meus sentimentos por ti.
De repente, ele pareceu-lhe confiante e mais forte, como se tivesse recuperado uma parte importante
de si prprio ao beij-la.
- Eu no te amo - respondeu ela sem convico, e ele riu-se. Parecia o jovem de antigamente; Alex
sentiu um alvoroo que lhe era familiar.
- Ests a mentir - retorquiu Sam, que parecia sorrir.
- Estou a falar a srio - garantiu ela, sentindo-se mais culpada do que nunca perante Brock; Sam,
porm, no se deixou intimidar.
- No lamentas nem por um minuto o que aconteceu. Tu correspondeste.
Sam parecia um mido outra vez e estava a rir-se, e Alex no pde deixar de sorrir ao responder.
- Vai passear. - Depois, moderou a voz. - No preciso de complicaes dessas na minha vida, Sam.
Quero que as coisas continuem a ser simples.
- As coisas sero muito simples para ti daqui a umas semanas, quando eu estiver na priso - lembrou
ele, pressionando-a. - Quero ver- te.
- Viste-me h to pouco tempo - replicou ela, com
firmeza.
Com mais firmeza do que sentia. ao ouvi-lo outra vez, qualquer coisa lhe disse que ainda o amava,
mas estava demasiado assustada para permitir que isso acontecesse.
- Tu sabes o que eu quero dizer - insistiu ele. Vamos jantar juntos.
- No quero.
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- Por favor.
Ele pareceu-lhe to suplicante que Alex teve vontade de gritar.
- Acaba com isso!
- Alex, por favor.
Sam suplicava-lhe e enlouquecia-a a ela. Imperturbvel, recusou-se a v-lo e pouco depois
desligou-lhe o telefone. Brock saiu do duche. Nem se apercebera de que algum lhe telefonara.
Alex ainda se sentia embaraada no dia seguinte, quando Sam voltou a telefonar-lhe para o
escritrio. No queria falar com ele mas, depois de dezoito anos, sentia que lhe devia qualquer
coisa.
- O que queres de mim? - perguntou ela, exasperada.
- Um sero, mais nada, e depois no te incomodarei mais - prometeu ele.
Alex suspirou.
- Porqu? O que  que isso interessa agora?
- Para mim, significaria muito - respondeu ele tranquilamente.
Por fim, Alex aceitou encontrar-se com ele. S uma vez. No disse nada a Brock e sentiu-se muito
mal por estar a ocultar-lhe a verdade. F-lo numa noite em que sabia que Brock estava ocupado com
uns clientes, e deixou Annabelle com Carmen.
- Saste s escondidas? - perguntou Sam, arreliador, quando se encontraram.
- No sejas vaidoso - disparou ela, com um ar de censura. Sentia-se mal naquela situao e Sam
apercebia-se disso.
- Desculpa.
Foram a um pequeno restaurante na zona leste e pediram massa e vinho; durante alguns momentos,
foi como se o tempo tivesse recuado. Alex lembrou-se dos velhos tempos em que namoravam e se
tinham apaixonado; agora, tudo era diferente para ambos. Isto era o fim, no o princpio. E eles
sabiam. Sam estava mais calmo do que nas ltimas vezes em que ela o vira e dolorosamente
consciente de que ia para a priso.
Em seguida, regressaram ao centro, a p, devagarinho,
361
recordando coisas, falando de pessoas e de locais onde tinham estado. Desenterraram recordaes
em que nenhum deles pensara durante anos. E, depois, pararam numa esquina por causa de um sinal
vermelho e ele puxou- a para si e beijou-a. Estava frio e, quando ele a agarrou, Alex detestou-se por
ter correspondido.
Alex no disse nada e andaram mais um pouco. Ento, ele puxou-a docemente para um portal e
beijou-a outra vez.
- Nunca pude esperar que fizesses isto, h um ano - lembrou ela, bruscamente, com um ar triste.
E acertou em cheio. Sam sentiu-se muito mal ao ouvir aquelas palavras.
- Fui to estpido, Alex - declarou ele, beijando-a de novo. Em seguida, abraou-a e ela no
ofereceu resistncia. Lembrou-se de como se sentira s, sem ele, e como precisara dele, e como o
amara. E como ele a magoara. Nessa altura, convencera-se de que nunca mais se recomporia. E, no
entanto, as coisas pareciam agora to diferentes. Era tudo to distante, e estar com ele parecia muito
mais real e importante. Alex perguntou a si prpria se o perdo era apenas uma questo de
esquecimento.
- Aprendi muitas lies neste ltimo ano - insistiu ela, pensativa, aninhada nos braos dele.
- Por exemplo?
- No depender de ningum, no viver nem sobreviver por ningum, mas apenas por mim prpria.
Por fim, sobrevivi apenas por uma questo de coragem, porque me recusei a morrer. Foi uma lio
importante. Talvez precises de te lembrar dela na priso.
- No consigo imaginar - respondeu ele, tranquilamente. Depois, olhou para ela e sorriu-lhe com
afecto. Obrigado por isto, por me deixares abraar-te. E beijar-te. Podias ter-me dado com um
sapato na cabea, ou chamado a Polcia. Estou contente por no o teres feito.
- Tambm eu - respondeu Alex tristemente. Depois
parou, resistindo  ideia dele. - Vou sentir a tua falta.
- No devias sentir. Ters a Annabelle e o menino-prodgio ao teu lado - acrescentou ele, com
sarcasmo Ela riu-se e retomaram o caminho para casa.
362
- Ele  formidvel para a Annabelle - declarou ela, referindo-se a Brock.
- Ainda bem. Ele  bom para ti?
- Muito.
Ento, fico feliz.
Contudo, no ficara, e ambos tinham conscincia disso.
Mais do que tudo, apesar de ele saber que aquilo no conduziria a lado nenhum, queria que ela
soubesse que ele ainda a amava muito.
- Toma cuidado contigo - aconselhou ela, quando viraram para a Rua Setenta e Seis, na direco do
Carlyle.
Alex vivia apenas a meio quarteiro de distncia e estava decidida a ir a p para casa, sozinha, mas
ele no deixou.
- Podes saber para que priso irei?
- Vou tentar. No fao ideia para onde me mandaro.
Talvez para Leavenworth, visto que esto em causa acusaes estaduais e federais. Espero que pelo
menos seja um local civilizado.
- Talvez o Phillip faa um milagre, como conseguir um
acordo de ltima hora.
No entanto, Phillip no tinha esperana de conseguir tal
coisa para Sam. Teria de ir para a priso, embora esperasse
que no fosse por demasiado tempo. E, depois dos primeiros meses, ou anos, talvez fosse
transferido para uma das
prises de luxo.
Quando passaram pelo Carlyle, ele tentou convenc-la a
subir; Alex recusou-se peremptoriamente. Conhecia-o o suficiente para no confiar nele, ou em si
prpria. E quando se aproximou do seu prdio, deu-lhe um beijo na face e agradeceu-lhe o
simptico sero. Subiu a escada, calma e pensativa. Tinha muito em que pensar, muitos sentimentos
para
analisar.
Brock no lhe perguntou onde estivera na noite anterior;
porm, criou-se um ambiente estranho entre eles, na manh
seguinte, quando estavam no escritrio. Era como se ele
soubesse mas se recusasse a perguntar-lhe. Por fim, ao almoo, Brock no conseguiu calar-se por
mais tempo.
- Foste sair com ele ontem  noite, no foste?
- Com quem? - perguntou ela, estupidamente, sentindo o corao a bater com fora e odiando-se por
mentir, enquanto comia uma sanduche.
363
- Com o teu marido - respondeu ele com frieza. Ele sabia. Tinha uma boa intuio.
- Com o Sam? - Alex fez uma pausa, preparada para mentir, e depois resolveu no o fazer.
Devia a Brock mais do que isso e sabia-o. Todavia, o cime dele assustava-a. O mesmo acontecia
com os seus prprios sentimentos. O pior  que ela amava ambos e tinha conscincia disso. Devia a
Sam os anos passados e a Brock o ltimo ano. Mas o que devia a si prpria? Essa era a pergunta 
qual no conseguia responder.
- Ele quis jantar comigo para falar da Annabelle. Julguei que no te importavas - comunicou ela,
mentindo-lhe de novo, mas ele percebeu.
Alex sentia-se to constrangida e to confusa. Apeteceu-lhe odiar Sam por isso, mas no conseguiu.
- Porque no me disseste? - perguntou Brock, com um ar preocupado e infeliz.
- Porque tive medo de que te zangasses, e eu queria v-lo - respondeu ela, com sinceridade. Era
difcil dizer-lhe a verdade, mas sabia que tinha de faz-lo.
- Porque querias v-lo?
- Porque ele se vai embora por muito tempo e eu tenho pena dele e, tal como dizes, ele  meu
marido.
Alex sentia-se triste e confusa. E o seu olhar falava por si.
- Ele beijou-te?
Brock no era parvo. E o cime irrompeu impetuosamente.
- Brock, acaba com isso.
Alex tentou evit-lo mas ele no deixou.
- No respondeste  minha pergunta. - Ele estava a pression-la, desafiando-a a responder.
Finalmente, ela respondeu, com remorsos, mas tambm furiosa.
- Mas que diferena faz?
- Para mim faz. - Alex perguntou a si prpria se ele os teria seguido; no entanto, no acreditava que
ele fosse capaz de fazer uma coisa dessas.
- Est bem, beijei-o. E depois? Foi tudo o que aconteceu.
364
- Esse tipo  um verdadeiro filho da me - vociferou
ele, andando de um lado para o outro no gabinete dela. Vai para a cadeia e quer enrolar-te outra vez.
O que  que
ele quer? Que esperes vinte anos por ele? Que agradvel para
ti. Que boa pea que ele , ou no te apercebes disso? Ele  um autntico egosta.
- Est bem, ganhaste, ele  egosta. Mas tambm  humano e est assustado e,  sua maneira, ama-
me.
- E tu ama-lo?
- Eu estive casada com ele durante dezoito anos, o que
tem a sua importncia. Tenho-lhe amizade, quanto mais no
seja. Creio que ele s quer fazer as pazes antes de se ir embora, curar velhas feridas e pr os seus
assuntos em ordem.
Sabe que se vai embora. No est a tentar levar-me com ele.
Pediu o divrcio, no  verdade?
- E se ele no for?
Brock virou-se de sbito para Alex, que ficou admirada.
- Ele no vai livrar-se, Brock. No tem hipteses. E tu
bem sabes.
- E, se tiver, continuarias casada com ele? Voltarias
atrs?
Era uma pergunta difcil, e Alex no quis responder.
Tanto por ela como por ele. No havia hiptese de Sam no
ir para a priso. Ela sabia-o e ele tambm. Phillip Smith tirara-lhe as iluses. Mas a questo no era
saber se Sam iria ou no para a priso. A questo no era assim to simples.
- No tem nada a ver com isso. Se eu o amasse verdadeiramente, ficaria com ele, quer ele fosse ou
no para a priso. Mas eu estou contigo, Brock. Isso deve ter algum significado.
- E tem! Mas, quando ele se for embora, escrever-te- e
pedir que o vs visitar. Tu ainda ests apaixonada por ele, Alex. Porque no enfrentas a verdade?
Ele estava a ser duro com ela, e Alex sentia-se furiosa.
Ele queria tudo ao mesmo tempo, e a vida no era assim.
Ela sabia melhor do que ele.
-As velhas feridas levam tempo a cicatrizar, Brock.
-        Isso no acontece de um momento para o outro. Tem pacincia.
365
- Porque no admites o que sentes? Estou convencido de que vais voltar para ele.
- Porque no cresces, Brock, e no deixas de me pressionar?
- Porque te amo.
De repente, os olhos dele encheram-se de lgrimas. Amava-a e desejava-a, mas no valia a pena
negar que el ainda amava Sam. Ela amava-o e ele tinha conscincia disso. S no sabia o que ela
queria fazer, apesar de todos os seus desmentidos.
Ento, Alex agarrou-se a ele e ambos desataram a chorar. As coisas nunca eram simples. Ela queria
explicar a Brock que precisava de tempo para pr luto por Sam e, para mu dar de assunto, comeou
a falar da irm dele. Assim que o fez, ele pareceu crispado. Alex perguntou-lhe porqu; ao princpio,
ele no lhe disse nada. Por fim, percebeu que era obrigado a isso. H muito tempo que tencionava
falar-lhe no assunto, mas conclura que era prefervel no o fazer, para bem dela. A situao fora
particularmente difcil para ele quando Alex falara em casamento e afirmara que queria con vidar a
irm dele.
- A minha irm morreu, Alex - afirmou ele tristemente. - Morreu h dez anos. Ela teve precisamente
o mesmo que tu. Fez uma mastectomia e quimioterapia, e no conseguiu aguent-la. Foi demasiado
duro para ela, e ela resolveu interromper a quimioterapia e morrer. Na verdade, o cancro j se
espalhara antes de lhe tirarem o seio. Mas ela desistiu. Brock desatou a chorar ao lembrar- se disso.
Alex olhou para ele, espantada, sem dizer uma palavra. Ele nunca lhe contara aquilo. Levara-a a
acreditar que a irm conseguira curar-se para ela continuar o tratamento. - Ela desistiu, pura e sim
plesmente. No fez a quimioterapia. Levou um ano a morrer. Eu tinha vinte e um anos e tomei conta
dela durant um ano. Quis obrig-la a viver, mas ela estava demasiado doente. E o marido foi um
autntico malandro, tal como Sam. - Brock olhou para ela. - Nunca fez nada por ela at ela morrer, e
voltou a casar seis meses depois. Ela tinha trinta e dois anos e era to bonita.
Brock manteve-se calado durante muito tempo. Alex agarrou-se a ele e chorou pelos dois.
366
- Oh, meu Deus, tenho tanta pena. Porque no me disseste?
Alex sentia-se terrivelmente mal. Ele incutira-lhe tanta esperana, e agora  que ela se apercebia de
tudo o que ele devia ter sofrido com a irm.
- Eu no queria que tu desistisses - explicou Brock, limpando as lgrimas, lembrando-se da irm e
amando Alex mais do que nunca. De certo modo, o seu amor por Alex fora como uma segunda
oportunidade de salvar a irm. E em certos aspectos Alex era muito parecida com ela.
- Era por isso que eu insistia para que fizesses a quimioterapia. No queria que te acontecesse o
mesmo. Tambm no queria que soubesses que ela tinha morrido, nem pensar que desistirias, como
ela fez.
- Devias ter-me dito. - Brock no respondeu. Ficou entregue s suas recordaes, enquanto Alex o
observava. Eu devia ter percebido.
Alex recriminou-se, enquanto ele se assoava a um guardanapo de papel que ela lhe estendera.
Perguntou a si prpria que mais no lhe teria ele contado; porm, o facto de no lhe ter contado o
desfecho do caso da irm revelara bondade da sua parte.
- Estou to assustado - admitiu ele, quando estavam sentados no gabinete dela. - Tenho tanto medo
que voltes para ele. Ele ainda te ama. Eu percebi pela cara dele. No suporto v-lo contigo.
Ela sabia que ele tinha razo quanto ao facto de Sam a amar. E no podia alterar a situao.
Tambm sabia que amava Sam. Mas era demasiado tarde. Tudo acabara. E ele partiria dentro de
pouco tempo; depois, ela nunca mais seria obrigada a v-lo, ou a perguntar a si prpria o que sentia.
E restariam apenas recordaes, remorsos e desiluses. E as recordaes mais felizes antes de ela
adoecer. Mas essas eram as recordaes de que Brock tinha medo.
Retomaram o trabalho e, no dia seguinte, Alex teve de preparar-se para o aniversrio de Annabelle.
Sabia que Sam tambm apareceria e esperava que Brock no se enfurecesse. Por fim, ele resolvera
que seria mais fcil para todos se no estivesse presente. E Alex concordou, embora Annabelle
tivesse ficado desapontada.
367
- No sei que idade terei quando sair - lembrou Sam casualmente, enquanto comia o bolo de
aniversrio. Alex lamentou a sua falta de subtileza. s vezes, Sam no conseguia resistir a um certo
humor negro, mas desde o jantar a dois que parecia mais bem-disposto.
- Cem anos, espero, e que sejas suficientemente velho para no te lembrares que me conheceste -
respondeu Alex.
- No contes com isso. - Em seguida, Sam pousou o bolo e acrescentou: - Gostaria de jantar contigo
outra vez na prxima semana, antes da leitura da sentena, se for con veniente. H muitos
pormenores sobre a Annabelle que quero discutir contigo. Ainda tenho algum dinheiro de parte para
o sustento e para a educao dela.
Sam vendera o apartamento no ms anterior. Uma parte do dinheiro era para pagar aos advogados e
ele queria dar o resto a Alex, para a filha.
- Posso confiar em ti? - perguntou ela, e ele riu-se. O problema  que no podia confiar em si
prpria. O problema  que nenhum deles era digno de confiana e ela tinha conscincia disso. Ele
ainda era atraente aos olhos dela, mas Alex prometera a si prpria que nunca cederia aos desejos
dele. Agora, pertencia a Brock.
- Podes trazer um guarda- costas, se quiseres, mas no tragas o menino-prodgio.
- No o trates assim. Ele chama-se Brock. Sam podia ao menos ter-lhe respeito. Ele fora formidvel
para a sua filha.
- Desculpa. No percebi que eras to sensvel em relao a ele. - E, com um ar triste, tocou-lhe no
brao, to srio como ela, e perguntou: - Ele vai ser o padrasto de Annabelle?
- Creio que sim - respondeu Alex em voz baixa.
Amavam-se profundamente, embora a situao fosse um pouco tensa nos ltimos tempos, por causa
de Sam. No en tanto, Alex partia do princpio de que Sam se iria embora e que as coisas voltariam
ao normal. Ir-se embora. Alex detestava agora o som dessas palavras. Ir-se embora. Sam ir-se-ia
embora para sempre.
- Mas vens jantar comigo? - insistiu ele.
368
Alex fez um sinal afirmativo.
- Vou tentar.
- No tenho muito tempo, Alex, no brinques comigo.
Segunda-feira  noite, no Carlyle?
- Est bem. L estarei.
- Obrigada.
Dessa vez quando Alex disse a Brock, ele enfureceu-se.
- Oh, pelo amor de Deus! Eu podia mentir-te e no o
fiz.
-Porque  que ele tem de te ver?
- Porque quer dar-me dinheiro para a Annabelle.
 Era uma explicao perfeitamente razovel. - E ela acreditara.
- Diz-lhe que mande um cheque.
- No - respondeu ela, furiosa. Estava cansada dos
seus acessos de mau humor e de cime. Ele portara-se muito melhor quando ela vomitava no cho
do gabinete. - Pra
de reagir como uma criana de quatro anos e sai disso por ti prprio. Vou jantar com o meu ex-
marido.
Alex fechou a porta do quarto com fora e, quando volltou a sair, Brock sara. Voltara para casa e,
por uma vez, ela
no lamentou o que se passara. Ele andava a pression-la
continuamente.
Como combinado, na segunda-feira  noite, Alex foi ter
 suite de Sam no Hotel Carlyle; quando chegou, ele estava muito srio, de fato cinzento-escuro e
camisa branca e uma gravata Herms. Passara a tarde com os seus advogados, mas
no se cruzara com Alex na empresa.
- Como correu o dia? - perguntou por casualidade,
o       sentando-se no sof e reparando que ele tinha um ar muito
cansado. Ultimamente, envelhecera muito, o que era compreensvel. Estava sujeito a uma presso
enorme, devido ao
que estava prestes a acontecer.
- No correu muito bem - respondeu ele com simplicidade. - O Phillip acha que o juiz vai afastar-
me por bastante tempo, o que me leva a falar no motivo por que estamos aqui. - Sam tirou dois
cheques do bolso e p-los em
cima da mesa. - Recebi um milho e oitocentos mil pelo
apartamento, no ms passado. E, depois de pagar umas dvidas que Miss Daphne Belrose me deixou
e a comisso dos
369
agentes, ainda me restam um milho e quinhentos mil. Vou dar-te quinhentos mil agora, para a
Annabelle, e para qualquer coisa de que precises para ela. Quero que ponhas o dinheiro numa conta
em nome dela. Fico com quinhentos mil para mim, se voltar a sair da cadeia. E os outros quinhentos
mil so para ti, como forma de liquidao, se quiseres chamar-lhe assim. Mereces mais do que isso,
mas  tudo o que me resta. A empresa no deixou nada seno dvidas e responsabilidades pelo
dinheiro que eles desviaram.
- Meu Deus! - Alex parecia petrificada. - Eu no quero dinheiro teu, Sam.
Ficara verdadeiramente admirada.
- Tu mereces.
- Porqu? Por ser casada contigo? Com os diabos, ento devia receber muito mais do que isso -
gracejou ela, e ele riu-se. - No importa. Eu no receberei isto de ti. Guarda-o ou d-o  Annabelle.
Ele no concordou com nenhum dos planos. Quis que ela o recebesse. Mas Alex j sabia que o
depositaria numa conta em nome dele, visto que ele iria precisar do dinheiro muito mais do que ela.
Ela tinha o seu emprego, e as suas necessidades no eram muito dispendiosas.
Em seguida, Sam mandou vir o jantar. Bife para ele e peixe para Alex. Ela tinha cuidado com a
dieta. E conversaram naturalmente sobre vrias coisas, como velhos amigos, evitando os assuntos
do tribunal ou das prises. Alex estava satisfeita por ter vindo. O sero foi muito civilizado. Ele
acalmara-se consideravelmente nos ltimos quinze dias, no a pressionou e no lhe tocou seno
quando ela vestiu o casaco. Ento, com muito cuidado, inclinou-se e beijou-a.
- Boa noite. Obrigado por teres vindo. - disse ele; e beijou-a de novo.
Alex no se mexeu. Surpreendia-se sempre com a sua prpria incapacidade de lhe resistir. Havia
qualquer coisa na familiaridade dele que era hipntica. Era como se, mesmo depois daquele tempo
todo, ela se sentisse obrigada a estar com ele.
-  melhor pararmos com isto agora - aconselhou ela
em voz baixa; depois, admirada consigo prpria, ps-lhe
370
os braos  volta do pescoo e beijou-o, apenas em nome dos velhos tempos, como disse a si
prpria. Aquilo no tinha qualquer significado excepto para eles. E para Brock Stevens.
- Para qu parar agora? - segredou ele, e Alex riu-se, no momento em que ele a beijou outra vez.
- Estou a tentar lembrar-me - respondeu ela, sentindo-se culpada, mas gostando da situao. Alm
disso, era muito estranho que se sentisse culpada pelo que fazia com ele. Afinal, ele ainda era seu
marido. Brock fizera tanto barulho por causa dele. E no estava certo que se beijassem. Ela
mantinha uma relao com Brock e ia divorciar-se de Sam.
- Amo-te - sussurrou ele.
De sbito, Alex recuou, como se sentisse que no podia ir mais longe. No queria que ningum se
magoasse, nem que Sam a ferisse outra vez. Contudo, ao ver a expresso dela, Sam puxou-a para si
e sentiu-lhe o corao a pulsar junto do seu. E, dessa vez, quando a beijou, no foi suave. Foi
veemente. Da a dois dias, estaria ausente durante dcadas e nunca mais a abraaria, e ambos
tinham conscincia disso. Devagarinho, desabotoou-lhe o casaco e atirou-o para cima de uma
cadeira, enquanto Alex pensava em resistir-lhe. Depois, com o mesmo cuidado, passou-lhe a mo
pelo lado direito, sentindo o peito familiar que amamentara a sua filha. Teve o cuidado de no lhe
tocar no esquerdo; em seguida, as suas mos pousaram nele. Ficou admirado e ela sorriu-lhe,
divertida por ele parecer surpreendido com o implante.
- Cresceu outra vez - disse ela com malcia. Sam ficou embaraado. Era de um realismo
surpreendente e Sam perguntou a si prprio quando  que Alex fizera aquilo.
- Porque no me disseste? - perguntou ele, em tom de reprovao, e depois beijou-a outra vez.
- No tinhas nada com isso - retorquiu ela, em voz baixa, excitada mas contrafeita.
E ele desejou-a desesperadamente, no s pelos velhos tempos como pelo presente.
371
Lenta e deliberadamente, desabotoaram a roupa um do outro; Alex sentiu-se assustada. A atraco
que sentiam um pelo outro era irresistvel e inexorvel, e no podiam fazer frente aos seus
sentimentos.
- s linda.
Sam afastou-se e olhou para ela. Devagarinho, desabotoou-lhe a blusa e a saia, e ela deixou-as cair
no cho. De certo modo, sabia que estava a cometer uma loucura. Mas ele ia-se embora por muito
tempo, e ela amava-o. Era uma maneira de se despedir dele, de o deixar partir, de lhe dizer como o
amara em tempos, mas sabia que nunca teriam futuro. Aquilo era tudo o que possuam naquele
momento.
- Amo-te, Sam - disse ela com simplicidade.
- Tambm te amo. Tanto, tanto.
Sam estava muito excitado e mal conseguia falar. Desejava-a uma ltima vez e depois prometia a si
prprio que se afastaria dela para sempre. J fizera o suficiente. No tinha o direito de arruinar a
vida dela. Queria apenas aquela ltima ddiva, e era bvio quando se beijaram que, apesar de todas
as reticncias, ela tambm desejava aquela situao tanto como ele. Quando se agarrou ao marido,
Alex no pensou em nada seno no amor que sempre sentira por ele.
Fizeram amor tranquilamente e houve uma certa paz e uma certa beleza nisso. Era algo que ambos
desejavam h muito tempo e que no se tinham atrevido a reconhecer. Houve paixo, bem-estar e
perdo. Abraados, era como se pertencessem um ao outro. Depois, ficaram ali deitados, sabendo
que aquilo nunca mais voltaria a acontecer, mas que fora algo que recordariam por muito tempo.
- Amei-te tanto - afirmou ela, ao olhar para ele.
- Tambm eu - replicou ele, com lgrimas nos olhos,
mas a sorrir. - Ainda te amo. Amar-te-ei sempre. No porque vou para a priso, mas porque sou
estpido e aprendi as minhas lies demasiado tarde. S mais esperta do que eu, Allie. No
estragues a tua vida.
- Tu no a estragaste - disse ela ternamente.
- Como podes dizer uma coisa dessas neste momento? -
perguntou ele, baixinho. - Olha para onde vou depois de amanh. Que estpido eu fui.
372
Sam estava deitado de costas, a pensar naquilo tudo, e desejoso de poder voltar atrs. Depois, Alex
inclinou-se sobre ele e beijou-o. Ele olhou-a nos olhos e viu neles toda a ternura do mundo. Brock
Stevens era um homem de sorte. E Sam sabia que ele prprio j no a merecia. Esperava que as
coisas corressem bem para Alex. O rapaz era novo de mais. Talvez aprendesse. Talvez fosse mais
esperto do que Sam.
Alex queria passar a noite com ele, mas no se atrevia. Se Annabelle acordasse, ficaria preocupada,
e se Brock telefonasse, ficaria louco. Sabia que ela sara com Sam e ficara desesperado.
- Tenho de ir para casa - disse ela tristemente, detestando deix-lo.
-  estpido, no ? Estamos casados e no podemos passar a noite juntos.
Era tudo to irnico. Depois, ele, olhou para ela, muito srio. Havia mais uma coisa que queria
dizer-lhe.
- Quero que saibas que eu gostava de ter sido de outra maneira. Quando tu adoeceste, quero eu
dizer. Fiquei muito assustado. No conseguia dar ouvidos a nada. Agora,  demasiado tarde para
mudar seja o que for. Se pudesse voltar atrs, Alex, eu estariajunto de ti. No creio que fosse muito
bom nisso, pelo menos no to bom como foi o teu amigo. Mas nunca me perdoarei por no ter
estado contigo. Aprendi uma terrvel lio.
Ele perdera a mulher por causa disso e correra atrs de uma estrela- cadente chamada Daphne, s
porque tivera medo e fugira da sua me.
- Eu sei como estavas assustado - lembrou ela, perdoando-lhe o sofrimento que ele lhe causara.
Parecia-lhe que Sam aprendera alguma coisa com isso.
- Nem imaginas como eu estava assustado. Parecia louco. Nem conseguia olhar para ti. S via a
minha me. Fui um estpido - confessou ele, abraando-a, enquanto Alex tentava esquecer.
- Eu sei - respondeu ela ternamente. - Por vezes, as coisas correm de uma forma estranha - declarou
ela, com serenidade, pronta a aceitar o presente, mais do que o passado.
373
Sabia que ele estava arrependido. No valia a pena atorment-lo com o que acontecera, embora
Brock tivesse ficado enraivecido por ela lhe perdoar. Teria ficado enraivecido por muitas coisas.
Mas aquela noite no lhe pertencia, pertencia a Alex e a Sam, e era muito preciosa.
Em seguida, Sam foi com ela a p at casa. Foram devagarinho, abraados. Depois, ele beijou-a
outra vez. Ficaram assim durante muito tempo, junto da antiga casa dele, e Alex teve vontade de lhe
pedir para subir, mas no podia faz-lo. No podiam continuar agarrados ao passado. Tinham de
separar-se naquele momento. Pelo menos, deixariam um ao outro uma recordao afectuosa.
- Obrigada - sussurrou ela, beijando-o pela ltima vez. - At amanh.
Sam iria despedir-se de Annabelle, o que seria horrvel. Alex trouxera o cheque da filha mas deixara
o seu no Carlyle, em cima da mesa, e ele no reparara.
- Amo-te - disse ele pela ltima vez, dominado pela beleza dela e pelo amor que lhe dedicava.
Viu-a entrar e, ao regressar ao hotel, as lgrimas correram-lhe pela face, enquanto ele perguntava a
si prprio como pudera ter sido to estpido. Destrura toda a sua vida e agora no tinha nada. Nem
futuro, nem Alex. No sabia se valia a pena viver.
Sozinha na cama, Alex recordou o que representara fazer amor com ele. Fora tal e qual como nos
velhos tempos, pensou ela, sorrindo, mas ainda melhor. Tinham aprendido muito naquele ltimo
ano, sobre o amor e o perdo. S rezava para que ele estivesse em segurana, para onde quer que
fosse, e que encontrasse algo que desse sentido  sua vida. Agora, ela no estaria junto dele. Devia
demasiado a Brock. E, por muito que ainda amasse Sam, sabia que tinha de deix-lo. Contudo, iria
sentir tanto a sua falta!...

CAPTULO 23
Quando Sam veio despedir-se de Annabelle, o ambiente foi devastador. Sam saiu a soluar, e
Annabelle, Alex e Carmen ficaram a chorar. Sam s conseguira explicar  filha que trabalhara com
uns homens que tinham feito coisas ms e que ele no se apercebera do que eles andavam a fazer.
Eles tinham levado o dinheiro doutras pessoas, o que estava errado, e agora ele e os homens maus
tinham de ir para a priso para pagar pelo que tinham feito.
Poderia ter-lhe dito que ia fazer uma longa viagem. Mas no disse. Informou-a de que um dia ela
poderia ir v-lo, mas que o stio no era agradvel e que ele gostaria que ela fosse um pouco mais
velha. Recomendou-lhe que se portasse bem, que tomasse conta da mam e que se lembrasse
sempre, sempre, que ele gostava muito dela. Abraou-a com fora, enquanto todos choravam, mas
ningum mais do que Sam ou Alex. Annabelle ficou desorientada com o que estava a acontecer e
aborrecida por ele se ir embora e por os homens maus terem levado o dinheiro. Mas no imaginava
o que seriam vinte ou trinta anos. Ningum imaginava. Isso ultrapassava-os. Parecia a eternidade.
Alex acompanhou-o at ao elevador e agarrou-se a ele. Pedira a Brock para vir mais tarde, naquela
noite. E, pouco depois de Sam sair, Alex telefonou-lhe para o Carlyle.
- Ests bem?
Estava preocupada com ele. Aquilo era de mais para qualquer pessoa, sobretudo dado o seu nvel
menor de envolvimento. O maior pecado de Sam fora deixar que tudo acontecesse.
- Estou bem. Pensava que nunca a poderia deixar. Pensava que tambm nunca poderia deixar-te.
No entanto, deixara, e agora sabia que era igual  morte. Era como se j tivesse morrido. Agora no
tinha mais nada a perder.
- L estarei amanh - disse ela, desejando poder l estar naquela noite.
375
Porm, no lhe pareceu sensato faz-lo outra vez. Depois de uma noite juntos, tinham-se sentido
como se ainda estivessem casados e pertencessem um ao outro. E isso s iria complicar as coisas
para ambos. Ela tinha Brock, e Sam ia-se embora. No valia a pena arrastar a situao. Ainda se
sentia como se pertencesse a Sam, quando falava com ele ou estava ao p dele. E os antigos laos
tinham-se reconstitudo num s momento, e isso no era justo para ningum. S dificultaria a
situao quando ele partisse, no dia seguinte. E ele tambm tinha conscincia disso. No lhe pedira
para ir com ele. Fazer amor com ela outra vez recordara-lhe o amor que lhe tinha, e quis proteg-la.
E deix-la naquele momento seria ainda mais doloroso.
- Encontramo-nos no tribunal - comunicou ele, com um ar despreocupado, elegante at ao fim,
pensou Alex ao desligar o telefone.
Quando Brock chegou naquela noite, ainda estavam todos muito tristes, mesmo Carmen. Annabelle
chorara antes de adormecer, apesar dos esforos de Alex para a consolar. E Alex no tinha vontade
de jantar nem de conversar.
- Meu Deus, como ficarei satisfeito quando isto acabar - disse Brock, com azedume.
O tom dele desagradou a Alex. Era como se aguardassem uma execuo e aquilo pareceu-lhe
lgubre.
- Tambm eu. No creio que algum de ns goste disto, nem mesmo o Sam - respondeu Alex
bruscamente.
Porque no era ele mais compreensivo? No tinha nada a recear de Sam naquele momento.
- Ele  que criou esta confuso, no nos esqueamos disso - lembrou ele, lacnico.
- No creio que isso seja inteiramente verdade. No ests a exagerar?
- Ora, desiste, Alex. O tipo  um escroque, quer seja ou no teu marido.
Alex teve vontade de gritar ao ouvir aquilo. Brock estava to preocupado em perder Alex a favor de
Sam que s queria que ele fosse para a priso o mais depressa possvel. Para ele, seria a melhor
notcia do ano, e havia momentos em que ela o odiava por isso.
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Depois, discutiram durante tanto tempo que ele resolveu
no passar a noite com ela outra vez; antes disso, porm,
travaram outra discusso plo facto de ela acompanhar Sam
ao tribunal, na manh seguinte.
- Quero l estar quando eles lerem a sentena - explicou ela, como se ele fosse atrasado mental.
- Isso ser a mesma coisa que ir para a guilhotina com
outra pessoa? - disse ele, desagradvel, desarmando-a outra vez. Mas o fulcro da questo veio
pouco depois. - E se ele no for? E depois? Regressa  cena?
- Porque ests sempre a aborrecer-me com isso? Ests
obcecado com ele. Como queres que eu saiba o que iria
acontecer?
- Mas ests apaixonada por ele, no ests?
- Brock, acaba com isso! - gritou ela, j sem se preocupar em acordar Annabelle ou Carmen. - Eu
amo-te. Estiveste a meu lado quando mais ningum estava. Aturaste-me o ano passado. Sem ti, eu
teria morrido. Isso no te
chega? Tens de destruir todo o meu passado, s para provar que eu te amo? Ele  o pai da minha
filha.  o homem com quem casei. Magoou-me terrivelmente. Acabou. E agora ele
vai-se embora. No posso fazer melhor. No posso dizer-te
o que aconteceria se ele ficasse. Mas isso no interessa, porque ele no ficar.
- Eu posso dizer-te o que aconteceria se ele ficasse - replicou ele, abatido.
Alex abanou a cabea, desesperada. Era horrvel.
- ao tentares destru-lo, ests a destruir-nos. Pra, antes que ds cabo de ns, Brock, por favor... No
faas isso.
Depois, Alex desatou a chorar, por ele, por si prpria,
por Sam, por Annabelle, por todos eles, por todos os que tinham sofrido, at pela irm dele.
- Se ele ficar, voltarei para o Illinois.
Era a primeira vez que ela ouvia aquilo; de repente, percebeu como ele devia estar atormentado para
fazer planos
sem ela.
- Porqu?
- Porque no perteno a este stio. Tu pertences-lhe a
ele. Eu sei isso. Pormuito mau que ele tenha sido, ou por
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muito que te tenha ferido, ainda lhe pertences. Eu sinto isso nas minhas entranhas. - Brock chorava,
e Alex no podia negar que o que ele dizia era verdade. - Se ele for para a priso, ento tu ficars
sozinha. Ficars livre. Mas se ele no for, eu volto para casa, Alex. Acho que j estou pronto para
voltar, neste momento. Sa de l por causa da minha irm, mas tu ajudaste-me a curar essas feridas.
Sempre me senti responsvel pelo facto de ela ter desistido da quimioterapia. Sempre senti que a
devia ter obrigado. Sei agora que no podia ter alterado nada. Ela fez o que queria.
Brock parecia tranquilo e mais maduro do que nunca. Crescer era difcil. Era sempre muito
doloroso.
- Tu salvaste-me a vida, Brock - declarou Alex, sem
reservas.
- Ter-te-ias salvo de qualquer maneira, porque s esse tipo de mulher. No desistes.  por isso que
continuas a am-lo. Tu no desistes, pois no?
Havia mais verdade naquilo do que ela imaginava; no entanto, Brock fora decisivo na quimioterapia
e na sobrevivncia dela. Mantivera-a agarrada  vida.
- Acho que foste da maior importncia para mim - disse ela, reconhecendo-lhe o mrito que lhe
competia.
-  agradvel ouvir isso, mas nunca se sabe. - Depois, ele olhou para ela com um sorriso triste. -
Amar-te-ei sempre, bem sabes.
- Ests a falar como se fosses tu a ir-te embora, e no o Sam - reconheceu ela, com lgrimas nos
olhos.
Ele encolheu os ombros.
- Talvez eu devesse faz-lo - afirmou ele tristemente. Os ltimos trs meses tinham exigido muito
deles. Curiosamente, as coisas tinham corrido melhor enquanto ele a ajudara a suportar a
quimioterapia.
- No o faas, Brock. Ele agora no tem hiptese de sair.
Alex tentava acalm-lo, mas isso entristecia-a ainda mais.
- Mesmo que ele se v embora, tu am-lo-s sempre.
- Isso  verdade - admitiu ela. - Mas ele  o passado e tu s o futuro. Tens de decidir se s capaz de
enfrentar isso. Se consegues viver com isso sabendo que eu o amei.
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Brock fez um sinal afirmativo mas no respondeu. Quando saiu do apartamento, teve a estranha
sensao de que no voltaria, de que nunca seria capaz de aceitar a relao que ela tinha com Sam e
o facto de ela o ter amado. Queria que ela o odiasse, mas ela no o odiava. Queria que ela no
tivesse tido uma histria com ningum, no tivesse laos com o homem pelo qual ainda se
interessava to profundamente. Mas a vida nunca era assim to simples. Nada era fcil. Havia
sempre as combinaes dificeis, as escolhas difceis. Para ela, no havia agora alternativas. Sam ia-
se embora. E Brock crescia ou no crescia. Ou viveria com o seu passado ou teria de deix-la. No
entanto, Alex sentia que, a longo prazo, os dez anos que os separavam constituiriam um abismo
intransponvel e que Brock tambm o sabia. Parecia pronto a ir-se embora, naquele momento. De
certo modo, tinham-se curado um ao outro, e talvez o tempo passado em conjunto tivesse acabado.
Pensar nisso era triste; Alex, porm, aprendera muito a respeito de aceitao no ano anterior. E sabia
que, se fosse obrigada a isso, conseguiria ficar sozinha naquele momento. Mas era estranho
aperceber-se de que estava prestes a perder os dois homens da sua vida. Talvez tivesse chegado a
sua altura de ficar s.
Naquela noite, quando estava na cama, pensou em Brock e em tudo o que ele fizera por ela, mas foi
Sam que a obcecou constantemente at chegar a manh. Sam, que precisava agora dos seus
pensamentos e da sua fora. Sam, que parecia tecido na sua prpria alma, que parecia fazer parte
dela para sempre. , ao aperceber-se disso, Alex sentiu-se tranquila, por muito estranho que isso lhe
parecesse. No valia a pena lutar contra essa realidade: ele tornara-se parte dela h muito tempo, e
ela nunca se apercebera.
Levantou-se s seis horas, e s sete estava de fato preto. No disse a Annabelle onde ia, mas
Carmen sabia. E Alex no se riu durante o pequeno-almoo e saiu cedo, para j estar no tribunal
quando Sam l chegasse. Queria l estar por ele.
A sala de audincias j se encontrava cheia quando ela entrou; no quis sobrecarregar a mesa dos
advogados, embora o pudesse ter feito. Havia um grande burburinho, porque
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Simon Barrymore fugira do pas na noite anterior, escapando  cauo, e o juiz estava muito
irritado. Logo que o assunto foi tratado, sendo emitido um mandado de captura para Simon, o juiz
estava preparado para tratar dos outros casos.
Mais uma vez, Larry e Tom foram os primeiros. E cada um foi condenado a dez anos de priso e a
uma multa de um milho de dlares. Ouviu-se um murmrio na sala de au dincias; como de
costume, os reprteres excederam-se e tiveram de ser repreendidos.
O juiz bateu freneticamente com o martelo na mesa e depois pediu a Sam que se levantasse. Sam
estava muito srio e muito calmo e houve grande agitao na sala. Sempre se reconhecera que o
caso de Sam era diferente dos outros. Ele mantivera at ao fim que no soubera o que os outros
andavam a fazer e que, devido s circunstncias extenuantes da doena da mulher, fora levado
temporariamente a prestar pouca ateno s actividades dos seus scios. O jri tambm reconhecera
sse mrito e por isso o tinham ilibado da acusao de peculato; porm, as acusaes de burla
tinham-se mantido e ele fora declarado culpado.
O juiz olhou para ele durante um certo tempo, com uma expresso carregada. Depois, com uma voz
arrastada e decidida, leu a sentena de Sam:
- Samuel Livingston Parker, condeno-o a uma multa, paga com os seus fundos pessoais, de
quinhentos mil dlares, e a dez anos de priso.
A multido vociferou e todos os fotgrafos presentes se precipitaram para ele, enquanto o juiz
gritava e continuava a agitar o seu martelo. Sam fechou os olhos, mas s por um segundo, e Alex
sentiu-se de repente to enjoada como se estivesse a fazer quimioterapia.
- Dez anos de priso. - repetiu o juiz, olhando fixamente para a multido e depois para Sam,
exigindo silncio. Com pena reduzida a partir desta data para dez anos de pena suspensa e liberdade
condicional. Alm disso, o tribunal recomenda-lhe que mude de actividade, Mister Parker. V
apanhar ces vadios, se quiser, mas afaste-se dos capitais de risco e de Wall Street.
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Sam ficou de p, a olhar para o juiz, como toda a gente que se encontrava na sala. Por instantes,
reinou o silncio. Dez anos de pena suspensa e liberdade condicional. Ele estava livre. Alex no
podia acreditar.
Depois, foi o pandemnio na sala de audincias. Os advogados cumprimentavam-se todos uns aos
outros, enquanto Larry e Tom eram levados para o exterior da sala; Sam estava petrificado. A sesso
foi suspensa e os fotgrafos de todos os jornais do pas tiraram a sua fotografia. Nos vinte minutos
que se seguiram, Alex no conseguiu aproximar-se de Sam e ficou a olhar para ele, estupefacta.
Phillip Smith fizera um trabalho incrvel, mas o mesmo se podia dizer do juiz, e fora a prpria
comisso que recomendara a suspenso condicional da pena. Tinham concludo que Sam era um
idiota, mas no um criminoso, e que de nada serviria mand-lo para a priso. E, ao pensar nisso,
Alex lembrou- se do cheque de quinhentos mil dlares que se recusara a aceitar dois dias antes.
Esse dinheiro iria ser muito til a Sam.
Esperou que ele sasse para o corredor para se lhe dirigir. Felicitou Phillip Smith e o resto da equipa
e depois, de repente, deu consigo a olhar para Sam, e ele sorria-lhe timidamente.
- Isto  uma surpresa, no ? - perguntou ele, ainda com um ar atordoado.
- Eu ia caindo quando ele disse aquilo - admitiu Alex. Julguei que te irias embora para sempre.
Alex sorriu, ele deu uma gargalhada, sentindo-se de novo outra pessoa, como quando ela acabara a
quimioterapia.
- Pobre Annabelle. Fizemo-la passar por tudo isto para nada. Vamos busc-la  escola - disse Sam.
Depois olhou para Alex com uma expresso estranha e sussurrou-lhe ao ouvido, quando a multido
se aquietou: - Vamos conversar para qualquer lado.
- E que tal o teu hotel? - murmurou ela. Sam concordou.
- Vou ter contigo daqui a meia hora - disse ele, saindo do tribunal atrs de Phillip Smith.
Alex pensou em telefonar a Brock, mas no sabia o que
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havia de lhe dizer. Ele previra a situao e todas as complicaes que se lhe seguiriam. Alex no
podia pensar em acalm-lo outra vez, e o pior  que no tinha a certeza do que sentia naquele
momento. Tinha esclarecido uma srie de coisas na noite anterior e desconfiava que Brock tambm
o fizera ao sair de casa. Nunca mais lhe telefonara.
De repente, Sam regressava  sua vida, sem avisar. Isso recordou-lhe o tempo que haviam passado
na cama juntos, apenas dois dias antes, e todas as recordaes que essa situao despertara neles. J
no sabia nada. Sabia que continuava a amar Sam. Mas confiava nele? Ele acompanh-la-ia se
aquilo acontecesse outra vez, ou abandon-la-ia? As promessas dele seriam verdadeiras, ou aquilo
era um pesadelo? E onde estava Brock no meio de tudo aquilo? O que lhe devia ela ou o que
pretendia ela dele? Contudo, a questo naquele momento no era Brock. Era Sam, com todos os
seus pontos fracos e fortes. A questo estava neles e no que eles fariam. Ambos sabiam que a vida
no oferecia garantias, apenas promessas, desejos e sonhos, e dores de cabea terrveis quando os
sonhos eram destrudos.
A cabea de Alex trabalhava sem parar quando ela apanhou um txi para o Carlyle. Quando l
chegou, encontrou-o  sua espera, a andar de um lado para o outro,  porta do hotel, como se no
pudesse esperar mais. O txi abrandou e o porteiro veio abrir-lhe a porta. Quando saiu, Sam olhou
para os olhos dela e ela soube que ele tinha razo. Amavam-se um ao outro. Era to simples como
isso.
Sam esquecera as regras por um certo perodo, mas ela nunca as esquecera. Para o melhor ou para o
pior. Tudo estava ali, apesar da dor e do sofrimento que ele lhe causara. Apeteceu-lhe dizer a Brock
que ele estava enganado. Apeteceu-lhe ser superior a isso, ser diferente, ou moderna, ou muito forte.
Mas no era. Era humana. Era leal. E continuava a gostar do marido.
- Ol, Sam - saudou ela ternamente, quando ele lhe pegou na mo e lha enfiou no brao para lev- la
para o hotel. Ainda estava a tremer e atordoado com o que se passara no tribunal. Sentia-se muito
modesto e incrivelmente afortu nado.
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- Podemos subir? - perguntou-lhe ele, delicadamente. Alex sorriu e fez um sinal afirmativo, no
momento em que passaram a porta giratria e desceram as escadas que davam para o trio.
- Est bem - respondeu ela, baixinho.
Iam recomear. Eram amigos, apesar de ele a ter magoado tanto. Alex no tinha a certeza se seriam
mais do que isso naquele momento. No se podia prever o futuro.
Foi ao lado dele no elevador, perguntando a si prpria o que aconteceria agora, como apanhariam
todos os pedaos e tentariam esquecer o que acontecera, o que diriam a Annabelle, ou o que ela
diria a Brock. Seria difcil dizer-lhe, mas ele j sabia. Estava a fazer as malas naquela manh.
Tinham-se despedido na noite anterior, embora nenhum deles o soubesse nesse momento.
E todas as preocupaes de Alex se desvaneceram quando saram no oitavo andar e Sam se virou
para ela. Tirou a chave do bolso e ficou com ela na mo durante um longo momento, a olhar para a
mulher. Alex sorriu. Havia tristeza no seu sorriso, e verdade, e conhecimento, e sabedoria. Tinham
ensinado tanta coisa um ao outro. Tantas lies difceis. E Brock tivera razo. Apesar de tudo, Sam
ainda era o marido dela.
Sam pegou na chave, rodou-a na fechadura e abriu a porta devagarinho. Pegou em Alex ao colo e
entrou. Olhou para ela com um ar interrogador, pois queria certificar-se se aquela tambm era a sua
vontade. Ela sorriu e fez um sinal afirmativo. Fora-lhes concedida uma segunda oportunidade. Era
tempo de agarr-la e recomear. E, quando ele a ps no cho, ela sorriu e fechou a porta devagar.

Fim
